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Minha querida companheira Cristina Kirchner, presidente da Argentina,

(Incompreensível) do Mercosul, em nome de quem cumprimento as demais autoridades da América Latina e do Caribe aqui presentes,

Meu caro companheiro José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, em nome de quem cumprimento as demais autoridades da Europa,

Senhora companheira Maria Teresa de la Vega, primeira vice-presidente do governo da Espanha,

Senhor José Luis Rodriguez, presidente da Nova Economia Fórum,

Companheiros ministros,

Chanceler da Espanha,

Meu caro irmão Néstor Kirchner, presidente da Unasul, secretário-geral da Unasul recém-eleito,

Companheiros e companheiras,

 

Em primeiro lugar, quero agradecer a presença de todos vocês: das minhas companheiras Cristina Kirchner e Maria Teresa de la Vega, que estão aqui; dos ministros e demais delegados europeus e latino-americanos que trabalham há meses para o êxito desta Cúpula; das autoridades e personalidades espanholas que vieram prestigiar este evento; e de todos os demais convidados, brasileiros e estrangeiros, que enfrentaram as sempre complexas medidas de segurança para estar nesta sala. Agradeço também a Nova Economia Fórum por esta amizade.

Antes de ler o meu discurso aqui, eu queria dizer que o embaixador brasileiro aqui na Espanha trabalhou comigo seis anos antes de assumir o seu primeiro posto. Então, depois de trabalhar comigo seis anos, ontem foi a primeira vez que ele adentrou o meu avião para me receber como Presidente da República, e eu tê-lo como embaixador aqui. Eu queria, Paulo, meu companheiro POC, dizer que espero que você trate a Espanha com muito carinho, porque a Espanha sempre nos tratou com muito carinho. Espero que você possa... Certamente eu não virei mais aqui, mas eu espero que você tenha muitos outros presidentes visitando a Espanha.

A Cristina disse uma coisa que nos tocou, que possivelmente não tenha, na história da Argentina e na história da Espanha... na história do Brasil, um momento em que os presidentes se autoelogiaram ao participarem de eventos. E eu queria que os espanhóis compreendessem que foi um desafio meu e do Kirchner, em um primeiro momento, dos nossos ministros das Relações Exteriores, que era preciso reeducar a nossa diplomacia – nem a Argentina e nem os brasileiros era para se verem como adversários –, e, depois, com a companheira Cristina. Nós nos convencemos de que nós dependemos da nossa boa relação.

Houve um tempo em que os presidentes do Brasil e da Argentina disputavam para ver quem era mais amigo dos presidentes norte-americanos, e nós disputamos a nossa relação de amizade com a convicção de que o povo argentino e o povo brasileiro, independentemente dos nossos governos, se tratam como irmãos. Só temos uma pequena divergência no futebol.

Veja outra novidade que está acontecendo hoje, Cristina, veja outra novidade: aqui nós estamos na Espanha que, pela primeira vez, está confiante de que pode chegar à final da Copa do Mundo agora. O meu companheiro Zapatero disse que é a melhor Seleção da Espanha de todos os tempos. Mas aqui, da América Latina, vizinhos, tem dois países com muita possibilidade de chegar à final. Oxalá, se não chegar à final a Espanha, que chegue a Argentina e o Brasil; se não chegar o Brasil, que chegue a Espanha e a Argentina; e se não chegar a Argentina, que chegue a Espanha e o Brasil, porque aí nós estaríamos fazendo a integração definitiva da União Europeia com o Mercosul.

Sei que a Nova Economia Fórum, tendo à frente o dinâmico companheiro José Luis Rodriguez, desempenha importante papel na organização de debates sobre os principais temas da agenda espanhola e internacional. Sei também que criou um espaço privilegiado para que personalidades de diferentes matizes possam apresentar e discutir suas ideias. Acho que a oportunidade de debate como as criadas pelo Fórum são cada vez mais necessárias. Como dizemos no Brasil: é conversando que a gente se entende. Por isso, eu fui até o Irã, porque acredito que é conversando que a gente se entende.

Não basta ter acesso a uma quantidade cada vez maior de informações, é necessário entender a posição dos outros, permitir a troca de ideias, provocar e promover diálogos. O título da homenagem também me parece atual e relevante – “Desenvolvimento Econômico e Coesão Social”. Esta é a maneira como se entende aqui na Espanha o desafio central do crescimento sustentável eqüitativo. No combate à desigualdade econômica e social, na superação da fome e da pobreza, é a ideia de que avanços permanentes só são possíveis se as sociedades progredirem como um todo, sem deixar ninguém para trás.

