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Presidente: Primeiro, dizer para vocês da alegria de terminar essa viagem à Arábia Saudita. Vocês sabem que esta viagem é uma viagem que nós estamos trabalhando já há algum tempo, ora por razões da minha agenda, ora por razões da agenda do Rei, não foi possível nós a fazermos antes. Mas eu penso que nós fizemos a viagem em um momento importante da história econômica do mundo, sobretudo em função da crise econômica.

Nós temos possibilidade de, com esta visita minha - e logo, logo receber as autoridades da Arábia Saudita no Brasil - recuperar o tempo perdido nas relações entre o Brasil e a Arábia Saudita, que já eram boas. Nós saltamos de US$ 1,2 bilhão para US$ 5,5 bilhão, o que é uma coisa extremamente importante. Mas pelo potencial econômico da Arábia Saudita e pelo potencial econômico do Brasil, nós sabemos que temos muito mais possibilidade de fazer crescer as nossas relações e, conseqüentemente, crescer o fluxo na balança comercial entre os dois países.

Nessa viagem - diferentemente de outras viagens que nós já fizemos onde a idéia básica era apenas comprar e vender - a minha proposta ao Rei Abdullah é no sentido de que nós descubramos oportunidades de investimentos tanto da Arábia Saudita no Brasil quanto do Brasil na Arábia Saudita.

Eles estão com um grande programa de investimentos até 2020 e nós estamos com um grande programa de investimentos até 2013 e depois nós teremos grandes investimentos para a Copa de 2014. Eu apresentarei no próximo ano um PAC 2011-2015, porque quero deixar o Brasil preparado para [que] quem vier depois de mim encontre projetos prontos e não tenha que começar do zero, como eu comecei em 2003. As possibilidades são excepcionais. Na área de fertilizantes, na área petroquímica, na área da produção de carne, na área da produção de commodities, agrícola... Tem um vasto campo de interesse do Brasil e da Arábia Saudita que pode começar a se transformar em negócios entre os dois paises.

Nós temos a mesma visão de mundo de que é preciso que haja uma relação mais forte Sul-Sul. O Brasil está trabalhando fortemente para que a gente consiga concluir um acordo entre o Mercosul e o Conselho do Golfo Arábico para atender melhor os nossos parceiros do Mercosul e também toda a América do Sul. Eu acho que tanto a Arábia Saudita quanto o Brasil chegaram à conclusão de que a relação entre nós pode crescer de forma extraordinária.

Ontem eu tive mais de duas horas de conversa com o Rei Abdullah. Eu já o conhecia bem das reuniões do G20, do G8 + 5, e eu penso que vocês que são jovens e que vão continuar cobrindo política internacional nos próximos anos vão perceber que a partir deste momento a relação "Arábia Saudita e Brasil" será muito maior, eu diria muito mais produtiva, com muito mais investimentos. Vocês vão ver muito mais empresários brasileiros viajando para Arábia Saudita e muito mais gente da Arábia Saudita viajando para o Brasil.

Eu acho que agora nós nos conhecemos melhor. Acho que a crise econômica está obrigando todos os países a fazerem aquilo que o Brasil vem fazendo desde 2003, que é diversificar os seus parceiros em nível internacional. Por isso, nós vamos terminar a viagem na Turquia - porque é um país com mais de 70 milhões de habitantes, um país importante - e interessa ao Brasil estreitar as relações com um país como a Turquia.

Dito isso, eu me coloco à disposição.

Eu só gostaria de pedir mais uma vez o seguinte: não tem sentido, depois de passar dois dias aqui discutindo, vocês me perguntarem qualquer coisa de política brasileira, das coisas internas do Brasil, porque eu acho que diminui a viagem que não é fácil - são 17 horas de vôo para chegar aqui.

Eu acho que deve ter muitos assuntos sobre a Arábia Saudita, sobre a China ou sobre a Turquia. Deixar para discutir as coisas do Brasil quando eu voltar para o Brasil.

