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Jornalista: Senhor Presidente, obrigado pela entrevista. Sobre a criminalidade em Santa Marta, as pessoas lá podem crer que esse projeto realmente é permanente, que o tráfico não irá voltar?

Presidente: Nós trabalhamos com a idéia de que a melhor forma de combater o tráfico ou o crime organizado não é apenas a violência da polícia, como historicamente se agiu aqui no Rio de Janeiro. O governo federal, o governo estadual e o governo municipal estão entendendo que a melhor forma de combater o narcotráfico ou o crime organizado é a presença do Estado dentro da comunidade. Ou seja, o Estado tem que se colocar nas favelas com escola, com formação profissional, com biblioteca, com delegacia de polícia também, mas sobretudo com muito lazer, muita cultura, melhorar as moradias, melhorar as ruas, iluminar os bairros, porque é isso que faz com que as pessoas passem a perceber que o Estado está presente, tentando cuidar da sua vida. É uma forma muito interessante porque envolve a comunidade. Só para você ter idéia, as obras que nós fazemos nas comunidades, nós contratamos os trabalhadores da comunidade. A polícia que está trabalhando na comunidade vira uma polícia da comunidade. E nós estamos entrando com um programa que envolve praticamente 19 Ministérios, mais o governo do estado, mais o governo municipal. Eu penso que é uma experiência muito rica, e eu estou muito otimista que nós vamos conseguir vencer o crime organizado e o narcotráfico, fazendo com que as pessoas passem a ver no poder público uma solução para os seus problemas e não um problema para a sua vida.

Jornalista: O senhor falou sobre o problema da violência (incompreensível). O senhor acha que Santa Marta pode servir como modelo para outros lugares no Rio de Janeiro?

Presidente: Nós trabalhamos com a idéia de que Santa Marta possa ser um modelo, porque houve uma intervenção do governo estadual, ela deu certo, e agora nós estamos entrando com um conjunto de políticas públicas, desde reformar uma casa, fazer casa nova, melhorar rua, colocar escola, colocar postos de atendimento médico, ou seja, nós estamos fazendo com que o Estado esteja presente no cotidiano da vida das pessoas pobres. Antigamente, era só intervenção policial, com muita brutalidade, em que apanhavam culpados e inocentes, muitas vezes só os inocentes. Agora nós temos policiamento lá, a polícia vira uma polícia da comunidade, e nós investimos na formação de policiais. Aqui no Brasil, hoje, nós temos 90 mil policiais que recebem uma bolsa de estudo para se aperfeiçoarem no seu trabalho. Nós achamos que a inteligência é mais importante do que a brutalidade.

Jornalista: O senhor falou no seu discurso hoje que o que está acontecendo em Santa Marta deveria estar acontecendo em outros lugares do Rio. Tem recursos suficientes para fazer isso?

Presidente: Nós temos o maior programa de investimento em urbanização de favelas, saneamento básico e habitação que o Brasil já teve. Quando fizemos o PAC, que é o Programa de Aceleração do Crescimento, em 2007, nós destinamos mais de R$ 100 bilhões para cuidar de saneamento básico e habitação. Aqui no Rio de Janeiro nós estamos fazendo, ao mesmo tempo, cinco favelas muito importantes, em que nós estamos fazendo teleférico, nós estamos fazendo escola de formação profissional, nós estamos fazendo biblioteca, estamos fazendo áreas para que tenha a possibilidade de pequenas lojas e pequeno comércio para a comunidade, estamos fazendo hospitais e postos de atendimento médico. Ou seja, no fundo, no fundo, nós estamos fazendo aquilo que todo cidadão espera que o seu governo faça: cuidar das pessoas mais necessitadas. E estamos fazendo em todas as capitais brasileiras. Hoje, no Brasil, dos quase 6 mil municípios, não tem nenhum que não tenha uma obra do governo federal, atacando exatamente a parte mais pobre da população.

Jornalista: Em relação à economia, há muitos sinais de que a crise já reflete no Brasil - exportações e muitas pessoas sendo demitidas - o senhor está preocupado com o impacto que isso irá gerar nos próximos 12 meses?

Presidente: Eu estou preocupado, mas estou consciente de que hoje não tem nenhum país do mundo mais preparado do que o Brasil para enfrentar essa crise. Primeiro, porque nós temos um potencial de mercado interno que os países ricos já tiveram 30, 40 anos atrás, mas que não têm. Segundo, nós precisamos fazer muitas obras públicas que os países desenvolvidos já fizeram 30, 40 anos atrás. Terceiro, nós temos uma exportação muito diversificada, ou seja, nós hoje não dependemos de um bloco, não dependemos de um país. Nós temos uma relação comercial muito, mas muito diversificada. Por exemplo, com os Estados Unidos, que dez anos atrás nós tínhamos quase 30% da nossa balança comercial, embora tenhamos crescido 20% ao ano, nós hoje temos apenas 15% com os Estados Unidos, acho que próximo a 17% ou 18% com a Europa, e temos muito com a América Latina, muito com a África, muito com o Oriente Médio e muito com a Ásia. Portanto, nós temos uma possibilidade extraordinária.

