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Jornalista: Os brasileiros costumavam dizer que o Brasil era o país do futuro, mas de um futuro distante. O senhor acredita que esse futuro chegou finalmente?

Presidente: Estou convencido de que o século XXI é o século do Brasil. Vivemos um momento excepcional. Apesar da crise, estamos criando, neste ano, mais de 1,4 milhão de novos empregos formais, enquanto milhões de postos de trabalho foram e estão sendo sacrificados nos países ricos. Nossa indústria automobilística, por exemplo, deve bater recorde de produção em 2009. O crédito já retornou aos níveis anteriores à crise e os juros apresentam as taxas mais baixas das últimas décadas. As vendas do comércio vão de forma extraordinária. Os investimentos também voltaram a crescer de forma vigorosa, e em todas as áreas da economia respira-se um clima de otimismo e de confiança.

Todos esses movimentos ocorreram com a inflação controlada, com a relação dívida interna-PIB estabilizada e com a nossa vulnerabilidade externa reduzida. Em poucos anos passamos da condição de devedores à condição de credores internacionais. Nossas reservas, já somam mais de US$ 230 bilhões. Na contramão da tendência mundial, a economia brasileira encerrará o ano de 2009 com taxas positivas de crescimento. Em 2010, as estimativas indicam um aumento de 5% no PIB. Os mais recentes indicadores econômicos e sociais apontam para uma mudança profunda e abrangente no meu país. Conquistamos a estabilidade democrática, pela solidez das instituições e pelo respeito às liberdades civis, e estamos vencendo o maior de nossos desafios: reduzir a pobreza e as desigualdades sociais. Ao mesmo tempo, garantimos forte presença no mundo e estabelecemos sólidas alianças, sobretudo, na América do Sul, mas também na África e com outros países emergentes. Em suma, o Brasil encontrou o rumo, fazendo com que nosso futuro comece hoje.

Jornalista: Quando o senhor tomou posse, disse que no final de seu governo não haveria mais brasileiros passando fome. Quais são os resultados?

Presidente: Durante meu governo, nós criamos o Fome Zero, que engloba 13 programas e 45 ações. O principal programa é o Bolsa Família, que beneficia 12,4 milhões de famílias e tem sido fundamental para o combate à fome e à pobreza em todo o Brasil. É preciso dizer que o Bolsa Família, além de garantir o consumo de alimentos para as famílias de menor renda, tem sido um importante instrumento de aquecimento da economia local, estimulando a atividade do comércio e da produção em pequenas e médias cidades de todo o País. Os recursos do Bolsa Família são usados na aquisição de alimentos, mas também de material escolar, de medicamentos e de vestuário, além de utensílios domésticos. Programas como o Bolsa Família foram responsáveis por 17% da queda da desigualdade no período de 2001 a 2008. Hoje, depois de 6 anos de implantação, o Bolsa Família já investiu R$ 54,9 bilhões, o que tem permitido que 15,5 milhões de crianças e 2 milhões de jovens tenham a frequência escolar acompanhada. Outros programas que integram o Fome Zero são o Programa de Alimentação Escolar, que atende 35 milhões de estudantes, e o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar, que beneficia tanto os agricultores - pela compra de seus produtos - como 10 milhões de pessoas que recebem os alimentos. Há muito ainda por fazer, mas estou convencido de que no final de meu governo teremos cumprido a promessa de assegurar que todo brasileiro tenha três refeições ao dia.

Jornalista: O seu governo conseguiu reduzir a pobreza, este é um fato.Mas, recordando o velho provérbio chinês "Dê um peixe a um homem faminto e você o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar, e você o estará alimentando pelo resto da vida", o senhor acredita que fez assistencialismo ou que tirou da pobreza pessoas que poderão cuidar de si mesmas quando acabarem os programas de ajuda? O senhor deu peixes a essa gente ou varas de pescar?

Presidente: Este é um provérbio também muito popular no Brasil. Por isso, não estamos dando nada de presente. Estamos, sim, ajudando as pessoas a se ajudarem a si mesmas. Como? A transferência de renda é condicional, isto é, as famílias só recebem o auxílio se todos os filhos tiverem bom rendimento escolar e a família recebe atendimento médico. Com isto, se assegura que na próxima geração de brasileiros todos terão condições de contribuir produtivamente para a sociedade, deixando de ser reféns da pobreza ou do assistencialismo que só faz reproduzir a pobreza.

