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Jornalista: Presidente, Honduras. Pelo menos um morto, saque em supermercado, a OEA até agora não chegou lá, a gente... o governo... o Conselho de Segurança não marcou reunião; o governo de fato, se é assim que se diz, que se fala, diz que não quer mais conversar com o Arias; o Zelaya, de dentro da Embaixada, convocando manifestação. Com todo esse quadro, esses problemas todos - o Zelaya fazendo da Embaixada um palanque político, digamos assim -, até que ponto o Brasil sustenta essa situação, o governo brasileiro sustenta essa situação sem se prejudicar?

Presidente: Eu penso que nós não precisamos procurar meias palavras para explicar o que aconteceu em Honduras. Em Honduras teve um golpe de Estado em que o presidente eleito democraticamente foi tirado da sua casa de madrugada e levado para outro país, e esse Presidente resolveu voltar ao seu país, e esse Presidente foi à Embaixada brasileira, que nem embaixador tinha mais, nós temos um representante comercial. Ele está lá e nós, governo brasileiro, queremos que ele fique com garantias lá e esperamos que os golpistas não façam nada com a Embaixada brasileira porque eu acho que isso faz parte de convenções internacionais e sempre foi assim na história do mundo moderno. Nós temos muitos brasileiros que se abrigaram em embaixadas em outros países e eu acho que tem que ser assim. O que eu espero é que os golpistas entendam que, se tem uma coisa acontecendo de equivocada em Honduras, não é sequer a volta do Zelaya. É eles continuarem no poder sem terem sido eleitos para isso.

Acho que, ao tomarem medida de não conversar com o presidente da Costa Rica, o Arias, para fazer um acordo, é um sinal da má vontade dos golpistas de conversar. Eu espero que a OEA, que está para ir lá, compareça a Honduras, que converse com quem tem que conversar. Nós pedimos ao Conselho de Segurança que se reunisse, vamos esperar para saber se há alguma decisão, e esperamos que a Embaixada brasileira não seja violada em espécie alguma.

Jornalista: Muita paciência...

Presidente: Se fizer isso... Tem que ter paciência, tem que ter paciência porque... eu gostaria que não fosse assim. Nós tomamos decisões dois meses e meio atrás para que não fosse assim. O mundo inteiro repudiou o golpe e somente as pessoas que deram o golpe é que não têm ouvidos para entender que o mundo não aceita mais que golpistas cheguem ao poder pela via indireta e mais, eu diria, repudiável que existe no mundo. Portanto, para nós, nós temos que aguardar. Nós temos que aguardar a OEA, nós temos que aguardar o Conselho de Segurança, na expectativa de que não se tente violar a Embaixada brasileira.

Jornalista: Com o Zelaya agindo dessa maneira, convocando manifestações, fazendo disso... pode se considerar um palanque político na Embaixada?

Presidente: Veja, eu não sei se ele está convocando comício porque obviamente que ele não está lá escondido embaixo da cama. Ele quer estar lá para saber que ele voltou ao seu país, e eu acho importante que esse fato seja um fato que leve os golpistas a se sentarem à mesa, conversar e restabelecer a normalidade em Honduras, que é o que todo mundo deseja.

Jornalista: Presidente, algumas coisas em relação ao Conselho de Segurança. O que o Brasil espera que o Conselho de Segurança faça? São sanções econômicas, há possibilidade de sanções militares... O que o Brasil está querendo (incompreensível). Outra coisa: hoje, o Presidente Sarkozy fez uma longa defesa do Brasil no Conselho de Segurança de modo definitivo. Houve, isso é uma cortesia porque o Brasil comprou caças da França?

Presidente: Olha, eu não sei se você tem acompanhado o discurso do Sarkozy, o discurso do Gordon Brown, o discurso de muitos outros presidentes que têm defendido ao longo desses últimos anos a presença do Brasil no Conselho de Segurança. E não é apenas a presença do Brasil, porque quando nós reivindicamos a reforma da ONU, nós não estamos colocando condição sine qua non o Brasil entrar no Conselho. O que nós estamos achando é que você não pode continuar com a representação política com a governança mundial com base na geopolítica da Segunda Guerra mundial. O que nós achamos é que os continentes devem estar melhor representados. Primeiro se discute a reforma, que tipo de reforma, depois então vai se discutir quem serão os países que vão entrar, e aí obviamente que terá votação e, obviamente, que entrará aquele que tiver mais voto.

