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Minha querida companheira Alicia Bárcena, secretária-executiva da Cepal,

Meu caro companheiro Eloi Ferreira, ministro-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Social [Racial],

Meu caro companheiro Antonio Prado, secretário-executivo adjunto da Cepal, por meio de quem cumprimento todos os dirigentes e funcionários da Cepal aqui presentes,

Senhoras e senhores embaixadores,

Senhoras e senhores representantes de organismos internacionais,

Companheiros e companheiras delegados estrangeiros,

Amigos da imprensa,

Eu tenho, como de hábito, dois discursos: um que está escrito e outro que eu gostaria de fazer. Eu vou tentar cumprir os dois, sempre pedindo desculpas a vocês porque, como eu não assisti aos debates que vocês fizeram aqui durante esses dias, eu posso repetir algumas coisas que vocês já discutiram. Antecipadamente eu peço perdão por repetir alguma coisa que vocês já discutiram. Mas, ao mesmo tempo, quando as coisas que foram discutidas foram boas, não existe nenhum problema em repetir aquilo que são coisas boas porque, muitas vezes, tem coisas ruins que são repetidas e isso traz prejuízo à nossa querida América Latina e à nossa querida América do Sul.

Eu vou começar com a minha fala eminentemente institucional. Primeiro, é um prazer, um enorme prazer receber os delegados da Cepal aqui em Brasília, exatamente no ano em que a capital federal completa 50 anos de idade. Construída no final da década de 50, Brasília é um símbolo de uma época marcada pelo sonho da superação do subdesenvolvimento, o sonho que a Cepal acalentou desde sua criação. Afinal de contas, não existia outra razão para a Cepal existir se não fosse o desenvolvimento.

A Comissão foi pioneira na denúncia dos mecanismos históricos que perpetuavam as desigualdades entre o Norte industrializado e o Sul em desenvolvimento. Propôs soluções estruturais para o enfrentamento desses problemas.

Além de seu magnífico esforço em favor do desenvolvimento de nossa região, a Cepal vem prestando, aos povos da América Latina e do Caribe, uma contribuição de alto valor político: a criação da consciência de um destino político-econômico comum. O documento que serviu de base para as discussões aqui em Brasília é o exemplo mais eloquente dessa preocupação.

Este Período de Sessões ocorre num momento em que nossa região dá passos importantes para enfrentar o estigma da desigualdade que ainda nos marca. Estamos recuperando nossa autoconfiança depois de décadas perdidas.

A aposta na substituição de importações para promover o crescimento permitiu, no passado, dar saltos importantes em nossa industrialização. Mas, naquele período, muitos acreditavam que para distribuir renda era necessário, antes, fazer a economia crescer para depois distribuir. Outros, então, se descuidaram do equilíbrio macroeconômico. A inflação e o endividamento comprometeram a continuidade do nosso desenvolvimento em vários países da nossa querida América Latina e do Caribe. O crescimento, quando houve, ele ocorreu em benefício de muitos poucos nos países onde ele ocorreu.

A partir da crise dos anos 80, passamos a viver sob a influência das teses do Consenso de Washington. Elas preconizavam o Estado mínimo, com a perda de sua função mais importante, que era a função indutora e reguladora; defendiam privatizações desenfreadas de empresas públicas; propugnavam a desregulamentação das relações trabalhistas. O planejamento foi relegado ao museu da história. Praticamente todos deixaram de planejar. O interesse nacional foi relativizado, o que tornava relativa a soberania popular em cada país. O crescimento só seria possível para uma parcela pequena da população. Os demais ficariam à margem do mercado e do processo produtivo e seriam tratados com medidas eminentemente compensatórias.

No Brasil – hoje com mais de 190 milhões de habitantes – trabalhava-se com a ideia de uma economia para atender a 60 milhões de brasileiros, deixando dois terços da população entregues à própria sorte, quem sabe se o mercado as enxergasse. Essa situação foi mudando nos últimos anos, e a crise financeira atual colocou uma lápide nesse ciclo de quase três décadas de equívocos cometidos em nome dos fundamentalistas do mercado.

Estamos hoje diante de uma gigantesca tarefa histórica. Não podemos ficar prisioneiros de paradigmas que ruíram. Precisamos aprofundar o debate sobre a crise e propor as alternativas corretas. Uma atitude de independência intelectual é necessária para superar tais obstáculos.

Nossa região reagiu. Tomou consciência de sua força e da necessidade de forjar um projeto de desenvolvimento próprio. Afinal de contas, nós tivemos o privilégio de receber esse legado deixado por Raúl Prebisch e Celso Furtado.

