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Jornalista: A primeira pergunta que eu queria lhe fazer é: a partir da eleição do Barack Obama, como o senhor é um Presidente fora do padrão, que surgiu do povo, o senhor acha que estamos entrando numa era com novos tipos de dirigentes?

Presidente: Eu acredito que sim. O mundo está cheio de exemplos, que os candidatos que eram tidos como a lógica natural de serem eleitos nos países, não o foram. Se nós pegarmos a França como exemplo, vamos perceber que o Sarkozy não era o candidato do Chirac, e foi eleito presidente da República. Se nós pegarmos os Estados Unidos, vamos perceber que o Obama não era o candidato do Partido Democrata, e virou presidente da República eleito. Aí você pode pegar a América Latina, que está cheia de exemplos de pessoas que surgem de classes sociais que, 20 anos atrás, era quase impensável essas pessoas chegarem à Presidência da República.

Isso é um fenômeno que eu acho importante para a política mundial, porque depois da queda do Muro de Berlim, eu dizia que era importante que o Muro de Berlim tivesse caído para a esquerda voltar a ter o direito de pensar, e não achar que já estava tudo escrito. Acontece que houve um fenômeno, ou seja, a partir da queda do Muro de Berlim há um vazio no debate ideológico no mundo, um vazio no debate acadêmico, e começam a surgir fenômenos.

Eu vou dar um exemplo. Eu poderia começar pela Argentina, na vitória do Kirchner. Você está lembrado de que o Kirchner, quando foi indicado, ninguém o conhecia. Eu me lembro da conversa que eu tive com o Duhalde, ninguém queria ser candidato na Argentina. O Kirchner era governador de Santa Cruz e, de repente, o Kirchner vira presidente da Argentina. Aqui no Brasil, 15 anos atrás, era quase impensável imaginar que um metalúrgico pudesse quebrar todas as barreiras e os preconceitos e virar presidente da República. Está certo que eu perdi três eleições antes de ganhar a Presidência da República. Você olha o Paraguai, a eleição do Lugo é um fenômeno. Você olha para a Bolívia, o fato de um índio, representando os povos originários, se tornar prefeito da Bolívia é outra coisa fenomenal. Você vai vendo o Equador, vai vendo o Chávez, na Venezuela… O Chávez é a quebra do padrão da política venezuelana.

Jornalista: O senhor acha um benefício para a política mundial?

Presidente: Eu acho um benefício para a política mundial essas mudanças, porque isso transforma a política em uma coisa mais efervescente, ou seja, não fica mais a mesmice, as pessoas que pensam igual, as pessoas que têm diferenças muito pequenas. Começa a haver um certo debate mais profundo sobre o papel do Estado, sobre o papel da governança, sobre os compromissos assumidos. Por exemplo, essa crise econômica agora. Será inexorável a mudança do padrão da geografia política e econômica no mundo a partir dessa crise. Então, eu penso que há um bem para os povos do mundo inteiro com essas mudanças que estão acontecendo na política. Eu não quero dizer, com isso, que todos sejam melhores do que os que estavam antes. O que eu quero dizer é que isso torna a política mais motivadora, torna a política mais dinâmica, torna a política mais, eu diria, uma efervescência que a gente até então não conhecia.

Por isso, eu penso que essas mudanças terminam sendo um benefício. Se você imaginar a eleição do Obama, 90% dos entendidos em política acreditavam piamente que a Hillary Clinton seria eleita presidente pelos Democratas. Ela não se elegeu. Depois, quando ficou a disputa entre Obama e McCain, os entendidos em política – isso só para demonstrar que os entendidos em política também erram, e erram muito – entendiam que terminava dando McCain, porque os conservadores na hora iriam ficar com medo do Obama e iam votar no McCain. Também não aconteceu.

Então, o Obama se transformou num fenômeno eleitoral nos Estados Unidos. Eu, particularmente, como presidente do Brasil, acho que o simbolismo da vitória do Obama é uma coisa excepcional. Imaginar os Estados Unidos que, 40 anos atrás, tinha matado Luther King, eleger um negro presidente da República, é um fato extraordinário. Agora, vamos ver se, nos próximos quatro anos, ele dá sustentação à vontade de mudança que teve o povo americano.

Jornalista: Justamente, tem semelhança entre o Obama e o senhor, presidente do Brasil, que já disse que sua infância foi muito difícil. Vale a pena lembrar para os leitores franceses que o senhor trabalhou na rua, que o senhor até chegou a passar fome. Mas qual foi a importância dessa experiência em sua Presidência?

Presidente: Quando alguém chega à Presidência da forma como eu cheguei, mesmo que quisesse, eu não poderia governar como habitualmente se governava o Brasil. Eu tinha que clareza? A mesma clareza que eu tenho para o Obama, a mesma clareza que eu tenho para o Evo Morales. Qual era a clareza que eu tinha? É que se um intelectual, se um empresário, se um advogado – todos que já governaram o Brasil – não dá certo, essas pessoas terminam o mandato, voltam para a universidade e a vida continua. Mas eu botei na minha cabeça que se eleito presidente da República nós fracassássemos, não seria um fracasso pessoal do Lula. Seria o fracasso pessoal de uma idéia. Qual a idéia? A idéia de que os trabalhadores que compõem a maioria de uma nação têm o direito de eleger o presidente da República. Então, se eu fracasso, o que os jornais estariam escrevendo? O que os analistas políticos iriam dizer? “Não sabe governar, fracassou, não deu certo”. Aconteceria mais ou menos o que aconteceu com o Lech Walesa, na Polônia.