Jornalista: Eu queria fazer uma pergunta sobre um tema que foi conversado aqui pelo senhor com o Rei e com o Secretário-Geral do Conselho de Cooperação do Golfo. Existe uma preocupação. O senhor deu a entender que houve um avanço nessa negociação, nessa possível negociação de acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Conselho do Golfo. Mas existe uma preocupação muito grande com o setor petroquímico e isso era um entrave. Continua sendo um entrave. Existe uma preocupação de que isso prejudicaria e até mataria, segundo algumas pessoas do setor petroquímico, um acordo entre os dois blocos. O que foi conversado de concreto entre o senhor e o Secretário-Geral para (inaudível) entrave e o que pode ser feito para que essa negociação avance (inaudível), nos últimos tempos?

Presidente: Nós não discutimos especificamente as coisas que trazem qualquer problema, porque nós temos um acordo e têm vários outros assuntos no acordo. A nossa idéia era que a gente assinasse o acordo naquilo que temos acordo e, naquilo que temos divergência, deixar para a gente continuar discutindo - porque assim nós daríamos um passo importante. Veja o que eu acho na verdade: o Brasil, com a descoberta do pré-sal, transforma-se em um país muito importante na extração de petróleo. A Arábia Saudita tem um quarto do petróleo do mundo, portanto nós temos, dos ingredientes necessários, a tecnologia e o conhecimento que os dois países têm na área de petroquímica. Nós precisamos começar a conversar, quem sabe, para construir entre os dois países um pólo petroquímico que possa ser o maior do mundo.

Eu vou dar um exemplo: nós estamos construindo o Comperj no Rio de Janeiro. O Comperj é um investimento de quase US$ 10 bilhões e, portanto, nós queremos construir parceria com a Arábia Saudita na construção de um projeto desta magnitude. Eles estão construindo um outro projeto que, segundo os ministros, é da ordem de quase US$ 20 bilhões. Nós também poderíamos nos transformar em parceiros nesse pólo petroquímico.

Hoje o mundo é dominado, na área de petroquímica, pelos Estados Unidos, um pouco pela Europa e pelo Japão. Esse é um campo em que dois países que detêm a matéria-prima principal para um pólo petroquímico estão conversando. Isso é muito importante e saudável para a economia dos dois países e eu penso que é saudável para o mundo. Porque se nós concretizarmos uma possibilidade de negócios, nós teremos uma terceira potência na área petroquímica e não ficaremos subordinados a apenas uma ou duas potências que já dominam há muito tempo a área de petroquímica.

Jornalista: Presidente... Não quero que o senhor fique bravo comigo...

Presidente: Eu não vou ficar bravo, eu posso responder ou não responder.

Jornalista: Presidente, a gente tem uma série, um pacote de perguntas sobre toda a viagem para a Arábia Saudita, mas tem uma pergunta específica em relação à política brasileira que a gente é obrigado a fazer ao senhor. Quando o senhor saiu de lá, a questão da CPI da Petrobras já tinha as assinaturas. Havia possibilidade de as assinaturas serem retiradas, mas isso não aconteceu. Então eu pergunto para o senhor: qual o receio do governo em relação a CPI da Petrobras, Presidente?

Presidente: Veja, do ponto de vista prático, nenhum. O comentário que eu tinha que fazer, eu fiz quando deixei o Brasil. Eu não vou ficar tocando no assunto que é específico do Senado. Ali, todas as pessoas têm idade suficiente para fazer o que entenderem que seja melhor. Eu só acho que nós estamos vivendo um momento de ouro na área do petróleo. Nós estamos para colocar em debate nacional o novo marco regulatório do petróleo. Nós estamos viajando o mundo em busca de recursos para que a Petrobras possa intensificar a exploração do pré-sal. Eu acho que você não pode transformar uma questão política, eleitoral, possivelmente menor, envolvendo a empresa mais importante que o Brasil tem. Mas de qualquer forma, se as pessoas que assinaram não têm outra coisa para fazer, só têm aquilo, que façam! Nós vamos continuar tocando o barco.

Jornalista: Presidente, eu tinha até outra pergunta sobre questão nacional, mas eu não vou a esticar em função do pedido do senhor. Eu vou apenas complementar a pergunta dele com uma pergunta a mais. O senhor acha que ainda é possível não levar adiante esta CPI? O senhor acha que seria uma decisão correta do Congresso nesse momento?