Em anos recentes, vivemos na região uma onda de democracia popular e de crescimento muito robusto. Vamos ser francos, companheiros: há muito tempo e há muitas décadas a gente não tinha visto tanto o exercício da democracia na nossa querida América Latina. Nem imaginávamos que a gente pudesse ver um chefe maia governando a Guatemala, um jornalista governando El Salvador, um metalúrgico governando o Brasil, um índio governando a Bolívia, e vai daí, adentrando as vitórias do movimento social no nosso continente, que nós poderíamos definir como o momento histórico de mais forte democracia.

Seu motor e o motor dessas democracias são classes historicamente excluídas e deserdadas, que hoje encontram seu lugar e sua voz em sociedades que não mais ignoram suas justas reivindicações. Aliás, um dado importante: uma revista, no Brasil, pouco tempo atrás, publicou uma grande reportagem dizendo que os índios não são maioria na Bolívia. Certamente houve um equívoco enorme do jornalista da revista, porque se na Bolívia a maioria não for índio, no Brasil a maioria não é brasileiro, ou os alemães não são maioria na Alemanha, ou os americanos não são maioria nos Estados Unidos.

Nunca tantos governos tiveram o desenvolvimento econômico e a justiça social como preocupação central. Isso tem permitido avançarmos uma agenda de integração de novo tipo, alicerçada na superação de assimetrias e no desenvolvimento da infraestrutura viária e energética. Nossas políticas se guiam pelo respeito à diversidade e estamos corrigindo assimetrias que prejudicam os parceiros menores.

Nossa atuação no Haiti, no âmbito da Minustah, mostra que a segurança coletiva tem de combinar-se com a justiça social e o respeito à soberania nacional. Sica, Caricom, Unasul e Celac são exemplos dessa nova concepção de integração; representam reais opções de governança regional que contribuem para um mundo multipolar e multilateral, sem espírito de confrontação.

Amigas e amigos,

A experiência do Brasil prova que é possível manter disciplina macroeconômica e controlar a inflação sem sacrificar nossas oportunidades de progresso, e reduzindo nossa vulnerabilidade externa.

Não se combate desemprego com protecionismo e com a desregulamentação dos direitos trabalhistas. Por isso, teremos criado mais de 14,5 milhões de empregos no dia 31 de dezembro, quando eu deixar a Presidência da República. Mais de 14 milhões de empregos formais nós teremos criado nesses oito anos de governo.

Da mesma forma que apostamos no potencial de nosso mercado interno, poderemos também apostar no mercado de consumo regional como fator de nosso desenvolvimento.

Não abdicamos do compromisso de enfrentar a desigualdade social. Desde 2003, 24 milhões de brasileiros que viviam em estado de pobreza absoluta deixaram essas condições, e 31 milhões de brasileiros ascenderam à classe média, fazendo com que nós tenhamos hoje mais de 50% da população vivendo na classe média.

Realizamos uma política econômica que privilegiou o mundo do trabalho e a inclusão social, preservou o equilíbrio fiscal e reduziu a vulnerabilidade externa. Pudemos, assim, implementar estratégias governamentais e financiamentos públicos anticíclicos.

Fizemos do comércio com a região um vetor fundamental da política externa brasileira. Nos cinco anos que antecederam a crise econômica, as trocas entre Brasil, América Latina e Caribe cresceram 300%, alcançando US$ 80 bilhões em 2008.

Com o uso de moedas locais no nosso intercâmbio – já temos com a Argentina, vamos fechar com o Uruguai, e a ideia é fazermos o intercâmbio comercial na moeda de cada país para que a gente não fique dependendo de comprar dólares –, a gente pode multiplicar os resultados da nossa balança comercial, sobretudo porque vamos facilitar a vida de pequenos e médios empresários nas exportações e importações. A cooperação técnica e financeira Sul-Sul será, cada vez mais, um grande motor do crescimento global.

Apostamos num pacto regional pelo desenvolvimento sustentável. Não podemos retroceder nos compromissos com tecnologias ambientalmente sustentáveis ou abrir mão das fontes renováveis de energia. Juntos teremos papel decisivo para garantir resultado ambicioso e abrangente na COP-16, no México, este ano.

Estamos a poucos dias da Cúpula do G-20, em Toronto. A comunidade internacional aguarda propostas que revertam a retração da economia global. Reformular a arquitetura financeira mundial, aumentar os recursos do FMI e do Banco Mundial, e criar linhas de crédito mais flexíveis eram decisões inadiáveis. Agora precisam ser colocadas em prática.

A instabilidade financeira na Europa é especialmente preocupante em vista da fragilidade da recuperação global. A melhor política para o equilíbrio fiscal é o crescimento econômico dos países.