Eu tinha isso na cabeça e, portanto, nós tínhamos que trabalhar, e trabalhar muito, para provar que um trabalhador sem diploma universitário tem condições de governar um país com a magnitude do Brasil. Por quê? Porque a arte de governar é a arte de saber tomar decisões, é a arte de saber montar a sua equipe, é a arte de saber definir prioridades, é a arte de saber de que lado você está. Se você não tiver isso bem definido na sua cabeça, se for governar e quiser atender de forma aleatória a todo mundo, não definindo prioridades, você termina não governando.

Eu acho que isso vai acontecer com o Obama. O Obama pega o governo na crise mais grave em 100 anos, e o Obama sabe que, se ele não acertar no primeiro ano, a responsabilidade vai ser jogada nas costas dele. Eu trabalho com essa idéia, por isso que eu sou otimista. Ninguém no mundo hoje tem mais interesse em dar sinais de resolução da crise do que o Obama.

Então, eu trabalho com essa hipótese, por isso eu sou um homem otimista e acho que as nossas vitórias, as de todas essas pessoas que eu falei, são um sinal muito importante de que o povo perdeu o medo da mudança, o povo perdeu o medo do novo, o povo está se autotestando.

Jornalista: Outro ponto comum é a importância da mãe do Obama e da sua mãe. Qual foi a lição mais importante que dona Lindu deixou para o senhor e que o senhor usou na Presidência?

Presidente: Eu penso que a lição… Eu digo sempre que o legado mais importante que eu recebi da minha mãe foi o caráter. Minha mãe dizia sempre a seguinte frase: “Um homem nunca pode perder o direito de andar de cabeça erguida. Você tem que tratar as pessoas bem, você tem que respeitar as pessoas, porque somente assim você será respeitado”. Esse, na minha opinião, foi o mais importante legado que eu recebi, porque cada conquista que eu tive foi com muito suor e com muito sacrifício. Eu nunca ganhei absolutamente nada de graça, nunca.

Eu carrego isso na minha vida, numa demonstração de que não é a pobreza que faz as pessoas serem desencaminhadas. É por isso que eu valorizo muito a família. Eu acho que família é a base da sustentação e da fotografia da sociedade que a gente quer criar. Se você estiver bem na sua família, pais, filhos, se vocês estiverem bem dentro de casa, qualquer problema que tiver fora é pequeno. Agora, se você estiver mal dentro de casa, tiver conflito, tiver discordância dentro de casa, qualquer probleminha fora se torna muito grande, porque você fica fragilizado.

Então, eu acho que a família… e isso é o que a minha mãe conseguiu passar para oito filhos. É muito fácil a gente compreender, uma mulher de classe média, uma profissional liberal, separar do marido: “Eu me separo, ganho dinheiro, tenho salário, vou viver a minha vida”. Agora, eu fico imaginando hoje, (como) presidente da República, a coragem que a minha mãe teve de se separar do meu pai, com oito filhos. O que tinha melhor profissão trabalhava numa carvoaria, carregando sacos de carvão; a segunda melhor profissão era um vendedor de sardinhas; a terceira melhor profissão dos filhos era de um que trabalhava num bar; e eu e Frei Chico, que vendíamos amendoim, tapioca, laranja. Uma mulher dessas, analfabeta, ter coragem de largar o marido e ir morar sozinha, eu acho que é uma coragem que pouca gente tem. É por isso que muitas mulheres apanham do marido e ficam em casa, é por isso que muitas mulheres são maltratadas e ficam em casa. Quando eu vejo, em 1953, 54, uma nordestina analfabeta, com oito filhos, sair de casa e falar “eu vou embora”, eu acho que é um exemplo…

Jornalista: O tema da família e do Bolsa Família, a luta contra a fome do início de seu mandato, é bem claro que têm prioridade na sua política. Esse modelo do Bolsa Família, até onde chegou? O senhor acha que pode ser exportado agora? Está maduro para isso?

Presidente: Eu não tenho dúvidas de que o Bolsa Família é, possivelmente, a mais importante política de transferência de renda, pela quantidade de pessoas atendidas, não pela quantidade de dinheiro, e pela forma que estão cadastradas. O governo federal não sabe para quem está dando Bolsa Família, não é uma coisa eleitoral. Quem cadastra não sou eu, é um prefeito que, às vezes, é de outro partido político. Tem fiscalização da sociedade, tem fiscalização do Ministério Público. São 11 milhões de famílias que recebem o Bolsa Família, e a margem de erro é muito pequena. Lógico que eu gostaria de poder dar um pouco mais de dinheiro, mas nós também colocamos na cabeça que o Bolsa Família não é um fim. É a primeira etapa da inserção dos mais pobres na cidadania. O que nós queremos é que com a criação de empregos, com a melhoria da educação, as pessoas vão deixando o Bolsa Família e vão virando trabalhadores normais, com carteira profissional assinada e virando cidadãos. Eu acho que nós chegaremos a isso.

Agora, o Bolsa Família… eu tenho falado com outros presidentes aqui na América do Sul. Qual é o problema dos governantes? A economia colocou na cabeça dos economistas que você só pode distribuir se crescer. Então, aqui no Brasil, nas décadas de 50, 60, 70, se dizia assim: “Primeiro, nós temos que construir o bolo, quando o bolo estiver feito, nós vamos distribuir”. Esse bolo foi crescendo, foi crescendo, foi crescendo, e cada vez menos gente participava desse bolo.

