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Primeiro, dizer para vocês que nessa semana eu vivi um momento inusitado na vida de um presidente do Brasil. Não sei em quantos momentos da história do Brasil, um presidente pôde participar de uma reunião em Pittsburgh, que juntava as 20 maiores economias do mundo e depois, na mesma semana, se juntar com grande parte dos países mais pobres do mundo. E ouvir os dois discursos é uma coisa extraordinária, porque são dois discursos realmente... totalmente antagônicos, distintos entre si. De um lado, os países ricos discutindo como fazer as coisas para ficarem ricos do mesmo jeito e, do outro lado, os pobres, outra vez reivindicando mais espaço.

Qual é a novidade que eu acho nos dois encontros? Primeiro, em função da crise econômica, os países ricos já não estão com a petulância que habitualmente eles tinham nas relações e nas discussões com os países pobres sobre as questões econômicas. Pela primeira vez, você senta com um país rico e, no caso do Brasil, a gente pode discutir que a situação do Brasil está, do ponto de vista da macroeconomia, melhor do que todos os países ricos.

Eu brincava com o Obama, dizendo para o Obama: Olha, a diferença entre nós agora, Obama, é que no mês de agosto o Brasil gerou 242 mil empregos formais e, no mês de julho, os Estados Unidos tiveram 700 mil trabalhadores desempregados, e que a economia brasileira está consolidando um crescimento de 5% para o próximo ano. Ao mesmo tempo, os países ricos não têm clareza se a crise já chegou ao final. Nós fizemos questão de colocar no documento que duas coisas não podem tomar conta do G-20: primeiro, é a euforia de que a crise já acabou. É preciso que a gente vá medindo o termômetro dessa crise em cada país e tomando decisões em função de cada situação. Ao mesmo tempo, não permitir a ideia do protecionismo nos países ricos porque isso causa um problema sério. Uma terceira coisa que eu disse ao meu amigo Obama é que está nas mãos dele o recomeço das negociações na OMC para concluirmos a Rodada de Doha, porque é a possibilidade que nós temos de fazer com que o mundo africano possa produzir e ter acesso ao mercado agrícola europeu.

Obviamente que, do ponto de vista dos países ricos, era uma situação mais cômoda quando eles subsidiavam a sua produção de alimentos, interna, e doavam alimentos para os países africanos. E a novidade extraordinária é que os africanos cansaram disso e agora querem produzir seus próprios alimentos, para fazer disso uma melhora na base da economia de cada país. E agora o desafio qual é? É que, além dos países ricos colocarem dinheiro para ajudar os países pobres, sobretudo os da África, é importante que abram o seu comércio para que, ao aumentar a produção agrícola, os países ricos, pobres tenham um mercado para vender os seus produtos.

E quando eu falo isso, eu falo muito à vontade porque o Brasil tem competitividade com os países ricos na área da agricultura, não devemos nada a nenhum deles e, portanto, não estamos reivindicando para nós. Estamos reivindicando para os países mais pobres da África e também para os países da América Central, que dependem muito da economia americana. Grande parte da economia dos países da América Central é a remessa de dólares que o povo da América Central que mora nos Estados Unidos manda para cá, e isso diminuiu muito, por isso caiu o orçamento dos países da América Central. Eu tenho dito ao Obama que é importante aproveitar esse momento glorioso de consagração da democracia na América Central e ajudar esses governos a consolidarem o processo democrático.

Bem, quando eu venho para cá e a gente ouve o discurso do presidente da FAO, o nosso companheiro Diouf, a gente se dá conta da diferença de mundo em que nós vivemos. Ou seja, de um lado você tem um povo em um estado de bem-estar social muito avançado - obviamente que, com a crise econômica, um pouco mais pobres e mais desempregados - mas, de outro lado você tem 1 milhão de pessoas passando fome, das quais aproximadamente 250 milhões só na África. Então, é um paradoxo isso porque nós temos tecnologia e temos recursos para evitar que as pessoas tenham fome. O que precisa, concretamente, é fazer com que esses recursos e essa tecnologia cheguem aos países africanos.

