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Obs: Entrevista publicada no dia 19 de novembro de 2009


Jornalista: O Brasil tem seu momento agora ao sol, como uma grande economia. Todo mundo está celebrando seu país. Por que agora? É só por causa dos Jogos Olímpicos, da Copa do Mundo e dos 5% de taxa de crescimento?

Presidente: Não, não, não é só agora. É que o Brasil, há muito tempo, ele merecia estar numa posição de maior destaque no cenário mundial, não só pela sua extensão territorial, pela sua população, pela posição estratégica que o Brasil assume no Planeta - maior país de um continente, maior população, maior industrialização, maior tecnologia. Então, o Brasil já poderia ter tido uma posição mais importante. Bem, é preciso considerar um pouco o histórico do Brasil. O Brasil já teve muitas e boas oportunidades e que nós as jogamos fora. Eu vou dar um exemplo: na Segunda Guerra Mundial, a Argentina tirou muito mais proveito da Segunda Guerra Mundial do que o Brasil. A Argentina se transformou numa grande economia e foi quando o Brasil começou a se industrializar. Depois nós tivemos outros períodos em que parecia que o Brasil ia dar um salto de qualidade e, de repente, nós tropeçávamos nos próprios pés e as coisas não iam para frente. Ou seja, o resultado era desordem econômica, inflação muito alta, endividamento.

Bem, quando nós tomamos posse, nós tínhamos consciência de que o Brasil precisaria, no século XXI, ocupar um espaço que ele tinha o direito de conquistar e, para isso, precisava fazer as coisas corretas e brigar por isso. O presidente Fernando Henrique Cardoso, ele teve chance de fazer isso com o Plano Real. Entretanto, quando predominou a ideia da reeleição e, por conta da reeleição, não tiveram coragem de fazer uma política cambial mais justa, o que acontece? Nós já estávamos quebrando. E quando nós pegamos o país, o país tinha sinais muito fortes de volta da inflação, e o país tinha uma certa desordem na sua política fiscal. Bem, o que nós fizemos? Possivelmente, eu tenha feita o ajuste fiscal mais duro que já foi feito na história do País, em 2003. E, diga-se de passagem, eu conversava com dois alemães: um, o Caio, que é diretor do banco... e o outro, presidente do FMI, com quem nós tivemos uma boa relação e com quem nós pudemos dar sinais do que a gente queria fazer no Brasil. Bem, o que aconteceu é que eu troquei uma parte do capital político que eu tinha pelo ajuste fiscal, que sempre leva a desgaste, em uma perspectiva de que a gente poderia, no médio prazo, recuperar a economia e, consequentemente, recuperar o capital político. É importante a gente voltar um pouquinho no tempo, isso foi feito em 2003. Em 2004, a economia brasileira cresceu 5,8%, um grande crescimento em função de todas as perspectivas no mundo. Depois veio a crise política de 2005, outra vez nós tivemos que ter muita paciência para não permitir que a crise política tivesse qualquer influência nas nossas decisões econômicas. Quase que construímos um muro para proteger o Banco Central e o Ministro da Fazenda, que estavam sendo muito atacados naquele momento. Ou seja, a crise acabou e a economia ficou salva.

Bem, nós sempre trabalhamos com a filosofia de que nós teríamos que fazer todo o sacrifício para evitar que a inflação voltasse, porque a inflação alta prejudica, sobretudo, a parte mais pobre da população que vive de salário. Eu nunca esqueci de que quando a inflação era de 80% ao mês, eu era dirigente sindical e, portanto, eu tinha na pele os efeitos da inflação. Então, para mim, era uma coisa sagrada fazermos a política econômica tendo como meta crescer o possível, sem que isso implicasse na volta da inflação. Porque não tinha cultura no Brasil de crescimento econômico com inflação baixa, e não tinha cultura no Brasil de crescimento do mercado externo com o crescimento do mercado interno. Havia uma espécie de barreira nos analistas brasileiros. Todas as vezes que a gente aumentava as exportações, asfixiava o mercado interno. Todas as vezes que nós crescíamos, a inflação voltava. Então, nós precisávamos provar que era possível fazer essa combinação, sem a volta da inflação, e nós conseguimos. Agora, por que é que nós perseguíamos isso? Porque eu também tinha na minha cabeça que, como a minha eleição tinha sido um fato sui generis - ou seja, um metalúrgico ser eleito presidente do Brasil - eu tinha consciência de que eu não poderia fracassar, como Walesa fracassou na Polônia. Eu pensava: se eu fracassar, vai levar 200 anos para um trabalhador voltar à Presidência. Então, eu preciso fazer as coisas certas, obter resultados positivos, para que fique consagrado na sociedade brasileira que qualquer um, de qualquer origem social, que se preparar, pode ser Presidente da República do meu país.

