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Portal do Governo Brasileiro
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Companheiros ministros que me acompanham, Lobão, Jobim,

Companheiro governador do estado de Rondônia,

Companheiros empresários, o Ivan aqui representando o nosso querido Miguel Jorge,

Nosso querido José Sergio Gabrielli, da Petrobras,

Empresários brasileiros,

Empresários peruanos,

Companheiros da imprensa,

Meu caro Mario Brescia, presidente do capítulo peruano do Conselho Empresarial,

Meu caro companheiro Paulo Skaf,

Senhores integrantes do Conselho Empresarial Peru-Brasil,

Participantes do Seminário,

Amigos e amigas,

Eu penso, Alan García, que você e eu, se não falássemos nada aqui neste encontro e tivéssemos atentado para o que disse o Don Mario, representando o capítulo empresarial peruano, e o Paulo Skaf, representando o Brasil, a gente iria ter dimensão do que está acontecendo, na realidade, entre Peru e Brasil.

Don Mario disse que nos últimos oito anos fizemos mais reuniões do que nos 180 anos passados. Ou seja, em quase dois séculos, nós fizemos menos reuniões do que fizemos em oito anos. E o Paulo Skaf enumerava aqui a quantidade de reuniões feitas em São Paulo, feitas em Lima, e mais um encontro que nós tivemos no estado do Acre, em Rio Branco.

Por mais que sejamos exigentes, é preciso que a gente tenha a dimensão de que já fizemos muito e que temos que fazer muito mais porque o tempo perdido foi muito grande. Foram séculos de distanciamento. Foram, praticamente, séculos de cegueira, em que nem o Peru enxergava o Brasil, e nem o Brasil enxergava o Peru.

O dado mais concreto para afirmar isso é que a primeira ponte entre Brasil e Peru começou a pouco mais de cinco anos atrás. Eu fico me perguntando, Alan Garcia, o que aconteceu com a cabeça das pessoas que governaram décadas e décadas antes de nós. Por que as pessoas enxergavam países tão longínquos, que você levaria meses de viagem de navio, ou muitas e muitas horas de avião e a gente não se enxergava? O que predominava na cabeça dos empresários brasileiros e dos empresários peruanos, do governo brasileiro e do governo peruano, dos políticos brasileiros e dos políticos peruanos, que teimaram, tantas e tantas décadas, em não se enxergarem, em não se perceberem e muitos menos em se compreenderem. Nós tínhamos tudo para tentar dar um salto no desenvolvimento, como deu o mundo asiático. Nós tínhamos tudo para dar um salto no desenvolvimento, como deu a Europa. Nós temos fronteiras praticamente [com] todos os países da América do Sul. Nós falamos uma língua que compreendemos grande parte das coisas que falamos e aquilo que não compreendemos pensamos que compreendemos, e assim mesmo, compreendemos. E isso aconteceu no setor empresarial, aconteceu no setor político, aconteceu com os militares e aconteceu com os sindicalistas. Eu fui um sindicalista muito importante nos meu país e eu nunca tinha vindo ao Peru, mas eu ia pelos menos três vezes por ano à Alemanha, à Suécia, ao Canadá, à Inglaterra, aos Estados Unidos, à França e não vinha ao Peru, não ia à Argentina, não ia ao Uruguai, não ia ao Paraguai, não ia à Colômbia, não ia à Venezuela e não ia ao Equador. Ou seja, nós estávamos tão próximos, era capaz de sentirmos o coração do povo peruano bater e o peruano sentir o coração do brasileiro bater, mas nós estávamos olhando, porque acreditamos durante muitas décadas, que alguém que estava muito longe e que era muito rico poderia vir salvar a nossa economia e fazer por nós a lição de casa que nós mesmos teríamos que fazer.

No fundo no fundo, Alan García, era a predominância do complexo de inferioridade entre nós e os ricos. E eram complexos da desconfiança entre os pobres do nosso continente.

