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Presidente: Deixe-me dizer uma coisa aqui. Eu penso que é extremamente importante compreender essa questão do presidente Obama. Eu acho que… na reunião que fizemos em Sauípe, no meu discurso eu fiz questão de dizer que o Obama vai provar a diferença do mandato que ele vai exercer nos Estados Unidos, se tiver alguns gestos. O primeiro gesto dele é dizer qual será a política americana para a América Latina e Caribe e qual a política dele para a África. A segunda coisa que eu acho importante, é dizer qual a razão do bloqueio a Cuba. Eu acho que não é Cuba que tem que pedir o fim do bloqueio. Haverá um momento em que os Estados Unidos compreenderão que não existe mais justificativa política, ética, militar para manter o bloqueio a um país que a única coisa que fez de mal foi conquistar sua liberdade. E está se criando um consenso em todos os países da América Latina e do Caribe e, eu diria, do mundo. Não há explicação.

Se houve um momento em que depois da revolução houve a história do míssil soviético em Cuba, que levou os americanos a dizerem “vamos bloquear”, isso acabou há 50 anos. O mundo precisa viver em paz, viver na diversidade, viver democraticamente. Eu acho que o Obama, a vitória dele nos Estados Unidos, para mim significa muito, porque não é pouca coisa um negro ser eleito presidente dos Estados Unidos da América do Norte, e ele foi eleito e isso faz a diferença. Ele vai tomar posse no dia 20 e aí é que eu espero que haja também a diferença no comportamento com relação à América Latina e ao Caribe. Eu acho que não é Cuba que tem que fazer gesto. Quem tem que fazer gesto é o governo americano, que foi quem fez o gesto para bloquear. É só dizer “não tem mais bloqueio”, que está tudo resolvido.

A segunda coisa que eu acho extremamente importante – e é um problema que eu tenho a convicção de que o presidente Obama vai se interessar muito – é a sustentabilidade econômica dos países da América Latina e, sobretudo, da América Central, que depende da economia americana. É preciso que se tenha medidas concretas – e eu espero e torço para que o Obama tenha – de ajudar os países pequenos da América Central que dependem quase exclusivamente da economia americana, que os ajude a não serem vítimas da crise econômica causada pelos Estados Unidos.

A terceira coisa que eu considero extremamente importante, e eu acho que os Estados Unidos, a Europa e o mundo, a imprensa brasileira, os intelectuais do mundo vão compreender que o que aconteceu na Bahia esta semana não é pouca coisa. Há 200 anos da conquista da independência de muitos países da América Latina e do Caribe, nunca havia tido uma reunião de todos esses países, porque só se reuniam quando o Estado americano permitia.

Hoje, por livre e espontânea vontade, todos os países se reuniram, falaram, discursaram e, por unanimidade, todos eles acham que é preciso que haja organismos multilaterais da América Latina e do Caribe sem precisar ficar dependendo de recorrer à Corte de Haia para resolver um problema na América Latina, de recorrer à OEA para resolver um problema entre Brasil e Uruguai, Brasil e Paraguai, Brasil e Argentina, que a gente tenha um organismo bilateral nosso. Essas coisas não acontecem com facilidade, mas estejam certos de que vão acontecer muito mais rápido do que em qualquer momento já foi pensado pelos governantes.

Eu acredito piamente que, por todas as conversas que temos tido com os governantes, há uma consciência de que essa crise é uma grande oportunidade para que a gente repense a ordem econômica implantada no século XX, no pós-guerra, que continua estabelecendo a lógica da economia.

Essa crise vai nos obrigar a pensar e repensar que outras formas de fazer política econômica, política de desenvolvimento vai precisar, que outras relações comerciais e bilaterais vão ter que ter entre os países. Porque antes todo mundo ficava dependendo do potencial de compra da Europa e dos Estados Unidos. Um pouco mais à frente, do potencial de compra da China. Mas agora nós temos que começar a pensar entre nós: o que fazer para nos ajudar? Quanta coisa existe de similaridade entre nós, coisas que nós não aproveitamos, que nunca discutimos. E as coisas estão evoluindo.

Esse encontro de Sauípe – e olha que eu já participei de muita reunião de Chefes de Estado – trouxe uma coisa importante: trouxe Cuba para ser membro permanente do Grupo do Rio. E também é importante lembrar que nós não estamos defendendo a volta de Cuba à OEA, porque Cuba não quer voltar. O que nós estamos dizendo é que seja feita uma reparação do que aconteceu quando tiraram Cuba, em 1962. É apenas uma reparação, porque em algum momento histórico as pessoas têm que começar a pedir desculpas aos países, aos povos, pelos erros cometidos.

