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Jornalista: A pergunta é para o Presidente Lula e para o Presidente Sarkozy também. Ontem, senhor Presidente, o senhor demonstrou otimismo ao dizer que o Brasil está preparado para encarar as turbulências, enfim, o senhor trabalha com a projeção de 4% de crescimento. O que o senhor tem a dizer a respeito desse anúncio de hoje da redução de 40 mil postos de trabalho no Brasil, e o que é possível fazer para que isso continue sendo um caminho de otimismo? O que o Presidente Sarkozy teria a dizer quanto a esse fato? Um adendo para o Presidente Sarkozy: saber se a França vai fazer algum pacote de incentivo para as montadoras do seu país.

Presidente: Primeiro, (quero) dizer que de janeiro de 2007 a outubro de 2008, nós geramos aqui no Brasil 4 milhões de empregos com carteira profissional assinada. Somente do dia 1º de janeiro de 2008 a outubro de 2008, nós geramos, em 10 meses, 2 milhões e 200 mil empregos com carteira profissional assinada. Esse número, por si só, demonstra o que aconteceu nos últimos seis anos no Brasil, quando mais de 11 milhões de empregos com carteira assinada foram realizados no Brasil.

Quando a crise econômica eclodiu, sobretudo depois da quebra do sistema financeiro americano, o Brasil talvez tenha sido um dos países do mundo que mais rapidamente tomou todas as medidas para evitar que a crise chegasse à economia real. O que nós não temos controle, é do problema do crédito internacional, que desapareceu porque em poucos meses US$ 31 trilhões desapareceram das Bolsas de Valores, os países mais ricos foram obrigados a colocar US$ 600 bilhões para ver se salvavam o sistema financeiro, e no Brasil, mesmo a gente tendo um sistema financeiro estável, que não estava envolvido no subprime, um sistema financeiro com disponibilidade de crédito, 30% do crédito brasileiro era captado no exterior. Na medida em que secou a fonte de crédito no exterior, esses 30% que captavam no exterior vieram captar no Brasil, e obviamente que não tinha dinheiro para todo mundo, porque estávamos acostumados a financiar 70% do crédito brasileiro.

Mesmo assim, o jornalista deve ter acompanhado as decisões rápidas que nós tomamos em liberar o compulsório, para tentar fazer fluir a linha de crédito, sobretudo nos setores considerados mais nervosos da economia. A indústria automobilística, pela sua importância no PIB industrial… A indústria automobilística brasileira significa 24% do PIB industrial. Depois nós precisaríamos irrigar o setor da construção civil, depois a pequena e média empresa com capital de giro, e depois a agricultura. Nós tomamos todas as medidas que tínhamos que tomar, e eu talvez tenha sido o brasileiro, na história da Independência do Brasil, que mais tenha feito propaganda pelo consumo, para tentar tirar da cabeça da sociedade o pânico que se criou na sociedade brasileira, e hoje eu sei que o pânico é mundial.

Eu tenho dito publicamente aos trabalhadores brasileiros que se tiverem que comprar, comprem, porque se não comprarem vão perder o seu emprego. Aliás, tenho dito até para os jornalistas: se não houver um crescimento da economia e houver uma perda de publicidade, também o jornalista perderá o emprego dele. Eu tenho tentado fazer essa campanha e vou continuar fazendo porque acredito no potencial do Brasil, acho que o Brasil é o país que está melhor preparado para enfrentar essa crise, e anunciaremos quantas medidas forem necessárias para que o Brasil possa retomar o seu crescimento.

É importante também lembrar que eu dizia durante o tempo todo: graças a Deus, o Brasil diversificou as suas relações comerciais, e hoje nós não dependemos apenas de um país ou de dois países. Graças a essa diversificação das nossas relações comerciais, nós, que já chegamos a ter quase 30% de balança comercial com os Estados Unidos, temos hoje 14%. Ou seja, isso nos permite muito maior mobilidade, e é por isso que nós crescemos na América Latina, crescemos na África, crescemos na Ásia, crescemos no Oriente Médio, e isso permite que o Brasil seja um país com maior tranqüilidade. Obviamente que na hora em que falta crédito para uma pessoa comprar e falta crédito para uma pequena empresa tocar a sua empresa, alguma coisa pode acontecer. Se foi isso o que causou (falha na gravação) empregos que eu vi na manchete de um jornal hoje, eu estou certo de que nós iremos recuperar alguns 40 mil empregos no ano que vem, porque é isso que está garantido no PAC, é isso que está garantido nas políticas de desenvolvimento do governo e é isso que está garantido nos novos programas que nós poderemos anunciar no próximo ano.

