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Jornalista: A sua visita coincide com o 35º aniversário de relações diplomáticas entre os dois países. Quais as vantagens que o senhor tem a transmitir ao povo chinês com esta visita e como está a associação estratégica entre ambos os países?

Presidente: Bem, primeiro é extremamente auspicioso para o Brasil e para a China que, ao comemorarmos 35 anos de relações diplomáticas, a China já seja o primeiro parceiro comercial do Brasil. Nos quatro primeiros meses deste ano, a China ultrapassou os Estados Unidos.

A nossa parceria estratégica pressupõe mais ousadia na relação entre os dois países. Nós temos muitas afinidades. Em todos os fóruns multilaterais, China e Brasil trabalham de comum acordo. Muitas vezes parece que temos divergência porque disputamos o mesmo mercado com alguns produtos nossos. Aí, nós temos que ter paciência porque a vontade é comparativa será da capacidade tecnológica do país, da qualidade do produto ou do preço do produto. Mas, fora disso, China e Brasil têm tido um comportamento excepcional nos parâmetros multilaterais.

Ontem eu disse ao Presidente Hu Jintao, disse ao Primeiro-Ministro, disse ao Vice-Presidente que China e Brasil não têm que ter medo um do outro. Nós ainda não exploramos 10% do potencial comercial, cultural e político que nós temos. Nós somos dois grandes países com possibilidades extraordinárias para trabalhar conjuntamente. Na área do petróleo, na área da agricultura, na área espacial, no intercâmbio científico... Nós temos que ter estudantes chineses no Brasil e estudantes brasileiros aqui. Nós temos que ter muitos cientistas brasileiros aqui e muitos cientistas chineses no Brasil. Por quê? Porque China e Brasil jogam um papel extremamente importante nos fóruns multilaterais, no G20.

Hoje é praticamente impossível os tradicionais países ricos fazerem uma reunião para decidir alguma coisa no mundo sem levar em conta a existência da China, sem levar em conta a existência do Brasil, sem levar em conta a existência de outros países que fazem parte dos emergentes. Então, qual é a mensagem que eu poderia dar ao povo chinês? Eu queria dizer ao povo chinês que acredite, acredite com muita sinceridade, que China e Brasil serão países muito importantes nas próximas duas décadas.

Eu acho que nós poderemos nos transformar em grandes economias, poderemos melhorar a vida do nosso povo e poderemos ter uma inserção nas decisões mundiais como nunca tivemos.

Eu saio daqui convencido de que China e Brasil entraram em uma rota nas suas relações que não tem retorno. Cada vez mais nós vamos melhorar porque o mundo precisa que países como China e Brasil tenham um certo equilíbrio nas relações internacionais.

Portanto, eu volto para o Brasil muito otimista. Espero receber o Presidente Hu Jintao no Brasil nos próximos... Quem sabe até no próximo ano. E cada vez mais os nossos ministros, os nossos empresários vão ter que trabalhar para explorar as oportunidades.

Falta uma coisa: é ter vôo direto China - Brasil e Brasil - China. Isso é uma coisa que nós ainda estamos devendo ao povo chinês e ao povo brasileiro.

Jornalista: Eu gostaria de fazer uma pergunta, Presidente. Perguntar se dá para fazer uma avaliação desta visita, as relações entre o Brasil e a China. Como ficam as relações Brasil e China na conjuntura mundial?

Presidente: Olhe, primeiro é importante conhecer o que aconteceu nos últimos anos. O que aconteceu na China foi uma revolução interna do ponto de vista do desenvolvimento. Não tem um ser humano que tenha vindo a Pequim há 10 anos e venha este ano para não tomar um susto com o desenvolvimento da China.

A mesma coisa acontece no Brasil. No Brasil nós conseguimos melhorar muito a vida do povo brasileiro. Depois de muitos anos, a nossa economia voltou a crescer e hoje nós somos um país, como a China, com forte estabilidade econômica, forte ação no comércio exterior e com muita vontade de enfrentar essa crise, evitando que o povo pobre tenha mais prejuízo.

Eu saio da China com a certeza de que os três acordos que nós assinamos ontem vão permitir um avanço extraordinário de investimentos brasileiros na China, da construção de parcerias entre empresas chinesas e empresas brasileiras e de investimentos da China no Brasil.

Certamente - e eu disse isso ao Presidente Hu Jintao - Brasil e China ainda não exploraram 10% do potencial na área comercial, na área política e na área cultural.

Ontem o Presidente Hu Jintao propôs - e eu aceitei - que a gente tenha, em 2010, o mês da China no Brasil e o mês do Brasil na China, para que os nossos povos possam se conhecer melhor.