No entanto, o programa não pára aí. Quando investimos nos programas sociais, além de abrir as portas para a cidadania da parcela mais carente da população, ainda estimulamos a economia: os beneficiários do Bolsa Família, por exemplo, não guardam dinheiro, não aplicam na bolsa. Eles compram imediatamente, movimentando o pequeno comércio, que demanda o grande, que encomenda do setor industrial e do agropecuário. Fortalecendo o mercado interno, todos saem ganhando, o que ficou muito claro na reação robusta da economia brasileira à atual crise internacional.

Jornalista: Comparar as desigualdades entre os mais pobres e os mais ricos é outra forma de medir os resultados de seu governo. Nestes anos de crescimento econômico, reduziram-se as diferenças entre os que têm mais renda disponível e os de menor renda? Um dos dramas de alguns países latino-americanos, como a Argentina, é a diminuição de sua classe média. Aumentou a classe média no Brasil?

Presidente: As políticas sociais adotadas em meu Governo, que incluem o aumento real de 50% do salário mínimo e o programa Bolsa Família, produziram a inclusão de 20 milhões de pessoas na classe média. O Centro de Políticas Sociais da FGV, uma instituição independente, constatou uma expansão da classe média brasileira de 44%, em 2002, para 53,8%, em 2008. Hoje a classe média tornou-se maioria no País: 86 milhões de brasileiros. No mesmo período, a proporção de miseráveis encolheu de 35% para 25%. Trata-se de um avanço extraordinário no processo de redução das desigualdades sociais. O resultado é uma reversão constante da concentração de renda no país, mesmo no atual período de crise internacional. O fato de o Brasil continuar a reduzir os índices de concentração de renda mesmo em momento de recessão é sinal não só da solidez da economia brasileira, mas também das mudanças estruturais que sofreu.

Jornalista: Este ano vimos um helicóptero da polícia derrubado por delinquentes no Rio de Janeiro. Podemos dizer que a droga é o maior inimigo da democracia na América Latina? O que fez o seu governo? O senhor acha que este é um problema de cada país em particular ou faz falta uma ação política concertada entre vários países afetados pelo mesmo problema?

Presidente: No âmbito da UNASUL, está sendo criado um conselho dedicado a combater o narcotráfico. Essa iniciativa, assim como a recente constituição de um conselho de defesa da América do Sul, expressa a determinação de nossa região de assumir, cada vez mais, responsabilidades para encontrar respostas a seus problemas e desafios. Somente assim estará em condições de estabelecer uma parceria madura e equilibrada para solucionar as ameaças à paz e à segurança hemisféricas.

Os desafios domésticos não são menores. Nossa prioridade maior é garantir a presença do Estado brasileiro em áreas onde o crime organizado opera. Tenho ido pessoalmente a favelas e zonas menos favorecidas lançar programas de saúde, educação e infraestrutura. Estou certo de que temos que combater, ao mesmo tempo, o crime e as causas do crime. Parte da solução para esse complexo problema é a redução da pobreza e das desigualdades. Outra parte é a criação de oportunidades de educação para todos. Já avançamos muito. Vinte milhões de brasileiros migraram das classes D e E para a classe C. A renda das famílias aumentou consideravelmente. Há mais pessoas com acesso à água, saúde e energia elétrica. Com o Programa Bolsa Família, criamos incentivos para manter as crianças e os jovens nas escolas. Construímos novas universidades e escolas técnicas. Estamos fortalecendo e aperfeiçoando as instituições que aplicam as leis, incluídos a polícia e o judiciário.

Jornalista: Além das declarações retóricas, as cúpulas que reúnem vários países da América Latina servem para alguma coisa? O senhor poderia citar um ganho concreto que tenha revertido em benefício dos cidadãos?

Presidente: As cúpulas regionais são oportunidade, sobretudo, para líderes construir o diálogo e confiança mútua. Seus resultados práticos estão visíveis na consolidação da integração regional com o Mercosul e o aumento do comércio regional. Mais recentemente, a UNASUL já demonstrou seu valor por meio de ação eficaz para conter a ameaça à estabilidade boliviana em momento de grande tensão política.