Presidente: Eu não discuto mais esse assunto. Eu não discuto por uma razão muito simples: eu até agora não sei o que está por detrás disto. Possivelmente, alguns que assinaram estavam querendo tirar das suas costas todo este debate que a imprensa está fazendo sobre o Senado. Outros possivelmente estejam preocupados com o processo eleitoral de 2010. Eu sinceramente estou preocupado em governar o Brasil e vou me dedicar a isso e vou priorizar isso. Sinceramente é a única coisa que eu tenho a fazer. Eu tenho dois anos de mandato, quero concluir meu mandato e deixar o Brasil numa condição muito mais favorável do que aquela que eu recebi. Eu acho que o Brasil entrou numa rota extraordinária de credibilidade internacional, de perspectiva de crescimento nos investimentos públicos e a verdade é que eu não tenho tempo de parar para ficar discutindo coisa menor. Essa é a verdade: cada um faça o que quiser, eu vou governar o Brasil. Foi para isso que o povo me elegeu e é isso que eu vou fazer.

Jornalista: Presidente, o senhor acabou de falar... A minha pergunta era outra, eu mudei em função do que o senhor acabou de falar. O senhor havia mencionado há pouco o PAC 2011-2015. O senhor pode dar mais detalhes a respeito desse plano?

Presidente: Veja... Deixe eu lhe contar uma coisa: quando nós chegamos ao Brasil, no governo brasileiro, nós detectamos que não tínhamos projeto na prateleira e um governante, para começar a governar o Brasil - sobretudo o Brasil com as fiscalizações que nós criamos, com a legislação muito rígida para fiscalização, com Ministério Público, com Tribunal de Contas, com Ibama... Tudo nós criamos para poder melhor administrar o Brasil. Hoje um governante que tomar posse e quiser fazer uma hidrelétrica - entre ele pensar e fazer o projeto básico; fazer o projeto executivo; conseguir licença prévia; fazer licitação e responder todas as demandas judiciais que aparecem num processo - termina um mandato de quatro anos e não consegue fazer nada.

Então, com o que eu quero contribuir para quem vier depois de mim? Eu quero deixar uma prateleira de projetos, de gasodutos, de hidrelétricas, de estradas, de ferrovias... Projetos prontos para que quem vier depois de mim vá à prateleira, pegue o projeto, decida qual é a prioridade e ganhe pelo menos dois anos na execução daquele projeto. Hoje é muito difícil, porque como o Brasil passou muito tempo sem fazer investimento em infraestrutura, desaprendeu a investir e aprendeu muito a fiscalizar. Então hoje nós temos um rol de fiscalização nas obras públicas do governo, que não é culpa individual de ninguém, é culpa mesmo do Congresso Nacional - e eu fui deputado constituinte e contribuí para isso. É tanta fiscalização que para alguém superar o processo demora muito. Então, eu não quero que as pessoas que vierem depois de mim passem pelo que eu passei no primeiro mandato. Nós fizemos o PAC e o PAC foi uma demonstração extraordinária de como você, tendo um projeto, faz as coisas fluírem com muito mais facilidade.

Nós descobrimos que o Brasil não estava habituado a ter projetos, porque depois do governo Geisel quase não houve investimentos estruturantes no Brasil. Então eu pretendo contribuir com quem for governar o Brasil de 2011 a 2015 deixando os projetos acabados. Não contratar uma consultoria para dizer para mim: é importante tal obra e tal obra. Isso qualquer um faz! Eu quero é deixar projetos elaborados, projetos em que a gente tenha o projeto básico, tenha o projeto executivo e tenha andamento à licença, para que quem vier depois de mim ganhe tempo. É isso que eu quero fazer.

Jornalista: O senhor pensou em lidar com a oposição, com quem pretende te substituir?

Presidente: Primeiro eu não sei se vai ser da oposição. Eu até não quero discutir isso porque vão dizer que eu estou fazendo campanha. Mas como eu estou convencido de que eu vou fazer o sucessor, estou convencido de que quem vai presidir o Brasil vai ser uma pessoa que eu estiver de acordo para trabalhar, para me esforçar.Eu quero facilitar. E também eu não preciso pedir para ninguém fazer o PAC. Até o dia 31 de dezembro de 2010 eu sou o Presidente da República e eu deixarei os projetos. Se alguém ganhar as eleições e não quiser fazer, que faça outros. Mas estará no Brasil uma prateleira de projetos das coisas que nós entendamos que sejam prioritárias para o Brasil. As eclusas estarão prontas com o projeto; as hidrovias estarão prontas com projetos; muitas hidrelétricas estarão prontas com projetos; as ferrovias, muitas, já estarão inclusive em obras... Eu só espero que as pessoas não voltem a adotar o hábito de paralisar as obras porque não foi ele quem pensou. Isso seria pequenez na política brasileira.