Fico feliz de constatar que o Presidente do México e outros companheiros latino-americanos já receberam essa distinção. É o reconhecimento da chegada de um tempo novo na América Latina e Caribe. Nossa região passa por um momento histórico de implantação de um novo modelo de desenvolvimento, de uma nova realidade política e social que é, no fundo, um caminho sem retorno. Nossa região avança em um momento especialmente complexo. Estamos todos enfrentando (incompreensível) das sequelas da crise financeira internacional, uma crise em que muitos estão pagando pelos excessos de poucos, uma crise que exige medidas difíceis e corajosas.

Acho que já ficou claro que não há receitas únicas, que cada país precisa trabalhar com base em sua própria realidade, mas ficou evidente, também, que temos que trabalhar todos juntos para superar a situação atual. É por isso que Espanha e Brasil, assim como muitos dos outros países que participaram da Cúpula, estão trabalhando juntos para reformar o sistema financeiro internacional, para atualizar instituições e regras, para aumentar a supervisão e os controles necessários dos mercados e das entidades que neles operam.

Nesses meus quase oito anos de governo, tenho insistido muito na tese de que a superação dos principais desafios do nosso tempo passa, necessariamente, pela redução da desigualdade, por respostas concretas aos flagelos da fome e da pobreza.

São vários os exemplos que poderia citar, mas vou mencionar apenas o combate à mudança do clima, que está na ordem do dia e foi tratado nesta Cúpula. Na reunião de Copenhague, muitas vozes se somaram para repetir e insistir que qualquer acordo precisa levar em conta a dimensão do desenvolvimento econômico-social, a diferença entre os países. E não se trata de uma discussão diplomática ou de uma barganha para ver quem paga menos ou ganha mais. O tema central é equidade: a busca de soluções que permitam aos países se desenvolverem e superarem a desigualdade. Essa lógica se aplica, com variações, a vários outros temas: desde as negociações da OMC às discussões sobre paz e segurança. É a chave para a solução de muitos de nossos problemas.

Amigos e amigas,

Os países da América Latina e do Caribe e seus parceiros da União Europeia se reuniram aqui em Madri para discutir as relações birregionais. Temos uma rica e ampla agenda de iniciativas conjuntas, e nossa relação deve refletir, cada vez mais, as mudanças que estão acontecendo em nossas regiões.

Para que nosso diálogo e trabalho prosperem, é preciso que sejamos capazes, cada vez mais, de entender o ponto de vista do outro. Um dos assuntos complexos que temos pela frente é o da imigração. É um teste para a construção de nossas posições comuns, é um desafio para todos aqueles que realmente acreditam no conceito da coesão social. Como sociedades imigrantes e migrantes, muitos dos países que estão aqui representados precisam dar exemplos, encontrar soluções que atendam os requisitos de justiça e solidariedade.

Esse tema é importante, como as negociações comerciais, e tivemos excelentes notícias aqui em Madri, em grande parte graças aos esforços dos nossos companheiros e amigos espanhóis e argentinos, representados pelo Zapatero e pela companheira Cristina.

A União Europeia e o Mercosul decidiram, finalmente, retomar as negociações do acordo de associação. Espero que prevaleça o interesse mais amplo e compartilhado de construir riqueza e prosperidade, de gerar mais comércio e investimento, mais trabalho para os europeus e mais trabalho para os cidadãos dos países do Mercosul.

O relançamento das negociações pode ser um estímulo para a retomada dos esforços na Unasul. Lá o desafio é ainda maior e mais importante: com um acordo bem-sucedido e equilibrado, teremos importante ferramenta para combater as desigualdades. Quero, também, aproveitar para insistir na importância da cooperação triangular, de projetos conjuntos de Brasil e Espanha, Brasil e Argentina, Argentina e Espanha e outros parceiros europeus, em benefício de terceiros países. Seja na América Latina e no Caribe, seja na África ou na Ásia, podemos aproveitar as complementaridades de nossa experiência em cooperação, potencializar recursos, sejam eles financeiros ou humanos.

Senhoras e senhores,

Não posso concluir sem uma menção especial aos nossos anfitriões. Certamente voltarei muitas vezes à Espanha no futuro. É um lugar onde me sinto à vontade, onde tenho grandes amigos. Não sei se terei mais tempo para voltar aqui no exercício da Presidência da República, por isso, trago aqui hoje o meu “muito obrigado”, o meu reconhecimento pela disposição de diálogo e de trabalho conjunto. E falo tanto do governo como da sociedade espanhola, dos seus empresários, que apostam no Brasil, e de todos aqueles que gostam do meu país e que trabalham pelo aprofundamento dos laços de amizade.