Eu penso, Paulo, que você mais (incompreensível) quem sabe, os empresários aqui, eu penso que muitas vezes nós ficávamos esperando que nós íamos ter a oportunidade dada pelos países ricos. Eu fico olhando o comércio do Brasil, com grandes nações, com quem o Brasil mantém uma relação extraordinária, seja Estados Unidos, seja Japão, seja Alemanha, França, Itália. E eu vejo a perspectiva do comércio que nós temos com os paises vizinhos do Brasil. Até outro dia, nós não tínhamos quase comércio nenhum com os países daqui da América do Sul. Temos mais com a Argentina, mais com o.... Mas era pequeno, era muito pequeno, porque nós criávamos obstáculos para nós, que não criávamos para os outros. Ou seja, era como se nós tomássemos vacina para nos precaver de nós mesmos.

Eu acredito que esses seminários, essas conversas aqui dentro, as palestras, as conversas nos corredores, as conversas no balcão de um bar, à noite, tomando uísque, vão permitindo que as pessoas se compreendam melhor. Isso é mais ou menos como encontrar uma namorada, é mais ou menos como encontrar uma namorada. Ou seja, o amor nem sempre é à primeira vista. Talvez no primeiro momento a pessoa te olha e fala: "não faz o meu gênero", "não é o meu tipo". Mas depois do segundo, do terceiro, do quarto, do quinto lugar em que se encontram, aí, possivelmente, as pessoas se descubram, e eu acho que Peru e Brasil se descobriram. Acho que "pintou um clima" entre Brasil e Peru. Um clima que já não assusta mais a Petrobras; um clima que já não faz mais o Presidente da Fiesp preferir a França a vir para cá; um clima que permite, depois da entrada de algumas empresas de construção civil aqui, que outras viessem procurar oportunidades; e um clima de dupla mão, porque Don Mario começa a levar empresários para fazer investimento no Brasil. É tudo o que precisa entre duas nações para que as coisas comecem a funcionar corretamente.

O Brasil jamais poderia ser visto como um obstáculo para o Peru; o Brasil jamais poderia ser visto como um entrave ou um perigo na relação com o Peru. o Brasil precisaria ter sido visto como uma grande oportunidade para o Peru, uma grande oportunidade em que os dois países pudessem ganhar, em que os dois países pudessem se desenvolver. Possivelmente, Alan, ainda o Brasil não conheça 10% do potencial de negócios que podemos fazer com o Peru.

Possivelmente o Peru não conheça 10% dos negócios que pode fazer com o Brasil. E é compreensível, porque nós não conversávamos, nós não nos olhávamos, nós não nos visitávamos. O Brasil passava aqui por cima para ir para os Estados Unidos, o Brasil passava por cima da África para ir para a Europa e nem ligava para a África. Porque houve um tempo em que os nossos governantes, com complexo de inferioridade, se subordinavam aos caprichos das coisas já determinadas, das teses prontas e não procuravam novos ambientes de negócio, novos parceiros.

Eu me lembro, Alan García, quando eu decidi priorizar a África na minha relação. Eu me lembro de quantas críticas eu recebi, quando diziam: "O que o Lula vai fazer na África? O que o Lula vai fazer em São Tomé e Príncipe? O que vai fazer em Botswana? O que vai fazer no Benin? O que vai fazer em Guiné Bissau? O que vai fazer em Cabo Verde? O que vai fazer em Angola? O que vai fazer em tantos lugares? O que o Lula, agora, vai fazer na América Latina? É só encrenca, é só encrenca. Isso não vai dar certo. Tem que olhar para os Estados Unidos da América do Norte, tem que olhar para a Europa. Lá é que está o dinheiro". Lá está o dinheiro, mas também está o conhecimento. A chance de a gente vender lá é menor do que a gente vender para nós, porque nós precisamos mais, temos mais similaridades, poderemos construir coisas conjuntas. Mas, como é que nós vamos convencer a nossa gente disso? Somente o tempo, somente o que nós estamos fazendo. Mais uma reunião, daqui a três meses, mais outra daqui a seis meses, e a gente vai percebendo que as coisas vão acontecendo.