Eu não tive vergonha de ir à África e pedir desculpas ao povo africano por 300 anos de escravidão aqui no Brasil. Não tive nenhuma vergonha, porque eu acho que a desculpa faz parte da grandeza dos homens e das mulheres.

Agora, na política dos países ricos, essa palavra não existe. Agora mesmo tem uma crise profunda, ou seja, nós estamos nos matando para fazer com que essa crise não chegue ao povo pobre dos países da América Latina. Estamos colocando dinheiro na economia para reativar a produção. E lá, até agora, a única que eu sei é que eles estão colocando dinheiro para salvar banco. Ou seja, se esse dinheiro fosse pouco, fosse colocado para a indústria, para a agricultura, para os pobres, criassem um Bolsa Família, certamente nós não teríamos a crise se aprofundando.

Então, eu tenho a expectativa de que com o Presidente Obama a política americana vai ser melhor. Porque a única explicação que eu tenho para a manutenção do bloqueio, é a quantidade de eleitores cubanos que tem na Flórida. É a única explicação, não existe outra.

Agora, como ele ganhou as eleições e vai demorar quatro anos para ter outra eleição, isso pode ser mudado no primeiro ano.

Jornalista: (em espanhol)

Presidente: E ganhou na Flórida. É importante. Manter a base de Guatánamo não tem sentido.

Então, eu estou muito feliz com a visita do presidente Raúl Castro. É a primeira visita de um chefe de Estado cubano, como Chefe de Estado, ao Brasil, oficial. E para nós é muito gratificante e importante. Eu espero que essa seja a primeira de uma série de visitas. O Brasil vai continuar cooperando.

Agora, eu queria pedir para vocês que o presidente Raúl Castro tem uma agenda complicada. E depois eu volto aqui. E depois nós vamos oferecer um churrasco para ele à noite. Eu volto aqui. Isso aqui está parecendo uma sessão de tortura. Essa lua aqui, na frente… Eu vou colocar o jornalista que faz a pergunta na frente dessa lâmpada. Sabe o que ele vai fazer? Ele vai entrar com um processo na Justiça do Trabalho para pegar insalubridade.

Jornalista: O Presidente Raúl?

Presidente: Não, o jornalista.

Jornalista: Presidente, o senhor anunciou várias medidas aí, para irrigar o crédito, para evitar demissões, mas as empresas estão ameaçando os trabalhadores.

Presidente: Vejam, vamos ter claro o seguinte: quem está colhendo o que nós estamos colhendo no Brasil, do ponto de vista da oferta de emprego no ano de 2008, tem que estar muito tranqüilo, porque em 10 meses foram criados quase 2 milhões e 200 mil empregos. Vocês pensam que o número é pequeno? O Obama está prometendo, de janeiro, quando ele tomar posse, até 2011, 2 milhões de empregos. Portanto, nós criamos isso em 10 meses.

Agora, nós estamos vivendo um momento que é o momento de Natal. Nessa época já pararam as contratações nas indústrias, porque as indústrias produzem bastante até outubro, e fazem estoque para vender no Natal. Depois nós vamos ver o que vai acontecer em janeiro ou fevereiro, que são os meses que eu acho que a gente vai ter um sinal mais forte da economia.

As medidas que nós estamos anunciando agora são medidas, exatamente, preventivas, para que a gente possa estimular a continuidade dos investimentos no primeiro trimestre de 2009.

Eu quero dizer para vocês que estou convencido de que essa crise é uma oportunidade sem precedentes para que o Brasil se firme mundialmente como um país dono do seu nariz, como um país que pode ser exemplo para os outros de como sair de situações difíceis.

Por isso ainda não me preocupo. Obviamente eu já sofri crise de desemprego, já fiquei desempregado um ano e seis meses, então sei o que significa o desemprego para os trabalhadores. Mas eu acho que desta vez não vai acontecer isso porque eu estou convencido de que o mundo inteiro, inclusive os Estados Unidos, deve ser o principal interessado em acabar logo com essa crise. Uma crise da magnitude dessa, se não for resolvida logo, ela pode trazer problemas enormes na área social, e eu acho que Obama não vai querer conviver com isso muito tempo.

Jornalista: (inaudível)

Presidente: Deixem-me dizer uma coisa para vocês. Eu não sei de onde saiu essa notícia, porque de vez em quando alguém cria uma coisa e essa coisa passa a ter um tom de verdade. Não é papel do governo fazer aquilo que os trabalhadores têm que fazer com os empresários. Qualquer acordo entre trabalhadores e empresários será dirigido pelos trabalhadores e pelos empresários. Se, em alguma situação, os trabalhadores quiserem a participação ou a intermediação do governo, nós estaremos prontos. Mas nós achamos que esse problema é dos trabalhadores e dos empresários, não é uma coisa do governo.