O que nós queremos, na verdade, é a certeza de que a ONU vai se adaptar ao século XXI e não vai continuar com a mesma cabeça da metade do século XX. É isso que no fundo, no fundo, nós queremos. Com relação ao Conselho de Segurança, o que nós queremos é responsabilizar a quem de direito para cuidar disso. Nós não podemos permitir que o caso de Honduras fique, eu diria, sem a compreensão das Nações Unidas e do seu Conselho de Segurança, porque nós já vivemos as experiências de golpes militares no Brasil na década de 60 [1960], na Argentina, no Uruguai, em tantos outros países e nós não queremos que isso se repita e o que aconteceu em Honduras é um sinal muito ruim do que pode acontecer em outros países. Afinal de contas, muita gente de esquerda chegou ao poder na América Central. A direita não estava habituada a ficar fora de governos e, de repente, ela se vê derrotada em El Salvador, se vê derrotada na Nicarágua, se vê derrotada na Guatemala. Daqui a pouco, os perdedores acham que têm o direito de dar um golpe e ficar no poder. É isso, é isso que fez com que o Brasil envolvesse o Conselho de Segurança também para garantir a Embaixada brasileira.

Jornalista: Sanções econômicas também?

Presidente: Bom, eu não sei. Não me peça para falar o que o Conselho vai decidir. Primeiro porque eu não sei se ele vai se reunir. Segundo, se ele se reunir, eu não sei o que ele vai decidir. Eu acho que as sanções, o Conselho terá autonomia para decidir o que vai fazer. Eu sei que o caso é um sinal grave.

Jornalista: Mas o senhor pode responsabilizar, responsabilizar... O Conselho de Segurança, ele é lento, ele não tem funcionado? (incompreensível) Conselho de Segurança?

Presidente: Eu acho que o Conselho de Segurança vai se reunir na medida em que eles acharem que devam se reunir. Eu acho que a coisa é grave.

Jornalista: (incompreensível) tomar conhecimento do assunto é importante?

Presidente: Eu acho que a coisa é grave, é urgente e eu penso que é um sinal muito ruim o que aconteceu em Honduras. Já faz mais de dois meses que a OEA tomou a decisão, já faz meses que o presidente da Costa Rica tenta negociar, o Zelaya já tinha cedido muito e ainda assim parece que os golpistas se acham inatingíveis assim, dentro do poder. Então, eu acho que o Brasil está cumprindo com a sua parte. Eu espero que Honduras volte à normalidade, que o Presidente volte ao seu posto, convoque as eleições e que Honduras viva tranquila porque precisa de paz, de democracia para poder crescer e ficar um país mais distribuidor de renda para o seu povo. (incompreensível).

Jornalista: Eu queria perguntar ainda sobre Honduras. Ontem o senhor teve a oportunidade de se encontrar com o presidente Obama em um jantar (incompreensível). Hoje não sei se o senhor vai ter a chance de falar com ele novamente. Honduras foi tratada?

Presidente: Não, veja, eu conversei ontem à entrada do presidente Obama. O assunto não era Honduras. Era uma reunião que tinha muitos chefes de Estado e nós combinamos de conversar sobre Honduras quando chegarmos em Pittsburgh, onde nós vamos ter mais tempo e vamos ficar mais juntos. Hoje, ao sair do meu discurso, eu me encontrei com o Obama outra vez e disse para ele da necessidade de a gente conversar um pouco mais sobre Honduras. Então, como nós vamos ter dois dias juntos, nós vamos ter tempo para conversar.

Jornalista: Mas, o que ele disse? Os Estados Unidos demonstraram...

Presidente: Eu não conversei com ele. Eu só disse a ele que nós precisaríamos conversar sobre Honduras.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Eu que os americanos têm tomado as atitudes corretas, eles têm avançado, têm avançado.

Jornalista: Nessa conversa que o senhor vai ter com ele, o senhor pode pedir o apoio dele para a (incompreensível) do Brasil de reunião do Conselho?

Presidente: Certamente que eu vou pedir o apoio.

