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Portal do Governo Brasileiro
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Meu caro amigo Felipe González, ex-presidente de Governo da Espanha,

Senhora Cristina Garmendia, ministra de Inovação, Ciência e Tecnologia, por meio de quem cumprimento todos os ministros e autoridades espanholas aqui presentes,

Meu caro companheiro Franklin Martins, ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, por meio de quem cumprimento os ministros brasileiros que estão aqui,

Caro companheiro Enrique Iglesias, secretário-geral ibero-americano,

Senhor Ignacio Polanco, presidente do grupo Prisa, por meio de quem cumprimento todos os funcionários do Grupo,

Nossa querida companheira Vera Brandimarte, diretora do jornal Valor Econômico, por meio de quem cumprimento toda a equipe de jornalistas do Valor,

Companheiros empresários,

Amigos do El Pais,

Eu fiquei numa dúvida quando vi a apresentação do Guido e do Paulo Bernardo, com aquela quantidade de números, mas quem melhor defendeu o governo foram os empresários. Os empresários são menos exigentes do que nós mesmos, e eu vou contratar o Trabuco para fazer palestra sobre o governo.

Eu quero agradecer a todos as palavras elogiosas ao Brasil, e dizer para vocês algumas poucas coisas. Tem uma coisa que o Felipe González disse, uma palavra que parece mágica e que parece uma palavra comum mas, na arte de governar, ela ganha uma importância incomensurável, que é a palavra “previsibilidade”, ou seja, todo mundo adora saber o que vai acontecer amanhã, depois de amanhã e, se possível, gostaria de prever o que vai acontecer durante os próximos dez, 15 ou 20 anos.

Mas tem uma outra palavra que os políticos esqueceram, que é a palavra “óbvio”. Se nós, políticos, fizéssemos apenas o óbvio e não tentássemos inventar tanto, seria muito mais fácil governar o mundo. É uma palavra pequena, mas ela é muito necessária na arte de governar. Tudo fica menos complicado quando a gente pratica apenas o óbvio. Um inventor pode tentar fazer qualquer coisa, mas o político precisa fazer o óbvio. O óbvio é você cuidar do seu país, é você cuidar da sua gente, é você definir quais as prioridades, é definir quais as que você vai focar e começar a tomar as decisões.

Não é complicado. Muita gente fala: “é complicado governar”. Eu acho que complicado é você não governar e não fazer apenas o óbvio, e não permitir que aqueles que você quer atrair para fazer investimentos no seu país tenham previsão do que vai acontecer.

Não existe, na verdade, nenhuma mágica no que está acontecendo no Brasil. O que existe é previsibilidade e a utilização apenas da decisão de fazer o óbvio. Vou dar um exemplo: o Brasil, que é um país de economia capitalista, precisava ter capital – não é possível um país capitalista sem ter capital. Segundo, não era possível um país capitalista sem ter financiamento, e não era possível você aplicar o capitalismo sem ter crédito. Quando nós entramos no governo, todo o crédito disponibilizado era de apenas R$ 380 bilhões. Hoje, nós estamos com mais de R$ 1, 5 trilhão de crédito.

O BNDES era o banco de financiamento da indústria e não tinha dinheiro, o máximo que ele emprestava era $ 30 bilhões. E qual era a mágica de não emprestar? Era dificultar as exigências, não é? Quando alguém precisava de um empréstimo do BNDES, o BNDES exigia tanto, que só pegava dinheiro emprestado no BNDES quem não precisava de dinheiro, porque a garantia e a exigência eram de uma magnitude, que o cidadão... se o cidadão pudesse cumprir as exigências do BNDES, ele não precisaria pegar dinheiro no BNDES. E assim valia para o Banco do Brasil, assim valia para a Caixa Econômica Federal e assim valia para os bancos públicos... para os privados também.