Jornalista: Presidente, o senhor tem recebido... A imprensa tem feito algumas críticas, alguns especialistas, pelo fato de o senhor estar passando pouco tempo dedicado à China, que é o país hoje que é a economia que mais cresce. Queria que o senhor falasse sobre isso e adiantasse para a gente quais são as suas grandes preocupações que movem a sua agenda lá na China.

Presidente: Eu não sei quem tirou da cabeça que eu tenho dedicado pouco tempo à China. Quisera Deus que eu conversasse com todos os países do mundo como eu tenho conversado com a China... E o Brasil tem conversado com a China. Porque, independentemente dessa minha visita, nós temos recebido ao longo do ano dezenas de delegações chinesas e dezenas de delegações brasileiras têm ido à China. Essa minha visita à China é a consolidação de uma parceria estratégica que o Presidente Hu Jintao e eu estabelecemos. Nós estamos com a balança comercial equilibrada, fluindo normalmente.

Nessa viagem eu quero apresentar ao Presidente Hu Jintao um leque de perspectivas de investimentos da China no Brasil naquilo que interessa à China, construir novas parcerias de empresas brasileiras com a China. Ademais, eu tenho me encontrado com o Hu Jintao - se vocês pegarem a agenda - pelo menos quatro ou cinco vezes por ano. Nós nos reunimos todas às vezes da ONU, no G8, nos Bric. Vou me reunir com o Hu Jintao outra vez, daqui a pouco, dia 16 de julho, na Rússia. Nós já temos... Eu não estou fazendo uma viagem para descobrir a China como eu fiz a primeira. Nós já descobrimos a China e a China já descobriu o Brasil. Já há a definição da China de que o Brasil é um parceiro estratégico e já há uma definição do Brasil de que a China é uma parceira estratégica.

Portanto, agora eu faço menos e o meu governo faz mais, e os empresários chineses e os brasileiros trabalham mais. E aí nós concluiremos essa obra extraordinária de consolidar a parceria estratégica entre dois países importantes - um no mundo asiático e outro no mundo sul-americano.

Jornalista: Presidente, o Conselho de Segurança da ONU... A Arábia Saudita é favorável a uma reforma no Conselho, mas até hoje não se manifestou explicitamente a favor da candidatura brasileira. Vocês obtiveram alguma coisa nessa viagem? Segundo, nessas suas conversas o senhor mencionou direitos humanos na Arábia Saudita? Se não mencionou, por que não?

Presidente: Porque eu não sou o governante do mundo, sou apenas Presidente do Brasil. Eu vim à Arábia Saudita com interesses bem definidos de estabelecer uma relação mais forte entre a Arábia Saudita e o Brasil. E saio daqui satisfeito com a conversa que eu tive com os empresários, com a conversa que eu tive com todos os ministros, com a conversa que eu tive com os príncipes e com a conversa que eu tive com o Rei Abdullah. Saio daqui extremamente satisfeito.
A questão dos direitos humanos é uma questão que, quando nós tivermos divergência com um país, a gente leva para discussão no fórum adequado, que é as Nações Unidas. A reforma das Nações Unidas, eu acho que é apenas uma questão de tempo. É apenas uma questão de tempo. Essa coisa está hoje mais madura do que já esteve em qualquer outro momento. E agora, com a crise econômica, está ficando também mais visível para todos os dirigentes do mundo de que acabou o tempo em que um ou dois países se sentavam em torno de uma mesa e decidiam o destino dos outros. As pessoas agora estão descobrindo que todos nós temos pontos fortes e todos nós temos pontos fracos. E o que nós precisamos definitivamente é garantir que as decisões das Nações Unidas sejam cumpridas. A gente pode demorar para tomar uma decisão, mas quando tomar a decisão ela tem que ser cumprida. Quem deveria estar cuidando da paz no Oriente Médio, sobretudo entre Israel e os Palestinos, seriam as Nações Unidas, não os Estados Unidos, ou a França, ou a Alemanha ou o Brasil individualmente. Não! Seriam as Nações Unidas, que após uma decisão do Conselho colocaria os seus dirigentes máximos para negociar. O que o Brasil fez foi se colocar à disposição, como já nos colocamos outras vezes, para ajudar na paz no Oriente Médio, sobretudo com reconhecimento dos dois Estados. Em nenhum momento se nega o Estado de Israel e em nenhum momento deixamos de reconhecer que é preciso o Estado Palestino. Agora, nós só vamos encontrar paz...