As sociedades sul-americanas estão convencidas de que somente com muita democracia e muita paz vamos nos transformar, no século XXI, em economias ricas, com que o povo sonha. E para isso é preciso ter muita paciência política, muita disposição de conversar, muitas reuniões, muitos acordos, até que um dia tudo isso esteja maturado e as coisas aconteçam.

Jornalista: A União Européia tem moeda única e oferece liberdade de ir e vir entre os países membros. O senhor acha que veremos algo parecido na América Latina? Quanto falta para uma União Americana?

Presidente: Entre a maioria dos países da América do Sul pode-se viajar apenas com a carteira de identidade. A criação de uma moeda única será o ponto culminante do processo de integração em curso. Já tomamos alguns passos preliminares, tais como o mecanismo de comércio em moeda local entre o Brasil e a Argentina, com planos de ampliar para outros países do continente. Em segundo lugar, a criação do Banco do Sul abre caminho para mecanismos integrados de financiamento. Por outro lado, o processo de integração regional inclui, no âmbito da UNASUL, a criação de conselhos regionais de defesa e de combate às drogas. Sua criação constitui reconhecimento de que sem enfrentar as fontes de insegurança na região, não será possível consolidar definitivamente a integração regional. Na medida em que a UNASUL antevê a hipótese de adesão futura de novos membros fora de América do Sul, esperamos ver este processo alargado para toda a América Latina.

Jornalista: O senhor e o presidente dos EUA compartilham algumas coisas como, por exemplo, terem sido eleitos por este jornal homens do ano, além de ganharem as eleições (o senhor em 2002 e Obama em 2008). Contudo, parece que Obama se esqueceu da América Latina. O senhor não está decepcionado?

Presidente: A eleição de Obama de fato gerou muitas expectativas positivas, que, infelizmente ainda não se concretizaram, em parte por conta de pesada herança do governo anterior. Alguns desdobramentos recentes, como o episódio de Honduras e as bases colombianas, em particular geraram algumas discrepâncias que vamos busca aplainar por meio do diálogo franco e aberto. Dessa forma, poderemos melhor identificar as oportunidades para cooperação estratégica, em áreas como biocombustíveis, cooperação triangular, reforma da governança global e proteção do meio ambiente. Até o momento, não foi possível assinar acordo comercial do Mercosul com os EUA, uma vez que os moldes propostos pelos EUA nas negociações do Acordo de Livre Comércio das Américas - ALCA, não nos parecem equilibradas e mutuamente vantajosas.

Jornalista: Causou estupor vê-lo receber o presidente do Irã, um ditador cuja vitória eleitoral foi contestada e que reprimiu a oposição de forma sangrenta.. Surpreende que alguém que lutou contra uma ditadura se renda a essa servidão. O que o senhor tem a dizer?

Presidente: O Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, concorreu às eleições, nas quais teve 62% dos votos. Apesar dos questionamentos da oposição, houve uma eleição dentro de uma regra em que não foi ferida a Constituição do país. Mantemos com o Irã uma relação comercial densa e não cremos que vamos trazer o Irã para boas causas encurralando-o na parede. É preciso criar espaço para o diálogo e a conversação sob pena de provocar uma reação contra-producente.

Jornalista: O Brasil se envolveu muito na crise de Honduras e pouco ou nada nas tensões entre Colômbia e Venezuela. Por quê? Passado algum tempo, o senhor não acha que foi um erro monumental dar asilo ao presidente Zelaya na Embaixada do Brasil?

Presidente: No caso Colômbia - Venezuela, o Brasil exerceu em diferentes níveis - inclusive no âmbito da UNASUL - uma atuação moderadora e chegou a propor um esquema de monitoramento da fronteira bilateral, inclusive com a participação da Espanha. O Brasil continua à disposição das partes para colaborar, sempre que corresponder ao interesse de ambos lados.
Quanto ao golpe contra o Presidente Zelaya, a posição brasileira foi clara, em sintonia com nossa tradição diplomática e com as manifestações da comunidade internacional: não há mais lugar para golpes de Estado na América Latina. Essa página da História ficou para trás e não deve mais voltar. O envolvimento direto ocorreu em razão da decisão do Presidente Zelaya de pedir proteção na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, e obviamente não poderíamos negar essa proteção a quem considere estar em risco de ser detido por um governo ilegal, que não reconhecemos.

