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Todos nós estamos aos poucos descobrindo que a única saída que nós temos é trabalhar fortemente a nossa integração. E trabalhar a nossa integração significa nós nos confrontarmos com as instituições multilaterais existentes hoje e que não funcionam adequadamente.

Ora, vejamos a nossa atitude, aqui, em solidariedade à Argentina, no caso das Malvinas. Qual é a explicação geográfica, política, econômica de a Inglaterra estar nas Malvinas? Qual é a explicação política das Nações Unidas já não terem tomado uma decisão e dizer: "Não é possível. Não é possível que a Argentina não seja dona das Malvinas, e seja um país que está a 14 mil quilômetros de distância o dono das Malvinas".

Ora, será que é o fato de a Inglaterra participar do membro... como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que a eles pode tudo e aos outros não pode nada? Eu... a companheira Cristina já foi embora, mas eu penso que é importante dizer aqui o seguinte, ou seja, é preciso que a gente comece a instigar para que o Secretário-Geral das Nações Unidas reabra esse debate com muita força, dentro das Nações Unidas. O momento político é exatamente esse. Já que nós temos temas, eu queria fazer um apelo aos presidentes da América Latina e do Caribe: muitas vezes, nós evitamos discutir determinados assuntos porque nós temos divergências com outros países, mas é inexorável que a gente discuta o papel do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Não é possível que as Nações Unidas continuem com um Conselho de Segurança representado pelos interesses geopolíticos da Segunda Guerra Mundial e não leve em conta todas as mudanças que aconteceram no mundo. Ora, por que a gente não muda? Ah, porque a Itália não quer a Alemanha, porque a China não quer o Japão, porque o México não quer o Brasil ou o Brasil não quer o México, porque na África não se entendem. Ora, meu Deus do Céu.

Ora, se nós formos pequenos e não tivermos coragem de enfrentar esse debate e que a gente esteja representado regionalmente, a ONU vai continuar a funcionar sem representatividade e os conflitos do Oriente Médio vão ficar por conta dos interesses eminentemente norte-americanos, quando, na verdade, era a ONU que deveria assumir a responsabilidade de estar negociando a paz no Oriente Médio. Era a ONU que deveria estar negociando as discussões com o Irã. Por que a ONU se afasta e os países individualmente tratam desses assuntos? É porque a ONU perdeu representatividade e porque muitos dos países que participam do Conselho de Segurança preferem a ONU frágil para que eles possam desobedecer às decisões da ONU e fazer do seu comportamento enquanto nação a grande personalidade de governança mundial.

Então esse é um assunto que eu espero que em alguma reunião seja colocado na pauta para a gente discutir com muita força e com muita vontade. Nós percebemos uma coisa importante que aconteceu em Copenhague por ocasião da questão do clima. Certamente nem a União Europeia, nem o Japão, nem os Estados Unidos levaram em conta a existência do continente africano e dos seus interesses na questão climática. Não levaram em conta a questão de vários países da América do Sul, da América Latina que estavam lá representados. Havia um determinado momento em Copenhague em que a grande culpada era a China, ou seja, tudo era feito para que se negasse o Protocolo de Quioto, para que tirasse dos europeus a responsabilidade com as metas e com os financiamentos e que jogasse nas costas da China a responsabilidade pelo fracasso da questão... da questão do clima.

Aqui, a Colômbia e a Argentina participaram de uma reunião às 3 horas da manhã, 4 horas da manhã, em que eu fiz questão de dizer que nem no tempo de sindicalista eu fiz uma reunião tão desorganizada como aquela em que estavam presentes os presidentes da França, da Alemanha, da Itália, da Suécia, da Holanda e de tantos outros países importantes, inclusive com representação dos Estados Unidos. Leonel, você não tem dimensão da pobreza de espírito, não tem dimensão. Presidentes de países importantes discutindo parágrafos, discutindo artigos, para ver se se colocavam de acordo para questionar a China no dia seguinte.

Nós... Eu penso que os países que estiveram lá, dos que fizeram uso da palavra, da América do Sul, se posicionaram corretamente bem. Eu ouvi falar o Uribe, eu ouvi falar o Chávez, eu ouvi falar o Evo Morales, e eu penso que nós temos demonstração, companheiro Raúl, no final, quando nós fizemos uma reunião na China, da África do Sul, da Índia e do Brasil em que o Obama pediu para participar da reunião, eu acho que nós demos ali o tom de que é possível no México, este ano, a gente encontrar uma fórmula de ter um acordo levando em conta as responsabilidades diferenciadas. Porque não é possível que os países ricos se proponham a dar uma quantia em dinheiro muito pequena e falam como se estivessem dando uma quantia em dinheiro muito grande.

Eles agem, Leonel, como se estivessem prestando um favor, quando, na verdade, nesses 200 anos foram eles que poluíram o planeta e que, portanto, não existe favor, é pagamento de dívida, é uma reparação que eles estão fazendo. E eu estou convencido de que com o espírito revolucionário do povo mexicano nós vamos aqui conseguir firmar ao acordo que não conseguimos fazer em Copenhague. E eu fiz questão de dizer no meu discurso que Copenhague não deu certo porque não tinha organização e não tinha coordenação. Não tinha conversa, esse é o fato concreto e objetivo.