Estou com muita esperança porque nós implantamos a Embrapa na cidade de Acra, em Gana, e a Embrapa já está fazendo pesquisa em todos os países, já está fazendo fazendas experimentais para que a gente possa, a partir daí, chamar os países ricos a contribuírem com tecnologia e com sementes para que a gente possa tornar os países africanos mais produtivos.

Bem, quando nós realizamos um encontro como esse, América do Sul e África, eu lembro perfeitamente bem aqui quando nós fizemos o primeiro encontro na Nigéria, muita gente dizia: "Para que esse encontro de miseráveis, para que esse encontro de pobres, para discutir o quê?" Da mesma forma quando nós fizemos da América do Sul, América Latina e Caribe, na Bahia. O que as pessoas precisam perceber é que encontros políticos permitem que a gente descubra oportunidades, que a gente descubra possibilidades de ajudar outros países e que a gente passe a conhecer mais profundamente os problemas de cada região.

Eu não tenho dúvida nenhuma que se nós olharmos, em se tratando de matéria prima, em se tratando da questão climática, quem tem novidade para oferecer ao mundo é exatamente o Sul, é exatamente o Continente latino-americano e é exatamente o Continente africano e nós precisamos fazer disso uma vantagem comparativa nas nossas negociações. Vamos pegar a questão do clima, por exemplo. O que está acontecendo hoje? Os países ricos estão com uma discussão de apresentar um fundo para que os países pobres não desmatem mais e ajudem a recuperação e a sequestrar o carbono. Muito bonito. Agora, o que não está colocado é que eles não estão assumindo o compromisso de quanto eles vão deixar de emitir de gases efeito estufa. Porque, se nós chegarmos em Copenhague com o quadro real da quantidade de emissão de gases de cada país, da África do Sul aos Estados Unidos, ao Canadá, da Argentina ao México, da China a Taiwan. Se nós chegarmos com o quadro concreto de quanto cada país emite de gás estufa, qual é a matriz energética de cada país, quanto polui cada matriz energética e, ao mesmo tempo, quanto sequestra cada país, nós vamos perceber que o sul do País [os países do sul] emitem muito menos e já sequestram muito mais, e que, portanto, isso tem que ser uma vantagem comparativa nas negociações. Porque, ou os países que emitem muito gás de efeito estufa reflorestam o seu país - e certamente não vão querer -, ou eles diminuem a produção de seu país e o consumo - que eles também não querem. Aí, então, você vai criar uma valorização dos países que resolverem colocar suas florestas à disposição do mundo para poder sequestrar carbono.

Essa é uma discussão extraordinária e é um pouco isso que nós discutimos aqui. E eu fiz questão de chamar a atenção de todos os delegados sobre a importância de Copenhague. Não que em Copenhague a gente vá tomar a decisão definitiva, mas que Copenhague pode ser o começo de uma grande discussão, com muita seriedade, sobre a questão climática.

A segunda coisa que eu considero extremamente importante é na capacidade produtiva de alimentos. O mundo está, cada vez mais, precisando de alimento, porque cada vez mais tem gente comendo. Vocês viram que antes da crise tinha aumentado o consumo de alimento na China, no Brasil, na América Central, na América do Sul, na Índia. E na hora em que o mundo melhora, que o povo começa a comer mais, vai precisar aumentar a produção. E quem é que tem terra para aumentar a produção? Outra vez, é o continente africano e, outra vez, é o continente latino-americano.

Então, o que nós precisamos é trabalhar politicamente, economicamente, com esses dados, para que a gente não sente nunca mais em condição de inferioridade com o chamado mundo desenvolvido.

Então, para mim, ouvir esses dois discursos - um, da bonança, e o outro, da "fartura", que "farta" tudo - é extremamente importante, porque permite que a gente possa balizar a angústia dos dois lados. De um lado, as pessoas angustiadas porque estão perdendo alguma coisa e, do outro lado, as pessoas angustiadas porque estão perdendo o que já não tinham.

Então esse é um desafio. E acho que essa reunião, para mim, foi extraordinária. Você veja, nós já fizemos duas dessas, já fizemos duas do Mundo Árabe com a América do Sul e já fizemos a primeira, em 500 anos, da América do Sul, América Latina e América Central. E essas reuniões, certamente, vão surtir efeitos extraordinários na governança mundial.

