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Jornalista: Presidente, boa tarde. O Brasil, depois do que aconteceu, depois de tudo o que fez essa semana, vai se conformar com esse esvaziamento da Conferência do Clima e do Acordo do Clima em Copenhague? O senhor ainda vai ligar para o presidente Obama para cobrar uma ação mais efetiva dos Estados Unidos?

Presidente: Olhe, primeiro, eu penso que não há lugar para pessimismo quando você está tentando tomar uma decisão que envolve os interesses dos Estados Nacionais, que envolve a soberania de cada país, que envolve o modelo de desenvolvimento de cada país. Nós achamos que, quando os dirigentes se reunirem em torno de uma mesa, aquilo que parecia impossível de se concretizar pode se concretizar. O Brasil deu um exemplo quando mostrou números. E as metas brasileiras não são pequenas. Você assumir um compromisso de, até 2020, reduzir as emissões de 36,1 a 38,9, a começar na redução de 80% do desmatamento da Amazônia; você fazer o plantio direto na agricultura; você mudar a matriz do carvão para a siderúrgica brasileira; e você manter a matriz energética limpa são compromissos excepcionais que o Brasil está assumindo, e esses compromissos certamente estarão colocados na mesa, para que a gente possa demover aqueles que ainda estão relutando em apresentar números.

Os números que o presidente Obama apresentou são pequenos, diante da quantidade de emissões que os Estados Unidos têm emitido nesses últimos 200 anos, ou nesses últimos 150 anos. Ele tem que assumir mais responsabilidade. Acho que a China tem mais responsabilidade, menos que os Estados Unidos. E a impressão que eu tenho é que um grande número de dirigentes políticos irá a Copenhague, para que a gente possa assumir um acordo. Se todos não conseguirem colocar números e não estabelecer metas, nós poderemos pelo menos assinar um documento político que comprometa, com calendário, que a gente vai resolver a questão das metas. E eu penso que nós não temos como aceitar a ideia dos Estados Unidos e da China não participarem desse processo. Ou seja, não pode nem os Estados Unidos se escudarem na China, nem pode a China se escudar nos Estados Unidos. Ou seja, é preciso que eles se sentem à mesa conosco, para que a gente possa discutir e encontrar os números.

Jornalista: Presidente, presidente...

Presidente: Veja, a possibilidade de um G-2 é uma coisa um pouco forçada porque essa história vem sendo discutida já há alguns meses, nós já temos o resultado do Protocolo de Quioto, que os Estados Unidos não participaram e não aceitaram. E nós estamos percebendo há alguns meses que a China joga a culpa nos Estados Unidos, os Estados Unidos jogam a culpa na China, e a nossa preocupação é que, na criação de um G-2, um possa utilizar o outro como escudo para justificar a não apresentação de números. Portanto, isso só pode ser resolvido na hora em que nós nos sentarmos à uma mesa para conversar. Eu pretendo, a partir de amanhã, tentar falar com o Obama, com o Hu Jintao, com o primeiro-ministro Singh. A União Européia está mais ou menos de acordo de que nos vamos apresentar um documento com consistência política. Os números do Brasil estão colocados publicamente e assumidos publicamente por tudo o que é entidade no Brasil. De forma que eu continuo otimista que a gente pode chegar a um número que seja razoável para evitar a continuidade do aquecimento do Planeta.

Jornalista: Presidente, sobre o acordo político, me parece que já existe em Copenhague. A minha pergunta é: o senhor, como representante de um grande país emergente, como o Brasil, estaria disposto a aceitar que só um acordo político seja feito em Copenhague, e que os números sejam lançados em uma outra conferência no ano que vem? E segundo: o senhor viajará, o senhor confirma que viajará à Dinamarca?