Eu lembro que uma vez – o Trabuco não era ainda presidente do Bradesco – eu fui a uma reunião da Febraban, e lá eu perguntei a um amigo nosso por que os bancos privados não financiavam casa, ou por que os bancos privados não abriam crédito para as pessoas de baixa renda. E a resposta foi simples, verdadeira. Ele disse o seguinte: “Olha, ô Lula, nós não podemos financiar porque as pessoas podem não pagar, as pessoas podem ficar inadimplentes. Então, nós não temos garantia para emprestar. Nós não podemos financiar casa porque se a pessoa não pagar, nós não podemos tomar a casa de volta. A lei não permite tomar a casa de volta”. Então, dava a impressão de que você estava garantindo à pessoa o direito de ter a sua casa e não ser tomada, quando, na verdade, você estava negando o direito de a pessoa ter a casa porque você não financiava casa.

Eu, agora, queria fazer um programa de financiamento de caminhões. Eu estou, há mais de cinco anos, pensando em como renovar a frota de caminhões do Brasil. Primeiro, para ativar a indústria automobilística do setor de caminhões. Segundo, para permitir ao motorista autônomo ter um caminhão novo, poluir menos e ele ter a sua vida facilitada. A lei não permite que o motorista autônomo dê o seu caminhão como garantia. Eu compro um carro, se eu não pagar, a empresa vai lá e me toma o carro de volta. O caminhão não pode, porque a lei prevê que é um instrumento de trabalho e, portanto, o cidadão não pode dá-lo como garantia. Maravilhoso! Só que esse cidadão não vai poder comprar um caminhão novo, porque se ele não tem garantia para dar, ninguém vai vender o caminhão. E ainda não encontramos a solução. O Guido apresentou uma proposta para mim. Ainda está atendendo a pequena e micro empresa, mas não está atendendo ainda o motorista autônomo. Pois bem, então o Brasil... O Brasil era assim: o Brasil se contentava em governar o país para 30% da população ou 40% da população. Aliás, eu acho que o Estado brasileiro governava para a parte da sociedade que não precisava do Estado. Vamos ser francos, a classe média brasileira, representada por nós aqui, ela precisa pouco do Estado, ela precisa pouco. Agora, quem é que precisa do Estado? É a parte mais vulnerável da sociedade. No caso do Brasil, só para você ter ideia, Felipe González, eram 50 milhões de brasileiros que viviam abaixo da linha da pobreza. Não era pouca gente, era “uma Espanha” que vivia abaixo da linha da pobreza.

Ora, quando nós chegamos ao governo, eu tomei a decisão de que nós precisaríamos provar algumas coisas nos debates econômicos, até então, feitos no Brasil. Eu não sou economista, mas eu debato muito Economia, quando eu era sindicalista, depois quando eu era candidato... Esse negócio de você perder três eleições me ajudou muito, porque você tem que fazer programa, você tem que se preparar para debate na televisão... Eu estou quase especialista em Economia! Eu tinha comigo a convicção de que era preciso provar que nós não tínhamos que esperar a economia crescer para distribuir renda, que era compatível você fazer a economia crescer e você distribuir renda.

Depois, nós tínhamos que provar uma outra coisa que, no Brasil, não era habitual: quando o Brasil decidia exportar, o Brasil asfixiava o mercado interno; quando ele decidia alimentar o mercado interno, ele asfixiava as exportações, como se fossem duas coisas antagônicas. Nós provamos que era preciso... era possível distribuir e crescer e provamos que era possível exportar e fortalecer o mercado interno. E provamos uma outra coisa que eu considero tão importante quanto essas outras duas: que aumentar o salário-mínimo, nem quebrava a Previdência Social, nem era inflacionário.

Essas três coisas foram feitas simultaneamente, as três deram certo, e a inflação está controlada e a economia cresceu. Porque quando você toma essas atitudes, você está fortalecendo o mercado interno. Uma outra coisa importante: eu fiz debate com economistas, com meus companheiros há mais de vinte anos, eu nunca tinha ouvido falar as palavras “crédito consignado”.

