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Os tumultos no Brasil são ainda uma briga política ou já uma tentativa de golpe? Uma conversa com a combativa Presidenta Dilma Rousseff.

Por Thomas Fischermann

 

Essas declarações intermináveis! Quando a Presidenta do Brasil fala, é melhor recostar-se. Procura-se então como jornalista outro copo d'água e dá-se uma olhada no nível da bateria do gravador. "Uma mulher não é um ser frágil, e uma mulher brasileira não o é de jeito nenhum. Nós gostamos de ser emocionais e afetivas, mas de nenhuma maneira fracas", chega à sua conclusão Dilma Rousseff. Três minutos e nove segundos se passam durante a resposta a uma pergunta do Zeit. E essa simplesmente versava sobre como ela está.

No Brasil há uma crise do Estado, e a Presidenta fala sobre isso com jornalistas estrangeiros, do Zeit, do New York Times, do Le Monde e outros. Isso ela não faz quase nunca, o que tem com o fato de que os conglomerados de comunicação de seu próprio país assumiram o ataque a Rousseff de forma aberta. "Isso é um golpe de Estado", diz a mensagem de alerta da Presidenta ao resto do mundo. Em um país com 200 milhões de pessoas, a sétima maior potência econômica do mundo.

Isso, é claro, não se pode diz assim – na posição de Presidenta de uma república. Um "golpe de Estado", porque a Chefe de Estado e de Governo está em um "clinch" com a oposição? Poder-se-ia argumentar, que essa escolha de palavras chega a quebrar com as regras democráticas e que também é perigosa. "Falemos sobre o processo do impeachment que corre contra mim", levanta o corpo Rousseff e reclina-se um pouco para trás, as mãos confortavelmente sobre a mesa. Agora, já se sabe onde isso vai parar, será uma declaração abrangente, completamente na tradição dos Chefes de Estado de esquerda da América Latina.

Muito mais que uma confusão simplesmente democrática

A Presidenta brasileira acredita que seu país entrou em muito mais que uma confusão democrática plenamente normal. É bem verdade: nas últimas duas semanas, o Brasil entrou em um tumulto político raramente visto em qualquer parte do mundo - com um escândalo de escutas, manifestações populares, confissões sobre a corrupção desenfreada da elite política e um ex-Presidente caçado por um juiz de instrução.

Os perseguidos perseguem Rousseff

O problema imediato de Rousseff é um processo de impeachment na Câmara dos Deputados. Na semana passada, uma comissão parlamentar foi formada para decidir se a Presidenta deve ser retirada do poder por causa de má conduta. Em meados de abril o grupo deve chegar a uma conclusão, e é um processo cheio de absurdos. A comissão está cheia de inimigos políticos de Rousseff e não congrega, de maneira alguma, o que poderíamos chamar de boa sociedade: cerca de um terço dos deputados tem a polícia ou alguma comissão de investigação em seu encalço por conta de corrupção ou outros delitos. Um dos integrantes já foi procurado pela Interpol.

O chefe dessa comissão, um fanático religioso e mestre na intriga política de nome Eduardo Cunha, foi mencionado em uma série inteira de investigações criminais. Entre outros, ele possui contas secretas completamente obscuras na Suíça. “Ele foi indiciado pela polícia, mas não é nem mesmo investigado”, salienta Dilma Rousseff. Ela, a Presidenta, teria sido chantageada pelo político de oposição Cunha. A ideia: se o governo não deixar de lado as investigações contra mim, eu derrubo a Presidenta.

Rousseff é considerada insuspeita

“Eu não utilizei uma única vez o poder do governo para dar benefícios a alguém que não lhe coubessem”, diz Rousseff, e aqui sua voz aumenta de volume, seus olhos ficam maiores e seu dedo indicador perfura o ar com movimentos vigorosos. “Eu dei preferência aos mais pobres desse país. Eu dei algo aos que são mais fracos.”

De fato, Dilma é considerada amplamente como insuspeita de corrupção e, com isso, ela é uma exceção na política brasileira. Ela está sendo processada por conta de um detalhe técnico: em seu primeiro mandato, antes de sua reeleição em outubro de 2015, ela teria calculado o Orçamento estatal de maneira irregular. Todos no Brasil sabem que não se trata disso. Mas, de novo: um golpe de Estado?

Campanha midiática contra Rousseff e Lula?

Ainda há mais nessa história. Um juiz federal brasileiro, que, com suas ambiciosas investigações anticorrupção no País inteiro, foi alçado a uma espécie de herói nacional, interessa-se há meses de maneira notória e intensa pelos políticos do campo governamental, e notoriamente menos pela oposição. Recentemente ele fez com que o aliado mais próximo de Rousseff, seu mentor e predecessor no cargo Lula da Silva, fosse conduzido de sua casa. Provas confirmadas de quaisquer delitos ainda não são conhecidas. Isso levou a uma série impressionante de novos desdobramentos, por exemplo, que Lula mais uma vez queira se apresentar como candidato a Presidência em 2018.