Além disso, o Brasil tem uma reserva de US$ 207 bilhões e, além disso, nós temos um programa de crescimento. Ou seja, ao todo serão praticamente 504 bilhões. Só a Petrobras tem investimentos, até 2013, de US$ 274 bilhões. Nós estamos trabalhando para melhorar o crédito, estamos trabalhando para reduzir o spread bancário, e estamos trabalhando fortemente para criar um mercado de consumo de massa. O povo brasileiro ainda tem muito o que consumir, temos muito o que construir, e é com base nisso que eu acho que o Brasil vai superar essa crise sem sofrer aquilo que os países ricos estão sofrendo. Os países ricos já estão em recessão e o Brasil pode ter uma retração. Poderemos não crescer 6%, mas poderemos crescer 4%, poderemos crescer 3%, o importante é que a gente continue crescendo. Eu estou convencido de que os países ricos terão que tomar atitudes mais fortes para começar a debelar essa crise, sobretudo o presidente Obama, que tem menos de 15 dias de posse e que tem o maior problema de todos os países do mundo. Portanto, eu acho que ele vai ter que tomar medidas mais drásticas para recuperar os Estados Unidos dentro de dez, 12 meses.

Jornalista: Quando o senhor fala sobre o presidente Obama, quando o senhor se encontrar com o Presidente, qual será sua mensagem para ele?

Presidente: É muito difícil você imaginar que um presidente possa dar conselhos para outro presidente da República. Antes de me encontrar com o Obama, eu vou me encontrar com o primeiro-ministro Gordon Brown, no Chile, e vou participar, em Londres, da reunião do G-20. Essa crise que nós estamos vivendo é uma crise diferente da crise dos anos 90, porque naquela os países pobres tinham que fazer apenas um ajuste fiscal, reduzir despesas e, portanto, a economia é paralisada. Nessa crise, nós temos que fazer investimentos, não podemos deixar a economia parar. Isso vale para o Reino Unido, isso vale para os Estados Unidos e isso vale para a União Européia. É preciso colocar agora a máquina pública para produzir bens e serviços que o setor privado não está podendo produzir e, ao mesmo tempo, financiar a produção do setor privado. Aqui no Brasil nós temos muitos projetos importantes, de empresas importantes, uma parte financiada com capital externo, outra parte financiada com capital brasileiro, e nós vamos manter todos esses investimentos.

Se eu pudesse dar um conselho para o Obama ou para o Gordon Brown, eu diria para eles: pelo amor de Deus, recuperem logo as suas economias para não prejudicar os países mais pobres. E eu não estou nem preocupado apenas com o Brasil. Eu estou preocupado com os países africanos, eu estou preocupado com os países da América Latina e do Caribe, que são dependentes dessas economias mais ricas e que, portanto, sofrerão mais o peso da crise.

Então a hora é de todos nós assumirmos a responsabilidade de que nós não temos que discutir apenas uma saída econômico-financeira. O momento é de discutir política: qual o papel do Estado, qual o papel dos dirigentes e o que a gente pode fazer? Durante 20 anos, nos disseram que o mercado resolvia todos os problemas. Está doente? O mercado resolve. Está desempregado? O mercado resolve. Agora, esse mercado poderoso faliu, e agora é que entra o papel do Estado, não de ser o gerente, mas de ser um indutor (????) desenvolvimento, de obrigar o sistema financeiro a estar subordinado ao setor produtivo e não ao setor especulativo, como ele esteve nesses últimos 20 anos.

Jornalista: O senhor teme o protecionismo, especificamente no caso dos Estados Unidos?

Presidente: Temo o protecionismo, e ele já está acontecendo. Quando o presidente Obama anuncia um pacote de investimentos e ele diz que vai financiar as obras que forem construídas com produtos comprados na siderurgia americana, ele está praticando um protecionismo que a OMC, teoricamente, não aceita. O que está acontecendo? Durante os bons anos de crescimento dos países ricos, eles criaram a globalização, falaram muito de livre comércio, falaram muito de mercado. Agora que eles criaram uma crise, eles não podem praticar o protecionismo que tanto atrasou o mundo em outros momentos. Eu acho que agora é hora de a gente meditar, cada um tem que pensar na economia do seu país, mas nós temos que pensar que atitudes isoladas e medidas isoladas poderão trazer um prejuízo maior ainda para a crise que estamos vivendo.