Presidente: Vou, vou a Copenhague, vou a Copenhague porque eu acho que, neste momento, somente a presença dos líderes é que pode mudar alguma coisa em Copenhague. Veja, eu acho que nós temos que relativizar os números absolutos que estão sendo divulgados. A China tem muito compromisso com os países emergentes. A China sabe que ela tem compromissos com os Bric's, ela tem compromisso com o G-5, ela tem compromissos já assumidos em outras discussões anteriores. Portanto, eu não posso me negar a conversar, ou melhor, não tomar a iniciativa de conversar com o primeiro-ministro, com o presidente Hu Jintao, porque eu acho que ele estará muito mais de acordo conosco. Certamente, os números que ele pode apresentar não serão os números que o Brasil queira. Mas também o Brasil não pode impor que um país acate aquilo que o Brasil deseja. Ou seja, o país vai fazer aquilo que pode fazer. No caso da China, se a China mensurar os números que ela já tem, já seria um passo importante. E resta aos Estados Unidos, que são a maior economia do mundo e, portanto, os maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo e que, portanto, têm mais responsabilidade. Eu espero que com todas as dificuldades que o presidente Obama tem no Congresso, que ele dê um passo adiante, porque até agora os números que ele mandou para o Congresso Nacional representam apenas aquilo que o Brasil assumiu com o desmatamento da Amazônia. Portanto, se o Brasil pode, os Estados Unidos podem fazer muito mais. Pronto?

Jornalista: Não.

Jornalista: Presidente, Battisti, o senhor deve ter discutido esse assunto com...

Presidente: Não.

Jornalista: Não?

Presidente: Veja, eu não posso discutir um assunto que está sendo discutido na Suprema Corte. Vamos esperar que a Suprema Corte tome a decisão. Qualquer que seja a decisão que a Suprema Corte tome, aí eu posso tomar uma decisão.

Jornalista: (incompreensível).

Presidente: Não, veja, não, não... O Presidente da República, não existe possibilidade de seguir ou ser contra. Se a decisão da Suprema Corte for determinativa, não se discute, cumpre-se. Então, vamos aguardar, vamos aguardar porque eu... vamos aguardar. Eu não posso discutir hipótese em uma coisa que está em julgamento na Suprema Corte.

Jornalista: Presidente...

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Não foi discutido!

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Aqui, é impossível a gente vir e não discutir a questão do Battisti. O que eu tenho dito é que eu não posso dizer nada porque nós estamos com o caso na Justiça.

Jornalista: Presidente, uma questão sobre a economia, também... O Brasil continua perdendo a batalha para impedir a desvalorização do real, não é, para manter a competitividade das exportações. Esse é um tema persistente na economia brasileira. A minha questão é: o senhor tem alguma intenção de tomar alguma medida, proximamente, para corrigir essa situação? E, segundo, o senhor vai receber agora, esta semana, a sua colega da Argentina. O senhor vai propor algum armistício? O que o senhor vai propor exatamente com o maior parceiro do Brasil?

Presidente: Olhe, primeiro nós somos vítimas de uma boa causa. Qual é a boa causa? Câmbio flutuante. Como dizia o ministro Palocci, em 2004, o problema do câmbio flutuante é que ele flutua, para cima ou para baixo. E nós temos que lidar com isso. Nós sabemos que há excesso de entrada de dólares no Brasil. O ministro Guido tomou medidas para ver se contém um pouco a entrada de dólares criando o IOF na Bolsa. Isso leva um tempo para surtir efeito. Certamente, nesta semana o Banco Central, na medida em que vai entrando dólar em exagero, precisa comprar dólares para que a gente não permita que o dólar caia muito. Agora, a verdade é que se a unanimidade do povo brasileiro é favorável ao dólar flutuante, nós trabalhamos com o momento em que ele vai encontrar o seu ponto de equilíbrio e vai determinar. Não é o governo que vai dizer que ele vale isso ou aquilo. É o mercado que vai dizer qual é o ponto de equilíbrio do câmbio.

Jornalista: Presidente...

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Veja, nós temos que evoluir tecnologicamente para que a gente possa ganhar dinheiro exportando, mesmo com o câmbio mais baixo. Na visita da Argentina, nós vamos discutir as boas relações que o Brasil tem com a Argentina, que já tem com a Argentina. De vez em quando nós temos alguns problemas que são fáceis de serem resolvidos. E, da minha parte, eu tenho certeza de que será uma reunião que vai melhorar ainda mais o já bom estado de relações entre Argentina e Brasil.

Jornalista: (incompreensível) um armistício.

Presidente: Por que armistício?