É importante ter em conta que, em algum momento, a governança mundial vai ter que ser ampliada porque você faz o somatório da representatividade mundial hoje, a representatividade não pode ser por PIB, não pode ser por conhecimento tecnológico e não pode ser por indústria armamentista ou capacidade bélica dos países. Ela tem que ser medida por habitante. Se fosse medida por habitante e por países, certamente nós teríamos uma mudança no Conselho de Segurança da ONU, teríamos mais mudanças no FMI e mais mudanças no Banco Mundial. E nós já conseguimos avançar.

Porque eu dizia, esses dias, nós já passamos... nós queríamos 7% de aumento nas cotas no FMI, fomos para 5%; nós queríamos 6% no Banco Mundial, fomos para 3%. É importante lembrar que o Obama tinha avisado na véspera, às 10h da noite, que não tinha havido acordo sobre o Banco Mundial e que, portanto, ia ficar para o ano que vem, e de manhã estava o acordo feito, numa demonstração de que todo mundo está querendo contribuir para que a gente saia da situação em que nós nos encontramos.

Eu pretendo fazer com que esse estudo da Embrapa nos países africanos seja motivo da construção de projetos para que a gente possa comprometer os países ricos em financiar projetos, projetos concretos de produção de alguma coisa nos países africanos. Muitas vezes a ajuda é dada aos países africanos via ONGs, via não sei o que lá, ou seja, você nunca tem uma política de Estado para ajudar os outros Estados, e nós queremos construir essa política de Estado, o clima é politicamente favorável e nós precisamos construir os projetos para que as coisas possam, enfim, funcionar adequadamente.

Então, eu hoje volto para Brasília com a sensação de que as coisas estão melhorando bem. Uma reunião vitoriosa e muito produtiva em Pittsburgh e uma reunião vitoriosa e muito produtiva aqui na Isla Margarita. Portanto, estou listo para que vocês façam perguntas. Hagan preguntas, hombres y mujeres!

Jornalista: Senhor Presidente, bom dia. O governo de Honduras (incompreensível) anunciou, ontem, um ultimato ao governo brasileiro de dez dias para definir os passos do presidente Manuel Zelaya, que está refugiado na Embaixada brasileira. Eu queria saber qual é... como o governo brasileiro se sente com o ultimato e como responderá a esse comunicado. E dentro desse comunicado também, Presidente, eles dizem que se não for cumprido eles tomarão algumas medidas, de acordo com as leis internacionais. Que medidas poderão ser essas?

Presidente: Pergunte para eles. Olha, primeiro, o governo brasileiro não acata o ultimato de um golpista, e nem o reconheço como governo interino. Não sei por que é que o editor de vocês pediu para vocês falarem de governo interino. Golpista! A palavra correta é: usurpadores de poder. Essa é a palavra correta, e o governo brasileiro não negocia com eles. Quem tem que negociar é a OEA, que já tomou as decisões, é o Conselho de Segurança das Nações Unidas, que já tomou as decisões. Não é o Brasil. Portanto, esse caso, para mim, estará encerrado na medida em que chegue... em que houve a decisão da OEA. Foi decisão por unanimidade, como foi decisão por unanimidade do Conselho de Segurança da ONU. Então, o Brasil não tem que conversar com esses senhores que usurparam o poder. Se a ONU ou o Conselho de Segurança ou a OEA fizerem um pedido para o Brasil, nós iremos simplesmente acatar o pedido das Nações Unidas, mas não desses senhores.

Jornalista: Jailton Carvalho, O Globo. Presidente, o senhor pediu, agora há pouco, o apoio dos outros presidentes para as Olimpíadas no Rio. Eu queria saber como (incompreensível) podem ajudar o Brasil a fazer as Olimpíadas.