A proposta da Arábia Saudita é muito importante, é muito importante, porque é preciso ouvir todo mundo. Você tem que construir uma única proposta de paz junto aos Palestinos. Envolve todas as correntes políticas dentro do Estado Palestino... Levar para a mesa de negociação com Israel uma proposta de paz e construir dentro do estado de Israel uma única proposta de paz. Porque se apenas a Autoridade Palestina e o governo de Israel têm uma proposta de paz, mas os dois não resolvem internamente o problema com os setores mais duros, não tem paz, não tem paz. Então, eu penso que nós vivemos um outro momento e todo mundo vai compreendendo.

Eu acho que a eleição do Presidente Obama, neste aspecto, é um benefício extraordinário. Como o Obama não faz parte da política, daquela tradição política, mesmo do partido democrático ou dos Estados Unidos, eu percebo que ele tem a cabeça mais arejada, que ele tem disposição de fazer coisas novas que possivelmente outros não pudessem fazer. Exigir que ele faça as coisas com muita rapidez é não saber que há um tempo entre você tomar posse e você tomar conta da máquina. A máquina é muito poderosa. Então, como eu passei por isso, eu compreendo perfeitamente bem que o Obama pode ser uma diferença enorme, tanto para ajudar na construção da paz no Oriente Médio, quanto para começar a desbloquear Cuba.

É apenas um tempo de sentar na cadeira, tomar conta da engenhosa máquina de fazer política americana - que deve ser muito mais perfeita do que a máquina de fazer política no Brasil, uma burocracia muito eficaz e poderosa - e tudo isso leva um tempo. Muita gente fala: "é só decisão política". Muitas vezes a decisão política é tomada e entre ela ser tomada e ser implementada leva um tempo extraordinário. Mas eu sou confiante.

Jornalista (inaudível)

Presidente: Não, eu não discuti, eu não discuti... E aí também porque o Celso não colocou na minha pautinha, senão eu teria discutido. Não, mas eu não acho que era o momento. Os chanceleres têm que amadurecer primeiro até chegar ao Rei, chegar ao Presidente. Primeiro tem que ter um processo de amadurecimento na nossa área diplomática para depois a gente, então, avançar. Quando eu chegar para um Rei e falar: eu quero apoio, ele não pode negar. Então, isso tem que estar bem costurado. Ou se ele pedir para mim uma coisa, isso tem que estar costurado, primeiro na área diplomática. Nessas coisas internacionais, cautela e caldo de galinha não fazem mal para ninguém.

Presidente: A última pergunta.

_________: Presidente, uma jornalista da imprensa saudita.

Jornalista: (inglês)

Presidente: Eu não entendi a primeira pergunta.

_________: (inglês)

Jornalista: (inglês)

_________: Como o Brasil vê... A sua opinião sobre o conflito entre Israel e Palestina?

Presidente: Olha, a minha opinião como militante político, defensor da criação do Estado Palestino... Eu sonho para que aquele pedaço do mundo tenha paz urgentemente. E só pode ter paz em duas situações: se tanto Israel quanto a Autoridade Palestina garantirem, em primeiro lugar, a coesão interna. Tem que ter uma proposta de paz aceita pelo conjunto do Estado de Israel e a proposta de paz assumida pelo Estado Palestino.

Se dentro de Israel tiver mais que uma proposta de paz e se dentro do Estado Palestino tiver mais que uma proposta de paz, não teremos paz. Então é preciso construir a coesão interna e nós achamos que a proposta da Arábia Saudita é importante. Por isso os dois Estados têm que se colocar de acordo. Aí nós poderemos sonhar com paz. Fora disso eu acho muito difícil.

Esqueci a segunda pergunta.

