Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Início do conteúdo da página

Não sei por que o meu microfone é mais baixo do que o do Alan García.

Bem, Presidente, eu penso que quando terminar a nossa reunião, você vai ter que ligar, fazer um telefonema para a dona Marisa e explicar para ela por que eu vou chegar em casa às três horas da manhã. No sábado passado, voltando da Alemanha, cheguei no aeroporto de São Paulo às 4 horas da manhã. No sábado agora, vou chegar em casa às 3 da manhã, e é preciso você convencer a dona Marisa de que eu estava trabalhando aqui no Peru.
Bem, eu acredito que o Peru, o Brasil, a América do Sul, nós estamos vivendo um momento muito singular na nossa história. Eu estava vendo os dois empresários, o Paulo Skaf representando o Brasil, e o Don Mario representando os empresários peruanos, e fico imaginando se dez anos atrás seria possível a gente fazer um empresário peruano acreditar no Brasil, ou se seria possível fazer um empresário brasileiro acreditar no Peru.
Havia desconfianças históricas. Na verdade, durante séculos passados houve quase uma doutrinação para que nós, países sul-americanos, ficássemos de costas uns para os outros, acreditando que as soluções dos nossos problemas viriam todas do Norte. Mirávamos Europa, mirávamos Estados Unidos e mirávamos o Japão. E nunca tínhamos acreditado que grande parte das soluções dos problemas que nós temos na América do Sul decorre exatamente do tempo que ficamos afastados uns dos outros.
Nós descobrimos isso há algum tempo. Mas entre descobrir e começar o processo de recuperação do tempo perdido, leva muito tempo. Porque, também, todas as normatizações, regulações e a formação intelectual das nossas burocracias era no sentido de que nós teríamos que tratar os países da América do Sul com muito mais dureza e dificuldade do que os países ricos do Norte.
Aliás, há uma coisa interessante. É que até outro dia, nas relações com os países do Norte, eram eles que impunham as regras. Eles chegavam com um pacote pronto e a nós era dado o direito de reclamar e, poucas vezes, de mudar. E entre nós, nós estamos querendo fazer uma relação de iguais, de parceiros em que ninguém, obrigatoriamente, é obrigado a ter uma política em que só um ganha, mas é uma política de ganha-ganha, onde todos precisam levar vantagem dos acordos que estamos fazendo.
E houve um tempo em que os países menores da América do Sul tinham um medo muito grande do Brasil. Eu dizia ao presidente Alan García que, numa reunião com o presidente Calderón e com os empresários mexicanos, os empresários mexicanos tinham medo dos empresários brasileiros e não tinham medo dos empresários americanos. É fantástico, mas era assim: parecia que os empresários brasileiros eram os que representavam o grande império, e não os empresários americanos.
Isso eu chamo de lavagem cerebral, a que nós fomos submetidos durante séculos e que, finalmente, eleições de pessoas com compreensões mais democráticas, com o aprimoramento da consciência política dos empresários brasileiros e peruanos, nós começamos a avançar.
Os empresários brasileiros, Alan - e tem muitos aqui que você conhece -, sabem que desde 2003 eu tenho feito uma pressão imensa para que eles façam investimento na América do Sul, para que eles façam investimento na África, porque a similaridade que existe entre nós permite extraordinárias oportunidades de investimentos do Peru no Brasil, do Brasil no Peru, e também é uma forma de equilibrar a balança comercial. Não é justo, não é economicamente correto que um país tenha grande superávit comercial diante do outro sem criar as condições para que o outro se torne mais competitivo e que haja um certo equilíbrio.
Eu poderia pegar a Petrobras, que está aqui, que ainda está investindo pouco no Peru; poderia pegar a Vale do Rio Doce, que está aqui; e as coisas que eu mais discuto com eles é fazer investimento no Peru, produzir coisas no Peru, gerar empregos no Peru e exportar o excedente para o Brasil para que a gente possa equilibrar a balança comercial entre Brasil e Peru. Esse é o comércio mais justo, é aquele que na hora em que tivermos que fechar a conta, no final do ano, todo mundo está feliz e alegre porque o comércio beneficiou os dois países. É com essa lógica que eu tento incentivar os empresários brasileiros a percorrerem os países da América do Sul, da América Latina, da América Central e da África, e eu penso que nós estamos colhendo resultados extraordinários.
Mas, nesta reunião de hoje, o Alan García, democrático como é, permitiu que nós não fizéssemos apenas uma reunião ministerial. Ele permitiu que nós ouvíssemos quatro governadores, que aqui eles chamam de presidentes regionais, e nós ouvíssemos dois representantes dos estados brasileiros: do Acre e de Rondônia. E eu confesso, meu caro companheiro Alan García, que foi a grande lição que eu levo desta reunião.
Estejam certos os governadores de que está gravada na minha cabeça a ideia da descentralização de muitas das políticas que já poderiam ter acontecido se estivessem sob a responsabilidade das regionais e não estivessem centralizadas na burocracia federal em Brasília ou em Lima. Acho que foi uma coisa...
Eu tenho cinco horas de voo até São Paulo e, certamente, eu vou maturando essas queixas que eu ouvi do governador, porque não tem explicação, Paulo Skaf. Não tem explicação que uma dona de casa de Rondônia tenha que comprar um tomate, que às vezes vai buscar em São Paulo, com 5.000 quilômetros de distância, se a 100 quilômetros tem um companheiro peruano produzindo o tomate que ela precisa (incompreensível). Não existe... Não existe, do ponto de vista da lógica da sobrevivência humana. Da lógica da supremacia de uma nação sobre a outra existe, mas da minha lógica e da lógica das pessoas de bom senso não pode existir. Não é não pode, não deve existir, e eu acho que isso que nós ouvimos hoje vai permitir a gente fazer essa correção.