Jornalista: Agora, Ahmadinejad, Presidente. Bom, o Presidente iraniano é condenado por líderes do mundo inteiro. Pelos questionamentos que fazem em relação ao Holocausto, ele é, inclusive, boicotado por líderes mundiais. A informação que nós temos é que o discurso dele na ONU hoje deve ser boicotado até pelo Canadá, que não é um país radical. No entanto, o senhor recebeu Ahmadinejad hoje. Eu queria que o senhor avaliasse, diante de toda essa pressão, se receber Ahmadinejad não é um constrangimento internacional e se o senhor usou esse momento para enviar a mensagem americana, como foi solicitado, de condenação da proliferação das armas. O senhor tratou desse assunto?

Presidente: Primeiro, se alguém fica constrangido, não é o meu caso. Eu encontrei com o presidente do Irã porque o Irã é um grande país. O Brasil tem uma boa relação com o Irã. Ele estará visitando o Brasil em novembro e eu estarei visitando o Irã no começo do ano que vem.

Jornalista: (incompreensível), marcaram data.

Presidente: E eu tenho dito a todos os presidentes que me perguntam sobre o Irã o que eu vou dizer para vocês: eu defendo, para o Irã, o mesmo que eu defendo para o Brasil no que diz respeito à energia nuclear. O Brasil tem, talvez, mais vantagem porque o Brasil é o único país do mundo que tem na sua Constituição a certeza de que o Brasil não poderá produzir armas nucleares. Isso é constitucional. Nem os Estados Unidos têm, nem a Alemanha tem. Só o Brasil que tem isso, e como eu acho que o Brasil tem que utilizar a tecnologia da energia nuclear para fins pacíficos, é o mesmo que eu desejo para o Irã, que ele possa ter os mesmos direitos que tem o Brasil e que tem outros países que trabalham a questão nuclear para fins pacíficos.

Eu não vejo nenhum constrangimento pela divergência. Veja, a questão do Holocausto. É possível que você tenha vários presidentes que pensam um assunto que eu não concorde. Eu continuo pensando e defendendo que houve o Holocausto e foram milhões de vítimas do Holocausto. Se eles pensam diferente, é um problema deles e não é meu problema. Isso não prejudica a relação do Estado brasileiro porque isso não é um clube de amigos. Isso é uma relação do Estado brasileiro com o Estado iraniano. Hoje eu estou na Presidência do Brasil, ele está na Presidência do Irã. Daqui a alguns anos, nem ele estará lá, nem eu estarei aqui. Portanto, os Estados precisam continuar conversando.

Jornalista: Qual foi a conversa que o senhor teve?

Presidente: Muita coisa. O Brasil tem muita coisa para conversar com o Irã porque o Irã é um país que tem muito petróleo. O Brasil tem um superávit comercial na balança comercial com o Irã muito forte. Nós achamos que é preciso equilibrar isso. Nós achamos que temos muito para vender lá, e acho que eles têm o que nos vender. Por isso, nós vamos estabelecer uma missão empresarial ao Irã para discutir, liderada pelo Miguel Jorge. Vamos criar um grupo de empresários dos dois lados, para começar a discutir as possibilidades que nós temos de investimentos cá e investimentos lá. E nós estamos convencidos de que há muito diz-que-diz no mundo. Eu não sou obrigado a não gostar de uma pessoa porque o outro não gosta. O Brasil tem sua autonomia, sua soberania de fazer a sua política internacional e vamos fazê-la com a certeza de que estamos conversando com um grande parceiro do Brasil.

Jornalista: Agora, só para complementar, Presidente. O senhor acredita... o senhor comparou aí o Brasil com o Irã, dizendo que os direitos são os mesmos em termos de usar a tecnologia nuclear. Agora, o senhor acredita, de fato, que os fins são tão pacíficos, que o Irã tem o propósito tão pacífico quanto o do Brasil em relação à energia nuclear?

Presidente: Bem, é o que o Presidente me disse. É o que o Presidente me disse e é o que a comissão que cuida da questão das armas nucleares tem dito publicamente. Eu não posso trabalhar com insinuações. Nós temos, na ONU, instituições que cuidam dessa questão de armas atômicas, e eu penso que até agora, até agora, não há nada que diga que o Irã queira fugir aos princípios da utilização pacífica. Agora, tem normas que valem para o Brasil, valem para o Irã e valem para qualquer país. Se um de nós desrespeitar as normas, nós iremos pagar o preço que temos que pagar.