Você sabe que o debate político, Felipe, dos anos 90, no Brasil, pelo menos... os meus amigos assessores falavam assim para mim: “ô Lula, o Brasil está quebrado. O Brasil não tem jeito. O Brasil está com uma dívida insuportável, o déficit público...”. Eu ia para casa, eu falava: esses companheiros querem que eu seja presidente e dizem que o Brasil está quebrado! No mínimo, eu estou entrando em uma jogada errada. Quando, na verdade, o Brasil precisava de crédito. Nós criamos um crédito, dando como garantia a folha de pagamento: o trabalhador dava o seu salário... e garantimos que os sindicatos é que faziam os acordos com os bancos. Não era o governo, o governo não se metia nisso. Conclusão: hoje nós temos, de crédito consignado, R$ 120 bilhões fomentando o mercado. Ou seja, pessoas aposentadas, que jamais teriam direito de entrar em um banco a não ser para receber o seu salário, que estão tomando dinheiro emprestado para viajar, que estão tomando dinheiro emprestado para comprar outras coisas. Para sair, inclusive, da compra à prestação, porque ele compra mais barato se ele comprar à vista.

Bom, isso fez com que o Brasil elevasse 31 milhões de brasileiros das classes D e E para a classe média. E isso garantiu que nós tirássemos 20 milhões de brasileiros da linha da pobreza. E isso fortaleceu... Todo mundo aqui, pode ficar certo o pessoal da Telefônica, de que todo mundo tem um celular, pode ficar certo; da Iberdrola, pode ficar certo de que todo mundo tem energia, já, na sua casa.

Porque isso permitiu que essa gente, que era marginalizada, virasse consumidora. Essas pessoas passaram a entrar em shopping, essas pessoas passaram a sonhar com televisor colorido, essas pessoas começaram a ter coisas que, até então, eram só da classe média. E é engraçado, porque isso não precisaria ser nenhum grande economista para pensar nessas coisas. Eu vivi no movimento sindical muito tempo, eu briguei muito, e eu dizia para os empresários: por que vocês não copiam aquilo que Henry Ford dizia: ele tem que pagar aos seus funcionários um salário que lhes permita comprar o carro que eles produzem, porque se não venderem o carro, não vão a lugar nenhum.

Então, nós conseguimos fazer com que o Brasil começasse a recuperar a sua autoestima. Eu acho que tem pouca gente no mundo, hoje, orgulhosa como o povo brasileiro. Eles aprenderam a gostar de si próprios. Quem está investindo no Brasil sabe que tem poucos trabalhadores criativos e trabalhadores, como o povo brasileiro. Aquele povo passou séculos, Guido, precisando de uma oportunidade, porque nós, nós, no Brasil, tínhamos aprendido, por doutrina, por termos sido colônia, que nós éramos insignificantes. Tudo o que vinha de fora era melhor. Se viesse dos Estados Unidos, então, era top. Se fosse... é... se fosse de alguns países europeus, também. Nós não nos respeitávamos, nós nos achávamos de segunda categoria, e nenhuma nação vai para a frente se não gosta de si mesma.

Então, a primeira coisa que nós fizemos foi recuperar... fizemos até uma campanha de publicidade para recuperar a autoestima do brasileiro, quando a gente dizia: “Eu sou brasileiro e não desisto nunca”. A primeira coisa que nós fizemos foi uma campanha de recuperação da autoestima. Eu, quando via um filme americano, mesmo aqueles enlatados de pior qualidade, numa TV a cabo, a bandeira americana aparece lá, orgulhosamente. E, no Brasil, nós tínhamos vergonha de dizer que éramos brasileiros. Hoje o brasileiro é um povo orgulhoso.

Os embaixadores brasileiros, todos andam de cabeça erguida, porque antigamente eles tinham vergonha de serem embaixadores nos países. Hoje eles sabem que eles são levados em conta em cada país que eles estão, e que discutem com mais seriedade. Essa é uma coisa importante.

A outra coisa importante que nós conseguimos fazer no Brasil foi fazer com que acabasse uma discussão equivocada, atrasada, dos anos 80, que era a briga entre o público e o privado: quem prestava mais. Se o Estado era importante ou não, se o Estado... Uma briga da década de 80: o Estado máximo ou o Estado mínimo; se era melhor a empresa privada ou a empresa pública. Na verdade, o que nós fizemos foi trabalhar corretamente com os dois. O Banco do Brasil é extraordinário, mas o Bradesco também é extraordinário.