Presidente: Você sabe que se eu tivesse pedido voto para mim, nas eleições de 2006, como eu estou pedindo para as Olimpíadas, eu teria tido mais de 62% dos votos. Eu já pedi voto para o Brasil em um congresso da União Africana; eu já pedi voto para o Brasil em um congresso que eu participei dos países Árabes, lá no Catar, lá em Doha; eu já pedi voto para o Brasil na Reunião da América Latina, América Central e Caribe; já pedi para a Unasul; pedi, individualmente, para muita gente; já mandei carta para todos os presidentes, para todos os delegados que vão votar. Ou seja, eu estou cumprindo com as minhas obrigações.

O que eu acho que é importante? É muito importante que todos os países africanos e os países da Unasul tenham aderido apoiar o Brasil. A distribuição dos votos não é muito democrática, porque ela tem uma concentração muito grande na Europa. Se você imaginar que três países europeus têm mais votos do que todo o continente africano e do que a América do Sul juntos, você vê que a situação é um pouco desequilibrada.

Mas, por que eu acho que o Rio de Janeiro tem todas as condições? Primeiro, porque nós realizamos os melhores Jogos Pan-americanos que já foram realizados na história dos Jogos Pan-americanos, com muita segurança e com muita competência. Segundo, porque o Brasil é a única economia que está entre as dez economias do mundo e que não realizou uma Olimpíada. Terceiro, porque a América do Sul nunca realizou uma Olimpíada. A última realizada no continente latino-americano foi no México, em 1968. Quarto, porque a Espanha já fez, Tóquio já fez e nos Estados Unidos, com essa, agora, será a nona Olimpíada, ou seja, quatro de inverno e outras quatro Olimpíadas e mais essa, agora, que eles estão reivindicando. Então, não é justo que o continente europeu e os Estados Unidos tenham a maioria das Olimpíadas e a América Latina, a América do Sul e a África não tenham.

Ora, vamos levar em conta que o Brasil é um país que está em uma situação altamente privilegiada, hoje, no mundo chamado macroeconômico, ou seja, o Brasil é um país que tem condições de crescer de forma extraordinária até 2016. Todas as condições estão colocadas. E a América do Sul tem 180 milhões de jovens que gostariam de ter a oportunidade de presenciar uma Olimpíada.

Então, eu acho que essa razão, de que com os outros apenas farão mais uma e que para nós será uma questão de autoestima, de autoafirmação, eu acho que vai fazer diferença junto aos delegados. Obviamente que eu reconheço o poder de convencimento da Espanha, o poder de convencimento de Chicago, o poder de convencimento de Tóquio, agora, nenhuma dessas cidades pode oferecer o que o Rio de Janeiro pode oferecer, nenhuma, do ponto de vista de beleza, do ponto de vista de praias maravilhosas para os atletas. Os atletas, quando terminarem de ganhar uma medalha de ouro, eles não vão se trancar em um hotel, em uma hidromassagem. Eles vão para a praia tomar um banho, mergulhar e voltar com muito mais força para ganhar outra medalha. Então, eu acho que essas coisas podem contribuir para que o Brasil seja o vencedor.

De qualquer forma, em uma disputa ou você perde ou você ganha. A gente não sabe porque os delegados, no dia 2, serão as pessoas mais importantes do mundo. Mas o dado concreto é que desta vez o Brasil se preparou muito mais, o Brasil se profissionalizou para reivindicar as Olimpíadas e eu acho que as chances são infinitamente melhores do que em qualquer outro momento.

Jornalista: Presidente, bom dia. Deixar eu voltar ao assunto de Honduras. O senhor já disse que não negocia com o governo de fato, com o governo Micheletti, que chama de golpista.

Presidente: Eu não chamo, eles são.

Jornalista: Que sejam, Presidente. Mas a questão é a Embaixada, o território da Embaixada, que é território brasileiro. Duas coisas: o Zelaya usou a Embaixada para (incompreensível), desobediência civil, em Honduras. E outra questão é que os jornalistas brasileiros não estão conseguindo entrar na Embaixada, que é território brasileiro, porque o Micheletti disse, em uma entrevista, que, para que eles pudessem entrar, teria que pedir para o Amorim, o ministro Celso Amorim ligar para eles. Como o senhor vê isso?

Presidente: Primeiro, que essa notícia não procede. Ontem, nós conversamos com a Embaixada, hoje eu conversei com o Celso Amorim, eu não sei de onde saiu essa notícia.

