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Presidente Sarkozy:____________

Presidente: Eu temo que o pessimismo que tomou conta de Copenhague até ontem à noite, ou ainda, até hoje, há poucas horas, pode se transformar no otimismo em Copenhague se os líderes tiverem a maturidade para compreender o objetivo da reunião que estamos propondo.

Vocês que acompanham essas conferências internacionais sabem como é que elas acontecem. Ou seja, os nossos técnicos discutem meses e anos e quando dá tudo certo os líderes se encontram e apenas aprovam. Mas quando não dá certo é preciso que as pessoas que foram eleitas democraticamente pelo povo de cada país assumam o ônus e o bônus das coisas que nós vamos fazer. Seria imperdoável para a humanidade que nós jogássemos fora Copenhague. Não importa o que aconteceu até agora. Nós queremos tirar proveito de tudo aquilo que já foi produzido de bom e queremos dar um grande sinal ao mundo de que nós seremos capazes de construir uma proposta que atenda aos interesses da humanidade, dentro da humanidade, que atenda aos interesses dos países mais pobres e que, proporcionalmente, cada país vá assumindo a responsabilidade que lhe é de direito.

Eu penso que Brasil e França já tinham mostrado essa preocupação no documento assinado pelo presidente Sarkozy e por mim em Paris, no mês passado. O Brasil já tinha tomado uma decisão voluntária e essa decisão voluntária ontem foi aprovada no Congresso Nacional, portanto, passou a ser lei. Individualmente, tem muito país tentando fazer, cada um, a coisa de modo a atender a expectativa do seu público interno. E eu penso que essa proposta do presidente Sarkozy de fazermos uma reunião após o jantar, uma reunião representativa dos principais interlocutores regionais permite que a gente possa chegar à Assembleia amanhã com uma proposta capaz de ser aprovada. Ou seja, se nós não tivermos a competência de reunir os líderes e tomar uma decisão, nós corremos o risco de sermos fotografados como os dirigentes que foram incompetentes de cuidar do planeta Terra enquanto era possível cuidar. Vai ter um momento em que não vai ser mais possível. Portanto, eu penso que a presença do presidente Sarkozy e dos principais líderes da Europa, da América Latina, da África, da Ásia neste jantar vai permitir que consigamos fazer uma reunião e que tomemos uma decisão que nós temos que tomar. A única coisa: nós temos a obrigação de não permitir que Copenhague se transforme em um fracasso, que a gente saia daqui pior do que chegamos.

Jornalista: (em francês)

Presidente Sarkozy: ___________

Presidente: Uma coisa que vocês precisam compreender: no Brasil, tinha um político muito famoso que dizia que política era como uma nuvem - a gente olha, ela está de um jeito, daqui a pouco a gente olha, ela está totalmente diferente. Ora, o fato de nós termos divergência justifica a própria existência nossa na política e a nossa presença em Copenhague. Se fizesse tudo acertado, e fosse tudo fácil, Sarkozy agora estava na sua casa, eu estava na minha casa, e cada um de nós estava cuidando dos nossos afazeres - ou políticos, públicos ou caseiros. O fato de ter divergência implica que os políticos têm que entrar em ação. Temos que superar as divergências, construir a convergência que for possível construir, e a partir daí continuar trabalhando, para ver se um dia chegamos à perfeição.

Eu conversei com o presidente Obama, ele vai chegar amanhã às 9h, mas eu penso que no jantar deverá estar aí a secretária Hillary Clinton. E, obviamente, eu, quando mando o meu ministro Celso Amorim ou outro ministro me representar em uma reunião, eles certamente tomarão decisões que eu acato e que me consultam. Portanto, eu acho que os Estados Unidos estão bem representados no jantar pela Hillary Clinton.

E amanhã, quando o presidente Obama estiver aí, facilita as coisas. O presidente Hu Jintao não está, mas está aí o Primeiro-Ministro, tem outras autoridades que não estão, mas estão aí representantes de seus países. E eu penso que, portanto, as divergências, elas necessitam dessa reunião para serem dirimidas.

Jornalista: Boa tarde, Presidente. Faltam menos de 24 horas para o término da reunião aqui, em Copenhague, e eu pergunto aos dois presidentes, Lula e Sarkozy, quais são as chances, no momento, de a gente evitar, de os líderes mundiais conseguirem evitar um naufrágio, um fracasso, como o presidente Lula falou. Objetivamente, eu gostararia de saber quais são as chances de os líderes conseguirem definir regras claras, para evitar que o aquecimento global ultrapasse os dois graus centígrados até o final desse século.