Bem, os meus adversários diziam que eu tinha sorte. Bom, e eu acho que não posso conceber um governante sem sorte. Imagine um goleiro sem sorte. Então, eu rezo todo dia para ter sorte.

Quando veio a crise econômica no Brasil, os nossos adversários diziam: "Bom, agora é que nós vamos ver como o governo vai se comportar". E alguns apostavam na quebra do Brasil, como quebramos na crise russa, como quebramos na crise asiática e como quebramos na crise do México. Então, os adversários torciam para que o Brasil quebrasse. Nós tínhamos clareza de que a crise não chegaria no Brasil com a força que chegou em outros países, e como a economia brasileira estava forte e a gente tinha disposição política de tomar as medidas corretas, que a crise iria terminar mais cedo no Brasil.

No auge da crise, em dezembro, eu fui para a televisão, porque a imprensa brasileira, ela dizia - no mundo inteiro, na Alemanha também, parecia que a crise era uma catástrofe, que não ia sobrar pedra sobre pedra - e, no Brasil, as manchetes eram de que o povo não estava fazendo compras com medo de perder o emprego. Então, no dia 22 de dezembro eu fui para televisão, fiz um pronunciamento de oito minutos, dizendo para o povo que a economia era como se fosse uma roda-gigante e que ela não podia parar, e que era verdade que se ele comprasse, se endividasse, e perdesse o emprego, ele ia ficar em uma situação complicada; mas era verdade também que ele perderia o emprego com mais facilidade se ele não consumisse. Então, era preciso que ele, de forma responsável, consumisse, se endividando sem comprometer a sua saúde financeira, mas que ele tinha que consumir, que era a única chance de salvar a economia.

Bem, o que aconteceu? É que foi exatamente o consumo das famílias mais pobres brasileiras que sustentou a economia brasileira. Se eu der um dado para vocês, mais recente, no Norte e no Nordeste do Brasil, que são as duas regiões mais pobres, no mês de outubro os pobres consumiram 5% [a mais do que as classes A e B]. Ou seja, as classes D e E consumiram 5% a mais do que as classes A e B da região Sudeste do Brasil, com alimentos e com material de higiene.

Bem, então, a força do mercado interno brasileiro, mais as políticas anticíclicas que nós tomamos, e que conversávamos no G-20 para todos os países fazerem, salvaram a economia brasileira, e também por conta de que nós tínhamos três bancos públicos importantes. Nós temos um banco de financiamento, habitação e saneamento básico; um banco de fomento para a agricultura e o pequeno empresário; e o BNDES. Então, eu vou dar um número para você: em 2004, o BNDES contratou R$ 40 bilhões. Este ano, nós vamos contratar R$ 157 bilhões. Um outro número para marcar a economia brasileira: em 2003, o Brasil tinha R$ 380 bilhões de crédito, o país inteiro. Este ano, só o Banco do Brasil tem igual todo o Brasil tinha em 2003. Bem, isso explica por que o Brasil está numa situação de credibilidade no mundo. No auge da crise, a indústria automobilística brasileira estava mais sólida do que a alemã, do que a americana. Acho que pela primeira vez na história das nossas relações, as matrizes começaram a chamar as suas filiais, não para discutir um novo produto ou endividamento, mas para discutir qual o milagre que estava acontecendo no Brasil.