Qual foi o desafio que nós tivemos para nós mesmos? Era uma pergunta que se fazia na área econômica. Eu não sou economista, mas por conta de ser presidente de sindicato e ter que discutir salário todos os anos, e por conta do PT, eu me reunia, sistematicamente, com os principais economistas deste país. E qual era a discussão que a gente fazia? O Brasil precisa crescer para distribuir ou o Brasil precisa distribuir para crescer? Esse era o desafio. E o que nós fizemos? Nós falamos: se tem um segmento social que não tem sequer o direito de comprar a ração mínima para comer, na hora em que a gente der o dinheiro para essa pessoa, ela não vai comprar dólar, ela não vai comprar carro. Ela vai comprar feijão, vai comprar arroz, vai comprar leite, vai comprar farinha, vai comprar meia, vai comprar sapato. Por isso é que o Bolsa Família dinamizou muito as cidades pequenas do País, e hoje eu acho que o que está provado é o seguinte: é possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo, crescer e distribuir renda. Se só crescer, não dá certo.

Jornalista: Outros países ainda não copiaram o Programa?

Presidente: É difícil você imaginar que alguém pode copiar um programa de outro país. Cada um tenta criar, a seu modo, o seu programa social. Nós temos feito muitas reuniões entre os ministros da área social da América do Sul, para saber se a gente escolhe as melhores políticas, vamos adaptando-as à realidade de cada país e vamos tentar implementá-las. No Brasil, não é só o Bolsa Família. O Bolsa Família é apenas o maior programa. Se você pegar a compra de alimentos que nós fazemos para os pequenos agricultores, a compra de leite, a agricultura familiar, o microcrédito, o crédito consignado…

Um dia, numa reunião com banqueiros, eu perguntei: por que vocês não emprestam dinheiro para pobre? “Nós não emprestamos dinheiro para pobre porque não temos garantia”. É preciso ter garantia para emprestar dinheiro. Então, o que nós oferecemos para eles? A nossa folha de pagamento. Hoje nós temos R$ 80 bilhões no crédito consignado. Qualquer trabalhador, hoje, que trabalha, pode entrar em um banco e pegar dinheiro, qualquer aposentado pode entrar em um banco… Não estão pegando agora por causa da crise que está mais profunda. Mesmo assim, os bancos públicos brasileiros continuam emprestando fortemente o crédito consignado.

Esse conjunto de políticas… No Brasil, nós temos quase quatro milhões de pessoas que recebem benefício de um salário mínimo: pessoas portadoras de deficiência, pessoas com idade e que não trabalham, pessoas que atingiram 65 anos e que não trabalham. Então, há uma movimentação de dinheiro no mercado que antes não existia, e é essa movimentação de dinheiro no mercado… Se você for fazer uma pesquisa em um shopping hoje, no Brasil, vai perceber que quem está comprando não é a classe média alta, que antigamente freqüentava shoppings. Você vai perceber que são pessoas de baixa renda que estão comprando. E isso só pode melhorar. Eu trabalho com a convicção de que pode melhorar.

Ontem, por exemplo, só para terminar esse assunto, eu fui a uma reunião com os governadores do Nordeste, e participei da premiação do Unicef pela diminuição da mortalidade infantil. É impressionante. No semi-árido, nas regiões mais pobres do País, 259 cidades foram premiadas porque diminuíram, abaixo de 20 por mil, o número de crianças que morriam. Tem uma cidade que quando a prefeita tomou posse, morriam 149 por mil. Ontem o Unicef anunciou: 18 por mil. Com poucos cuidados…

Jornalista: Com quantos anos?

Presidente: Seis anos. Com pouco dinheiro, mas com muito cuidado, com muito carinho, envolvendo a sociedade nessa política. Obviamente, isso não é um problema que a França vive ou que vive a Europa. Problemas em outra dimensão. Mas para nós, países emergentes, que temos muita gente pobre… Depois, uma coisa, custa pouco cuidar dos pobres. É fantástico, porque custa pouco. Você cuidar dos pobres é a coisa mais barata que tem no mundo. Vem um rico aqui, você empresta 1 bilhão do BNDES, ele ainda sai reclamando. Vem um pobre, recebe o Bolsa Família de R$ 70, ele dá graças a Deus.

Jornalista: Apesar de todos os avanços sociais do seu governo, alguns problemas, eu vejo, do ponto de vista internacional, que são primeiro a violência e a criminalidade. Por que parece difícil, quase impossível, baixar essas taxas, melhorar a situação? Sempre a imagem do Brasil fica ligada com a imagem dos morros do Rio. Por quê?

Presidente: Primeiro, porque eu acho que o Brasil é mais sincero que outros países. Nós divulgamos mais as coisas ruins do que outros países divulgam.

Jornalista: Outros países do continente?

Presidente: Não, do mundo inteiro. Nós não escondemos os nossos problemas. Aliás, o Brasil é um país que tem uma característica fantástica: nós gostamos de falar mal de nós mesmos. Você sabe que é assim o Brasil. Segundo, eu acho que tem uma predileção, não sei se no mundo inteiro, mas aqui no Brasil, pelas notícias negativas. É verdade que tem violência, mas se você contar a violência como ela é, ela tem uma dimensão. Se você exagerar na divulgação daquela violência, você transforma um fato social em um pânico político no mundo inteiro.

Então, por exemplo, quando eu vejo no exterior uma televisão brasileira mostrando um caminhão que atropelou uma criança em São Paulo, eu acho no mínimo, absurdo, porque uma criança ser atropelada por um caminhão em São Paulo ou uma pessoa morrer em São Paulo, é um problema que interessa a São Paulo, que interessa à família e, quiçá, interessa ao Brasil. Mas você transformar isso numa coisa nacional… eu fico imaginando você, lá na França, falando “vou passar férias no Brasil”.