Vocês estão lembrados de que vocês estavam cumprindo um ato no Palácio do Planalto, quando os trabalhadores vieram pedir para mim a redução da jornada de trabalho, e eu falei: saiam às ruas, peguem abaixo-assinado e entrem com um projeto de lei de iniciativa popular, porque é a melhor solução. Não fiquem esperando que o governo faça tudo. O governo vai fazer de tudo para evitar que a crise atinja o mercado de trabalho. Agora, na hora que, por qualquer circunstância, uma empresa estiver em crise, essa empresa e o sindicato se coloquem de acordo e, com muita maturidade, evitem que os trabalhadores sejam penalizados.

Jornalista: Agora, Presidente, alguns empresários sugeriram que o governo pague o seguro-desemprego aos trabalhadores por algum período. Essa proposta está sendo discutida no governo? O senhor acha…

Presidente: Eu acho que é muito engraçado… eu acho que uma parte dos empresários poderia pagar com a parte dos lucros que acumularam. O governo não vai deixar de assumir a responsabilidade de cuidar dos trabalhadores, mas nenhum empresário ainda tem motivo para mandar qualquer trabalhador embora. Se você não tiver a compreensão de que todo mundo está preocupado com essa crise e que todos nós, tanto empresários, quanto governo, quanto trabalhadores, temos que ter como prioridade evitar que a parte mais fraca da cadeia seja prejudicada, não há nenhuma razão para os trabalhadores serem mandados embora. É só vocês analisarem os números do comércio, é só vocês verem como está o final de ano, é só vocês verem o que aconteceu na Feira do Automóvel no final de semana passado. Acho que todos os jornalistas vão agora comprar um carro novo, porque o preço está barato, aumentou o número de prestações.

Então, o papel do empresário agora não é ficar encontrando um jeito de continuar mantendo o mesmo lucro. O papel do empresário agora é trabalhar de forma muito rápida, junto com o governo, para que a gente evite que a crise chegue à toda sociedade brasileira.

Jornalista: O senhor ficou magoado com o Agnelli porque ele demitiu muitos funcionários sem avisar para o senhor?

Presidente: Eu falei com o Agnelli. Eu falei com o Agnelli no Rio de Janeiro. Falei com o Damian agora, que é o companheiro que estava no governo, que está… Eu disse: se a cada momento que se apresentar um sinal de crise porque a China não fez uma encomenda, vocês mandarem gente embora, a economia fica muito vulnerável. A Vale do Rio Doce é uma empresa muito grande, é uma empresa muito rica. A explicação que eles me deram é que eles mandaram embora trabalhadores que já estava previsto serem mandados embora por conta de uma mudança, de uma inovação administrativa que eles fizeram. Vamos ver.

Jornalista: A crise vai atrapalhar o Natal, Presidente?

Presidente: Eu acho que não. Vamos ver os números do comércio varejista, que vai acontecer por esses dias, nós vamos perceber que houve um crescimento muito grande em relação ao ano passado. Significa que na minha casa e na sua casa nós vamos comer um “franguito” a mais.

Jornalista: Só mudando de assunto, Presidente, o senhor não falou da contratação do Ronaldo. O senhor gostou?

Presidente: Veja, deixa eu te falar: é que eu não posso agora, com um mercado crescente de contratação de jogadores ficar sendo analista de contratação de jogadores.

Jornalista: Mas já foi feito.

Presidente: Mas deixa eu contar uma coisa para vocês. Olhem, o Ronaldo sempre foi um menino de cabeça arejada, sempre, desde o tempo dele, no começo, no Cruzeiro. Ele teve duas lesões gravíssimas. Eu, se fosse ele, com as duas lesões que tive, certamente ia gastar um pouco do dinheiro que ganhei. Mas se ele aceitou fazer um contrato, e se ele se expôs na frente da torcida corinthiana, que não é mole, como ele se expôs, é porque ele está a fim de provar que ele ainda tem condições de jogar e acredita no potencial dele.

Ora, como corinthiano eu só posso torcer para que ele marque os gols que faltam ser marcados pelo Corinthians. Ou seja, eu acho que ele vai ser um espetáculo. Agora, o que eu temo? E ele também sabe disso, porque ele já foi rei, três vezes o melhor jogador do mundo, já foi aplaudido, já foi vaiado. O que eu acho? Como ele gera muita expectativa, se passar muito tempo sem mostrar serviço, a torcida do Corinthians é implacável. Como ele conhece torcida como ninguém, eu acho que ele vai cuidar de marcar os gols que tanto nós precisamos para chegar à Libertadores. Um abraço.

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