Eu quero dizer ao meu amigo jornalista que a crise a gente não enfrenta com choradeira ou com pessimismo. A gente enfrenta com investimento e com trabalho, e é isso o que eu vou continuar fazendo porque acredito no potencial do Brasil.

Jornalista: (inaudível)

Presidente: Nunca é prudente um Presidente da República comentar a resposta do outro presidente. Na conversa que tivemos ontem com o presidente Durão Barroso e com o Presidente Sarkozy, na verdade nós reivindicamos que pudéssemos manter um diálogo de alto nível, para que a gente pudesse resolver esses problemas na medida em que eles comecem a se apresentar.

No caso do Brasil, nós tivemos um problema com a Espanha, resolvemos; tivemos um problema com Portugal, menor, nós resolvemos. O importante é que a gente compreenda que esse tema tem dimensões políticas diferenciadas, dependendo do país, dependendo do momento. Em época de crise econômica isso ganha uma dimensão muito maior, porque as políticas internas de cada país vão começar a ouvir os sindicatos, vão começar a ouvir os trabalhadores dizerem que não querem migrantes porque estão tirando o emprego deles. Isso, obviamente, poderia acontecer em qualquer país do mundo.

Como se trata do direito de ir e vir das pessoas, como se trata dos direitos humanos, é importante que a gente não perca de vista a necessidade de manter diálogo de alto nível para que a gente possa resolver, na medida em que os casos forem aparecendo.

Jornalista: A minha pergunta eu também faço em nome dos colegas, para os dois presidentes. Ontem, alguns empresários, durante o evento, criticaram um pouco a postura do Brasil em relação ao Mercosul. Eles pediram, por exemplo, que o País tivesse uma atitude mais independente em relação ao Bloco e que ficasse livre para fazer acordos com outras economias. Eu pergunto se o senhor concorda com essa tese de que o Mercosul estaria, digamos, atrapalhando o futuro comercial do País e se essa situação poderia ficar ainda um pouco mais complicada com a entrada da Venezuela.

Presidente: Esta pergunta não poderia vir em melhor momento. Alguém que possa ter feito essa afirmação deve ter uma boa carga de preconceito, que nós já derrotamos, na relação do Brasil com os países da América Latina. Nós temos algumas pessoas no Brasil que gostariam que nós ficássemos apenas olhando os Estados Unidos, olhando a Europa, olhando o Japão, e que a gente não olhasse para a América Latina, que hoje é onde tem o maior fluxo comercial do Brasil, é exatamente com a América Latina e com o Mercosul.

O Brasil entende que o Mercosul é extremamente importante, não apenas do ponto de vista comercial, mas do ponto de vista político. O nosso país tem fronteiras com países pequenos, com países mais pobres do que o Brasil, com países com menos potencial tecnológico do que o Brasil, e nós temos obrigação política, econômica, moral e ética de ajudar esses países a se desenvolverem, a comercializar com eles. Senão, não tem sentido o Brasil ficar apenas comerciando com os países ricos e os países mais pobres aqui, ficarem cada vez mais pobres.

Para nós, é estratégica a relação com a América do Sul, é estratégico o Mercosul, é estratégica a nossa relação com a França, é estratégica com a Europa, como é estratégica com a África. Não pensem que nós vamos democratizar… não pensem que nós vamos ver a África ser democratizada, se a gente não cuidar de ajudar o desenvolvimento econômico da África. Não existe democracia no mundo que suporte a fome de gerações e gerações.

Portanto, são países como o Brasil, como a França, como os Estados Unidos, como toda a União Européia, como o Japão, são os países que têm o maior potencial que têm que cuidar com mais carinho dos países que ainda não conseguiram se desenvolver. Senão vai aumentar a migração, senão vai aumentar a luta interna, senão vai ter guerrilha, senão vai ter convulsão social. Se nós queremos construir um mundo de paz, nós temos que olhar primeiro para dentro da nossa casa, e o Mercosul é a nossa casa. Portanto, vamos cuidar com carinho.

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