Eu vou terminar, falando da indústria automobilística. Vocês não precisam escrever tudo o que eu falei, porque eu falei demais. Mas, apenas para vocês compreenderem: a indústria automobilística brasileira foi covarde. Ela não precisava ter pisado no freio como ela pisou. Ela poderia ter moderado um pouco, porque ela representa 24,5% do PIB industrial brasileiro. Como ela estava com o estoque elevado, ela brecou no breque muito forte, e aí teve uma implicância no produto industrial brasileiro. Bem, aí não tinha crédito. Depois da quebra do Lehman Brothers o crédito desapareceu, os bancos das montadoras não tinham crédito. O que nós fizemos? Liberamos R$ 100 bilhões para irrigar o sistema e, ao mesmo tempo, compramos bancos importantes, pelo Banco do Brasil. O maior banco de financiar carros usados, nós compramos metade dele. Por que nós compramos? Porque o Banco do Brasil não tinha expertise para financiar carros. Então, nós não tínhamos tempo de aprender. Então, nós fomos e compramos o banco para que a gente pudesse liberar o mercado de carros usados e, consequentemente, liberar o mercado de carros novos. E estamos batendo recordes, a cada mês, de produção e de vendas.

Jornalista: Muito obrigado, Presidente, pela sua apresentação. Parece-me que essa é uma situação excepcional historicamente, em termos de força econômica. Fale um pouquinho sobre como é que o senhor traduz isso em um poder político, porque as pessoas às vezes falam da China, China, China, quando se trata de nova superpotência emergente, mas o Brasil certamente quer estar lá. O que o senhor está fazendo no G-20, nas relações Sul-Sul? Como o senhor está fortalecendo a posição do Brasil politicamente, usando a situação econômica do Brasil?

Presidente: Há um paradoxo na política mundial. Obviamente que a China tem 1 bilhão e 300 milhões de habitantes, é 12 vezes a população brasileira e, portanto, a China será sempre um país muito importante. E quanto mais a China crescer e o seu mercado interno funcionar, mais a China será importante na economia mundial, e a Índia também. Ou seja, os dois países juntos são 2 bilhões e 300 milhões de habitantes. Valem mais do que toda a Europa, do que toda a América do Norte, do que toda a América Latina juntas. Portanto, nós temos que, todo dia de manhã, levantar as mãos para os céus e pedir a Deus que esses países não tenham crise, que eles possam consumir cada vez mais. Então, é normal que a China e que a Índia tenham sempre uma boa perspectiva no cenário mundial. Ademais, a China oferece condições que o Brasil não pode oferecer. Ou seja, nós somos um país com total liberdade de imprensa, com total liberdade sindical, com total liberdade política, em que o Congresso aprova ou não aprova as nossas coisas. Então, chegar onde nós chegamos, exercendo a democracia na sua plenitude, é mais difícil do que em um país onde o governo central tem um poder muito grande.

O Congresso americano deveria olhar um pouco para a China, para não criar tanta dificuldade para o Obama, porque tudo isso tem um custo, ou seja, cada vez que nós exercemos a democracia na sua plenitude - e é bom que a gente exerça - e ela implica em demorar seis, oito, um ano para aprovar uma coisa importante, as pessoas pensam que estão prejudicando quem está no governo, mas o prejuízo é na vida das pessoas. Então, eu espero que o Congresso americano pense nisso antes de criar tanto obstáculo para o presidente Obama, e que o brasileiro também. Bem, apesar, apesar de que eu não tenho queixa do Congresso Nacional, porque com todas as polêmicas e com todas as divergências, o Congresso tem aprovado tudo o que foi importante para o Brasil até agora.

Então, eu acho que a China sempre será um grande ator, e quanto mais crescer economicamente... eu diria mais do que crescer, não precisa crescer a 14% ao ano. Se ela fizer um pouco de distribuição de renda e aumentar o poder de consumo do chinês e do indiano, nós, alemães e brasileiros, já temos motivos de sobra para estarmos alegres, porque vamos ter mercado.

Jornalista: Quando olhamos a política externa do Brasil, vemos o Brasil se posicionando no G-20, querendo que o G-20 tenha um papel mais forte como organização. Ao mesmo tempo o Brasil promove muitos diálogos no âmbito Sul-Sul, e com outros países que são mais pobres. O Brasil não é mais pobre, portanto, agora vai ter que fazer a transição da relação do diálogo Sul-Sul para o diálogo com os países ricos. É isso que está acontecendo?

