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Jornalista: Antes de embarcar para a China o senhor deu uma série de declarações sobre o objetivo dessa viagem seria a diversificação das exportações brasileiras e o aumento do valor agregado das exportações brasileiras com a China. Mas de concreto, o único acordo que foi assinado na área comercial foi o do frango, e apenas confirma o acordo que já tinha sido fechado em fevereiro, ou seja, a impressão que dá é que não teve avanços nessa área.

Presidente: Eu confesso que não sei o que vocês esperavam. Mas o País tem apenas 35 anos de relações diplomáticas com a China, e a China já é o primeiro parceiro comercial do Brasil. Significa uma coisa extremamente importante, mais do que países com que nós temos relações seculares e com que nós temos uma balança comercial de apenas US$ 5 bilhões. Quer dizer, a relação China e Brasil é uma relação muito dinâmica, e é uma relação que vai avançando na medida em que a gente vai estabelecendo uma relação de confiança, uma relação política, uma relação cultural.

Veja, os chineses estão ávidos para participar da questão do pré-sal. Nós iniciamos uma discussão por empréstimos de US$ 10 bilhões, o que não é pouca coisa no momento em que o crédito está escasso no mundo. Nós decidimos abrir uma agência do BNDES aqui, uma agência do Banco do Brasil. Eles decidiram que vão abrir uma agência do Banco de Desenvolvimento, lá. Isso é muita coisa. Nós decidimos que a fiscalização sanitária pode liberar logo, logo a carne brasileira. Nós decidimos... e eu falei com o Hu Jintao sobre os aviões da Embraer, em função da crise eles deram uma suspendida, como todos os países do mundo suspenderam determinadas coisas.

Eu propus para o Hu Jintao que nós fizéssemos uma reunião entre o Presidente do Banco Central brasileiro, o Ministro da Fazenda do Brasil, mais o Banco Central deles, mais o Ministro da Fazenda deles, para que a gente comece a estabelecer uma relação de fazer as nossas trocas comerciais em moeda chinesa e moeda brasileira.

Tudo isso leva um tempo. Ah, se eu pudesse viajar e cada vez que eu voltasse para casa eu levasse um pacote de coisas compradas e de coisas vendidas. Não é assim. O que é importante é que os empresários brasileiros que participaram da reunião de Pequim e de Xangai, os empresários chineses que participaram, as outras delegações que vão ao Brasil e as delegações que vão vir para cá, ao longo do ano, vão concluindo outros acordos.

Eu não tenho dúvida nenhuma de que a relação entre China e Brasil só tende a crescer. Eu chego a dizer que ela é quase infinita, tal são as necessidades do Brasil, tal são as necessidades da China, tal é o potencial da China e o potencial do Brasil. A mesma coisa acontecerá na Arábia Saudita.

Eu não cheguei à Arábia Saudita imaginando que eu ia trazer um pacote de coisas e ia deixar vendido, não! Eu fui à Arábia Saudita para estabelecer uma relação com um país que saiu de 1,2 bilhão para 5,5 bilhões na balança comercial e [para] que eu tenha convicção de que nós não exploramos ainda um quarto do que nós temos direito de explorar - na área de engenharia, na área de serviço, na área de importação ou exportação. Portanto, da mesma forma vou à Tunísia agora com o mesmo objetivo. É um país de 80 milhões - na Turquia - é um país de 80 milhões... Nós temos um comércio ainda pequeno. Nós vamos lá para começar a mostrar: "olha, existimos e vocês existem. Vamos trabalhar juntos para a gente crescer".

Qual é o resultado de tudo isso? O resultado de tudo isso é que nós saímos de US$ 60 bilhões para mais de US$ 200 bilhões na balança comercial. O resultado de tudo isso é que nós conseguimos, em seis anos, diversificar a balança comercial brasileira e não ficamos dependendo mais deste ou daquele bloco. Hoje nós temos uma balança comercial bastante diversificada, eu diria em todos os continentes, e vamos continuar trabalhando para crescer ainda mais. Sabendo que estamos vivendo um momento de crise em que o crédito desapareceu, as importações estão diminuindo em todos os (incompreensível). Mas, de qualquer forma, nós não podemos parar de trabalhar para ir construído os degraus que vão permitir a economia brasileira crescer e o Brasil exportar cada vez mais e o Brasil importar cada vez mais.

É assim que a gente faz política internacional e os resultados estão aí para quem quiser ver. É na verdade uma política de garimpo. Nós temos que garimpar, nós temos que vender cada produto, nós temos que convencer as pessoas de que os nossos produtos são melhores. Eu saio da China com uma sensação de uma coisa muito exitosa. Quem conhece os chineses, quem trabalha com eles como nós trabalhamos, quem viu a participação de todos os líderes chineses participando de todas as reuniões sabe que o Brasil é uma coisa preferencial para os chineses e os chineses são uma coisa preferencial para o Brasil. Juntos, nós temos um potencial extraordinário para trabalhar com outros países.