E fico mais feliz ainda quando eu soube que mais de 130 companheiros do Acre, o vice-governador, junto com governadores peruanos, deputados nossos vieram para cá de ônibus, de carro, e passaram mal quando chegaram a 5.000 metros de altura, mas estão aqui. Porque aqui (incompreensível) brincaram na neve. Vocês vejam que um brasileiro não precisa atravessar o Atlântico para pegar um pedaço de neve. É só vir aqui nos Andes peruanos e pegar essa neve, e pode vir de carro, de ônibus. Não precisa vir de avião.
Então, eu acho que isso, Alan, eu acho que é um sinal, um sinal importante. Eu acho que nós descobrimos a essência da razão pela qual nós governamos o Peru e o Brasil: é aproximar o nosso povo, é permitir que eles tenham oportunidades que estavam tão distantes no século passado, é permitir que essas oportunidades se transformem em investimentos, em empregos e em geração de renda.
Nós vamos assinar aqui 16 acordos hoje... 15 ou 16 acordos, porque tem sempre um que não dá certo na última hora. Nós vamos nos reunir outra vez no primeiro trimestre do ano que vem para ver se a gente conclui o acordo da produção de energia elétrica aqui no Peru, para atender a demanda interna do Peru e para atender a demanda do Brasil. E obviamente que precisamos fazer uma discussão profunda porque nós queremos construir uma parceria que deixe o povo do Peru satisfeito e que deixe o povo brasileiro satisfeito.
Mas é uma oportunidade extraordinária de nós começarmos a resolver as deficiências energéticas que possam existir no Peru ou que possam existir no Brasil. E em março, eu quero ver, ministro Lobão, se a gente pode concluir uma assinatura e, quem sabe, fazer uma festa aqui em Lima e o Alan García oferecer um grande jantar aqui, um jantar de gala. Ou, quem sabe, façamos até uma reunião na nossa fronteira. Quem sabe a gente possa fortalecer a nossa fronteira, com o governador do Acre... Em Cruzeiro do Sul, que tem um aeroporto novo que ainda não foi transformado em internacional. Mas, de qualquer forma, nós temos a chance de fazer isso.
Nós estamos trabalhando no Brasil, Alan, e eu tenho certeza que no Peru também, um momento muito importante dos nossos países. É a autoafirmação da seriedade com que nós tratamos a economia do meu país e do teu país, e que hoje muitos países ricos sentem inveja de não ter a mesma solidez econômica que nós temos, embora tenham mais tecnologia, mais patrimônio e mais dinheiro.
Se o mundo fosse olhado com um pouco mais de humanidade, a gente poderia ver o seguinte: a quantidade de dinheiro que os países ricos tiveram que tirar do Tesouro para salvar os bancos que estavam ganhando dinheiro especulando - acima de US$ 400 bilhões -, imaginem se esse dinheiro que foi dado para os bancos, sem nenhuma reclamação, tivesse sido investido para ajudar os países em desenvolvimento a se desenvolverem um pouco mais, como seria muito mais fácil e como nós não teríamos a crise.
Então, eu penso, Alan, que esta reunião de hoje foi muito importante. Acho que Peru e Brasil estão cimentando um alicerce muito forte de uma relação que vai servir de exemplo para as relações que possamos ter com outros países. E eu quero que você saiba, Alan, que não apenas eu pessoalmente, mas acho que Brasil e Peru podem dar outros exemplos na questão da defesa. Nós temos que construir uma unidade no nosso Conselho de Defesa, nós temos que pensar no nosso Conselho de Combate ao Narcotráfico.
Nós, na América do Sul... olha só no mapa o tamanho deste continente, todo ligado. Deus quando fez a gente, Ele fez para a gente ser próximo, porque não tem empecilho para que a gente se junte. Dá para ir a pé. É um pouco longe, na verdade, mas dá para ir a pé. E eu não sei por que nós ficamos tão distantes, ficamos olhando além do Pacífico, ficamos olhando além do Atlântico, quando nós estamos próximos. Olhem o mapa do Brasil e do Peru, é como se nós estivéssemos (incompreensível), o Alan García conversando com outro e eu conversando com outro aqui, e nós não nos conhecemos, embora estejamos aqui grudados. Foi assim que Deus fez o nosso continente.
E eu penso que nós estamos dando um passo, um passo, para que com mais coragem, com mais ousadia a gente não deixe de olhar além oceano, mas que a gente olhe um pouco para nós e perceba que eu posso te ajudar mais, que você pode me ajudar mais e que o povo brasileiro e o povo peruano podem ganhar muito.
E a tua sensibilidade... eu só acho que você tem um defeito, Alan, um defeito grave: eu acho que você precisa participar mais das reuniões da Unasul. Porque sabe o que acontece? Muitas vezes tem companheiros que não gostam de participar de reunião porque não se decidem as coisas na reunião. Mas política é exatamente isso. O que é importante é que você participe com mais força para que as tuas ideias comecem a ser escutadas por outras pessoas, porque nós só vamos construir a Unasul forte, o Conselho de Defesa forte, o Conselho de Segurança que você está propondo que a gente pode criar. Mas, sobretudo, uma ideia de uma carta que você demandou, de criar nesta parte do mundo uma zona de paz, uma zona de não agressão, uma zona de prosperidade e uma zona de justiça social.
Eu acho que é isso que o povo peruano, o povo brasileiro, argentino, boliviano, venezuelano querem de nós. É preciso saber se a gente vai ter competência para atender essa demanda do nosso povo.

Portanto, parabéns, e obrigado, Alan.

Fim do conteúdo da página