Mas o governo precisa ter instituições públicas porque numa crise como essa, se o governo não tiver um instrumento de manejo da economia ele quebra a cara, como alguns países quebraram a cara. Quando a crise veio, o nosso companheiro Trabuco sabe, nós tivemos um problema com carro usado. Para comprar um carro novo, era preciso a pessoa vender o carro velho. E nós não tínhamos banco para financiar porque o banco que financiava carro usado estava com a corda no pescoço. Eu chamei o Banco do Brasil e o companheiro Guido, e nós queríamos que o Banco do Brasil assumisse o financiamento de carro usado. O Banco do Brasil nos colocou... nos disse: “Nós não temos expertise para financiar carro usado”. Eu pensei: o que fazer? Como é que eu vou formar um especialista? A crise não vai esperar. Eu lembro de uma coisa que você me falou, Felipe, em 1989, eu não sei se você está lembrado. Eu vim... eu era candidato a presidente, eu vim aqui, e o Felipe perguntou para mim: “Como é que você vai conviver com as Forças Armadas?” Eu falei para o Felipe: ah, nós vamos democratizar as Forças Armadas. Aí, o Felipe falou: “Você sabe quanto tempo demora para uma pessoa virar general? Quarenta anos. Você só tem quatro anos de mandato, como é que você vai democratizar as Forças Armadas?” Como é que eu ia esperar formar alguém do Banco do Brasil em expertise para financiar carro usado, se a crise estava pegando no nosso pé?

Então, nós tomamos a decisão de comprar um banco, e compramos 50% de um banco privado, que era o banco mais financiador de carro usado. Tivemos um problema de financiamento de motocicleta - acho que o Bradesco não estava com garantia para financiar motocicleta. Eu disse ao Guido Mantega: eu não sei se é o Bradesco ou quem quer que seja, mas você me arruma um banco para financiar motocicleta, porque se não financiar, não vende! E ninguém dá garantia de motocicleta, ninguém dá garantia. O Guido arrumou, e voltou à normalidade o mercado de motocicletas, ou seja, apenas o óbvio, nenhuma grande novidade.

Pois bem, nós, companheiros e companheiras, na apresentação feita pelo Paulo Bernardo e pelo Guido, pelo Luciano Coutinho e pelos empresários, está claro que os números do Brasil são sólidos, está claro que o Brasil tem previsibilidade e está claro que o Brasil quer ser um ator global. Primeiro, porque nós não concordamos com a atual governança global. A governança global de hoje, se a gente quiser ela representada pela ONU, ela representa o mundo político de 1945, mas não representa o mundo político de 2010. É preciso mudar, é preciso levar em conta a existência da África, é preciso levar em conta a existência do Oriente Médio e todas as suas confusões, é preciso levar em conta a América Latina, é preciso levar em conta a Índia, é preciso levar em conta o Japão, é preciso levar em conta outros continentes. E nós estamos brigando com isso há mais de 17 anos.

Apesar de 140 países terem assinado pela reforma das Nações Unidas, quem já está lá, sentado na cadeira, não quer mudar. E aí, poderíamos falar das confusões que não são resolvidas, porque tem gente que defende que quanto mais fraca forem as Nações Unidas, mais as decisões serão unilaterais e, aí, predomina a ideia de quem tem mais força. E nós achamos que não é possível continuar assim. Achamos que não é possível, numa crise econômica como essa que nós tivemos, você não ter uma instância multilateral que chamasse à discussão. Porque o G-20 funcionou num primeiro momento. Mas, na verdade, o poder de decisão do G-20 é muito escasso, porque as pessoas não cumprem, cada um volta para o seu país e faz o que bem entender. Qual é o organismo multilateral que nós temos de fiscalização do sistema financeiro? Qual é o sistema multilateral que nós temos para evitar o funcionamento de paraísos fiscais?