Jornalista: Presidente, Dilma Roussef. Com as informações que o senhor tem, qual é o seu grau de preocupação em relação a ela? E segundo, como o que aconteceu com ela, já voltou no Brasil a discussão do terceiro mandato, deu força para à questão do terceiro mandato. Caso a ministra não possa concorrer, o senhor vai aceitar concorrer a um terceiro mandato?

Presidente: Eu não discuto essa hipótese. Primeiro porque não tem terceiro mandato e segundo porque a Dilma está bem. Eu conversei com o doutor Kalil ainda eram 9 horas da noite, ou seja, a Dilma já tinha passado por todas as dores. Foi uma reação à quimioterapia, que segundo os médicos, não tem nenhum problema. Essa preocupação pode deixar de ter porque ela não vai existir, a Dilma vai fazer a quimioterapia dela mas ela está totalmente curada, ou seja, não tem problema.

Jornalista: Presidente o senhor a colocou o Brasil no mesmo patamar que a China, mas a impressão que a gente tem é que a China é mais importante para o Brasil do que o Brasil para a China. O que a gente tem a aprender com o modelo de crescimento chinês?

Presidente: Primeiro nós temos apenas que ter humildade e reconhecer as diferenças culturais, as diferenças políticas, as diferenças que existem em cada partido. A China tem um modelo próprio, tem uma coisa própria dela que não pode ser copiada pelo Brasil, nem pelos Estados Unidos, nem pela Venezuela, nem pela Argentina. É uma coisa da China, é um modelo deles que dá certo aqui na China porque eles são assim. Ou seja, o Brasil não tem que estar preocupado com o modelo da China, o Brasil não tem que estar preocupado com o seu modelo, com o seu desenvolvimento. E o Brasil vai bem, obrigado.

Nós poderíamos estar muito melhor se continuássemos a trajetória que vínhamos desde 2008. Tivemos que dar uma freada por precaução, mas os sinais que estamos tendo agora é de que vários setores da economia estão se recuperando e o Brasil vai, segundo o seu modelo de crescimento, vai se desenvolver e vai gerar os empregos necessários.

Por que o Brasil tem uma relação privilegiada com a China, com a Índia, com a Rússia, com a África do Sul? Por que nós temos essa relação? Porque são países que têm muitas similaridades. Se você hoje pegar um produto, você, cidadão comum, e for vendê-lo na França, na Alemanha, na Suécia ou na Dinamarca a chance de lá eles já produzirem um material daquele é muito maior, então você tem menos chance de vender o seu produto. Se você procura um produto, um país que tem similaridade com o Brasil, que tem muita infraestrutura para ser feita, que tem muita gente ainda querendo carro, que tem muita gente ainda querendo geladeira, tem muita gente ainda querendo as coisas primárias que o mundo desenvolvido já conseguiu, a tua chance de vender é muito maior. Você já reparou porque não vai camelô vender na avenida Paulista? Ou não vai camelô vender no Jardim Brasil? É porque eles sabem que aquelas pessoas que moram lá já têm tudo. Por que eles vão à periferia? Porque eles têm certeza de que lá tem alguém precisando de alguma coisa. Esta é lógica do Brasil e da China, do Brasil e da Índia, do Brasil e do México, do Brasil e da África do Sul, do Brasil e do continente africano, do Brasil e dos países árabes, ou seja, nós temos o mundo em nossas mãos, nós podemos fazer tudo, ao passo que os países ricos já têm os seus problemas resolvidos. É por isso que eu privilegio (incompreensível) 1,3 bilhão de habitantes. Ainda há (incompreensível) milhão de habitantes. Essas pessoas precisam comer carne, essas pessoas precisam comer frango, essas pessoas precisam de uma série de coisas que o Brasil pode ajudá-los. E eles têm coisas que podem ajudar o Brasil.

É só você analisar a balança comercial entre o Brasil e os países ricos, e analisar a balança comercial entre o Brasil e a Argentina, entre o Brasil e a China, entre o Brasil e a Venezuela, entre o Brasil e a Colômbia, que vocês vão perceber que exatamente, por termos muita similaridade e sermos mais ou menos iguais, nós vendemos mais uns para os outros do que aos países ricos que só querem vender porque são mais detentores de tecnologia.

Então, eu acho que eu volto para o Brasil com a sensação, com a sensação de que China e Brasil vão construir muita coisa extraordinária ainda para o povo brasileiro e para o povo chinês.