Vejo no prêmio que recebo do Nova Economia Fórum um sinal de amizade da Espanha pelo Brasil e do crescente interesse pelo nosso país. Penso também que é prova de que as mudanças em curso no Brasil e em nossa atuação internacional encontram eco aqui na Espanha, e não podia ser de outra forma. Nossos dois países são aliados em muitas causas internacionais, temos identidade em nossa atuação no G-20 e na ONU e estamos unidos na luta por um mundo mais justo e mais solidário, e vamos trabalhar também, com afinco, para que nossas relações bilaterais nos ajudem a gerar benefícios crescentes para espanhóis e para brasileiros.

Agora, que tornamos obrigatório o ensino do espanhol no Brasil, os vínculos com a Espanha vão se fortalecer ainda mais. Só ficará faltando, portanto, estimular os espanhóis a fazerem um esforço para aprender português ou, pelo menos, para ensaiar um saboroso “portunhol”, que todos nós entendemos.

Meus companheiros e companheiras,

Eu queria apenas render um tributo à minha relação com a Espanha. Nos anos 80, um dirigente espanhol foi visitar o Brasil, e, naquele tempo, eu estava condenado pelo regime de segurança, pelo Conselho de Segurança no Brasil, e estava afastado do sindicato. Já tinha ido lá um líder alemão, o Helmut Schmidt, e tinha exigido dos militares brasileiros que queria encontrar comigo. Foi um encontro curto, mas foi um encontro cortês. E foi um líder por lá chamado Adolfo Soares, que foi na Espanha... não era um homem de esquerda, mas, certamente, era um democrata e exigiu me receber, contra a vontade daqueles que governavam o país na época.

Depois, em 1989, eu era candidato a presidente, e vocês sabem que candidato a presidente que não é famoso, que não está em primeiro lugar nas pesquisas, muita gente não recebe, muita gente não quer nem conversar com o candidato se não tem possibilidade de ganhar. Eu vim à Espanha e fui recebido pelo meu companheiro Felipe Gonzaléz, me recebeu no Palácio, não teve vergonha de me receber no Palácio quando não havia perspectiva de eu ser presidente da República do Brasil.

Depois, mais adiante, eu tive uma boa relação com o ex-presidente Aznar, e recebi o companheiro Zapatero... quando eu vim receber o Prêmio das Astúrias, foi quando eu encontrei com o companheiro Zapatero, que disse a mim que era candidato, e depois tivemos também uma extraordinária relação.

Mas mantive, aqui na Espanha, com os trabalhadores das Comissões Obreiras e da UGT, uma extraordinária relação nesses 30 anos de vida política. Eu, cada vez que vinha aqui, Cristina, eu tinha que me reunir em um lugar com as Comissões Obreiras, em outro lugar com a UGT porque, naqueles anos, eles tinham muito mais divergências.

Mas não apenas os dirigentes sindicais; os empresários espanhóis. Eu queria contar um caso para vocês, para mostrar como a nossa relação é verdadeira. Eu era candidato, em 2002, quando a imprensa brasileira, muitas vezes, divulgava que se eu ganhasse as eleições, eu ia acabar com a economia brasileira – que já estava acabada, na verdade – e que seria um desastre para o livre mercado a minha vitória.

Eis que – eu não vou citar nomes aqui – aparece um empresário espanhol para me visitar no meu comitê de campanha, e eu expliquei para ele como era a campanha no Brasil, qual era a minha possibilidade de ganhar. Terminou a reunião, esse homem disse simplesmente o seguinte: “Se você quiser, eu vou falar com a imprensa que os empresários espanhóis não têm nenhuma preocupação com a vitória do Lula. Se o Lula ganhar, nós vamos continuar investindo aqui”. E esse homem foi dar uma entrevista coletiva no meu comitê e não teve nenhuma preocupação de dizer que os empresários espanhóis queriam investir no Brasil.

Hoje, os empresários espanhóis, sejam banqueiros ou sejam do setor de telecomunicações, sabem que o Brasil é um grande espaço para investimentos, e, certamente, existem poucos lugares em que os empresários estejam ganhando tanto dinheiro como estão ganhando no Brasil. E obviamente que eu prefiro que eles ganhem dinheiro porque se eles tiverem prejuízo, eu vou ter desemprego. Então, eu quero que as empresas ganhem, que os trabalhadores ganhem, porque assim a gente fortalece a nossa democracia.

Eu estou muito comovido com o prêmio. Eu, muitas vezes, fico ouvindo os discursos das pessoas me elogiando e eu tenho uma preocupação: primeiro, de acreditar no que eles falam de mim. Eu fico preocupado porque o ego vai crescendo, e eu falei para a Cristina: quando eu chegar ali, na cadeira, eu tenho que pegar um alfinete e estourar para que o ego não tome conta de mim.