Os grandes meios de comunicação do país, especialmente a gigante de televisão e revistas Globo, fizeram apelos por manifestações contra a Presidência e colocaram Lula da Silva e Dilma Rousseff como uma espécie de chefes mafiosos. Quando, na semana passada, uma batida policial na maior empreiteira do país fez surgir uma lista de políticos, dos quais muitos abertamente teriam sido subornados, a cobertura midiática foi visivelmente diminuída. Na lista estavam também muitos políticos da oposição.

“Os golpes de Estado mudaram seus métodos“

Isso tudo pode se achar flagrantemente injusto, planejado e manipulativo – mas é mais do que isso? “Os golpes de Estado mudaram seus métodos”, responde a Presidenta. O ataque geral sobre a sua pessoa seria “o ataque a uma presidenta eleita feito de uma maneira imprópria, criminal”. “Isso fere a ordem da democracia. Por isso é perigoso. Em democracias maduras está claro que algo assim não se faz”. E, se seus adversários conseguirem fazer isso, o Brasil não seria mais governável para nenhum sucessor democrático no futuro.

Dilma Rousseff permanece sentada, em pose combativa. Por vezes ela está irritada, por vezes ela detalha sua defesa, às vezes ela ri em voz alta. “Não é agradável ser o objeto de tais abusos”, diz ela, “mas eles também não me derrubam. Eu não sou uma pessoa com tendência para a depressão. Se eu soubesse, que tinha culpa [no caso de corrupção, ndr], aí eu estaria deprimida.”

Sua postura nessa situação é simples: resistir! Nunca desistir! Isso é uma retórica de esquerda bem conhecida, associada a uma dose de teimosia pessoal. Ambos têm a ver com os velhos tempos de Rousseff.

Rousseff sabe bem resistir

Rousseff foi por muito tempo combatente da resistência, do tipo militar. Na época da ditadura (1964-1985), ela se juntou a um dos grupos radicais que organizavam greves, sequestros, ataques e roubos para se financiar. Eles eram terroristas, acusam seus críticos. Na prisão, Rousseff apanhou, foi pendurada por barras de ferro e torturada com choques elétricos. Três anos durou esse terror. No ano de 1975 ela foi libertada, com 25 anos de idade, emagrecida e doente. Ela nunca delatou seus confidentes mais próximos.

“Tive uma vida complicada”, diz a Presidenta, “e isso me coloca agora na posição de lutar pela democracia brasileira. Estar na prisão não foi um acontecimento feliz. Se eu lutei naquele tempo, hoje luto mais do que nunca. As circunstâncias são muito mais amigáveis!”

E as manifestações nas ruas, os gritos sem pausa de “Dilma fora”? Nada contra, “nós devemos ouvir as ruas”, responde Rousseff. Mas se deve também pensar que nem mesmo dois por cento da população estava marchando. Por detrás de muitas das manifestações estariam interesses obscuros bem organizados. “Temos que perguntar: quem se beneficia disso?”. E assim que os protestos se transformaram em bloqueios de ruas, ela viu nisso “instrumentos do fascismo”.

O desejo por “salvadores da pátria” autoritários

E o que fazer contra essa extrema polarização do país, pela qual ambos os campos políticos se insultam de maneira desoladora? Qual é agora a tarefa de uma presidenta, que em pesquisas tem uma aprovação de onze por cento da população? Como o povo pode unir-se e, com isso, conseguir novamente a base para um bom funcionamento da democracia?

Aí a resposta de Rousseff é digna de nota e ainda mais longa que as outras. A crise de confiança causa preocupações, sim. Pois isso é base para brotarem desejos de “salvadores da pátria” autoritários. Ela fala sobre as dificuldades que o sistema político no Brasil lhe causou, que uma quantidade enorme de partidos políticos surgiu, com os quais é necessário estabelecer coalizões. Ela fala sobre seu antigo plano de reforma da Constituição para superar esse problema. Ela fica mais uma vez zangada com o planejado “golpe de Estado” e diz que tumultos como esse têm também impacto ruim na economia. Ela fala da crise da seca em partes de seu país e do orçamento estatal, da profunda crise econômica e da conjuntura que apenas lentamente melhora.

Há muito de certo nisso. Uma resposta direta à pergunta, no entanto, isso não é. Mais fácil lançar um olhar para fora do palácio presidencial sobre um povo sem rumo. E a perspectiva de uma experiente combatente, que agora se entrincheira para sua grande batalha: duas metades do Brasil colidem no centro do poder em Brasília. De um lado: o movimento de Rousseff com suas conquistas, seus avanços em benefício dos pobres. Do outro, poderes mais obscuros, que, de acordo com Rousseff, enganam o povo, justamente porque não querem esses avanços.

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