Jornalista: E a acusação de fraude eleitoral na eleição iraniana, que todo mundo fala, gerou a maior manifestação na frente das Nações Unidas. O senhor criticou muito o golpe em Honduras, mas quanto a acusações fortes, fraude eleitoral no Irã, que inclusive vários governos da comunidade internacional também acusam no Irã... E era uma manifestação maior do que a de Honduras, maior do que qualquer uma. O senhor conversou alguma coisa sobre isso com o Ahmadinejad que, para muitas pessoas no Irã, não é o presidente legítimo porque teria fraudado a eleição?

Presidente: Olha, nós temos tido no Brasil, em momentos históricos, pessoas que não se conformam com as derrotas. Eu acho que eu sou o único exemplo de pessoa que perdeu três vezes e me conformei, não entrei com nenhum processo, não cobrei nada. Mas, nós estamos vendo aí no Brasil a justiça eleitoral, de vez em quando, se manifestando. Ora, no caso do Irã houve uma eleição; 85% do povo participou do processo eleitoral; houve um resultado; houve manifestação da oposição. Ora, que direito tenho eu, como presidente do Brasil, ou qualquer outro presidente, de questionar o resultado eleitoral do Irã? Seria petulância demais ficar, do Brasil, a 12 mil quilômetros de distância, ou 14 mil, julgando a eleição do Irã, porque eu não gostaria que eles julgassem a minha. Então, eu penso que se a gente aprender a respeitar as decisões democráticas dos outros países, a gente viveria muito mais tranquilo e viveríamos muito mais em paz. Não é o primeiro lugar do mundo em que a oposição protesta. A mesma cobrança que fizeram do governo do Irã, não fizeram do governo do México nas eleições quando, terminadas as eleições, a diferença pequena, houve muita manifestação e as pessoas entendiam que a eleição tinha sido correta.

Jornalista: Mas o governo do México não prendeu centenas de pessoas com acusações de tortura, inclusive contra jornalistas (incompreensível)

Presidente: Deixa eu lhe falar uma coisa, deixe eu te falar uma coisa. O Estado existe, com os seus instrumentos, para fazer com que as coisas da democracia sejam respeitadas. Houve uma eleição, houve um resultado e teve gente que não concordou, eu não estava lá para ver as manifestações que houve, não sei se alguém transgrediu qualquer coisa. De qualquer forma, eu penso que isso já é coisa do passado. Ele é presidente do Irã e é com ele que nós temos que negociar, conversar e estabelecer negociações.

Jornalista: (inaudível)

Jornalista: Eu queria retomar uma questão em relação a Honduras, Presidente. Tem havido nos últimos dias, havido muitas dúvidas sobre como é que foi a operação que levou o presidente Zelaya de volta ao país e tem havido muita especulação sobre a participação de outros países nessa operação. Eu queria saber se o senhor acha que isso é uma questão que deva ser examinada pela comunidade internacional, que mereça a atenção, a preocupação da comunidade internacional, que possa ser examinada por (incompreensível) do Conselho de Segurança ou se o senhor acha que essa questão é irrelevante?

Presidente: Eu não sei, eu sinceramente não sei, qual é o pecado ou o crime político que um presidente eleito democraticamente volte ao seu país. Quer dizer, será que o erro foi cometido por ele que voltou ao país, ou será que o erro foi cometido por quem deu o golpe de estado? Eu não vejo nenhuma importância nisso. Ele voltou para o seu país, de onde nunca deveria ter saído. Deveria ter saído depois que terminasse as eleições, que terminasse o mandato dele. Eu acho que curiosidades como essas, no fundo, no fundo, é para tentar tapar o sol com a peneira. Ele não cometeu nenhum ato ilícito de voltar para o seu país. Ele tinha mais era que voltar para o seu país.

Jornalista: (inaudível)

Presidente: Ele, ele ainda não pediu asilo. Então, ele está... qual é a condição diplomática?

Celso Amorim: Presidente, ele está sob proteção...ele é o presidente legítimo, ele é o presidente legítimo de Honduras e está sob a proteção da nossa Embaixada e, se me permitir, uma pergunta feita anteriormente, nós temos sendo também procurado, acho que já foi embora a pessoa que perguntou, mas moderá-lo, porque ele disse que foi lá para estabelecer o diálogo, estabelecer uma solução pacífica, quem está impedindo a solução pacífica é quem não deixa abrir o aeroporto, não deixa a missão da OEA chegar lá, então, essa é que é a situação. Desculpe aqui interromper...