Jornalista: Tem pessoas que têm medo de viajar agora para o Rio, por exemplo.

Presidente: Eu sei. Na hora em que a gente dimensiona… Às vezes um crime fica dez dias na televisão. Você transforma aquilo quase numa coisa apoteótica, quando ele tem que ter a verdade contada, a gravidade. Esse é um aspecto: nós superdimensionamos as coisas. A segunda coisa que eu acho importante a gente fazer é que o governo municipal, o governo estadual e o governo federal têm que compreender que a única forma de você combater a violência não é mais a polícia. Porque o jovem que nós estamos vendo ir para a cadeia agora, os jovens de 17 anos, 18 anos, 20, 25 anos, essa juventude é resultado de 20 anos de estagnação política do Brasil. Essa juventude, durante 20 anos, cresceu sem ver o País crescer, eles cresceram sem ver a evolução na educação.

Pega, nos últimos 20 anos, quantas universidades foram construídas no Brasil. Pega, nos últimos 20 anos, para saber quantas escolas técnicas foram construídas no Brasil. Ou seja, esses jovens são o resultado disso: não têm emprego, não têm estudo, portanto, não têm perspectiva de vida. Então, nós estamos hoje com um estoque de homens e mulheres jovens, que começamos agora, de quatro anos para cá, a dar um pouco de dimensão, de esperança para essa gente.

E, por último… Veja, nós criamos o ProJovem; criamos o ProUni; fizemos os programas sociais; vamos construir, até 2010, 214 escolas técnicas profissionais contra 140 feitas em 100 anos, vamos fazer 214 em oito anos; estamos fazendo 14 universidades federais novas; estamos fazendo 95 extensões universitárias, levando o braço das universidades federais para todo o território nacional.

O ProJovem tenta retirar quatro milhões e meio de jovens, de 15 a 24 anos, que tinham desistido da escola. Nós pagamos um salário, R$ 120,00, uma ajuda de custo, para convencer esse jovem a voltar a estudar e aprender uma profissão para inseri-lo na sociedade e para dar a ele uma dimensão de futuro que ele precisa ter.

E, ao mesmo tempo, nós lançamos um programa aqui chamado Pronasci, que é um grande programa de segurança pública que nós temos no Brasil. Mas não é apensa à segurança pública. Ontem eu fui ao bairro chamado Santo Amaro, em Recife. E se você estiver aqui e puder ir amanhã no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, nós vamos anunciar o Pronasci lá.

O Pronasci é um conjunto de políticas públicas que envolve 17 ministros, 18 ministros, que acompanham as obras do PAC. Aonde as obras do PAC vão chegando, nós vamos chegando com as “mães da paz”, nós vamos chegando com programa de educação, nós vamos chegando com ponto de cultura, nós vamos chegando com segurança comunitária, nós vamos chegando com ginásio de esporte, com quadra, com bibliotecas, com… Nós vamos organizando a sociedade.

Ontem tinham 29 projetos a serem implantados no bairro… O bairro de Santo Amaro, em Pernambuco, é tão violento que quando alguém de Santo Amaro chega a Recife para procurar emprego e fala: “Eu sou de Santo Amaro”, ninguém contrata eles.

Então, em vez de a gente mandar a polícia nós estamos mandando o Estado, o federal, o estadual e o municipal, com um conjunto de políticas públicas, para que a gente ganhe esse jovem, esse homem e essa mulher para uma nova perspectiva, ou seja, “eu vou ter chance”, “eu vou ter espaço”, “eu vou poder passear com tranqüilidade”.

Se você estiver aqui e quiser ir amanhã lá no Complexo do Alemão, será muito bem-vindo, eu saio daqui às 8 horas da manhã. Para você ver que o Complexo do Alemão é um lugar muito violento, e nós vamos lá lançar o Pronasci, você pode estar junto para ver o que é o Pronasci.

Jornalista: Outro tema bem midiático, que é a Amazônia e reflorestamento, um tema de preocupação para o mundo inteiro. A cada ano o desmatamento aumenta. Eu não tenho os dados, mas desde o início do seu próprio mandato acho que entre 50 ou 100 mil metros quadrados de desmatamento. Esse desmatamento é impossível contê-lo?

Presidente: É possível contê-lo. Mas é importante que a gente compreenda, primeiro, as dificuldades de você tomar conta de um território da magnitude da região da Amazônia. Aquilo significa quase que alguém tomar conta do conjunto da Europa inteiro, num país em que nós encontramos praticamente os órgãos controladores sem nenhuma estrutura. Nós tivemos que fazer concurso público tivemos que contratar gente tivemos que comprar carro, tivemos que… porque não tinha. Às vezes, você pega um parque nacional com milhares de hectares sem uma pessoa para tomar conta. (inaudível) E, muitas vezes, nós somos criticados, no Brasil, porque contratamos gente. Se você não contrata gente, você não consegue controlar as coisas.

Ontem eu lancei o Plano Nacional sobre Mudança Climática. É um plano que você pode até receber depois, tem um modelo pequeno. Nós produzimos livros para professores darem aula sobre política ambiental, sobre preservação ambiental. É, talvez, o programa mais arrojado que alguém fez no mundo, é muito melhor do que o chinês, muito melhor do que o indiano.