Eu temo que as pessoas pensem que a crise já acabou. A crise não acabou e nós não sabemos quais os efeitos dela. A crise está que nem esse vulcão, que está aí na Islândia, todos os dias soltando um pouquinho de fumaça negra, atrapalhando o trânsito aéreo. Alguém poderia me responder por que a Alemanha demorou tanto tempo para ajudar a Grécia? Como é que pode a Europa, tão poderosa, demorar três meses para resolver o problema da Grécia? É porque os países perderam o poder de fazer política monetária e estão dependendo de uma decisão coletiva que, de coletiva, não tem nada. É quase individual, porque quem tem mais dinheiro termina tomando a decisão. Me disseram ontem, Felipe, que a Alemanha dizia assim: “Todo mundo sabe que eu quero ajudar a Grécia, mas eu só posso dizer isso no apagar das luzes”. E levou ao pânico, que pode se espraiar por outros países, e nós não sabemos como é que pode continuar o mundo sem essa governança global. Por exemplo, o desaparecimento do crédito, Felipe. Uma empresa como a Petrobras, uma empresa como a Petrobras, que nunca teve problema de financiamento no mundo, não conseguia US$ 1 bilhão emprestado em nenhum banco do mundo. Teve que se voltar para o mercado interno e disputar o crédito dos outros empresários que não tinham condições de pegar no exterior, no BNDES e na Caixa Econômica Federal, porque o crédito simplesmente desapareceu e você não tinha nenhum instrumento porque na verdade, na crise, o que os países mais ricos deveriam ter feito era ter disponibilizado crédito para que as pessoas continuassem consumindo, para reativar a produção. E isso não aconteceu.

No Brasil, nós tomamos todas as medidas que tínhamos que tomar em três meses, todas. Eu fiz uma coisa, Felipe, que eu jamais imaginei fazer. Porque a imprensa, no desejo de informar a sociedade, publicava manchetes: “Quebraram os Estados Unidos, quebrou a Alemanha, quebrou não sei quem, quebrou a Espanha, quebrou... e vai quebrar não sei quem, e quebra tal banco. O consumidor não está consumindo porque ele vai perder o emprego, o trabalhador não quer comprar porque ele não quer fazer dívida, ele vai perder o emprego.” Eu falei: bom, o mundo acabou! Eu tive que ir para a televisão, em rede nacional, fazer apologia ao consumo para o povo brasileiro, dizer exatamente o seguinte: se você não está comprando porque está com medo de perder o emprego, trate de comprar, porque se você não comprar, aí sim, é que você vai perder o emprego, porque a fábrica não vai produzir, a loja não vai vender e aí, sim, todo mundo vai ficar desempregado. Compre. E foi essa parte pobre da população que foi comprar. Os indicadores do comércio brasileiro mostram que nas regiões mais pobres do país, as classes D e E consumiram mais do que as classes A e B do Centro-Sul do país.

Então, a economia brasileira está sólida porque a sociedade brasileira está ficando sólida, porque a sociedade brasileira está participando do mercado, porque nós criamos em oito anos de mandato, Felipe... vamos terminar o mandato com 14,5 milhões de novos postos de trabalho criados... com trabalhos formais. Talvez, só a China e a Índia tenham algo similar. São 14,5 milhões de novos consumidores, pagadores de impostos, para o Guido poder arrecadar bem, pessoas dentro da Previdência Social. E o Guido, que é o meu ministro da Economia, e os ministros, sabem o seguinte: não existe hipótese de a gente tratar a economia com mágica, não existe hipótese. O Brasil aprendeu a ser sério. Porque houve um tempo em que ninguém acreditava no Brasil, ninguém acreditava que o Brasil seria capaz de cumprir o que assinasse ou o que falasse. Aliás, tinha gente que adorava fazer acordo, assinar, e não cumprir. E aí, as pessoas achavam bonito, mas ninguém levava o Brasil a sério. Hoje as pessoas estão percebendo que o Brasil tem previsibilidade, que o Brasil tem projeto de longo prazo. O nosso projeto de desenvolvimento... Nós fizemos, agora, um projeto até 2014, que é para poder comprometer verba e não permitir que entre um presidente novo e comece a pensar... Ele já perde um ano, se não tiver as coisas prontas.