Mas é prazeroso, é prazeroso terminar oito anos de governo numa situação importante, numa situação extremamente importante porque, diferentemente de qualquer presidente do meu país, ninguém nunca tinha que provar nada. Se fizesse parte da elite, da elite intelectual ou da elite econômica, poderia governar. Se não desse certo, ficaria fora e logo, logo, se esqueceria se ele foi um bom ou um mau governante. Pelo fato de eu ter saído de uma fábrica e pelo fato de eu ser dirigente sindical, eu tive que provar, a cada minuto, a cada hora, a cada dia, a cada semana, a cada mês, a cada ano, que eu tinha condições de governar esse país. E por que eu tinha que provar? Porque, se eu não conseguisse, se eu não conseguisse governar o país, certamente ia levar mais 200 anos para que um operário metalúrgico pudesse pensar em ser presidente de um país grande e importante como o Brasil.

Então, eu saio daqui a sete meses – não pensem que vou sair já, vai acontecer muita coisa ainda no Brasil –, eu saio no dia 1º de janeiro com a consciência tranquila de que, primeiro, nunca os empresários brasileiros e estrangeiros ganharam tanto dinheiro como ganharam no meu governo. Saio com a consciência tranquila de que, em nenhum momento, os trabalhadores tiveram a quantidade de reajuste de salário que tiveram no meu governo. Durante oito anos do meu mandato, 99% dos acordos sindicais foram com conquista de aumento real de salário. Saio com a convicção de que os pobres do meu país nunca tiveram o tratamento civilizado, humano e democrático que nós demos a eles nesses oito anos de convivência.

Portanto, eu saio com uma coisa mais importante do que os números das pesquisas de opinião pública: não é fácil, nem no Brasil e nem em outro lugar do mundo, depois de oito anos, um Presidente da República ter 83% de aprovação do seu povo. Não é fácil! E isso é mérito desse povo, que vai me dar uma coisa extraordinária, porque o legado que eu estou deixando é que eu despertei no mais humilde dos brasileiros – de um catador de papel da rua a um economista, a um metalúrgico, a um gráfico, a um pedreiro –, eu despertei na consciência deles a ideia de que eles podem e devem chegar à Presidência da República. É só querer e se preparar. E tudo isso, porque eu nunca prometi muito. Eu, toda vez que tenho que prometer uma coisa, eu medito muito na mediana do que eu posso dar.

Vocês estão lembrados do meu discurso de posse. No meu discurso de posse, eu não disse que ia prender ninguém, não disse que ia fazer nada de mais. Eu apenas disse que, ao terminar o meu mandato, [se] cada brasileiro ou brasileira tiver o café da manhã, o almoço e a janta, eu já estarei realizado. Hoje eu tenho a convicção de que nós conseguimos conquistar muito mais do que isso, e certamente que o Brasil está preparado para conquistar muito mais do que isso.

Na crise econômica – e é um motivo de orgulho, talvez tenha acontecido o mesmo na Argentina e em quase todos os países da América do Sul –, na crise econômica, quem segurou a economia do meu país foi a parte mais pobre da população, que atendeu a um apelo do Presidente da República feito em rede nacional de rádio e televisão para que o povo consumisse, consumisse com responsabilidade, mas que consumisse, porque se ele não consumisse, as empresas não iam produzir, o comércio não ia vender e aí, sim, ele, que não estava consumindo com medo de perder o emprego e não poder pagar a sua dívida, iria perder o emprego definitivamente, porque a economia seria um desastre.

Essa foi uma lição, meu caro Durão Barroso, que deveria servir para a Europa, porque na crise econômica, em 2008, muitos países ricos se encolheram, diminuíram o consumo, diminuíram o crédito, e o que aconteceu é que a economia foi se atrofiando.

Nós, na América do Sul... eu não sei se o Evo Morales está aqui, mas vocês podem fazer um estudo sobre a economia da Bolívia: precisou um índio chegar ao governo da Bolívia para o povo pobre da Bolívia ter um aumento na sua renda e ter um aumento na participação da renda nacional. E pela primeira vez, desde 1940, Barroso, a Bolívia tem reservas, mais de 10 bilhões de reservas, e tem o maior superávit da história da Bolívia. É uma coisa extraordinária. Demonstra que muito mais do que apenas curso de doutor, as pessoas precisam ter curso de inteligência e de possibilidades para bem dirigir o seu país.

Por isso, muito obrigado a todos vocês. Muito obrigado. Vou fazer por merecer este prêmio. Vou fazer por merecer este prêmio porque eu me sinto orgulhoso de ser reconhecido. Tem gente que pensa que não: “Ah, eu não gosto”. Eu sou muito humilde, mas eu tenho noção do que é importante para mim, e este prêmio é muito gratificante para mim.

Obrigado.

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