Nós vamos montar um esquema de Polícia Florestal ou Guarda Nacional para tomar conta da Amazônia. Nós vamos fazer o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar, para não permitir que a cana-de-açúcar se aproxime da região da Amazônia. Nós vamos fazer outro zoneamento agroecológico sobre alguns produtos brasileiros para evitar que cheguem na Amazônia.

Agora, ao mesmo tempo, nós estamos trabalhando também com muita sabedoria, que é permitir que com o bom manejo da floresta, a gente possa permitir que a indústria da madeira possa se desenvolver, a partir do momento em que você tire uma árvore e coloque outra no lugar, a partir do momento em que você tenha o controle do desmatamento.

Nós assumimos o compromisso de reduzir o desmatamento em 40% até 2010. Se acontecer isso, nós vamos evitar a emissão de 4.8 bilhões de toneladas de CO2 até 2017. E há uma perspectiva de aumentar o número de árvores plantadas, de 5 milhões e meio para 11 milhões de hectares até 2017. É importante, depois, você pegar o resumo. Nós temos o resumo do que é o Plano, é um Plano muito arrojado. Eu penso que esse Plano da Amazônia vai, quem sabe, servir de parâmetro para outros países (inaudível).

Jornalista: Mas se levarmos em conta que a demanda mundial exige que o Brasil produza (inaudível) grãos, e que tem 30 milhões de moradores na Amazônia? Parece um desafio insolúvel. Não seria mais sincero dizer que não é possível deter o desmatamento?

Presidente: É possível. Por que é possível? Primeiro, porque nós temos que permitir que a floresta seja um bem para quem mora na Amazônia, e para o Brasil. Segundo, nós temos que ter consciência de que os 23 milhões de habitantes que moram na Amazônia têm direito a ter carro, televisão, geladeira e a trabalhar. Então, nós precisamos levar indústrias limpas para a Amazônia, e não levar indústrias poluidoras. Segundo, nós temos que fazer da floresta uma forma de ganhar dinheiro para muita gente que mora na floresta. Por isso é que nós estamos fazendo com que o manejo da terra possa permitir que as pessoas explorem a madeira para sobreviver. Ao mesmo tempo, nós temos criado muitas reservas extrativistas, para permitir que o seringueiro, por exemplo, possa trabalhar tranqüilamente. Mas muito mais importante do que isso é que o Brasil não precisa desmatar a Amazônia para plantar. Nós somos um país que tem 400 milhões de hectares de terras, fora os 360 milhões da Amazônia. Desses 400 milhões de hectares de terras, nós utilizamos apenas 1% para plantar cana. Nós temos mais de 60 milhões de hectares de terras degradadas, que eram pastos, e pode-se tranqüilamente plantar soja, plantar o que se quiser. Pode-se fazer uma combinação de utilização das terras degradadas no País e plantar o que se quiser. Nós vamos preservar os biomas da Mata Atlântica, da Amazônia, do cerrado e, ao mesmo tempo, tem que ter a preocupação de gerar empregos. Nós agora vamos fazer uma programa de titulação da terra, nós vamos resolver a questão fundiária na Amazônia para garantir que as pessoas que já têm a terra tenham o seu título, para a gente poder mapear o que já é propriedade e o que nós temos que preservar. Eu sou um otimista. Nós vamos ter uma reunião agora com os governadores e os prefeitos dos lugares que têm mais desmatamento, para que a gente possa colocar o prefeito como o primeiro defensor para evitar o desmatamento. Agora, ao mesmo tempo, nesse debate climático, nós temos que chamar os países desenvolvidos à responsabilidade. Os países desenvolvidos ficam olhando para a Amazônia, ficam olhando para a África, e não olham para o seu próprio nariz, não cumprem o Protocolo de Quioto. Cadê a inovação da matriz energética do mundo? O Brasil apresentou o biocombustível. Aqui no Brasil, o Inmetro – e você pode se informar disso com o próprio Inmetro – nós fizemos um teste com um carro à gasolina e um carro a álcool, o mesmo carro, o mesmo motor e a mesma velocidade. O carro a álcool emite 8,5 menos CO2 do que o carro à gasolina. Então, o mundo rico precisa primeiro cumprir o Protocolo de Quioto corretamente. Segundo, o mundo rico precisa entender que para ajudar os países pobres a preservar, alguém tem que pagar.

Jornalista: Seria uma solução internacionalizar a Amazônia?

Presidente: Não, a Amazônia é brasileira, é verde-amarela. Não queremos nada… o que nós queremos é que os benefícios da riqueza da biodiversidade da Amazônia sejam repartidos com o mundo. Isso é o que nós queremos.

Jornalista: O ano que vem é o Ano da França no Brasil. O que representa a França para o cidadão brasileiro? Que idéia exatamente chega na cabeça do senhor?

Presidente: Eu penso que muito, muito pela Revolução Francesa, o Brasil gosta muito da França, e eu tenho convicção de que os franceses gostam do Brasil. Pelo menos eu vi, lá, no Ano do Brasil na França, o carinho que o povo francês tinha com o povo brasileiro. Aqui no Brasil, no meio que eu freqüento, todo mundo gosta de ir a Paris, todo mundo admira o vinho da França, todo mundo conhece alguma coisa da Revolução Francesa. Então, eu acho que a França tem uma irmandade com o Brasil ainda pouco explorada. Ela está muito mais em nível intelectual, artístico, cultural…

Jornalista: Futebolístico…

Presidente: … e não está assim na grande sociedade. Não no futebol. Depois de a gente ganhar de vocês em 1958, vocês ganharam de nós em 1998 e 2006, o que não foi muito bom. E ainda tiraram a gente da Copa do Mundo de 1986, com o Platini…

Jornalista: O que o Presidente acha, Platini ou Zidane é melhor jogador?