Então, eu queria dizer aos empresários espanhóis que é a segunda ou terceira vez que eu venho aqui pedir para que os senhores acreditem no Brasil e invistam no Brasil. Acho que está na hora dos empresários brasileiros começarem a pensar, também, em investir na Espanha, porque essa coisa de investimento, essa coisa de mercado sempre tem que ser uma via de duas mãos, sempre tem que ser uma via de duas mãos. Então, como o Brasil, agora, tem muitas empresas brasileiras virando multinacionais, o Brasil não tem mais vergonha de ter empresa grande, de fazer investimento, eu acho que é importante que os empresários brasileiros pensem em construir parcerias com empresas espanholas, para fazer investimentos aqui. Por que a nós interessa, quanto mais crescer a economia da Espanha, mais investimentos espanhóis nós vamos ter no Brasil. Quanto mais encolher a economia espanhola, menos investimento espanhol a gente vai ter no Brasil. Então, é uma espécie de ajuda mútua que nós temos que fazer. Nós temos relações excepcionais, somos dois países de muita tradição; até o meu time, em São Paulo, o Corinthians, foi fundado por espanhóis em 1910. Portanto, nós temos história em comum para podermos estabelecer essa relação de confiança entre Espanha e Brasil.

Nós temos um comércio pequeno – eu acho que é pequeno, pelo potencial dos dois países -, nós precisamos fazer muito mais e acho que temos condições de fazer. A gente faz um seminário como este aqui, mas temos que fazer um outro seminário no Brasil. E fazer com que o Brasil não espere 2025, 2020, ou seja, o Brasil pode se transformar na quinta economia nos próximos dez anos. Nós temos público para isso, temos mercado para isso e temos potencial para isso.

Para terminar, uma coisa importante... o Felipe também falou uma coisa que me chamou a atenção, que a gente não costuma falar: formação de capital humano. Pois, meu caro Felipe González, eu já sou, na história do Brasil, o presidente que mais fez universidades. Nós vamos terminar o meu mandato com 12 universidades novas entregues e duas – uma latino-americana e outra afrodescendente, afro-brasileira – que já foram aprovadas pelo Congresso. Nós, com o programa do ProUni, já colocamos 726 mil jovens da periferia na universidade, pobres da periferia que jamais conseguiriam entrar na universidade se não fosse um programa criado pelo governo. E um programa inteligente: nós fizemos isenção de impostos para as universidades privadas, e o equivalente ao imposto nós pegamos bolsas de estudo para os pobres da periferia. São 726 mil jovens, já, na universidade. Além disso, nós dobramos o número de vagas nas universidades federais. Saímos de 113 para 227 mil vagas nas universidades federais. Em oito anos, Felipe, nós fizemos uma vez e meia o que foi feito em cem anos, em nível de escola técnica.

Eu tenho a convicção de que o resultado disso aparece dentro de quatro ou cinco anos. O Brasil... todo mundo aqui sabe que o Brasil estava com... está com falta de engenheiros, porque durante muito tempo, durante muito tempo o Brasil ficou sem investimentos. Aliás, o último presidente que tentou fazer investimento, e endividou o Brasil, foi o governo Geisel, que terminou em 1979. De [19]79 até 2003 tinha poucas obras no Brasil. Então, os engenheiros que eram formados nas nossas universidades iam ser analistas econômicos. Formavam-se em Engenharia e iam fazer comentários da situação financeira, os chamados especialistas em finanças; eram todos engenheiros.

Então, nós estamos num processo de formação de novos engenheiros, porque não tínhamos. Aliás, no Brasil hoje está faltando pedreiro, está faltando eletricista, está faltando gente para colocar azulejo. E as empresas têm dado uma contribuição extraordinária, porque muitas empresas estão formando os seus funcionários. Nós, agora, inauguramos um estaleiro em que a maioria dos trabalhadores do estaleiro eram trabalhadores cortadores de cana-de-açúcar. Levamos um ano e meio formando eles para poderem trabalhar no estaleiro. A Petrobras tem 17 mil jovens aprendizes sendo preparados para trabalhar no setor de petróleo.

Este é um país que pode fazer um programa de cinco anos. Nós estamos, agora, trabalhando o Brasil para dizer a vocês, espanhóis, e ao mundo o que nós queremos do Brasil em 2022, quando nós completarmos 200 anos de Independência.