Na América Latina e no Caribe é fundamental restaurar o financiamento para as economias em desenvolvimento, especialmente para os países mais pobres. Implementar, com rapidez, o aumento o capital do BID, fortalecer a CAF e tornar o Banco do Sul uma realidade, certamente ajudarão na retomada do crescimento e na geração de empregos.

Amigas e amigos,

O mundo espera, sobretudo, demonstrações de liderança e de coragem daqueles que apostam numa visão de futuro comum. É, portanto, chegada a hora da política, como tenho afirmado muitas vezes.

Devemos, sim, ter orgulho de nossas recentes conquistas nas áreas social e econômica, mas não podemos nos esquecer de que os desafios futuros ainda são imensos.

Temos, como diz o encontro aqui, brechas por cerrar, caminos por abrir, para usar os termos tão consagrados pela Cepal neste encontro. É chegada a hora da igualdade.

Companheiras e companheiros,

Amigas e amigos,

Eu vou guardar o discurso institucional aqui, porque eu queria ter uma conversa agora mais de companheiro e menos de Presidente com vocês, nesta tarde de hoje.

Primeiro, eu acho importante nós termos em conta o que aconteceu no nosso continente nos últimos anos para que a gente tenha clareza do que nós fizemos. Eu tenho participado de todas as reuniões, desde que tomei posse no dia 1º de janeiro de 2003, e sou o maior incentivador de que nós conquistamos coisas inimagináveis nesses oito anos, apesar de, em cada reunião que a gente faz, a gente estar lamentando que não tenha avançado mais. A gente reclama que não tem avançado muito porque a gente está olhando apenas para o futuro, mas a gente não olha para as coisas que aconteceram num passado muito recente na nossa querida América Latina.

Primeiro, todos nós, praticamente, viemos de países que sofreram golpes militares durante a década de 60 e a década de 70, e algumas só acabaram na década de 80. Algumas... Alguns países em que os militares tomaram o poder, houve uma visão desenvolvimentista do país; em outros países, houve uma visão de entreguismo; e muitos países foram praticamente desmontados, além do atraso político a que foi submetido cada país em função do afastamento e da morte de dezenas ou centenas de lideranças emergentes em cada país.

Segundo, nós nos esquecíamos de que, pouco tempo atrás, qualquer embaixador de uma potência maior dava palpite sobre a economia dos nossos países como se fosse uma autoridade importante dentro de cada país. Não faz muito tempo, na América Central, embaixadores de determinados países diziam, categoricamente, quem deveria ganhar ou não as eleições. E isso começou a mudar, começou a mudar porque o povo começou a compreender que não era mais possível a gente ter conquistado a independência... Aliás, participei da festa da independência da Argentina na semana passada. Há 200 anos nós conquistamos a independência e ainda não tínhamos nos dado conta de que a independência tinha nos dado soberania para decidir o nosso próprio destino.

Pela primeira vez, a gente, nessas últimas décadas, tem um conjunto de dirigentes... Já tivemos em décadas passadas. Na década de 50, tivemos vários dirigentes políticos no continente que brigavam por soberania, e por isso muitos foram cassados, por isso muitos foram depostos dos seus mandatos. Nós não podemos nos esquecer dos que lutaram pela independência.

Mas, teve um momento em que a grande briga na América do Sul era saber qual era o presidente que era mais amigo dos Estados Unidos. Se um presidente, então, dos Estados Unidos convidasse alguém para passar uma tarde em Camp David, era o máximo, era o máximo! Eu lembro da briga do Menem... da Argentina e do Brasil, dos economistas, quem era mais disso, quem era mais amigo daquilo, ou seja, era um comportamento pequeno de pessoas que não sentiam orgulho ou não tinham autoestima de representar os seus países com a soberania que precisariam representar.

Eu penso que nós criamos um novo paradigma e estamos mostrando que não é preciso brigar com ninguém. Eu quero amizade com todos os países do mundo, eu quero tratar os Estados Unidos da melhor forma possível, a China, da melhor forma possível, a Rússia... Mas eu quero tratar a Guiné-Bissau, eu quero tratar a Bolívia, eu quero tratar o Uruguai, o Paraguai com o mesmo respeito que eu trato as grandes nações. Porque, por menor que seja a quantidade de habitantes de um país, tem que ser respeitada a sua soberania e a sua autodeterminação tanto quanto uma grande nação como a China.

Afinal de contas, a gente não mede a política pela quantidade de pessoas ou pela quantidade de conhecimento científico e tecnológico. A gente mede pela qualidade da cabeça política que têm os dirigentes e o povo de um país. E, por isso, nós adquirimos a consciência de que todos merecem respeito.