Jornalista: Qual?

Presidente: Essa notícia de que eles não poderiam entrar na Embaixada e que tinham que pedir para o Celso Amorim. Não procede.
Jornalista: Os jornalistas brasileiros não estão conseguindo entrar.

Presidente: Essa notícia não procede. A informação que nós recebemos da Embaixada ontem é que um jornalista que estava lá entrava todos os dias, dormindo no hotel. E que o outro companheiro era o Burnier, também não tinha acontecido nada com ele, até então. Veja, deixe eu lhe contar...

Jornalista: Presidente, desculpe. O Micheletti disse em uma entrevista. O Burnier disse que não conseguiu entrar lá porque foi barrado...

Presidente: Meu filho, eu não vou discutir se o Micheletti disse ou não disse. Deixa eu lhe dizer uma coisa. As leis internacionais protegem o território da Embaixada brasileira. Isso não apenas é verdadeiro como foi confirmado pela reunião do Conselho de Segurança da ONU. Agora, o Brasil tem dentro da sua Embaixada um Presidente legitimamente eleito pelo voto popular do povo de Honduras. Seria muito mais fácil de resolver tudo isso se o Micheletti pedir desculpas, ir embora, permitir que o Presidente eleito voltasse, convocar as eleições e acabava, porque o povo de Honduras vivia em paz até então. Honduras era um país que a gente não ouvia notícias de qualquer coisa mais conturbada na política até que alguém resolveu que o meio mais fácil para ganhar o poder é dar um golpe, quando ele deveria se candidatar, disputar as eleições, ganhar as eleições e governar tranquilamente.

É importante lembrar que poucas vezes na história houve tanto consenso de repúdio a um governo, como está havendo agora na Colômbia, agora em Honduras. É toda América do Sul, é toda América Latina, é toda a Europa, são os Estados Unidos, é toda a África, é toda a Ásia. Não tem um único governo no mundo defendendo a postura desses golpistas. Nós, o Brasil, o Brasil atenderá qualquer pedido de Conselho de Segurança, da ONU, ou da OEA.

Segundo, o Celso Amorim já ligou para a Embaixada ontem e pediu para o Zelaya para ele não fazer incitação. Se ele quiser falar com os jornais fale, mas sem fazer incitação. Obviamente, se o Zelaya extrapolar, nós vamos falar com o Zelaya que não é politicamente correto ficar utilizando a Embaixada para fazer incitação a qualquer coisa além do espaço democrático que nós estamos dando para ele.

Jornalista: Bom dia, Presidente. O que o senhor achou ontem do Presidente Chávez defendendo a eleição da ministra Dilma Rousseff, o senhor gostou, está satisfeito com isso? Por um lado, isso pode ajudar ou por outro lado, também pode ser não tão (incompreensível).

Presidente: Na verdade, na verdade, eu acho que o Chávez fez um gesto de gentileza. Eu só lamento que ele não tenha título de eleitor para ir lá votar na Dilma. Mas, de qualquer forma, eu acho que foi um gesto de gentileza e acho que a gente tem que compreender isso.

Jornalista: (Incompreensível)

Presidente: Não, não.

Jornalista: Joel Santana, Estadão. Presidente, bom dia. O senhor falou em seu discurso, agora há pouco, que vai enfrentar dificuldades no Congresso para aprovar a liberação de fundos (incompreensível).

Presidente: Não, não.

Jornalista: Do que o senhor estava falando?

Presidente: É porque eu não falei isso. O que eu disse é o seguinte: o que eu disse é etapa dos acordos internacionais. Eu estava dizendo para que cada presidente africano não voltasse para a África desanimado, porque as coisas não acontecem com a pressa que nós gostaríamos que acontecesse. Muitas vezes, você precisa de muitas reuniões para fazer um acordo, depois que você faz o acordo você manda para o Congresso. Não para o Congresso brasileiro, para todos os Congressos. E nem sempre o Congresso tem a pressa que tem quem fez o acordo, o que vale para todos os países. Nós temos acordos que o Congresso brasileiro já aprovou, o argentino não aprovou; nós temos acordos que o Paraguai já aprovou, o Brasil ainda não aprovou. Então, o tempo do Congresso não é o tempo dos governistas, também não poderia deixar de ser. Então, o que eu fiz, o que eu tentei mostrar é que há uma espécie de um calendário. Primeiro, a gente leva muito tempo para concluir um acordo, depois, a gente leva muito tempo para aprová-lo, e, depois, manda para o Congresso, leva mais tempo ainda para aprová-lo.