Presidente: Eu acho o Zidane uma coisa excepcional. Eu acho o Zidane. Aliás, eu ganhei de presente um filme, um DVD sobre o Zidane. Eu acho o Zidane um dos atletas mais perfeitos que vi jogar na vida.

Jornalista: Numero 1?

Presidente: Número 1 ninguém nunca vai ser, porque o Pelé será sempre invencível. Aliás, você precisa ver o filme do Pelé. Tem um filme chamado “Pelé Eterno” que você, que gosta de futebol, não pode perder.

Jornalista: Quais são as prioridades (inaudível)… da França-Brasil? Vamos falar agora um pouco (inaudível)

Presidente: Primeiro, é importante lembrar que o presidente Sarkozy vem aqui com dupla personalidade: ele vem aqui como presidente da França e, ao mesmo tempo, ele vem como presidente da União Européia. Em um momento nós vamos discutir a relação estratégica Brasil-União Européia, e em outro momento nós vamos discutir a relação estratégica entre França e Brasil. O Brasil e a França têm um potencial comercial muito maior do que o que nós vendemos e compramos hoje, muito maior. Eu tenho dito ao presidente Sarkozy que a França tem que olhar o Brasil com mais carinho porque a França tem o privilégio de ser o único país do mundo europeu a fazer fronteira com o Brasil. A França se dá ao luxo de ser um país europeu e ser um país latino-americano, sul-americano, e isso eu acho que a França não explorou direito ainda, não explorou. Por isso a minha pressa na discussão com o presidente Sarkozy, para a gente concluir a ponte do Oiapoque no nosso mandato. Mas eu descobri que a burocracia francesa e a brasileira são iguais. Eu percebi que a burocracia é internacionalizada, é universal. Eu descobri três coisas: a Igreja Católica é uma instituição universal, as Forças Armadas são uma instituição universal, e agora eu descobri que a burocracia é uma instituição universal, ela é a mesma coisa em qualquer país do mundo. Mas parece que nós já vencemos todas as barreiras. Agora em novembro teve a licitação, e eu penso que eu e o Sarkozy vamos ter o privilégio de inaugurar essa ponte antes de terminar o meu mandato. A segunda coisa que eu tinha proposto ao Sarkozy, e ele já recebeu o material para estudo, é que nós precisaríamos criar um centro binacional entre Brasil e França para estudar a biodiversidade da Amazônia, já que a França tem uma parte da França na região da Amazônia. A coisa em que nós temos interesse muito forte com a França é na área de defesa. Na área de defesa nós temos muito interesse em ter parceria com a França, porque a França é o único país que se propõe a fazer conosco uma transferência de tecnologia. Por exemplo…

Jornalista: Está fechada já a parceria?

Presidente: Não, nós vamos fechar. Eu espero que a gente conclua tudo na vinda do Sarkozy aqui. Nós já começamos agora com o avião Cougar… como é que se chama?

__________: (inaudível)

Presidente: Não, não, o nosso helicóptero…

__________: o Cougar.

Presidente: O Cougar. A Eurocopter veio aqui e nós já assinamos o acordo para fazer a produção de helicópteros em Minas Gerais, em Itajubá, para produzir os helicópteros mais modernos que a França tem, com transferência de tecnologia para ser produzida no Brasil. Nós estamos interessados nos aviões mais modernos que a França tem, para substituir os Mirage. Nós temos interesse no submarino nuclear. E tudo isso nós estamos trabalhando com o governo francês e com o Ministro da Defesa da França, para ver se a gente conclui um pacote em que a gente possa trabalhar em conjunto. Eu acho que seria importante para a França, importante para o Brasil. Eu acho que a França tem que olhar para o Brasil como um parceiro estratégico…

Jornalista: E isso será anunciado durante a visita …

Presidente: Eu espero que a gente tenha tudo concluído para anunciar na vinda do Sarkozy aqui.

Jornalista: Como o senhor acha que a crise vai afetar o Brasil e se o petróleo brasileiro pode salvar o Brasil nos anos que virão?

Presidente: Isso aqui foi para vocês terem uma idéia do conjunto das coisas que nós (inaudível)…

Jornalista: Ok, (inaudível)

Presidente: Bem, é a crise.

Jornalista: A previsão de 0,5% de crescimento do PIB (Inaudível)

Presidente: Não sei se (inaudível) previsão de 0,5%…

Jornalista: (inaudível)