Ontem, na Academia de Ciências Sociais da China, foi criado o Instituto Brasileiro. Nós precisamos criar o mesmo no Brasil para a China. Nós, com a descoberta do petróleo na área do pré-sal - é um petróleo que está a seis mil metros de profundidade e vai precisar de muitos investimentos - vamos precisar construir parcerias. Aí, nós vamos construir parcerias com os países com quem nós temos relações boas, e a China é o melhor exemplo. De volta [forma] que... Eu volto para o Brasil muito satisfeito com o aprimoramento das relações entre Brasil e China.

Agora em agosto, nós vamos ter a segunda reunião de cúpula da qual participam o Primeiro-Ministro da China e o Vice-Presidente do Brasil para elaborar o plano de ação da nossa parceria estratégica para os próximos anos. O Brasil tem muita coisa para vender para a China, a China tem muita coisa para vender para o Brasil, mas o mais importante é que nós temos muita coisa para construirmos juntos.

Jornalista: Eu gostaria de fazer uma pergunta - sou do jornal O Globo. Eu gostaria de saber se o Brasil vai apresentar novamente o pedido para entrar no Conselho de Segurança da ONU? Qual é a posição do Brasil e se apresentará as nossas condições para entrar no Conselho?

Presidente: Olhe, o Brasil continua acreditando que não é possível que a ONU de hoje seja a mesma ONU de 1948. O próprio Presidente Obama disse na reunião do G-20 em Londres, em uma entrevista, que o mundo de hoje não pode ser visto como o mundo da década de 50, em que um presidente americano e um primeiro-ministro inglês se sentavam em torno de uma mesa e decidiam o destino da humanidade. A ONU tem que ser mais democratizada. Nós temos países africanos que precisam estar representados. Nós temos na América Latina países que precisam estar representados. Como é que se explica a Índia fora do Conselho de Segurança? Como é que se explica o Brasil fora? São... Índia... São...

Nós temos dois problemas que não cabem a mim, que não cabem a mim... Tem uma divergência forte da China com o Japão e uma divergência forte da Itália com a Alemanha. Mas nós não temos que nos preocupar, em um primeiro momento, com os países que vão entrar. Porque serão duas coisas: a primeira decisão é se vai ter reforma e qual será a reforma. Na segunda decisão, você vai escolher quais os países que irão participar. Ou nós fazemos isso ou a ONU estará cada vez mais fragilizada. O que nós queremos é fortalecer este que é o maior fórum multilateral criado por todos os países do mundo. Quanto mais representativo ele for, mais a sério serão levadas as decisões da ONU.

Eu vou dar um exemplo: o conflito no Oriente Médio, entre Israel e Palestina, não pode ser uma coisa dos Estados Unidos. É uma coisa que a ONU deveria assumir, mas para assumir tem que ter legitimidade e representatividade que faltam muito hoje.

Jornalista: Senhor Presidente, (incompreensível) vai haver uma reunião dos Brics. (incompreensível) a crise financeira mostrou que cada vez mais é importante (incompreensível) . O senhor acha que o Brasil e a China podem ajudar a contribuir para um sistema financeiro internacional mais saudável?

Presidente: Olha, na verdade nós já tomamos algumas decisões importantes. Tanto a China quanto o Brasil se dispuseram, nas mudanças que tem que passar o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, eu penso que será inevitável que a China e o Brasil participem dos países que aportem um pouco de recursos para que essas instituições possam financiar os países mais pobres e [com] mais dificuldades.

A segunda coisa, é que a China e o Brasil mais os países que compõem os Brics se colocaram de acordo em Londres, de que é preciso ter um controle mais forte sobre o sistema financeiro. Os bancos devem existir e devem ser fortes para financiar a produção. Os bancos não podem viver de especulação. A cada financiamento de um banco tem que [se] gerar um produto, que consequentemente gera um emprego, e gera riqueza para o povo. Não é possível os bancos ganharem dinheiro trocando papéis e apostando no mercado futuro, valorizando mercadorias que ainda não foram nem produzidas. Esse é um desafio. E nesse aspecto, os Brics estão de acordo. Além de participar da regulação do sistema financeiro, nós temos que fiscalizar os chamados paraísos fiscais.

Jornalista: ... decisão de colocar mais dinheiro no fundo (incompreensível)

Presidente: Primeiro, nós não misturamos as nossas relações bilaterais com as nossas relações multilaterais. O Brasil tem boa relação com cada país dos Brics. A China tem boa relação com cada país dos Brics. Mas nós temos as nossas relações, e nós queremos preservá-las e cada vez melhorá-las. Eu penso que quem tem que colocar dinheiro no Banco Mundial e no FMI, prioritariamente, são os países ricos. Mas eu penso que China e Brasil não podem ficar de fora. Até porque isso nos dá autoridade moral de ter, eu diria, uma participação nas decisões desses fundos, dessas instituições multilaterais de financiamento.