Eu disse, também, que o Brasil precisa ter consciência de que o Brasil não é mais um país receptor. O que é um país receptor? É um país que se sente pobre e que vive pedindo ajuda para os outros. O Brasil entrou na condição de país doador e o Brasil não estava preparado para isso. Todos os países... se você pegar a China, se você pegar a Índia, se você pegar a Espanha, se você pegar os Estados Unidos, se você pegar a Suécia, todos os países têm alguns bilhões de dólares que são políticas de ajuda ao mundo menos desenvolvido. O Brasil não tem, porque nós éramos receptores. Fazer os brasileiros entenderem essa mudança leva um tempo, e o Brasil tem um potencial extraordinário para ajudar outros países. Foi isso, meu querido.

Jornalista: Sandro Barboza, da Band. Presidente, o senhor falou durante o discurso do senhor que dos anos 50 aos 80 o Brasil o Brasil teve um crescimento fantástico e isso não foi... não teve sistema de distribuição de renda. E que a situação do país hoje é boa, graças a política feita nos últimos anos de transferência de recursos para os mais pobres. O senhor acha que esse é o momento de o Brasil realmente ter um crescimento e voltar a ter um crescimento num patamar que tiveram China e Índia nos últimos anos, que o Brasil não teve. Ou seja, aproveitar o momento (incompreensível) para ir para cima na ONU?

Presidente: Veja, deixa eu te falar uma... Não é necessário que os países todos cresçam na proporção da China, porque a China tem 1 bilhão e 300 milhões de habitantes. Veja, se um país crescer durante vários anos entre 4 e 6% a sua economia, e esse crescimento for distribuído de forma mais justa, você muda a cara do país. Se ele crescer 10 ou 12% e você não fizer a distribuição de renda, esse país vai continuar com gente morando mais em apartamento de cobertura, melhor, e o povo vai continuar pobre. O que eu quis dizer foi outra coisa. O que eu quis dizer é que, historicamente, se fazia discurso de que você só pode distribuir se você crescer. Isso, no Brasil, era famoso.

Eu me lembro que, nos anos 80, eu ia para a porta de fábrica e dizia: estão dizendo que precisa crescer para distribuir. Na verdade, era o bolo. O bolo tem que crescer para distribuir. E eu dizia que o bolo cresceu, cresceu, cresceu, eles já comeram tudo e só sobrou para nós aquelas bolinhas de enfeite que vêm no bolo. O que nós provamos depois que eu entrei no governo? Que você não tem que ficar nessa coisa de dizer "é preciso crescer para distribuir". Nós dizíamos: "É preciso distribuir para crescer". As duas coisas têm que agir concomitantemente. E o que nós fizemos? Quando nós começamos a fazer política de transferência de renda, seja com o Bolsa Família, seja com o aumento do salário mínimo, o que aconteceu? A parte mais pobre da população passou a ter acesso a uma parte do consumo que ela não tinha. Se vocês fizerem pesquisa hoje no Brasil, os shoppings do Nordeste vendem mais do que os shoppings do Sul. Por quê? Porque uma parte da população pobre, que ganhava o salário mínimo ou que não tinha nada, tem agora um certo poder de compra. E para o Nordeste, o salário mínimo tem um valor mais importante e tem muito mais gente ganhando do que ganha na região Sul do País.

Então, nós, e eu quis dizer para os presidentes dos países africanos, que a gente não tem que esperar a economia crescer para distribuir. Vá distribuindo aos pouquinhos, faça uma pequena política social, faça um programinha do Luz para Todos, faça um programinha Bolsa Família, faça um programinha de aumentar o salário mínimo, que você vai perceber que aquele dinheiro volta no mesmo dia para o mercado. Ou seja, o cidadão que ganha R$ 100, ele não vai comprar dólar, ele não vai comprar carro. Ele vai comprar feijão, arroz, carne. Esse dinheiro volta para a economia muito rapidamente. Então, foi a mensagem que eu quis dizer para eles.