Presidente: Veja, eu esqueci de dizer na primeira pergunta: parte do sucesso da economia brasileira se deve à diversificação das nossas relações comerciais no mundo. Ou seja, antes, você tinha mais de 60% da nossa balança comercial com os Estados Unidos e com a Europa. Nós diversificamos isso com a América do Sul, com a América Latina, com a África, com os países árabes e com o mundo asiático. Então, hoje, nós temos uma diversificação que nos dá mais estabilidade. Por exemplo, quando sai a crise americana, há dez anos, nós exportávamos 30% para os Estados Unidos; agora, exportamos 13%, embora tenha crescido 20% ao ano. Ou seja, significa que o sofrimento é menor.

Bem, eu acho que o Brasil não precisa mais ser tratado como um país pobre. Onde está a nossa pobreza? É que durante o século houve falta de compromisso social. Então, você é um país de uma economia pujante, mas que tem um enorme exército de homens e mulheres que ficaram para trás, e nós agora estamos tentando recuperar esse exército imenso para que eles possam conquistar a cidadania. Aí, sim, o Brasil vai ser rico. E o Brasil também precisa compreender que não é mais um país receptor. O País precisa ser um país doador. Daí a necessidade do fortalecimento da nossa política Sul-Sul. Daí a nossa preferência de trabalharmos juntos com os países europeus, com os Estados Unidos e com o Japão, para fortalecer a África. Não fazendo doação de dinheiro, mas financiando projetos, mas financiando projetos, que é do que está necessitando a África. Ou seja, você financia um projeto que vai gerar uma renda, vai gerar um poder de compra e, por conta disso, vai gerar a possibilidade de você ter um segundo projeto, um terceiro projeto, um quarto projeto. Não pode mais o mundo, tratar a África de forma paternalista. A Alemanha que ajuda a África, o Brasil que ajuda a África, aí dá dinheiro para ONGs, porque não confia nos governos. Então, o que nós precisamos fazer? Nós temos que trabalhar com o governo. Não é dar dinheiro, é financiar projetos em que a gente possa mensurar o plantio e a colheita. Por isso que nós queremos fazer logo a Rodada de Doha, para que depois da colheita a gente tenha mercado para os produtos africanos.

Então, eu penso que essa relação Sul-Sul tem que ser intensificada, porque ao longo do século XX ela foi totalmente esquecida. O Brasil está lá embaixo. Olhe o mapa do mundo que você vai ver o Brasil lá embaixo. Para a gente olhar para a Europa, nós teríamos que, obrigatoriamente, enxergar o continente africano. Mas a elite brasileira tinha uma deficiência visual, outra sentimental e outra ideológica, que ela olhava para a Europa e não via a África, olhava para os Estados Unidos e não via a América Latina, e nós temos que ver e saber que nós temos responsabilidade em construir políticas junto com eles, para melhorar a produtividade e acabar com a fome.

Jornalista: Isso tem um elemento estratégico também, porque a África tem muitos recursos para o futuro. Portanto, então, há uma importância estratégica em fortalecer essa relação por causa disso?

Presidente: Veja, há uma vontade política e uma decisão estratégica, mas nós não queremos uma relação de hegemonia e nem queremos uma relação predatória. Eu não quero ir para a África produzir para mim ou tirar matéria-prima deles para o Brasil. O que nós precisamos é ir para a África comprar matéria-prima, mas fazer o processo de transformação na própria África, para que a gente gere riquezas lá, para que a gente gere empregos lá.

A Rodada de Doha, o Brasil não precisaria estar brigando por ela se dependesse da agricultura brasileira, porque nós somos competitivos na soja, no café, na cana, na carne. Nós somos competitivos, nós não perdemos para nenhum país. O que os países ricos ainda não entenderam é que a cada centavo que o povo africano tiver aumentado na sua renda, a possibilidade de comprar novos produtos e máquinas para o seu desenvolvimento vai beneficiar os países ricos. E as pessoas não se dão conta de que, neste momento, nós precisamos criar novos consumidores. Quanto mais chinês comer, indiano comer, latino-americano comer, africano comer, mais o mundo vai precisar de alimento, de fábrica, de comércio e, portanto, todo mundo ganha com isso. Se a gente vai deixando uma parte do mundo muito empobrecida, amanhã não teremos para quem vender.