Presidente: É isso, é isso. Gente, gente, vamos, vamos, vamos terminar...

Jornalista: Janaína Lara, da Folha.

Presidente: Janaína.

Jornalista: Presidente, olha só, como é pouco tempo, eu tenho que apelar e fazer (inaudível)

Presidente: Se eu tivesse sentado como vocês eu estaria mais confortável...

Jornalista: (inaudível) é, duas coisas: o governo dos golpistas, ou o governo de fato, como o senhor preferir chamar, pediu que o governo brasileiro se manifestasse sobre qual é a situação do Zelaya juridicamente. (incompreensível) exilado, ele é abrigado. O que significa se ele é abrigado, que tipo de direitos ele têm? E segundo: logo que o golpe ocorreu, havia uma discussão sobre qual era a governabilidade dele, né, quer dizer, o governo brasileiro está se envolvendo, deu abrigo a esse presidente deposto, mas o governo aposta que há condições dele voltar, porque não é só ele voltar ao poder, ele tem uma oposição ali muito forte em diversos segmentos. E por fim, o senhor comentou sobre o encontro com o Ahmadinejad, queria perguntar se, embora, o senhor respeite a possibilidade dele explorar a energia nuclear, se houve algum tipo de aconselhamento no sentido de maior fiscalização, agência internacional de energia atômica?

Presidente: Houve... eu acabei de dizer querida, acabei de dizer, que eu defendo para eles, o que eu defendo para o Brasil: explorar o desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos.

Jornalista: Mas com fiscalização?

Presidente: Obviamente que com fiscalização. Todos nós estamos dispostos à fiscalização, e eu acho que ninguém mais está querendo correr o risco de impedir a fiscalização como o Iraque. Isso era um blefe, acabar com o país a troco de nada.

Segundo, veja, um ex-presidente da República eleito democraticamente, deposto, e um belo dia aparece na embaixada brasileira, e fica lá dentro. A partir do momento que ele ficou lá dentro, nós vamos fazer tudo que tiver ao nosso alcance para que se estabeleçam negociações e que ele possa voltar para o cargo. Isso é que nós vamos fazer.

Jornalista: Mas, vai responder o governo de fato?

Presidente: Porque nós temos que responder o governo? Nós não temos que responder o governo.

Jornalista: Mas, tem setenta pessoas lá, não é Presidente Lula?

Presidente: Eu não sei, sinceramente eu não sei quantas tem. Uma ora diz que tem sessenta, setenta, oitenta. O dado concreto é se tiver mais de trinta pessoas ou de vinte as condições são inadequadas.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Mas, é uma garantia de que ele tem. Se você perguntar para os brasileiros que correram para embaixada em outros paises para não serem presos, vocês vão perceber que nenhum deles teve conforto. Ou seja, todos eles ficaram nas condições de sobrevivência que é possível viver uma pessoa que está refugiada.

Ou seja, o que é triste? É que um presidente eleito tenha que se refugiar na embaixada brasileira, dentro de seu país, para reivindicar um direito de que é seu, de governar seu país. Isso é triste!

Jornalista: Presidente, existe no Brasil a possibilidade de oferecer asilo ao Zelaya?

Presidente: Não, não, nós não discutimos sobre hipótese. Ele não pediu. Ele quer apenas voltar a ser presidente de Honduras em quanto ele tem, acho, mais dois meses e meio de mandato.

Jornalista: Tem a eleição mais para frente ainda.

Presidente: Se a eleição fosse feita sobre a coordenação de quem deu o golpe, essa eleição não vai ser reconhecida na maior parte do mundo. E acho que Honduras sofrerá problemas sérios.

Jornalista: O Ministério está fazendo... (incompreensível)

Presidente: Não sei, querida, não me pergunte. É que deixa acontecer o fato. Um presidente da República não pode, até por responsabilidade na sua relação com os outros países, ficar dando palpite do que vai acontecer. Eu só acho que a decisão da OEA, a decisão dos países da UNASUL, da América Latina, de muita gente da Europa, de outros lugares do mundo é de não reconhecer o novo presidente se ele for eleito, com a eleição convocada pelos golpistas.

Jornalistas: Mas, se for pelo governo dos Estados Unidos?

Presidente: Acho que os Estados Unidos está agindo correto, está agindo correto. Veja, a gente sempre quer que faça mais, agora as pessoas fazem as coisas do tamanho que podem fazer, no momento em que podem fazer.