__________: Em um cenário mais pessimista…

Presidente: Na verdade, aí tem a má-fé. O que aconteceu, na verdade? Houve um estudo que mostra três cenários da crise no mundo. Um cenário bom, um cenário razoável e um cenário péssimo. Qual é o cenário péssimo? Um crescimento de 0,5%, não é isso? O bom é de crescimento de 3%. E qual foi a manchete do jornal? “O Brasil só vai crescer 0,5%”, numa demonstração de que essa crise, tanto na França, quanto no Brasil tem dimensões diferenciadas. A crise bate muito mais forte nos países ricos do que nos países emergentes, primeira constatação. Por quê? Porque a crise nasceu lá, pela falta de controle do sistema financeiro. Foi por isso que eu disse, no meu discurso da ONU: chegou a hora da política. Os políticos não podem continuar a entender que o mercado pode tudo. O mercado tem sua importância, mas o Estado tem que ser o indutor e o regulador de muitas das políticas aplicadas no país. O que aconteceu no mundo é que o sistema financeiro ficou totalmente livre, sem que houvesse nenhum controle. Enquanto no Brasil um banco de investimentos só pode alavancar até seis vezes e meia do seu patrimônio líquido, nos Estados Unidos chegou a 35 vezes, ou seja, as pessoas começaram a emprestar o que não tinham, começaram a financiar o que não podiam dar garantia. Então, a crise é muito mais profunda nos países ricos. A crise aqui no Brasil pode ter um problema maior pela diminuição do crédito. Ou seja, na medida em que o dinheiro se torna escasso no mundo, aqueles que se financiavam com dólar estão tendo mais dificuldades. Agora, nós já tomamos todas as medidas que temos que tomar. Acho que poucos países tomaram as medidas… alguns países tomaram medidas, colocaram dinheiro, para quê? Para salvar os bancos. Nós não colocamos dinheiro para salvar bancos, não colocamos 1 dólar. O que nós fizemos? Nós liberamos quase 100 bilhões de compulsório para irrigar o crédito, nós pedimos para os bancos públicos brasileiros comprar carteiras de bancos menores que podiam ter problema, e nós resolvemos cuidar das nossas exportações aumentando o ACC, ou seja, garantindo que as pessoas tenham exportação. Com todas essas medidas que nós tomamos, nós colocamos dinheiro para a indústria automobilística, nós colocamos… por que a indústria automobilística? Porque ela tem uma cadeia produtiva muito grande e representa 24% do PIB industrial. Nós colocamos dinheiro para a construção civil, para financiar capital de giro; nós colocamos dinheiro para garantir a produção agrícola e nós colocamos dinheiro para capital de giro para a pequena e média empresa. Agora, com todas essas medidas que nós tomamos, elogiadas por todos, até pelos adversários, a verdade é que parte desse dinheiro ainda não chegou à ponta. Neste momento em que nós estamos conversando, daqui a pouco eu vou ter uma reunião com o Banco Central e com o Ministro da Fazenda para discutir como fazer o dinheiro chegar à ponta. O Brasil leva uma vantagem que poucos países do mundo têm: nós temos alguns bancos públicos muito importantes, nós temos o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o BNDES, o BNB e o Basa. Os bancos públicos brasileiros são responsáveis por 40% do crédito no Brasil. Esses bancos estão capitalizados, esses bancos têm dinheiro e esses bancos vão emprestar. A outra vantagem que o Brasil tem é que nós temos um mercado interno em ascendência, com muitas possibilidades. Aí a gente tem que olhar para o presidente Roosevelt: em época de crise, você não se retrai, você investe mais. Nós temos um programa de investimentos, um programa chamado PAC, que você já ouviu falar, e nós queremos gastar todo o dinheiro até 2010.

Jornalista: E acima disso o senhor ainda tem a vantagem de ter reservas enormes para isso. Que perspectivas essas reservas abrem para o Brasil?

Presidente: Essa reserva é uma garantia. A nossa…

__________: reserva de petróleo (Inaudível)

Jornalista: (inaudível) petróleo, (inaudível) pré-sal…

Presidente: Mas nós temos US$ 207 bilhões de reservas no Banco Central, coisa que nem todo país tem. Nós temos um programa de construção de muita coisa na área de petróleo. Os investimentos da Petrobras, até 2010, serão de US$ 112 bilhões, e nós não vamos parar um centavo, nós vamos investir tudo que tiver que investir. Se for necessário, o Tesouro vai ter que encontrar um jeito de ajudar a financiar esses projetos, porque nós não queremos que eles parem. E eu tenho sido uma espécie de garoto-propaganda. Qual é o problema? Na medida em que as pessoas falam de crise, de crise, de crise e de crise, se você estivesse com vontade de comprar um carro, mesmo se você tivesse estabilidade no emprego, você não iria comprar. Por quê? Porque você não sabe o tamanho da crise e quer ter uma reserva. Se você é um trabalhador que não tem estabilidade, você fala: “eu não vou comprar porque se eu perder o emprego eu não vou ter como pagar”. Então, eu tenho dito: você vai perder o emprego exatamente porque não comprou. Na hora em que a sociedade não compra, o comércio não vende e a indústria não produz. A indústria não produzindo e o comércio não vendendo, o trabalhador vai ser mandado embora. Então, eu tenho dito que a melhor de ele garantir o emprego é consumir as coisas que ele precisa consumir.

Jornalista: E esse país tem a cultura do consumo, que é uma vantagem bem grande.

Presidente: É porque falta muita coisa para nós, nós ainda temos muita gente que precisa de tudo. Eu estou convencido… agora eu vou dizer uma coisa, não com otimismo, eu vou dizer uma coisa que eu penso, acredito e trabalho com isso: o Brasil é hoje o país que mais está preparado para enfrentar essa crise, de todo o G-20. Estou falando olhando nos seus olhos, aqui, que o Brasil é hoje o país mais preparado para enfrentar essa crise. Somente o tempo é que vai permitir dizer se eu tinha razão ou não, mas eu estou convencido disso. O meu desafio é passar esse meu otimismo para a sociedade.