Daí porque – parecia impossível – nós criamos a Unasul, daí [parecia] impossível, nós fizemos a primeira reunião, em 200 anos, entre América do Sul, América Central e Caribe – a primeira vez da América Latina integrada com o Caribe –, somente nós, sem ninguém falando outra língua, a não ser nós mesmos. Isso não é pouco. Fizemos duas reuniões América do Sul-Países Árabes, duas reuniões África-América do Sul, criamos o Conselho de Defesa, criamos o Conselho de Combate ao Narcotráfico. Essas coisas não estão funcionando 100%, mas nós precisamos dizer ao mundo que nós não precisamos de ninguém para tomar conta dos problemas que são nossos. Se nós temos problemas de drogas, nós temos que resolvê-los; se nós temos problemas de miséria, nós temos que resolvê-los; se nós temos problema de desenvolvimento, nós temos que resolvê-lo.

Eu, também, não sou daqueles, Alicia, que fica acusando os outros pela minha desgraça, porque normalmente o cidadão, às vezes, fica dizendo: “Não, porque o culpado da minha desgraça são os Estados Unidos, é o império; o culpado da minha desgraça é a Europa, que é rica; o culpado...” Não, para mim, o culpado... é preciso saber como é que se comportou a elite dirigente de cada país durante anos e anos e anos, porque no fundo, no fundo, é ela que é responsável, é ela que se submeteu.

Então, eu penso que na hora em que nós adquirimos essa consciência, nós pegamos um pouco mais de prazer, um pouco mais de amor, um pouco mais de orgulho próprio de sermos o que nós somos: dirigentes de países pobres, mas que queremos crescer e queremos crescer de forma soberana.

Eu lembro – tenho muito na pele – o quanto eu fui atacado quando eu disse que eu iria priorizar a minha relação com a América do Sul, com a América Latina, com a África, com os países árabes. Porque parecia impossível que um presidente do Brasil – para alguns a 10ª economia, para outros a 9ª, para outros a 8ª, mas o maior país do continente – ficasse de costas para os seus parceiros que estão ligados a ele por um cordão umbilical chamado fronteira. Aliás, tem gente até hoje achando que a nossa relação com a América do Sul é um retrocesso.

É indescritível como aqueles que morreram para conquistar a nossa independência não servem de exemplo para muitos de hoje, que ainda acham que a gente deveria ser colonizado para ser mais forte. Eu, sinceramente, não conheço nenhum país que se transformou em forte... Depois, não tem colonizadores bons. Porque diziam: “Não, os holandeses são melhores, os alemães eram melhores, os não sei quem eram melhores”. É só visitar os países em que houve colônia para você perceber que nenhum deles foi bom colonizador. Acho que o nosso foi melhor, porque você veja que aqui não precisa nem ter guerra para a gente fazer a independência, o próprio... a própria Coroa decidiu entre eles se arranjar e fazer a independência aqui, que é um pouco da cultura política do Brasil. Aqui, entre uma briga e um jeitinho, nós vamos no jeitinho. É um jeito mineiro de fazer política, é um jeito um pouco brasileiro, talvez resultado dessa mistura de europeus, africanos e índios, que permitiu que a gente tivesse essa facilidade de flexibilizar – não no mundo do trabalho – na política, na política. Essa foi uma coisa extremamente importante. Então, eu penso que acabou aquela fase, de duas décadas atrás, do Consenso de Washington, e depois a faixa [fase] do consenso único, ou seja, o pensamento único.

Eu lembro... Quando a gente é oposição... A vantagem de a gente perder muita eleição é que a gente aprende muito. Para quem tem a humildade de perder, não é? Mas eu lembro quando, no México, o Salinas era vendido como se fosse o herói da modernidade desenvolvimentista. Eu lembro das brigas apoteóticas de Cavallo e Malan – um ministro da Economia da Argentina, o outro do Brasil –: quem era mais amigo de não sei quem. O FMI mandava todos os dias um agente para dar palpite: “Você compra isso, você vende aquilo, você não pode fazer isso”. Aliás, os funcionários do FMI nem atendiam mais quando eles chegavam lá. E essas pessoas achavam que estavam fazendo bem para os seus países.

Eu penso que nós estamos construindo um mundo mais verdadeiro, com defeitos e com virtudes. Tem muita gente que se orgulha de dizer: “Ó, no meu país, a carga tributária é [de] apenas 9%”; “No meu país a carga tributária é [de] apenas 10%”. Quem tem carga tributária de 10% não tem Estado! O Estado não pode fazer absolutamente nada.