Por isso que eu pedi que todos os países mandem todas as experiências bem-sucedidas que aconteceram nos seus países para que a gente possa ver o que é possível ser adotado, adaptado em cada país. Porque muitas vezes, nós conversamos muito e as coisas práticas que nós fazemos, a gente não sabe. Por exemplo, eu estou convencido de que o Territórios da Cidadania que nós implantamos no Brasil, nos municípios mais pobres, é a coisa mais importante em política social que eu já conheci na minha vida. Eu digo isso porque durante 30 anos eu fiz todas as pautas de reivindicação que um ser humano faz, e nunca eu vi uma coisa tão bem feita como esse Territórios da Cidadania. Ele está funcionando há um ano e meio e, certamente, ele vai ser uma coisa extraordinária, sobretudo para os municípios mais pobres.

Eu conheço países da América Central em que o Estado é tão frágil... porque as pessoas falam de política tributária, de política tributária, mas se o Estado não tiver capacidade de arrecadação, ele não tem capacidade de execução. Do jeito que você ouve discurso lá no Brasil, "reduzir a carga tributária, não sei das quantas", se a carga tributária zero fosse solução, não tinha tanta miséria nos países que têm carga tributária muito pequena. Eu até brinquei com os empresários no fórum social, no nosso Conselho de Desenvolvimento Econômico: vamos fazer o seguinte: a gente reduz a carga tributária do setor produtivo, mas vamos aumentar da pessoa física como é na Europa, onde os jornalistas trabalham e, no final do mês, 50% do seu salário fica lá, de imposto.

Jornalista: Por que o jornalista?

Presidente: Pode ser o Presidente. Então, veja, os países que têm carga tributária de 9%, 10%, 11%, na realidade, o Estado não existe e o Estado não existindo, você não pode fazer política social, você não pode fazer política de investimentos. É só vocês pegarem toda a América Central, que vocês vão ver o que eu estou falando. Tem país em que a carga tributária é 9%. Com 9%, não existe a figura do Estado, o Estado não pode fazer absolutamente nada. O Estado tem que ter o poder de fazer o que fez o Brasil na crise econômica. Quando estourou a crise, quem entrou para mostrar que tinha competência e que tinha café no bule foi o governo. Mesmo nos países em que eles negavam o papel do Estado, como os Estados Unidos ou como a Alemanha, na hora em que a crise apertou, quem é que apareceu? Foi o Estado, colocando dinheiro para salvar o deus-mercado que fracassou. Na verdade, eu fiz uma alusão a esse tipo de coisa. Nós não podemos ficar o tempo inteiro dizendo: "Temos que esperar crescer, temos que esperar crescer, temos que esperar crescer". Não, vá distribuindo o pouco que tem.

Para a gente entender mais fácil essas coisas, é o seguinte: imagine você ganhar sozinho na loteria, na Mega-Sena, R$ 30 milhões. Vai ser apenas um cara rico, você vai ter uma conta bancária mais gorda. Agora, imagine se em vez de você ganhar 30, tivesse mil ganhando 30 mil, cada um, em vez de 30 milhões. Você teria 30 mil caras que iam comprar um carrinho, que iam comprar uma comida a mais para casa, ou seja, você ia ver mais gente participando do mercado. E eu acho que é isso que os presidentes do mundo inteiro precisam compreender, sobretudo dos países mais pobres. Não esperem a economia crescer. Comecem a distribuir porque isso vai ser um fator de crescimento.

Vocês estão lembrados, no Brasil, quando nós começamos a fazer o Bolsa Família, o tanto de críticas que nós recebemos, mas eram R$ 9 bilhões no mercado. Aquele dinheiro tinha que voltar em algum momento e ele começou a voltar. Então, eu acho que é isso que nós temos que fazer nos outros países pobres do mundo.