E isso vale para todo mundo. O Peru, Alan García, um dia, que não estará muito longe - eu espero que ainda no teu governo - comece a pensar em entrar no Mercosul. É bom, é importante para o Peru e importante para o Brasil. Nós não aprenderemos e não evoluiremos se a gente não enfrentar os desafios que nós temos, os preconceitos que nós temos, o medo que nós temos. Nós temos cismas.

Eu me lembro do tempo em que a Argentina e o Brasil viviam intrigados. Os diplomatas brasileiros não gostavam dos argentinos, os argentinos não gostavam dos brasileiros, e nós vivíamos de intrigas. Nós estamos construindo uma outra visão sem que ninguém queira levar vantagem e, sobretudo, sem que ninguém... ninguém precisa querer hegemonia. É preciso apenas construir oportunidades conjuntas, como nós fizemos hoje. Ouvir os governadores discutirem abertamente e, às vezes, a gente pensando em construir uma ponte de dois quilômetros ou de 2.000 quilômetros, 500 quilômetros, eles falam: "Uma estradinha de 120 quilômetros vai resolver o nosso problema". Lá de Brasília, lá de Brasília, certamente, Alan... lá de Brasília, certamente ninguém dá nenhuma importância ao aeroporto de Cruzeiro do Sul, porque está a 4.000 quilômetros de distância, o estado só tem oito deputados. Fica muito longe, fica muito longe. Então, imaginar que um burocrata, por mais refinado que seja, do gabinete presidencial, esteja preocupado com Cruzeiro do Sul, ele nem sabe que existe. Você fala: "Vamos a Cruzeiro do Sul?" Ele fala: "Como é que eu vou para o céu?". Agora, vejam que interessante. Enquanto muita gente de Brasília não conhece Cruzeiro do Sul, vários governadores do Peru acham extraordinário o voo que vai fazer de Cruzeiro do Sul a Porto... Pucalpa.

Por isso, Alan, é que eu acho que essas reuniões têm uma importância muito grande, essas reuniões têm um valor extraordinário, porque essas reuniões vão permitindo que as pessoas descubram essas oportunidades.

Veja, me falaram que aumentou o turismo, bastante, entre Brasil e Peru. As pessoas do Acre estão viajando mais, as pessoas de Rondônia estão viajando mais. Você, hoje, descobriu que Rondônia produz muita carne de qualidade e está vizinha do Peru.

Então, eu penso que nós estamos construindo, verdadeiramente, o futuro do Brasil e do Peru. A questão energética. Eu não sei se você está com a mesma disposição que eu estou, mas o meu ministro Lobão sabe que eu tenho insistido para que a gente priorize a elaboração desse projeto e que faça uma proposta - que não seja uma proposta apenas para atender os interesses do Brasil -, que faça uma proposta que deixe o Brasil confortável, mas também os peruanos se sintam confortáveis com o projeto que nós estamos construindo.

Então, meu querido amigo Alan García, eu já explorei demais a nossa amizade, já fiquei muito tempo aqui no Peru, no meu país já são nove e meia da noite, dona Marisa já está com o pau de macarrão atrás da porta esperando eu regressar, e saio daqui, Alan, saio daqui convencido de que o papel teu e o meu é o de sermos os indutores, os animadores. Se a gente der oportunidade, esta gente faz o resto. Se a gente der oportunidade, esta gente faz o resto. E como Don Mario falou que em oito anos nós fizemos mais do que em 180, nos 12 meses que me faltam para deixar o governo brasileiro, a gente pode fazer mais do que nos oito anos anteriores.

Então, para os empresários brasileiros, vou continuar fazendo uma boa provocação: viajem mais pelo continente sul-americano, descubram mais oportunidade de investimentos, não tenham medo de virar empresas transnacionais, de fazer investimento, porque graças a Deus, agora no Brasil nós temos dinheiro para financiar projetos para as nossas empresas trabalharem. Dez anos atrás, Don Mario, nós só podíamos fazer o que o FMI permitia. Hoje o FMI só pode fazer o que nós permitimos, porque nós somos sócios, com direito a veto.