Bem, aqui... eu penso que foi muito rica a discussão sobre o Haiti. Eu trago um apreço pela história do Haiti, primeiro país negro do nosso continente a conquistar a sua independência, mas também um país condenado ora por embargo, ora por invasões, ora por ocupações, ora por governantes ladrões, ditadores. O dado concreto é que o Haiti já estava em uma miséria muito grande antes do terremoto. O terremoto veio apenas agravar a situação do Haiti e sensibilizar a todos nós. No caso do Brasil, além das quase 300 mil mortes que disse o companheiro Préval, nós perdemos pessoas muito queridas nossas - além dos 18 soldados, perdemos uma grande mulher chamada Zilda Arns e o nosso representante nas Nações Unidas.

Bom, qualquer dinheiro que o Brasil der, qualquer coisa vai ajudar o Haiti, mas não vai recuperar a vida das pessoas que morreram. Entretanto, eu tenho a convicção de que as pessoas que estavam lá, sobretudo, (incompreensível) sabiam que estavam lá para correr qualquer risco, e a morte é um dos riscos que nós nos subordinamos quando estamos em uma luta como aquela de restabelecer a paz no Haiti. De forma que eu penso que as decisões tiradas aqui com o Haiti são pouco diante do que a gente precisa fazer. O Haiti nós temos que pensar em longo prazo. Não existe possibilidade de se recuperar o estrago feito pelas centenas de governantes irresponsáveis que teve o Haiti, o estrago feito pelo terremoto, o estrago feito por tudo o que é da história do Haiti em poucos anos.

O que é necessário é que haja determinação nossa de cada vez mais sermos solidários com os companheiros do Haiti, sempre levando em conta que nós precisamos todo santo dia dizer que é necessário fortalecer o governo eleito democraticamente no Haiti. E que grande parte dos recursos que a gente tiver que dar, tem que passar pela orientação do governo do Haiti. Isso precisa ficar muito claro porque senão, daqui a pouco, está todo mundo governando o Haiti menos o presidente eleito democraticamente e o primeiro-ministro. Então é preciso que a gente sempre tenha cuidado com isso.

Por último, dizer aos companheiros que eu fico muito gratificado. Eu não sou... não sou pessimista, o que, muitas vezes, alguns companheiros são nos nossos encontros internacionais. Eu não sou pessimista, ou seja, mesmo tendo 50 anos de bloqueio a Cuba, eu sempre trabalho com a expectativa de que não estará longe o dia em que apareça um governo e diga: "Olha, não tem mais nenhuma razão de continuar bloqueando... É preciso...". E isso vai acontecer na medida em que a gente em cada reunião se manifeste, em cada reunião aprove um gesto de solidariedade, em cada conversa como os governantes americanos a gente discuta isso. Isso não pode ser um assunto para uma reunião a cada dois anos, isso tem que fazer parte do nosso cotidiano.

Eu sou daqueles que acredito que nós só teremos chance de nos desenvolvermos, de crescermos economicamente, de fazer distribuição de renda, de fazer a reparação da dívida social que nós temos em nosso continente com a parte pobre se a gente estiver em paz e tiver tranquilidade. Por isso essa criação da Comunidade Latino-Americana e Caribenha é uma coisa que se eu não tivesse participado de outra coisa a nível internacional, eu penso que teria valido a pena a gente ter convocado a primeira e a segunda reunião.

De forma, companheiro Calderón, que eu quero dizer para vocês que é gratificante viver esse dia no México. Eu não esperava que nós chegássemos tão rápido a criar a Comunidade, eu não esperava. Mas eu penso que isso me motiva a dizer a todos vocês: não há nenhuma razão para nós sermos pessimistas. Nenhuma razão. E eu digo sempre o seguinte: quanto mais angustiados nós estivermos, nós temos que olhar o que era o nosso continente, há dez anos, há 12 anos, há 15 anos, há 20 anos, para a gente dizer: "Avançamos de forma extraordinária. Não resolvemos ainda todos os problemas sociais, mas estamos consolidando a democracia como em nenhum outro momento desses 200 anos lutando pela independência".

E isso fica demonstrado em uma maioria aqui... que não está presente Honduras aqui. E não está presente por uma razão muito simples: é porque mesmo tendo eleições lá, sabe... sabe que aquelas eleições foram convocadas de forma equivocada, que se truncou um mandato de um homem eleito democraticamente pelo voto e a gente não pode aceitar nem por brincadeira que essa experiência de juntas militares de Honduras prevaleça em outros países da América Latina e do Caribe. Porque daqui a pouco eles resolvem entender que qualquer um de nós é demais, e portanto, nos afastam para que eles coloquem a ordem.

E a ordem em Honduras era o Zelaya ter terminado o seu mandato, ter convocado um processo eleitoral, e ter passado o mandato para quem tivesse sido democraticamente eleito. Eu penso que o comportamento de todos nós... De vez em quando recebem crítica de algum setor da imprensa, mas eu tenho a convicção de que o comportamento do Grupo do Rio, o comportamento da OEA na condenação foi a coisa mais justa e mais democrática que nós fizemos.

Por isso eu queria reconhecer e dar os parabéns a todos os companheiros. E aqui todos nós aprendemos uma coisa fantástica, aqui todos nós já aprendemos, ou seja, numa reunião como essa não existe gente de direita ou gente de esquerda apenas, porque quando nós sentamos aqui nós somos chefes de Estado. E chefes de Estado sem abrir mão das suas convicções ideológicas são obrigados a fazer os tratados e acordos que são possíveis serem feitos e a questão ideológica, muitas vezes, não é colocada como prioridade, mas é a relação entre os Estados que muitas vezes leva em conta.

Portanto, parabéns companheiro Calderón pela condução dessa reunião e parabéns aos companheiros pela criação da Comunidade Latino-Americana e Caribenha.

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