Vamos ver o que aconteceu com a crise econômica: quanto de dinheiro que o Tesouro dos países ricos teve que disponibilizar para salvar os bancos? Imagine se isso fosse aplicado no desenvolvimento dos países pobres; imagine se os Estados Unidos estivessem ajudando a América Central e a América Latina; imagine se a Europa e o Japão estivessem ajudando a parte pobre asiática e a África, como não seria maravilhoso o mundo. E isso é motivo de muita discussão no G-20. E nós estamos superando uma fase em que os dirigentes não se sentiam dirigentes, porque eles exerceram o poder em um momento que o mercado parecia que resolvia tudo e o governante não tinha que fazer nada. A crise obrigou os políticos a virarem políticos e o chefe de Estado a exercer a política na sua plenitude. Um governante tem que ser forte, porque o Estado tem que ser o indutor e o fiscalizador para que a gente não repita mais essa loucura de paraísos fiscais, essa loucura do bônus, em que você estabelece uma meta e, em nome daquela meta, vale qualquer mentira. Você não tem que produzir uma peça, você vende papéis. Eu vendo um papel para você, que repassa para ela, que repassa para ele, que repassa para aquele. Todo mundo ganha dinheiro com o mesmo papel sem gerar o emprego e sem gerar o produto. Ou seja, isso tem que acabar para que o mundo possa, sabe, ter o sistema financeiro totalmente voltado para a sua relação com o setor produtivo.

A crise de alimento, em maio de 2008, não tinha crise de alimento! Nós tínhamos tido uma diminuição de quase 100 milhões de toneladas, sabe, no mercado, no chamado estoque regulador dos países ricos. Qual é a explicação da soja ter subido? Qual é a explicação de o petróleo ter chegado a US$ 150 o barril, senão, a fuga do subprime para o mercado futuro de commodities?
Isso não pode continuar acontecendo, e eu falo de cátedra, porque no Brasil o sistema financeiro, embora, ganhe muito dinheiro, ele tem uma das melhores regulações do mundo e o mundo rico precisa aprender que o governo não é para ficar sentado vendo o trem passar, é para entrar no trem e ajudá-lo a governar.

Jornalista: O senhor acabou de mencionar as diferenças sociais muito grandes do seu país, e que é um dos maiores problemas para o desenvolvimento. E dado o histórico e a situação econômica e social, o senhor acha que esses problemas poderão ser resolvidos de uma maneira satisfatória? Eu sei que o seu governo já fez muito em termos de programas sociais, mas ainda continua sendo um grande problema.

Presidente: Olhe, nós temos muita consciência de que consertar uma casa fica mais caro do que fazer uma casa nova. Se você um dia for comprar uma casa velha para consertar, pode ficar sabendo que se você comprar uma nova, que parece mais cara, quando você acabar de consertar a velha, ela vai estar muito mais cara do que a nova que você não quis comprar.

O que nós estamos fazendo no Brasil hoje? Nós estamos fazendo um processo de reparação nos desmandos dos últimos 40 anos. Quando você for ao Brasil agora, você vai visitar as favelas do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Pernambuco, da Bahia e você vai perceber que nós estamos fazendo uma reparação nos desmandos da década de 50, da década de 60, da década de 70, derrubando barraco, fazendo rua, colocando luz, levando água, saneamento básico, cultura, escola, que era o que deveria ter sido feito. Porque quando você tem um barraco, é um problema habitacional; quando você tem mil barracos, é um problema social sério.

Então, nós estamos agora nessa fase de resolver isso e se você for ao Brasil, você vai perceber que tem mudanças substanciais. Nós sabemos que ainda temos muito o que trabalhar e que, possivelmente, a gente leve mais uma geração para a gente consertar o Brasil definitivamente. O dado concreto é que nós estamos no caminho certo. Eu vou lhe dar um dado que é muito sintomático. Para a Alemanha talvez não tenha muito sentido porque vocês fizeram isso no começo do século XX e nós estamos fazendo agora.

Nós criamos um programa chamado Luz para Todos: levar energia elétrica nos lugares mais distantes do País, totalmente de graça. Tem ligações que custam até US$ 4 mil e nós fazemos de graça. As pessoas pobres não pagam nada. Pois bem, nós chegamos a 2 milhões e 200 mil casas em todo o interior do País, que nós levamos energia elétrica. Eu vou dar um número para mostrar para você o que isso significa: isso significa 906 mil quilômetros de fios, daria para enrolar a Terra 21 vezes. Nós colocamos, utilizamos, para esse Programa, 7 milhões e 474 mil postes; nós utilizamos 790 mil transformadores. Isso, gerando emprego no local, produzindo as coisas lá no local. Por conta disso, o povo que recebeu a energia, eles compraram 1 milhão e 578 mil televisores; 1 milhão e 470 mil geladeiras; 998 mil aparelhos de som; fora liquidificador, fora ventilador, fora todos os eletrodomésticos. E a cidade e a indústria ganharam, além do aumento da capacidade da produção agrícola deles.