Jornalista: (Inaudível)

Presidente: Acho. Primeiro, o Brasil agora poderia servir de modelo, porque a nossa dívida pública representa apenas 36% do PIB. Poucos países no mundo têm uma dívida pública tão pequena. Segundo, nós temos mais reservas do que a nossa dívida externa. Terceiro, nós temos um sistema financeiro muito moderno. Qualquer país do mundo poderia olhar o sistema financeiro brasileiro e adotá-lo como exemplo. Quarto, nós precisamos fazer uma regulação do sistema financeiro internacional, com a visão de que o sistema financeiro tem que existir para ajudar o setor produtivo, umbilicalmente ligado ao setor produtivo. Nós não podemos mais ficar com o sistema financeiro vendendo papéis, papéis e papéis, sem produzir um lápis, sem produzir uma caneta. Por que o petróleo chegou a US$ 150 o barril? Você sabe o que os presidentes diziam para mim? O presidente da Petrobras, o presidente Chávez, todos com quem eu conversava, sabe o que diziam para mim: “é por causa da China”.

Pois bem, um belo dia eu fui a uma reunião do G-8 e levantei a questão do preço dos alimentos e do petróleo no mercado futuro. O que aconteceu, na verdade? Tinha no mercado futuro a mesma quantidade de barris de petróleo que a China consumia. A China continua consumindo petróleo e o petróleo caiu para pouco mais de US$ 50 o barril. Qual é a explicação, senão a especulação? Por que os preços dos alimentos subiram, de forma excepcional, entre maio, junho e julho deste ano? A gente poderia dizer que uma parte disso é porque o povo pobre começou a comer mais, correto? No caso do Brasil, a produção agrícola sempre cresceu. Mas na outra parte, você pode dizer: é porque as pessoas que estavam no subprime foram para o mercado futuro de alimentos, e começaram a especular com alimentos que iriam ser produzidos em 2010, 2011, 2012, ou seja, o mundo não pode dar certo assim. Por isso é que eu acho que depois da reunião do G-20 será inexorável a regulação do sistema financeiro mundial. Ou seja, o sistema financeiro tem que se prestar a ajudar a economia crescer. É preciso acabar com esse tal de bônus, com essas metas, que um bando de yuppies no mundo projetavam uma meta, vendiam papéis e mais papéis, mais papéis e mais papéis, não produziam um centavo e no final do ano ganhavam verdadeiras fortunas por terem atingido uma meta virtual, que não tinha nada a ver com o crescimento produtivo de cada país.

O crescimento da economia tem que estar subordinado à produção. Vejam que absurdo: teve um erro em um jornal – eu não sei se… – desses, que publicou o seguinte: o PIB mundial é de US$ 65 trilhões, e o dinheiro que circulava, de papéis, era US$ 650 trilhões. Onde é que está esse dinheiro que desapareceu? Se fosse todo para as Ilhas Cayman, ela já tinha afundado. Não caberia tudo nas Ilhas Cayman. Na verdade, nós dirigentes, Sarkozy, Obama, Hu Jintao, primeiro-ministro Singh, eu, todos, nós temos que assumir a responsabilidade de que nós fomos eleitos para dirigir países, nós é que fomos para a rua pedir voto, nós é que assumimos compromissos com o povo, e por isso nós temos o direito de exigir que o sistema financeiro seja sério.

Jornalista: Depois de dezembro de 2010 o que você vai fazer e como quer ser lembrado?

Presidente: Se eu estiver vivo, já agradeço a Deus por estar vivo. Eu não penso nisso. Acho que se eu, que tenho dois anos de mandato, começar a me preocupar com o que eu vou fazer depois que deixar a Presidência, eu vou ter uma preocupação a mais na minha vida. Sabe aquela música do Zeca Pagodinho, “Deixa a Vida Me Levar”? Você conhece? Então escute. Eu prefiro deixar a vida me levar. Quando eu terminar o meu mandato, vou pensar o que fazer. O que eu quero é trabalhar muito nesses dois anos para concluir todos os programas que nós nos determinamos a cumprir. Se eu fizer isso, espero que quem for eleito aqui no Brasil, possa fazer muito mais do que eu porque encontrou um país muito melhor do que eu encontrei. Esse é o meu desejo. E aí eu vou cuidar da minha vida.

É importante lembrar que eu vivi 55 anos sem ser presidente. Estou há 8 anos como presidente, e posso muito bem viver o resto da minha vida tranqüilo, sem ser presidente, sem me preocupar muito com o que eu vou fazer. Eu sou um homem de baixo consumo, as coisas na minha vida são muito modestas, nunca deixei me iludir pelo exercício do cargo da Presidência, não aumentou um milímetro o meu ego ser Presidente da República, pelo contrário, aumentou muito a minha responsabilidade, aumentou muito a minha jornada de trabalho. Quando eu trabalhava na fábrica eu sabia que eu entrava às 8h, eu sabia que eu saía às 6h, e eu sabia que eu tinha sábado e domingo livres, sabia que a imprensa não me conhecia, portanto eu era um homem muito tranqüilo. Hoje não tenho hora para entrar, não tenho hora para sair, não tenho sábado, não tenho domingo e ganho menos do que eu ganhava quando eu não era presidente. Então, eu estou tranqüilo para tocar a minha vida.

Se você quiser ir ao Pronasci amanhã, eu vou sair daqui às 8hs da manhã. Você acerta com o Nelson. Eu acho que seria importante você conhecer…lá no Complexo do Alemão. É um desafio. Nós vamos entrar no Complexo do Alemão, Manguinhos, Rocinha, Pavão-Pavãozinho.

—————-: Amanhã é só o Complexo do Alemão.

Presidente: …Complexo do Alemão. Estou convencido de que somente com políticas públicas lá dentro é que o Estado vai diminuir o narcotráfico, o crime organizado e a violência. Na hora em que um moleque de 14 anos perceber que ele tem um outro caminho a ser seguido, ele não vai seguir o da criminalidade.

Jornalista: Muito obrigado.

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