___________: O Conselho de Segurança...

Presidente: O Conselho de Segurança... Veja, deixa eu lhe contar uma coisa. O Conselho de Segurança tem dois momentos. Não vamos discutir no primeiro momento se o Brasil vai participar ou não. O Brasil quer participar, mas não só o Brasil quer participar, o Brasil quer que o mundo esteja melhor representado no Conselho de Segurança da ONU.

Então a primeira coisa que nós temos que votar na ONU é se vai ter reforma e aprovar que tipo de reforma. Essa é a primeira votação. Na segunda votação, nós vamos discutir quais os novos países que farão parte do Conselho de Segurança da ONU. E aí nós temos o G4 - Brasil, Índia, Alemanha e Japão - que querem fazer parte do Conselho de Segurança. Ao mesmo tempo tem um país africano, ou dois, eu não sei, ou um país do Oriente Médio... Mas a primeira etapa é aprovar reforma. A segunda etapa e saber quem vai entrar, porque tem divergência, tem divergência. Por exemplo, a China tem divergência com o Japão. A Itália tem divergência com a Alemanha. E outras divergências que eu não posso contar aqui... Eu poderia dizer que ninguém tem divergência com o Brasil. Agora a verdade é que depende muito dos Estados Unidos. Se os Estados Unidos fizerem um sinal de que querem reformar o Conselho de Segurança, ele será reformado. Porque a França quer, porque o Reino Unido quer. Basta os Estados Unidos dizerem que quer.

Eu tentei muito com o Presidente Bush, cheguei a ponderar que ele não poderia deixar a presidência sem fazer a reforma no Conselho da ONU. Ele deu um avanço importante e pediu para a Condoleezza conversar com o Celso, mas não conseguimos avançar. Agora eu espero que a gente retome essa conversa com o Presidente Obama e a (incompreensível)... A reforma? A reforma não é para o Brasil. A reforma é para que a gente tenha a ONU reforçada e dar à ONU mais autoridade política nas suas decisões, é isso que nós queremos. E eu acho que olhando o mapa do mundo, o Brasil tem direito. É só querer.

__________: Uma última pergunta (inaudível)

Presidente: Ela falou da Índia?

__________: Ela falou da Índia... (Inglês). Ela está perguntando sobre o Irã ...

Presidente: Não, era Índia. Depois ...

__________: Ele está pedindo há um tempão ali.

Jornalista: (inglês)

Presidente: Olha, primeiro o Brasil não discutiu a entrada na Opep, porque o Brasil não é exportador de petróleo. O Brasil apenas atingiu a autossuficiência. O que nós fazemos é trocar petróleo pesado por petróleo leve para a melhora do refino no Brasil. É isso.

Agora, eu trabalho com a idéia de que o Brasil não deva ser um exportador de óleo. Eu trabalho com a idéia de que o Brasil deva construir grandes refinarias no Brasil e o Brasil exporte derivados de petróleo com maior valor agregado. E no momento certo, se for necessário discutir a entrada na Opep, vamos discutir. Essa situação não está colocada agora.

O que o Brasil espera da sua relação com a Arábia Saudita, sobretudo na área do petróleo? Nós sabemos do potencial petrolífero na Arábia Saudita. O Brasil agora descobre grandes reservas na camada pré-sal. Um petróleo que está a seis mil metros de profundidade - dois mil metros de lâmina d'água, dois mil ou dois mil e quinhentos metros de rocha e depois mais dois mil metros de sal. É uma grande reserva. Não temos ainda a certificação da quantidade de petróleo porque não perfuramos ainda toda a área. Mas a primeira que perfuramos nos dá muito otimismo de que também temos muito petróleo.

Por isso que eu falei da indústria petroquímica entre Brasil e Arábia Saudita, que eu acho que é uma coisa extraordinária. Mas não apenas isso. Na questão agrícola, sobretudo na questão de carne, na questão de commodities, poderia haver parcerias entre empresas da Arábia Saudita e empresas brasileiras para produzir parte das coisas que a Arábia Saudita precisa.

Na área da construção civil, nós temos um campo extraordinário. Então eu penso que nós estamos nos descobrindo. Posso lhe dizer que eu saio daqui hoje com a convicção de que em poucos anos acontecerá entre a Arábia Saudita e o Brasil aquilo que não aconteceu no século XX.

A última pergunta para o nosso amigo da Arábia Saudita.