E ao presidente Lula, especificamente, se há risco de retrocesso no tratamento diferenciado que é concedido aos países desenvolvidos e em desenvolvimento - esse tratamento foi estabelecido no Protocolo de Quioto. Obrigada.

Presidente: Olha, eu penso que não há nenhuma possibilidade de haver retrocesso, porque todo mundo sabe que, embora a responsabilidade seja de todos, ela tem que ser diferenciada pelo tempo histórico da emissão de gases de efeito estufa, todo mundo tem esse acordo, isso já há consenso. E, para nós uma condição importante é a manutenção do princípio do Protocolo de Quioto, ou seja, nós temos que ter metas claras e objetivas.

Eu acho que os documentos que foram trabalhados, se você olhar direitinho, tem muita coisa que nós queremos que já está no documento, tem coisas que faltam, tem coisas que estão entre colchetes, porque são dúvidas, e mais dúvidas, e mais dúvidas.

Ora, mas os líderes políticos existem para isso. Ora, agora chegou a hora dos líderes sentarem e dizerem: o acordo vai ser esse, não importa que houve discordância aqui ou ali, nós, agora, vamos nos colocar de acordo e aprovar o que for possível acordar.

Essa riqueza das decisões democráticas precisa servir de lição, eu diria, para todos nós, ou seja, nós temos problemas, temos divergências, mas nós não vamos construir, certamente, o acordo mais perfeito que todo mundo sonha. Nós vamos construir o acordo que é possível construir dentro da diversidade democrática e da soberania de cada país.

Presidente Sarkozy: _______.

Jornalista: (em francês)

Presidente Sarkozy: ___________

Presidente: Eu acho que a gente não deveria ficar apenas atento àquilo que a gente ouviu ontem ou leu ontem, ou seja, nós temos que construir o amanhã, e é por isso que é importante essa reunião hoje à noite. Eu, nesses dois dias que estou aqui, conversei com muita gente e a verdade é que nós ouvimos mais preocupações com o fracasso do que as pessoas acreditando que nós pudéssemos chegar a um acordo.

Eu ontem tive reuniões até quase 11 horas da noite aqui e tinha um pessimismo exagerado. E eu penso que nós poderemos transformar esse pessimismo em otimismo. A China tem os seus problemas, nós temos que respeitar; o Brasil tem os seus problemas, nós temos que respeitar. Agora, o que nós precisamos ter consciência é que todos nós precisamos evoluir a ponto de tornar confortável a situação de todos. E eu tenho dito isso há muito tempo. Tudo o que nós fazemos, tudo o que nós fizermos no mundo hoje para melhorar alguma coisa, nós temos sempre que levar em conta a necessidade dos países africanos terem vantagens. É preciso que nós tenhamos a capacidade de dar contribuições para que os africanos tenham no século XXI a oportunidade que eles não tiveram no século XX.

Portanto, eu acho que todo mundo está de acordo que uma parte grande desse financiamento tem que ir para o continente africano em torno de projetos específicos, objetivos, para que a gente possa, não apenas resolver o problema do aquecimento, mas resolver o problema, sobretudo, do desenvolvimento da África. Porque a palavra desenvolvimento tem que estar ligada diretamente à palavra aquecimento global, a emissões de gases, tudo tem que estar ligado ao desenvolvimento porque acho que... vocês viram a posição do Brasil, ou seja, a nossa posição é voluntária, mas nós resolvemos ser ousados, até porque nós achávamos que isso ia ajudar na discussão do enfrentamento do aquecimento global.

Agora, também, eu vou dizer uma coisa para vocês, companheiros brasileiros, companheiros franceses: o que aconteceu até ontem, vamos trabalhar como coisa que vai fazer parte da história. Quando vocês forem escrever um livro sobre o que aconteceu em Copenhague, vocês vão dizer que em tal dia não tinha acordo, e em tal dia aconteceu o acordo. A nossa missão aqui é trabalhar para que a gente tente estabelecer um acordo. Nós temos uma coisa básica que é o documento assinado pelo presidente Sarkozy e por mim, em Paris, aquilo é uma coisa importante. Não sei se todos concordarão com a íntegra daquele documento, mas aquilo é uma base excepcional de responsabilidade de dois chefes de Estado.
No mais, eu peço para vocês agora irem jantar, descansar, porque poderá ter novidade à meia-noite, à uma hora da manhã, e vocês terão que estar acordados para informar os seus ouvintes e seus leitores.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente Lula: Não sabemos ainda. Eu sei que nós vamos jantar com a Rainha.

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