E vai ter eleições no Brasil, agora. Vai ter eleições no Brasil e eu tenho a convicção de que vou eleger a minha candidata. De qualquer forma, de qualquer forma, eu quero dizer para vocês que não existe mais aquele discurso dos anos 80, de que “se o Lula ganhasse as eleições o Brasil ia acabar, se o Lula ganhasse as eleições seria o fim do mundo, os empresários iriam embora para Miami, se o Lula...” Isso não existe mais. Hoje, embora tenha diferença de programa, tenha diferença de candidato, eu acho que será muito difícil, quem ganhar as eleições, mudar para que o Brasil volte a ser o que era antes. Não existe espaço, não existe espaço. O Brasil aprendeu a ser sério, e vocês, empresários espanhóis que estão investindo no Brasil, são testemunha.

Me dizia um companheiro, que eu não vou dizer quem é, que a primeira vez que foi ao Brasil, o gabinete dele aqui na Espanha fez um dossiê para ele ir conversar com a ministra Dilma, e no dossiê estava assim: “ex-guerrilheira”. Pois essa ex-guerrilheira pode ser a próxima presidente da República do país, porque o Brasil não aceita mais esse preconceito, esse debate. Todo mundo sabe que nós aqui... todo mundo que está aqui, nós temos relação com os outros candidatos. Uma das candidatas, a Marina, era do meu partido e foi minha ministra do Meio Ambiente até outro dia. O José Serra, embora seja do PSDB, é amigo de todo mundo aqui. E temos divergência política, essa divergência vai ser explicitada na campanha. E eu acho que nós temos condições de ganhar as eleições. Essa é uma coisa que eu acho muito importante, que foi uma conquista da democracia brasileira. Nós nunca tivemos um processo eleitoral tão tranquilo como nós temos agora, sem nenhum jornal e nenhum empresário ter medo de quem vai ganhar. Ninguém se preocupa com quem vai ganhar na Alemanha, quem vai ganhar... ninguém se preocupa. Por que é que se preocupa, no Brasil? Eu acho que essa é a novidade no Brasil, companheiros, essa é a novidade no Brasil. Esses meninos sabem que não podem errar, sabem que não podem errar – nem Guido Mantega, na Fazenda; nem Paulo, no Planejamento –, sabem que não podem inventar números.

Então, eu queria dizer para vocês que nós temos um programa de investimento muito grande. Nós temos um programa que ultrapassa 1 trilhão nos próximos anos, entre empresa pública, empresa privada, entre hidrelétrica, plataforma, navio, sonda, ferrovia, rodovia, hidrovia, e nós, obviamente que gostaríamos de ter os espanhóis como parceiros. Não precisam investir sozinhos; façam parceria com os empresários brasileiros, porque eu acho que é a chance de quem quiser fazer bons investimentos e ganhar um bom dinheiro. O Brasil é o país da hora, é o país da vez, e nós sabemos que só vamos continuar incentivando os empresários a investirem lá se vocês continuarem ganhando dinheiro e falando bem do Brasil. Só espero que não falem tão bem na minha presença. Na minha ausência também vocês tratem de falar bem, porque senão o El Pais publica, eu fico sabendo, e aí nós vamos ter problemas depois.

De qualquer forma, eu sou agradecido. Agradecido porque os empresários espanhóis acreditaram no Brasil, investiram no Brasil, estão ganhando dinheiro no Brasil, é verdade, e ganhando bastante dinheiro no Brasil. Eu sou da tese que quando me perguntam “Por que um banco está ganhando muito dinheiro no governo Lula?”... Chegam a dizer para mim: “Ô Lula, nós estamos ganhando mais dinheiro agora do que no governo Fernando Henrique Cardoso. Você não acha que é uma contradição, um operário deixar os banqueiros ganharem dinheiro?” Eu falo: eu quero que eles ganhem dinheiro, porque se não ganharem dinheiro eles quebram, eu vou ter que tirar um Proer outra vez e vou ter que colocar dinheiro do Estado para salvar os bancos. Então, eu quero que eles ganhem dinheiro, quero que eles emprestem dinheiro, quero que financiem a produção, que gerem emprego, que gerem renda, que gerem riqueza, porque é tudo isso o que um ex-dirigente sindical pode querer quando vira governante.