Jornalista: (inglês)

Presidente: Que dizem que a Arábia Saudita tem muita... Nós temos expertise em explorar o minério da bauxita e de o transformar em alumínio. Como a Arábia Saudita tem muita energia tudo isso fica mais fácil.

Bem amigos, tchau...

Jornalista: Uma última questão. Presidente... Não, eu queria saber um pouco mais sobre (incompreensível) que o senhor teve agora a tarde, parece que o senhor esteve inclusive com o príncipe Bin Talal. Eu queria saber um pouco como foram essas conversas, principalmente com o príncipe Bin Talal. Quer dizer, empresários muito importantes... Como é que... Eles falaram sobre o Brasil, têm interesse em investimentos com o Brasil? Anunciaram eventualmente algum interesse mais concreto? E a outra questão sobre uma coisa que o senhor [disse] no seu discurso durante o almoço, que é... O senhor falou que o Brasil e a Arábia Saudita não deveriam investir suas reservas em títulos do Tesouro americano, mas pegar esse dinheiro e investir na produção. Isso é uma coisa que o Brasil pode vir a fazer efetivamente? Quer dizer, pegar dinheiro das reservas e investir no setor produtivo?

Presidente: Veja, não só no Tesouro americano. Nós temos que ter clareza que depois da crise econômica o mundo precisa de novos investimentos para fazer girar a roda da economia. O que nós estamos percebendo? Países como a China estão utilizando parte das suas reservas para fazer crescer o mercado interno. O Brasil criou o Fundo Garantidor, o Brasil colocou US$ 36 bilhões das reserva para financiar o nosso setor de exportação e assim a gente vai contribuindo para girar economia. O que nós discutimos na verdade? É que a lógica que prevalecia na cabeça dos dirigentes políticos até antes da crise era uma. A lógica que está prevalecendo agora é outra. Todo mundo está convencido de que precisa de mais investimentos, de que precisa de dinheiro e portanto somente os países que têm reservas é que estão com mais facilidade de fazer esses investimentos.

Eu conversei muitos assuntos. Eu não esperava chegar aqui e encontrar um príncipe ou empresário com um pacote de investimentos para o Brasil. Não esperava. Eu esperava que acontecesse exatamente o que aconteceu. Eu mostrei quais são os principais investimentos brasileiros - do trem bala, ferrovias, outras, a hidrovia, a energia elétrica, casas, tantos projetos que têm no Brasil. Parceria na ciência e na tecnologia, parceria na área da educação... E aí, você sabe como é? Conversa vai, conversa vem... Eu já fui pedir o voto para o Brasil nas olimpíadas de 2016. Porque também ninguém é de ferro. E eu vi com muita simpatia.

Obviamente, ninguém adianta as coisas porque ninguém pode confirmar, também porque o voto é livre, secreto, sei lá... Mas eu acho que o Brasil está na disputa.

Agora, eu sou suspeito para falar da quantidade de elogios que o Brasil recebe nessas reuniões. Eu lembro que quando eu viajava, lá pelos idos de 80 ou 90, a gente chegava para conversar com uma pessoa de quarto escalão nos Estados Unidos e eles ficavam dizendo:"porque que o Brasil não faz a mesmo coisa que o Chile, porque que o Brasil não faz a mesma coisa?". As pessoas ficavam assim... Hoje não, hoje as pessoas sabem que o Brasil subiu de degrau. Então as pessoas têm muitos elogios ao Brasil, que não é nem bom um Presidente ficar contanto. Eu acho que se vocês conversarem com as autoridades daqui vocês vão perceber que o Brasil hoje é um exemplo. É um exemplo dito por todos os grandes analistas econômicos do mundo e dito por governos. Apenas porque trabalhamos com seriedade.

Tá, agora chega gente. Agora eu tenho que gravar sabe o quê? O Café com Presidente, diretamente da Arábia Saudita. Vou falar em árabe.

Jornalista: inaudível

Presidente: Eu penso que vocês não poderiam ir embora... Vocês vão embora daqui quando?

Jornalista: inaudível

Presidente: Não, é porque vocês poderiam conversar com os empresários daqui, com os presidentes das federações, para ver qual é a imagem que eles têm do Brasil.

Jornalista: inaudível

Presidente: Poderia conversar, conversar com o nosso embaixador para ver se marca uma conversa.

Está bem gente. Muito obrigado, até a Turquia, então!

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