O Brasil, hoje... Só o Banco do Brasil, hoje, Alan García, tem todo o crédito que o Brasil tinha quando nós entramos no governo. Só o Banco do Brasil. Só o BNDES, só o BNDES contratou, este ano, quatro vezes o que contratou cinco anos atrás, e nesta semana colocamos mais R$ 80 bilhões no BNDES e tem 20 guardados para a Petrobras explorar o pré-sal na hora em que ela quiser.

Portanto, dinheiro não é mais o nosso problema. É verdade. Sem nenhuma soberba, houve um tempo em que o Brasil não podia fazer absolutamente nada porque todo o dinheiro era para o superávit primário. Não tinha dinheiro para nada. Não dava aumento para funcionário público, não dava aumento para aposentado, não tinha dinheiro para investimento para as empresas, não tinha investimento público. Eu nem acho que era má vontade de quem estava governando, é que a situação econômica era mais difícil. Mas nós, hoje, estamos numa condição altamente favorável. Acho que o Brasil nunca viveu o momento mágico que está vivendo hoje.
E é por isso que eu acho que nós poderemos fazer muito mais com os nossos parceiros da América do Sul. É por isso que nós podemos fazer muito mais com o Peru. Alan, pouco tempo atrás, se o Celso Amorim chegasse ao ministro da Economia [Fazenda] do Brasil, ou o Fernando Henrique Cardoso, ou qualquer um, e falasse o seguinte: tem que emprestar R$ 10 mil, 10 mil pesos, 10 mil qualquer coisa, para fazer um investimento em um país da América do Sul, você não conseguiria. Porque é uma desconfiança total: "não vai pagar, não tem futuro". E eu acho que nós construímos não apenas no Brasil e no Peru, eu acho que todos os países deram um salto de qualidade. Porque todos nós já adquirimos consciência. O Alan já é presidente pela segunda vez. Certamente, a primeira vez que ele foi candidato prevalecia, o entusiasmo, quem sabe aquela coisa que você imagina que pode fazer tudo de uma vez e depois você vai percebendo que não dá para fazer, mas no segundo mandato é muito mais, muito mais aprimorado. Eu te confesso que o segundo mandato, se eu soubesse que era tão bom, o segundo, quem sabe, eu tivesse pleiteado o terceiro. Mas, a verdade é que no segundo mandato a coisa estava muito agitada, muito arrumada, nós não nos preparamos. Então, no segundo mandato, que eu tinha medo, está permitindo as coisas fluírem com muito mais facilidade. Então, você já vem com a lição do primeiro mandato e eu acho que o Brasil todo aprendeu, o Peru todo aprendeu, e todos os países aprenderam.

Então, eu quero dizer para vocês o seguinte: eu disse ao Alan Garcia, eu tenho mais um ano de mandato, e estou a disposição para que a gente faça, cada vez mais e cada vez mais rápido. Ou seja, se a gente tomar uma decisão, nós mesmos temos que perseguir essa decisão, acompanhar, cobrar, porque senão as pessoas não conseguem fazer, porque a burocracia é uma coisa pesada, no Peru e no Brasil. Então, é preciso ter o dedo do Presidente. E eu quero que você saiba, meu companheiro, eu quero dizer para os empresários aqui - os brasileiros já sabem - mas, aos peruanos: não faltará, da minha parte, gesto que não seja para favorecer o crescimento da relação econômica entre Brasil e Peru. Podem ter certeza de que nós não mediremos sacrifício, faremos qualquer coisa para que a gente possa transformar essa América do Sul em uma parte continental desenvolvida, em que nosso povo possa, no século XXI, conquistar aquilo que nós jogamos fora no século XX.

Boa sorte, e muito obrigado pelo carinho.

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