Eu estou convencido, Felipe, estou convencido... Eu que acompanhei a tua trajetória no governo da Espanha, eu que vi quantas vezes você foi crucificado, eu que estou vendo, agora, o Zapatero pagar por uma crise que ele nada tem a ver com ela. Essa crise é mais profunda, os responsáveis dessa crise fingem que não é com eles a crise, e países como Espanha e Portugal sofrem mais porque são menores, em uma Europa poderosa, rica, fragilizada na falta de controle do seu sistema financeiro. Eu acho que todos nós...e agora vamos para o G-20, em Toronto, com a disposição de definir qual é a validade, qual é o poder de decisão do G-20, porque não dá para a gente continuar nessa incerteza que estamos vivendo no mundo.

O Brasil está bem, a América Latina vive o seu melhor momento, a América do Sul vive o seu melhor momento. Nós nunca tivemos a quantidade de países vivendo uma democracia efervescente, como nós temos agora.

Ontem, a Presidenta da Argentina disse uma coisa importante, foi a primeira vez que um presidente da Argentina fez um discurso elogiando um presidente brasileiro. Isso parece pouco, mas para nós, brasileiros, que víamos a Argentina considerar a gente o inimigo, e nós considerarmos a Argentina o inimigo, saber que nós viramos parceiros e que nós dependemos um do outro para crescer, é uma coisa extraordinária.

A América Latina vive um bom momento, a América do Sul vive um melhor momento, e tudo que acontece lá, pode ficar certo, Felipe, que é excesso do exercício da democracia, e nós temos que entender isso como uma coisa boa para a América do Sul, melhor do que no tempo em que a gente não tinha democracia na América do Sul.

Então, eu quero agradecer mais uma vez agradecer ao El País, agradecer ao Valor, agradecer aos empresários, e dizer para vocês que o Brasil não tem retorno, o Brasil se transformará numa grande potência econômica, e queremos também nos transformar num grande agente político, porque o negócio do Irã, o negócio do Irã foi... Você sabe bem que nós fizemos exatamente o que os Estados Unidos queriam fazer cinco, seis meses atrás. Qual era o grande problema do Irã? Era que ninguém conseguia fazer o Irã se sentar à mesa para negociar, e o Irã conseguiu fazer. Por quê? Porque você, que é um político, sabe que essas decisões, às vezes, são tomadas em função de uma relação de confiança. Então, o Irã aceitou sentar à mesa para negociar. O Brasil e a Turquia não tinham poder para negociar acordo nuclear, nem nós queríamos. A única coisa que nós queríamos era convencer o Irã de que ele deveria assumir compromisso com a Agência, deveria negociar e deveria depositar o seu urânio na Turquia. Tudo isso foi concordado. Agora depende do Conselho de Segurança da ONU se sentar com disposição de negociar, porque se sentar sem querer negociar, vai voltar tudo à estaca zero.

Da mesma forma, eu acho que os conflitos do Oriente Médio, enquanto tiver apenas um país querendo resolver aquilo, sem envolver todos os problemas, colocar em uma mesa todo mundo, nós não vamos ter tranquilidade no Oriente Médio. Então, é preciso mais atores, é preciso mais negociadores e é preciso mais disposição política. Eu acho que o mundo caminha para isso. Uma nova governança global, a ONU bem fortalecida, é o que vai dar resultado nesses próximos dez, 15 ou 20 anos. Se a ONU continuar assim, nós vamos ter problemas sérios de governança global no mundo.

Então, muito obrigado. Eu queria dizer que saio da Espanha daqui a pouco, para Portugal, com a consciência tranquila de que os espanhóis têm sido parceiros extraordinários em tudo que tem acontecido de bom no nosso país. Eu espero que a recíproca seja verdadeira e que os empresários brasileiros possam merecer, do governo espanhol, o mesmo elogio que eu posso fazer aos empresários espanhóis quando os brasileiros estiverem investindo aqui.

Bom almoço.

 
 
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