Jornalista: Mas, vai ser acompanhado por observadores internacionais ser for sob o período do governo de fato ainda, haja o que houver?

Presidente: Eu não sei, quem de vocês inventaram esse negocio de governo de fato, ou seja, vocês sofisticando o golpismo!

Jornalista: Vocês gostam de chamar de governo interino.

Presidente: Não, não, veja. Esse governo de fato é um nome sofisticado para você não dizer golpista! Isso é golpismo em Honduras, seria golpismo no Brasil, seria no Chile, seria na China. Não tem esse negócio de governo de fato.

Jornalista: Não, é o termo que está sendo usado.

Presidente: Ele é golpista!

Jornalista: Não, tudo bem. Então, se ele for... as eleições quando acontecerem...

Presidente: Ele é golpista, ele não ganhou as eleições para presidente, não disputou a presidência. E não tem explicação porque ele deu o golpe.
Imagina, o Uribe quer o terceiro mandato na Colômbia. Imagina se ele sofresse um golpe porque que quer o terceiro mandato. O que ele está propondo é um referendo, ou seja, as pessoas não estão pedindo para ser indicado pelo Poder Legislativo, as pessoas estão pedindo um terceiro mandato com referendo e com uma série de coisas.

Então, o que nós temos que ter claro é o seguinte. Não vamos ficar procurando nenhum subterfúgio para nominá-los como golpistas, que tiraram o presidente legitimamente eleito do poder, sem explicações e que agora precisam, com a mesma inteligência para dar o golpe, eles agora têm que ter inteligência para saber como resolver esse problema. É só isso. Eu só quero que o povo de Honduras tenha soberania para fazer as coisas certas que têm que ser feitas.

Jornalista: Presidente, uma coisa muito importante que estava no discurso hoje foi a questão ambiental. Apesar de o Brasil não estar sujeito a nenhuma aplicação pelo Protocolo de Quioto, o senhor fez uma proposta muito ambiciosa, que foi reduzir 80% do abate de árvores lá na Amazônia brasileira. Agora, tem algumas coisas com implicações sérias lá no Brasil que estão sendo decididas pelo governo. Por exemplo, a questão dos índices de produtividade rural, a consolidação dos parques lá da Terra do Meio. Eu queria saber do senhor como é que o governo vai avançar em direção a isso para começar a cumprir esse compromisso ambicioso que o senhor fez.

Presidente: O governo tem avançado muito e o maior avanço que nós tivemos agora foi enviar para o Congresso Nacional um projeto de lei para se estabelecer no Brasil o zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar, que é uma coisa que nós estamos há mais de dois anos trabalhando nisso. Nós pretendemos fazer, de outras culturas brasileiras, para que a gente deixe bem demarcado porque eu estou convencido de que preservar o meio ambiente hoje é uma vantagem comparativa do Brasil para mandar os seus produtos para o mercado externo, ou seja, para exportar o nosso etanol, a nossa soja, o nosso biodiesel. Então, nós estamos cuidando de convencer as pessoas de que o cuidado que nós temos que ter com os biomas brasileiros é uma vantagem comparativa nas negociações que nós temos que fazer daqui para a frente.

E vamos demarcar tudo o que tiver que ser demarcado, meu filho, tudo o que tiver. Seja parque, seja área de preservação, nós vamos fazer porque eu acho que nós temos consciência hoje de que se o mundo inteiro destruiu no século XX, nós ainda temos, no século XXI, a chance de preservar grande parte das nossas florestas. Isso é uma dádiva que nenhum governo do mundo tem.

Agora, para Copenhague, eu pretendo ver se é possível fazer uma reunião antes de Copenhague com todos os países da América do Sul que têm participação na Amazônia, para que a gente tome uma decisão comum entre os países amazônicos. E veja que engraçado: até a França tem um pedacinho da floresta amazônica lá na Guyana Francesa. Eu acho que nós vamos chegar preparados em Copenhague para apresentar um país do futuro na questão ambiental. O que nós queremos dizer é que pode...

Jornalista: Vai ser um número conjunto?

Presidente: Hein?

Jornalista: A ideia é chegar a um número conjunto?