Então, quando os meus ministros da área econômica viajam o mundo falando da macroeconomia, eu falo para eles: falem da microeconomia, porque o milagre não está em dar 1 bilhão para um empresário. O milagre está em dividir esse 1 bilhão por 200, 300 mil pessoas e essa é a coisa importante que está acontecendo no nosso país.

Jornalista: Essa é uma tarefa de uma geração e o senhor diz isso com razão. Mas, enquanto isso, é claro, as grandes diferenças sociais criam tensões que são muito conhecidas, que podem afetar a democracia. Mas o Brasil é uma luz para o mundo, porque é uma forte democracia comparada com outros países, mas elas estão criando violência para o País, antes dos Jogos Olímpicos, da Copa do Mundo. Será que existe uma maneira de fazer essas coisas de longo prazo a que o senhor está se referindo e, ao mesmo tempo, conter a violência, conter os perigos que existem na democracia?

Presidente: Bom, é que a gente não poderia fazer uma ligação automática entre a violência e a pobreza. Tem outras coisas no meio. Por exemplo, nas Olimpíadas de Munique, Olimpíadas em que o Rei da Suécia conheceu uma brasileira, que virou Rainha, nós tivemos atentado terrorista. Nós não temos isso no Brasil. O que nós temos no Brasil? O que nós chamamos de violência urbana, em razão de muitas coisas: droga, crime organizado e também problemas sociais. Por isso é que nós estamos fazendo uma grande intervenção urbana no Brasil. Jamais foi feito o que nós estamos fazendo, jamais. Noventa e nove por cento do povo brasileiro quer paz e tranquilidade. É considerado o povo mais alegre do mundo, e nós fizemos - ah, você tem experiência (risos) - nós fizemos os Jogos Pan-Americanos, e foram tidos, pelos organizadores, como os melhores Jogos Pan-Americanos da história, e não teve um gesto de violência. Nós colocamos dez mil jovens das favelas do Rio de Janeiro para trabalhar nos Jogos Pan-Americanos, e nós queremos fazer isso como um exemplo, nas Olimpíadas.

Eu sei que eu não vou estar mais na Presidência. Mas você é muito jovem, você é muito jovem... vocês dois, e vocês poderão ir cobrir as Olimpíadas do Brasil. E depois que terminar, vocês vão conversar com os atletas para saber se teve algum lugar do mundo em que eles foram tratados melhor do que serão tratados no Brasil. E nós estamos, agora, muito mais obrigados a fazer mais política social, porque nós temos a Copa do Mundo em 2014. A única possibilidade de ter uma convulsão no Brasil é o Brasil perder a Copa do Mundo outra vez, em 2014, como perdemos em 1950. É a única possibilidade de uma convulsão social. Então, nós estamos trabalhando.

Veja, por que eu propus criar na Unasul um Conselho de Defesa e, ao mesmo tempo, criar um Conselho de Combate ao Narcotráfico? Por que eu fiz isso? Primeiro, para que os países da América do Sul assumam a responsabilidade de cuidar da sua casa. E todos nós, de forma solidária, juntos, temos que combater o narcotráfico. E aí vamos liberar os Estados Unidos, para em vez de ficarem colocando base na Colômbia, cuidem dos consumidores americanos e que a Europa cuide dos seus consumidores, que a gente vai ter um mundo mais tranquilo. Se não tiver para quem vender, não tem porque produzir. E nós queremos fazer a nossa parte. Por isso nós criamos um Conselho de Combate ao Narcotráfico, para que a gente possa mostrar ao mundo que nós não queremos ser tratados como se não soubéssemos tomar conta dos nossos. A primeira responsabilidade é nossa. Eu nunca aceitei ficar jogando a culpa nos países ricos, ficar jogando a culpa nos americanos, nos alemães. Na minha cabeça não funciona assim. A culpa é nossa, portanto, nós temos que fazer as coisas corretas, com muita seriedade e pegar a solidariedade dos países ricos, em vez de ficar culpando-os por alguma responsabilidade que é nossa.