Eu acho que a hora é de ousadia, de criatividade e de muita maturidade. Gerar empregos e distribuir renda é a nossa obrigação. Os países ricos não podem ficar dando dinheiro para banco. Tem que dar dinheiro para gerar empregos, tem que investir em coisas que signifiquem um posto de trabalho para um trabalhador em qualquer parte do mundo. Eu penso que é assim que nós vamos sair dessa crise, e o Brasil pretende, no dia 2 de abril, em Londres, apresentar sugestões daquelas coisas que nós estamos fazendo no Brasil, aprender com as medidas que os outros tomaram, e juntos criarmos um consenso para uma nova ordem econômica mundial.

Jornalista: Em 2009 o senhor acha que as negociações de Doha vão recomeçar?

Presidente: Eu fiquei bastante feliz, porque há poucos dias eu conversei com o presidente Obama e ele quer retomar as negociações da Rodada de Doha. É importante lembrar que nós estivemos muito perto de fazer o acordo de Doha, em setembro do ano passado. Havia uma pequena divergência entre a Índia e os Estados Unidos. Acontece que tinha um processo eleitoral nos Estados Unidos, depois o Bush perdeu as eleições, e aí ficou paralisada a negociação e ficou prejudicada. Eu espero que o bom senso das lideranças políticas no mundo inteiro trabalhe para que a gente faça um acordo na Rodada de Doha, para a gente evitar que a miséria cresça no mundo pobre.

Jornalista: Só mais duas perguntas. Em relação à Presidência aqui no Brasil, o senhor não poderá se recandidatar em 2010. Essa continua sendo a sua posição, mesmo nessa crise?

Presidente: Continua sendo a minha posição. Eu trabalho com a idéia de que uma das grandes conquistas da democracia no mundo é a alternância do poder. Eu já estou há seis anos, vou completar oito anos, eu acho que é importante que o povo tenha a oportunidade de escolher e que o povo tenha a sorte de escolher alguém que consiga fazer mais do que eu, que seja melhor do que eu. Se a gente começa a colocar na nossa cabeça que eu sou insubstituível, que eu sou imprescindível, começa a surgir um pequeno ditador, um pequeno problema na chamada democracia. Então, eu sou amplamente favorável a que a gente cumpra o mandato, se candidate e depois dê o lugar para outros. No Brasil, ainda temos uma vantagem: depois de um mandato fora, você pode voltar a ser candidato a presidente da República outra vez. De forma que eu acho que está de bom tamanho um mandato e uma reeleição. Está de bom tamanho.

Jornalista: O senhor tem dado indicações de que gostaria de ter a Dilma Rousseff como candidata do PT em 2010. Por que o senhor acha que ela é a pessoa certa para exercer o cargo?

Presidente: Na verdade, eu não gostaria muito de falar de 2010, porque quem tem pressa para 2010 é a minha oposição. Eu prefiro esperar chegar a 2010 para começar a fazer campanha. Agora, o que eu estou percebendo é que a minha ministra da Casa Civil, a Dilma Rousseff, é a pessoa mais qualificada hoje para governar o Brasil. Ela coordena os principais programas de desenvolvimento no Brasil, ela conhece muito bem o Brasil, é uma gerente extraordinária, tem uma capacidade de gestão fantástica, conhece bem de economia e eu acho que é uma mulher que tem uma história política que merece respeito. A companheira Dilma Rousseff foi militante de esquerda na década de 70, foi presa, foi torturada, e hoje ela é uma mulher preparada. Não tem mágoa do seu passado, não tem vergonha e, por isso, eu acho que ela está mais calejada para dar continuidade e melhorar aquilo que estamos fazendo hoje. Obviamente, ela vai ter que passar pelas convenções partidárias, e depois vamos ter que, democraticamente, passar pelo voto popular no País. Eu penso que ela tem condições de ser eleita. Eu, pelo menos, vou me empenhar para que ela seja a nova presidente do Brasil.

Jornalista: O senhor fala que ela está preparada, mas o Brasil está preparado para uma mulher na Presidência?

Presidente: Eu penso que nós precisamos acabar com os preconceitos. Todos nós, homens, que somos casados, sabemos o peso que a mulher tem dentro da nossa casa, sabemos a força que a mulher tem. O Brasil é um país menos preconceituoso, e eu acho que a Dilma Rousseff tem discurso, argumento, inteligência e competência para convencer homens e mulheres a votarem nela.

Jornalista: Senhor Presidente, muito obrigado.

Presidente: Obrigado a você.

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