Eu não sei se vocês perceberam que quando a crise era nos países pobres, o Banco Mundial e o FMI sabiam de tudo. Davam palpites em tudo. Agora que a crise é nos Estados Unidos, na Europa e no Japão eles não dão palpites e parece que não sabem de nada. O que é importante é que, com esta crise, os Estados saem fortalecidos. Ou seja, aquela velha teoria de que o Estado não valia nada e de que o mercado por si só resolveria o problema dos países da humanidade, acabou. Quando o Lehman Brothers quebra, eles vão atrás de quem? Do Estado. Quando na Alemanha um banco tem problema, ele vai atrás de quem? Do Estado. Portanto, o Estado deve sair dessa crise muito fortalecido. Por isso eu acho que China e Brasil terão que participar.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Porque é difícil. Mas ontem eu propus ao Presidente Hu Jintao que deve haver, ainda este ano, uma reunião do Presidente do Banco Central Chinês, do Ministro da Economia Chinesa com o Presidente do Banco Central Brasileiro e com o Ministro da Fazenda do Brasil, para que a gente possa começar a trabalhar uma regulação, para que o nosso comércio seja feito em nossas moedas.

Nós já estamos fazendo isso com a Argentina, queremos estender para toda América do Sul e vamos fazer com a China. Nós não queremos ficar dependendo do dólar. A China tem sua moeda, o Brasil tem a sua moeda, nós vamos regular essa nova prática de comércio e, se Deus quiser, logo, logo nós poderemos ter novidades.

O problema não é político. O problema é muito mais técnico. A burocracia de cada instituição dessas é muito zelosa pelo histórico de que fazer mudanças é sempre difícil. Mas eu acho que nós tivemos êxito nesta nova empreitada.

Jornalista: Como os líderes chineses reagiram a essa sugestão? Além da China e da Argentina, o senhor está tentando também desenvolver isso com outros países?

Presidente: Nós estamos pensando - nós começamos com a China - estamos pensando em fazer dentro do Mercosul e depois estender para toda a América do Sul. Depois pegar os parceiros mais importantes que o Brasil tem e começar a trabalhar esta possibilidade. Eu acho extremamente importante que a gente não fique dependendo do dólar para fazer transação comercial.

Jornalista: (incompreensível) O senhor está satisfeito com a sua visita até agora, com essa pauta? O senhor acha que pode (incompreensível)

Presidente: Olha, vamos ter em conta que nós estamos vivendo uma crise econômico-financeira. Vamos levar em conta que os dois países... além da relação comercial na área de commodities, nós temos um potencial industrial extraordinário. Eu vou dar um exemplo: Ontem eu conversei com o Presidente Hu Jintao. A China assinou um pré-contrato para comprar 45 aviões C-190 da Embraer e isso não avançou. Por que não avançou? Por conta da crise econômica. Eu entendo que na hora que vem uma crise econômica, você começa a utilizar apenas aquilo que é importante. Mas nós temos produtos com valor agregado para vender para a China e temos o que comprar da China. Nós temos parceria na área espacial. No setor de serviço, o Brasil tem um potencial extraordinário. E, graças a Deus, a China precisa de muita matéria-prima e o Brasil tem para vender - minério de ferro, soja. Ontem fizemos um acordo para que... A China vai voltar a comprar frango do Brasil - e vocês vão gostar do frango do Brasil. Fizemos acordo da inspeção sanitária para que a China comece a comprar carne de boi do Brasil e outras dezenas de produtos na indústria de petróleo, na indústria petroquímica.

Um dado concreto que é importante compreender, é que o Brasil só tem 35 anos de relação diplomática com a China. E tem outros países [com] que nós temos relações diplomáticas seculares e a balança comercial não passa de US$ 5 bilhões. O potencial da nossa relação com a Europa é importante, mas é menor do que a possibilidade entre nós, porque nós somos países emergentes. Nós temos ainda que fazer muitas casas, muitos apartamentos, o nosso povo ainda precisa utilizar muito carro, muita geladeira, muita televisão. Nós temos tudo para construir. Os outros já não têm mais. A possibilidade de a China vender para o Brasil e de o Brasil vender para a China é muito maior.

Com o que nós precisamos tomar cuidado? A boa política comercial é como se fosse uma grande rodovia, de duas mãos - um carro vai para lá, outro carro vem para cá. A boa relação comercial é aquela em que há equilíbrio, que um país não sufoque o outro. Que em um mês um tenha superávit, no outro mês o outro tenha superávit, para que haja uma coisa equilibrada. China e Brasil têm consciência disso.

Como vocês são muito jovens, vocês vão ver em um futuro muito próximo como será exuberante a relação comercial, política e cultural com a China. É prioridade do Brasil e é prioridade da China.

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