Jornalista: Os jornais estão cheios... dos dois lados da fronteira tem reclamações (incompreensível).

Presidente: Não, veja, tem reclamações porque tem divergências sobre determinado ponto de vista. A reunião é exatamente para a gente tentar encontrar a solução.

Jornalista: (incompreensível) para o senhor: (incompreensível).

Presidente: Não, veja, veja, eu espero que os ministros resolvam isso antes de eu me reunir com a Cristina.

Jornalista: Presidente, no evento de hoje de manhã nós não tivemos o Obama, não tivemos a presidente da Alemanha, não tivemos a França aqui. Isso já não é uma demonstração do que vai ser Copenhague - voltando a Copenhague - e também não vai enfraquecer essa luta de vocês pela segurança alimentar, a não presença deles aqui?

Presidente: Veja, mas eles não estiveram aqui no ano passado, não estiveram no outro ano, não estiveram no outro ano, não estiveram no outro ano. A verdade nua e crua é que você não espere que os países ricos venham à FAO anunciar que vão dar dinheiro. O que era importante é que tivesse mais países pobres com os seus presidentes para que a gente pudesse cobrar, de fato e de direito, alguns direitos que nós achamos que é importante ter, apenas cumprir os acordos que já foram firmados. Como eu estou muito calejado com reuniões e com essas coisas, eu não espero que nada do que a gente proponha seja resolvido em uma reunião ou em duas reuniões. Acho que "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura", e nós vamos conseguir porque o mundo está percebendo que os países mais pobres precisam se desenvolver, o mundo está percebendo que com menos da metade do dinheiro que foi colocado para salvar o sistema financeiro, em outubro do ano passado, a gente pode salvar a Humanidade dessa doença ou dessa bomba de destruição em massa, que é a fome. Eu estou convencido de que a maior arma de destruição em massa hoje é a fome no mundo, porque ela não mata guerreiros, ela mata crianças de um ano, mata criança recém-nascida, mata crianças de até cinco anos de idade, e essa é uma coisa da nossa responsabilidade. Os países que estão preocupados com o Irã, os países que estão preocupados com o Afeganistão ou com o Iraque precisam começar a se preocupar com essa guerra invisível, que mata inocentes que não podem gritar, que é a fome. Como eu acredito na capacidade de convencimento das pessoas, nós vamos continuar martelando neste tema até que um dia as pessoas acordem e percebam que é muito barato a gente acabar com a fome no mundo. E quando a gente acabar com a fome no mundo esses pobres irão virar consumidores, e esses consumidores irão comprar os produtos que eles mesmos produziram, e que o mundo vai ficar muito melhor. É simples, é simples.

Jornalista: Presidente, o senhor foi pego de surpresa com esse acordo entre China e Estados Unidos para não apresentar números? Tem um acordo já selado, anunciado...

Presidente: Essa coisa vem andando já há muito tempo, esse debate vem acontecendo há muito tempo. Inicialmente, ninguém queria apresentar números.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Não, mas isso já estava claro.

Jornalista: Mas o senhor esperava um compromisso antes da Cúpula, esvaziando a Cúpula?

Presidente: Não, veja, deixe eu lhe falar uma coisa. Essa coisa de não apresentar números já estava clara. Por que você pensa que o Brasil tomou a iniciativa de apresentar números? É para a gente poder cobrar daqueles que passam o tempo inteiro querendo dar lições ao Brasil [e mostrar] que o Brasil fez a sua parte e que, portanto, eles têm que fazer. Se não vão apresentar hoje, vão apresentar amanhã; se não apresentarem amanhã, vão apresentar no mês que vem; se não apresentarem no mês que vem, vão apresentar no ano que vem. Mas o dado concreto é que não tem como escapar. Todos terão que apresentar números, inclusive o presidente Obama, o presidente Hu Jintao e todos os outros. É isso o que vai acontecer, é isso o que vai acontecer. Eu, como já fui a Copenhague... Eu, como já fui a Copenhague e já ganhei uma coisa que muita gente achava que eu não ia ganhar, que foram as Olimpíadas, não custa nada eu ir lá e ganhar um numerozinho, quando as pessoas não acreditam que não vai ter números.

Um abraço e até a volta.

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