Presidente: A ideia é chegar a uma posição conjunta sobre a questão ambiental, não apenas com a América do Sul. Com a América do Sul é muito importante porque nós temos a Amazônia, mas também com outros países. Nós já fizemos uma reunião com a França, queremos fazer com a Alemanha, vamos fazer com os Estados Unidos, porque nós precisamos avançar. Nessa questão ambiental, definitivamente, nós precisamos avançar. Se você não puder avançar...

Ontem o Sarkozy, por exemplo, fez uma proposta de que, em não podendo definir metas agora, que a gente faça um bom documento que sirva como um compromisso de princípio para que, dentro de determinado prazo, a gente possa apresentar ao mundo o compromisso de fundos, de números, de sequestro, da diminuição de emissão de gases de efeito estufa. Eu acho que Copenhague vai ser um novo marco nessa discussão ambiental.

Jornalista: Presidente, só mais uma coisa porque tem uma implicação nesse sentido, que é a questão dos índices de produtividade. A gente sabe que o governo está sob uma pressão muito forte do MST, de um lado, e do agronegócio, do outro. Como é que vai, porque o prazo que o senhor mesmo (incompreensível) um mês.

Presidente: Deixa eu lhe falar uma coisa. Na verdade o presidente da República nem teria que participar diretamente disso porque isso é uma decisão feita pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, pelo Ministério da Agricultura, ouvida uma comissão que existe no Congresso Nacional. Nós vamos fazer e vamos fazer porque a lei é de 1976 e a lei diz que é preciso, de vez em quando, você refazer os índices de produtividade.

Ninguém, obviamente, precisa ficar assustado, porque é só você comparar o que nós produzíamos por hectare em 1975 e ver o que se produz hoje, mesmo que se dobrasse, ainda, ninguém correria o risco de perder a sua terra por ela não ser produtiva.

Não, veja, eu não tive, por excesso de trabalho, eu não tive e também porque o Guilherme Cassel saiu de férias, eu não tive possibilidade de conversar com o Guilherme Cassel, quando eu retornar, agora, no final de semana eles devem estar lá, eu vou chamar os dois para conversar, para ver se a gente consegue anunciar, definitivamente, o índice de produtividade.

Pronto, meninos e meninas...

Jornalista: Perdão, só uma perguntinha, Presidente. Olimpíadas do Rio, votações daqui a pouco, vai dar ou não vai dar, qual é o tamanho do seu otimismo?

Presidente: Olha, é tão grande que não dá para medir. Até deixa eu dizer uma coisa. Eu penso que, de todas as vezes que o Brasil participou, este é o momento em que o Brasil está mais preparado. O Brasil apresentou uma proposta convincente, o Brasil tem compromisso dos três entes federados, nós queremos que o compromisso seja do Estado brasileiro e não de uma cidade ou de um estado. E nós achamos que pelo fato de o Brasil ser o único país que, há muito tempo é a décima economia do mundo e que não fez uma Olimpíada, nós achamos que não é justo a Olimpíada ser um acontecimento esportivo para ser feito em países ricos. A América do Sul está preparada e, dentro da América do Sul, o Brasil e dentro do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro.

Eu estou otimista com o Rio de Janeiro desta vez e eu acho que há uma compreensão de que Tóquio já fez, de que Madri já fez e de que não é justo fazer duas na Europa, seguidas. Chicago já fez quatro, os Estados Unidos já fizeram quatro olimpíadas de inverno e quatro de verão, se fizer mais uma será a quinta Olimpíada e não é justo que o Brasil não tenha feito nenhuma e o Rio de Janeiro.

A verdade é que nenhuma cidade pode oferecer as coisas que o Rio pode oferecer. Nenhuma cidade. Talvez Porto Alegre...

Jornalista: Por que, Presidente?

Presidente: Porque o Rio de Janeiro tem um povo extraordinariamente feliz, porque nós fizemos o Pan e não houve nenhum incidente no Rio de Janeiro, um único incidente. Porque é a oportunidade de a gente devolver ao Rio de Janeiro com muitos investimentos, muita coisa que o Rio de Janeiro perdeu, desde que a capital saiu do Rio de Janeiro. E depois, nós vamos oferecer as mais belas paisagens, as mais belas praias do mundo, em vez de os atletas terminarem a sua competição e correrem para a hidromassagem, para se recuperar, eles vão logo em uma praia, tomam um mergulho e vão voltar preparados para bater recordes atrás de recordes.

Gente, até Pittsburgh.


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