Há um oceano Pacífico e Atlântico juntos de oportunidades que nós precisamos pesquisar e fazer as coisas fluírem. Tudo é muito difícil porque você tem empresário chinês que não quer que entre só produto brasileiro, você tem empresário brasileiro que não quer que entre só produto chinês, e assim vai, esse é o mundo dos negócios. Todo país só quer vender, você pensa que alguém quer comprar? Todo mundo quer ter superávit comercial. Mas não é possível! O ideal é que haja um equilíbrio. Eu vendo cem, eu compro cem e ninguém tem prejuízo, e no final do ano fecham as contas. Mas, tem países que você tem déficit, outros países você tem superávit, e assim a economia do mundo vai girando. Por isso que eu estou aqui, nessa base de lançamento de satélite, porque também eu ia falar de quê? O mundo está girando, a economia está girando e o Brasil está bem.

Jornalista: E a (incompreensível) brasileira, qual vai ser a função dela aqui?

Presidente: Veja, qual é a função nossa? Deixa eu contar uma coisa para vocês que muitas vezes me magoa como ser humano, é sempre assim. Precisa parar de se enxergar pequeno. O problema do Brasil é que o Brasil tem a mania de se achar pequeno. Eu não posso fazer isso, porque eu sou pequeno. Eu não posso fazer Copa do Mundo. Eu não posso abrir agência de banco em outros lugares. Ora, o Brasil tem que ter agência do Banco do Brasil na maioria dos países com que o Brasil tem relação comercial. O Brasil tem que ter agência do BNDES, porque o BNDES pode ser o indutor da entrada de indústrias brasileiras nesses países, da construção de parcerias. O Brasil precisa pensar que ele é um país tomador e não um país pobre que só espera receber as coisas dos outros. E você só age grande se você pensar grande. Acabou o momento em que o Brasil precisava de 5 milhões da Unesco para isso, 2 milhões não sei do que para aquilo, 1 milhão da FAO para aquilo... Não! O Brasil entrou, eu diria, no espaço dos países grandes respeitados. Portanto, nós temos que fazer (incompreensível). Eu, de vez em quando, fico vendo as coisas acontecerem.

Veja quantos empregados tem na embaixada dos Estados Unidos aqui na China, ou da França ou do Reino Unido? E veja quantos funcionários tem a embaixada brasileira? Veja quantos funcionários tem na embaixada da China em Angola e veja quantos têm... Porque nós pensamos pequeno. Porque nós não colocamos a nossa autoestima e não temos uma estratégia de ter uma inserção maior no mundo. É isso que nós estamos construindo agora. O Brasil [precisa] se comportar como um país grande. O Brasil [precisa] se comportar como um país que tem interesses estratégicos e, para isso, as nossas instituições têm que ir na frente. Quem mais pode discutir desenvolvimento do que o BNDES? Quem mais pode discutir financiamento do que o Banco do Brasil? Quem mais pode representar o Brasil do que o nosso... os nossos diplomatas? Só que é difícil, você chega em um país como os Estados Unidos têm dois mil e poucos funcionários, a França tem 1,5 mil, a China tem 800 e o Brasil tem 10, tem 8, tem 9.

Jornalista: Quando que o Brasil vai ter mais?

Presidente: E ainda as pessoas ficam dizendo que o Estado brasileiro gasta muito.

Jornalista: (inaudível).

Presidente: Nós estamos fazendo isso. Se vocês analisarem a quantidade de embaixadas que nós abrimos... essas coisas têm que ser vistas. Você pega os países árabes: nós tínhamos uma balança comercial de U$ 8 bilhões e hoje nós temos de U$ 20 bilhões. Isso significa trabalho, significa persistência. Então eu acho que o Brasil está construindo as coisas certas e nós precisamos intensificar mais com a China, precisamos intensificar mais com a Índia, precisamos intensificar mais com a Rússia, que são países que têm similaridades com o Brasil, potencial igual ao Brasil, e que, portanto, vamos em frente.

Jornalista: Moeda local (incompreensível) você acha que quando que pode sair (incompreensível) moeda local?

Presidente: Esse é um trabalho que não é um trabalho fácil, porque tem as normas de cada Banco Central, muitas vezes as pessoas não querem mudar. Nós demoramos bastante para fazer com a Argentina, demoramos bastante, porque tem coisas técnicas que a burocracia de cada banco acha que não pode mexer.

Mas o que é importante é que a gente tem a disposição de fazer com que nos países com os quais o Brasil tem uma grande relação comercial, que a gente pense em fazer as transações comerciais nas nossas moedas. Com os Estados Unidos, faz em dólar, com o Europa, faz em euro, com a América Latina faz com a moeda de cada país, com a China, na moeda deles. Assim eu acho que é melhor para todos os países, facilita para as pequenas e médias empresas.

De qualquer forma, como é uma novidade, porque nós tivemos muito tempo subordinados ao ouro, e agora estamos subordinados ao dólar, vamos nos subordinar à nossa própria moeda que quem sabe a gente tem mais chance. Um abraço, boa viagem para vocês, até a próxima.

Jornalista: Obrigada.

Presidente: Vocês estão convidados para ir à reunião dos Brics.

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