Jornalista: Senhor Presidente, já chegou a hora, parece que nós não temos mais tempo. Eu apenas queria, se me permitir, perguntar, porque nós estamos próximos da Cúpula de Copenhague e o Brasil tem uma voz muito forte em termos dos arranjos sobre as mudanças climáticas. E o desmatamento da Amazônia é muito grande. Como combina essas duas coisas?

Presidente: Então, deixa eu lhe dizer uma coisa. No dia 23 de setembro, eu fiz um pronunciamento nas Nações Unidas, assumindo o compromisso de, até 2020, reduzir 80% do desmatamento da Amazônia. Vocês acompanharam pela imprensa que, este ano nós caímos de 12 mil e 900 quilômetros de queimadas para 7 mil quilômetros. Ou seja, este ano nós atingimos a meta de 2014.

Então, o Brasil vai trabalhar com muita seriedade. Eu vou dizer para vocês o que nós aprovamos há dois dias no Brasil, e que vamos levar para Copenhague, para que os países ricos saibam que nós estamos discutindo de verdade a questão do desaquecimento global. Então, nós assumimos o compromisso de que nós vamos diminuir em 24,7%... Na questão da terra, nós vamos diminuir, utilizando o desmatamento da Amazônia, ações na agropecuária brasileira, na questão energética e na questão de começar a produzir. Então, você tem: desmatamento da Amazônia, agropecuária, agroenergia e bioenergia, e um outro item é uma coisa que nós estamos chamando de aço verde, ou seja, o carvão a ser utilizado pela siderúrgica tem que ser carvão vegetal e não carvão mineral.

Tudo isso está nos obrigando a assumir um compromisso de um corte previsto de emissão de CO2 de 36 a 38,9%. É um compromisso muito arrojado e estamos fazendo isso para servir de lição aos países ricos, que falam muito e que fazem pouco. Você veja que só o desmatamento da Amazônia é equivalente à proposta que o Obama mandou para o Congresso americano. Ontem eu fiz uma crítica, de que tudo que não pode acontecer é os Estados Unidos e a China se juntarem - a China utilizando os Estados Unidos, os Estados Unidos utilizando a China - para não assumir compromissos. E, para minha tristeza, a reunião da Apec tomou uma decisão, ontem, vergonhosa, vergonhosa, porque eles não assumiram nenhum compromisso e eu acho isso grave. Essas pessoas precisam compreender que o aquecimento global não tem diferença entre ricos e pobres, entre norte e sul. O mundo é redondo e está girando, e, portanto, a atmosfera poluída vai atingir todo mundo.

Então, ou nós assumimos de verdade esse compromisso ou nós estaremos deixando para os nossos netos um mundo degradado, com pior qualidade de vida do que nós temos hoje. Mas isso depois que eu for... Eu tenho que atender o primeiro-ministro D'Alema.

O nosso embaixador pode dar detalhe dos números do Brasil para vocês. Nós envolvemos a sociedade brasileira: empresários, ONGs, instituições especializadas, acadêmicos, o movimento sindical e elaboramos a nossa proposta. Portanto, eu vou a Copenhague para dizer: O Brasil está fazendo e assumindo compromisso. Eu quero saber da minha querida amiga Angela Merkel, sabe, do Gordon Brown, e dos meus amigos europeus, se eles vão fazer o mesmo e se nós juntos e estivermos fazendo, nós poderemos fazer pressão na China e nos Estados Unidos.

Ontem, eu assinei um acordo com o presidente Sarkozy e que nós vamos para Copenhague. Vá quem quiser, mas nós vamos, e vamos falar muito grosso, sabe, da responsabilidade que nós temos que assumir com a questão do clima. Não vamos querer repetir Quioto.

Jornalista: Muito obrigado pela sua entrevista, pelo tempo que o senhor ficou conosco.

Presidente: Agora, eles podem detalhar para vocês, você pode ajudar aqui na questão do clima. Eu acho importante, como eu sei que a Alemanha é um país preocupado, sabe, eu acho que ele pode dar detalhes para vocês. E espero revê-los em Berlim, no dia três de dezembro. Está bem?

Jornalista: E nos Jogos Olímpicos também.

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