Jornalista: O senhor que lutou contra a ditadura durante anos e conseguiu viver na democracia, o que diria ao povo cubano que está esperando a liberdade há tanto tempo?

Presidente: Como em todo país, cabe ao povo cubano determinar o seu futuro. Embora o Brasil tenha discrepâncias com aspectos da ação do Governo cubano, estamos convencidos de que a melhor maneira de realizar as aspirações do povo cubano não é isolando ou castigando. Os recentes avanços rumo á aproximação de Cuba com a OEA nos indicam que estamos no caminho certo.

Jornalista: Sua ministra e candidata Dilma Rousseff não tem o mesmo carisma que o senhor. Isso poderá prejudicá-la nos comícios de outubro próximo?

Presidente: Vejo as perspectivas eleitorais com muito otimismo. Temos uma candidata de grande qualidade, que conhece muito bem o governo e tem sensibilidade social, grande capacidade de liderança e de gestão da máquina pública. Contará ainda com uma aliança de partidos fortes em todos os estados e, na campanha, vai demonstrar que é a mais preparada para governar o País. Creio que este governo também apresenta um conjunto de realizações que mudou para melhor a vida da maioria dos brasileiros. Com a experiência acumulada de Dilma, como parte de nossa equipe desde o início, em 2003, e sua identidade com nosso projeto, teremos a capacidade de ampliar ainda mais essas conquistas, por meio de maior crescimento e diminuição das desigualdades sociais e regionais ainda existentes. Acredito que será uma grande conquista histórica, rica de simbolismo, a eleição da Dilma como primeira mulher a assumir a Presidência do Brasil.

Jornalista: O senhor não acredita que suas possibilidades estão comprometidas porque o Partido Verde vai apresentar também um candidato, a Marina Silva, que além de tudo é uma mulher de cor?

Presidente: A posição de liderança que o Brasil assumiu na COP 15 e os importantes avanços alcançados na redução do desmatamento indicam que o Governo brasileiro está fortemente comprometido com a agenda do desenvolvimento sustentável.

Jornalista: Agora que foram encontradas enormes quantidades de petróleo no litoral brasileiro, o governo seguirá apostando no etanol como o combustível do futuro?

Presidente: Apesar da descoberta de vultosas jazidas de petróleo em águas profundas, seguiremos defendendo a criação de um mercado mundial de biocombustíveis que conte com grande número de produtores no mundo em desenvolvimento. Vejo os biocombustíveis como uma importante ferramenta para gerar empregos e renda no campo, aumentar a segurança energética e democratizar a estrutura produtiva de energia no mundo. Hoje a produção de petróleo está concentrada em 15 países. Os biocombustíveis poderiam ser produzidos em 120 países, muitos dos quais totalmente dependentes de importação de petróleo. Precisamos assinalar também o potencial desses combustíveis renováveis na luta contra as mudanças climáticas. Desde os anos 70, com o uso do etanol, o Brasil deixou de emitir 800 milhões de toneladas de CO2.

Jornalista: Pode-se reduzir a emissão de CO2 sem limitar o crescimento econômico?

Presidente: Prova que sim é o fato de que o Brasil assumiu o compromisso de reduzir em 2020 suas emissões de CO2 ao nível de 2007. Isto é possível porque o Brasil está na vanguarda das fontes limpas e renováveis de energia. Isto explica que 45% da matriz energética nacional seja renovável.

Jornalista: No ano que vem o senhor completará 65 anos e deixará de ser presidente. O que gostaria de fazer? Gostaria de ocupar algum cargo internacional como o de secretário geral das Nações Unidas? Ou um posto de relevância em um organismo Interamericano? Existe a tentação de voltar a concorrer em 2014?

Presidente: Ainda não decidi meu futuro, após deixar a Presidência. Certo é que quero continuar a trabalhar em prol dos mais necessitados, especialmente na América Latina e África.

Jornalista: Deixamos para o final uma pergunta comprometedora. No final da Copa do Mundo de Futebol na África do Sul, jogam Espanha e Brasil. Dê o seu prognóstico...

Presidente: Meu coração torce pelo Brasil, mas que ganhe o melhor.


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