Jornalista: Presidente, mais amena. O senhor é ferrenho defensor da questão da integração energética latino-americana. E me parece que haveria uma série de encontros bilaterais com o presidente Hugo Chávez, que foi cancelada. Nesse encontro, eu tive a informação no Rio, que o acordo societário entre a Petrobras e a PDVSA já estava alinhavado e poderia ser assinado aqui, na Venezuela. É correto, isso, será assinado em outubro?

Presidente: É correto, é correto. Veja, por que eu pedi a compreensão do companheiro Chávez - e eu acho que era isso que ele estava querendo, também, só que eu acho que ele estava com vergonha de me pedir. Veja, o Chávez passou... Não é fácil organizar um encontro como esse, leva trabalho e envolve muita gente. Eu estou vindo de uma semana de fora do Brasil, chego em casa, troco de mala e viajo para Copenhague. Quando eu falei para o Chávez: Chávez, eu queria te propor a gente adiar a nossa bilateral e marcar para depois do dia 15 ou 16, ele até suspirou aliviado, porque era o que ele queria também. Você imagina, depois de uma semana, um mês de trabalho, se despedindo de chefes de Estado, alguns vão querer ficar aqui mais uns dias, ficar em uma bilateral. Então, eu pedi: bem, vamos adiar, quando for mais ou menos a partir do dia 16 ou 17, vai ter a primeira colheita da soja que a Embrapa veio, aqui, ajudar a Venezuela a plantar, e eu quero vir na colheita da soja, e já fazemos os acordos que temos que fazer.

Jornalista: E será assinado esse acordo?

Presidente: E será assinado o nosso acordo da Refinaria Abreu e Lima.

_________: Última pergunta, Presidente. (Incompreensível).

Jornalista: (Em espanhol)

Presidente: Eu acho que... Vamos dizer os seguinte: ele é hóspede da Embaixada brasileira. Ele é um Presidente que foi tirado do poder da forma mais vergonhosa possível, foi um golpe, e ele ficou fora de seu país. Ora, ele, ao retornar a Honduras, ele foi à Embaixada brasileira, e está lá hospedado até que a OEA e a ONU decidam o que fazer. Para mim, seria simples essa solução. Seria os golpistas saírem do Palácio, deixarem o Presidente eleito democraticamente voltar para o Palácio, ele convoca as eleições, tem o resultado, aquele resultado... voltam à normalidade as coisas em Honduras. É uma coisa tão simples. Eu não sei por que é que não fazem. O que vai acontecer é que se não fizer isso e se forem os golpistas que convoquem as eleições, muita gente não vai respeitar o resultado das eleições no mundo e vai continuar dificultando as relações com Honduras, e eu acho que não é prudente.

Jornalista: E a entrada à força, Presidente?

Presidente: Veja, se entrarem à força, estarão cometendo uma violação que contraria todas as normas internacionais. O território de uma Embaixada é inviolável em Honduras, no Brasil e em qualquer parte do mundo. Nós temos que ver a história para perceber quantos brasileiros foram salvos quando estavam no Chile porque encontraram a porta de uma Embaixada aberta e entraram em uma Embaixada. Quantos argentinos foram salvos do golpe porque encontraram uma Embaixada. Quantos uruguaios... Então, as Embaixadas terminam sendo um território de cidadania que as pessoas perseguidas podem ou não ocupar.

E o Brasil, viu, (incompreensível). É importante lembrar, gente, é importante lembrar que nem a ditadura de Pinochet, que foi a mais sangrenta do nosso continente violou uma Embaixada. É importante só lembrar isso. Eu, sinceramente, fico até triste com a condescendência de vocês, de chamar de governo interino, de chamar de governo de fato, de chamar... Eu acho que a palavra correta... Vocês chamavam o Pinochet de ditador, chamavam os brasileiros de ditadores, e agora vocês estão condescendentes com um golpista. Vocês só não chamam de ditador porque não é militar. Mas a forma com que ele chegou ao poder foi um golpe. Organizado por quem? Pelos militares.

Gente, se vocês forem ficar aqui, aproveitem e tomem um banho de praia, que eu vou com muita inveja de não tomar um banho de praia aqui na Isla Margarita. Espero vocês em Copenhague.


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