Está aí, cheio de exemplos para a gente ver. É só percorrer o mundo para a gente perceber que exatamente os Estados que têm as melhores políticas sociais são os Estados que têm a carga tributária mais elevada – vide Estados Unidos, vide Alemanha, vide França, vide Suécia, vide Dinamarca –, e os que têm a carga tributária menor não têm condições de fazer absolutamente nada de política social. É só fazer um “recogido” na nossa querida América para a gente ver o que acontece. Então, eu penso que nós superamos essa primeira fase.

A segunda coisa que eu acho importante é que nós quebramos um outro paradigma. Aqui no Brasil, Alicia, se dizia o seguinte: “Se o Brasil vai exportar, o mercado interno tem que morrer, ser asfixiado”. Ou: “Se o Brasil vai aumentar o mercado interno, as exportações têm que morrer”. Nós provamos que não é antagônico o crescimento do mercado interno com o crescimento do mercado externo, provamos. Da mesma forma que se dizia: “Olha, aumentar o salário é inflacionário. Não pode aumentar salário porque o desenvolvimento vai acontecer apenas com o crescimento econômico. Tem países crescendo há vários anos seguidos, a taxas importantes, e não tem como fazer política social”. Nós decidimos o contrário. Nós decidimos que era possível a gente acabar com aquela discussão: “Primeiro cresce para depois distribuir ou primeiro distribui para depois crescer?”. Nós fizemos os dois, concomitantemente, e o sucesso foi extraordinário.

Vocês não sabem a alegria que eu tenho de pegar as pesquisas publicadas por todos os institutos e saber que enquanto muita gente rica do meu país, no auge da crise, ficou com medo e se encolheu, os pobres do Norte e do Nordeste foram às compras para reativar a economia brasileira. Na parte mais pobre do Brasil, no Norte e no Nordeste, as classes D e E... Esse dado é muito importante. No Norte e no Nordeste do Brasil, as classes D e E consumiram mais do que as classes A e B das regiões Sul e Sudeste do país. É o milagre da multiplicação do pouco dinheiro que os pobres têm, porque pouco dinheiro na mão de muitos significa distribuição de renda, e muito dinheiro na mão de poucos significa concentração de riqueza e empobrecimento da maioria.

Mas não foi apenas o acerto, não foi apenas o acerto da política macroeconômica que fez o Brasil chegar à situação que está hoje. É importante lembrar – e eu acho que essa é uma coisa que eu vou trabalhar para tentar contribuir com os países da América Latina e da África – que foi a quantidade de políticas sociais que nós colocamos neste país. Eu vou dar um exemplo de uma política social que eu gostaria que a Cepal conhecesse a fundo, uma coisa chamada Territórios da Cidadania. Territórios da Cidadania foi uma escolha que nós fizemos, de pegar os 1.800 municípios mais pobres do Brasil, com menor IDH, juntamos todas as políticas públicas do governo federal, e elas chegam in loco naqueles municípios. São 120 Territórios, cada Território tem uma quantidade de cidades, cada Território tem uma coordenação regional e tem uma coordenação municipal. Eu acho que era importante a Cepal conhecer para que a Cepal ajudasse a difundir...

Alícia, eu tenho muitos anos de movimento social. Desde 1969 eu faço participação no movimento sindical; desde 1980 eu estou na vida política; portanto, se tem um cidadão aqui neste plenário que sabe fazer pauta de reivindicação, sou eu. Já reivindiquei tudo o que vocês imaginam que um homem possa reivindicar, e eu nunca vi nada tão perfeito na minha vida como o Territórios da Cidadania. Ele não está dando ainda 100% certo porque nós fomos ambiciosos e colocamos 1.800 municípios e 120 Territórios de uma só vez. A gente poderia ter feito menor número para a gente fazer uma concentração de esforços. Mas seria importante que a Cepal pudesse, com seus técnicos, visitar alguns Territórios da Cidadania.

Uma outra coisa que nós fizemos aqui, que merece ser conhecido, é o Programa Luz para Todos. O Programa Luz para Todos já conseguiu, de 2004 até agora, levar energia elétrica para mais de 15 milhões de pessoas, pessoas que viviam à base da lamparina e nós levamos energia elétrica totalmente gratuita para essas pessoas, estejam elas onde estiverem. Já foram mais de 2 milhões e 200 mil casas que receberam energia elétrica. Vocês imaginam que nós já gastamos mais de... acho que 1 milhão de quilômetros de fios, já gastamos mais de 1 milhão e 200 mil postes e já gastamos... ou melhor, 5 milhões de postes e já gastamos mais de 1 milhão de transformadores, levando energia para a casa das pessoas. E quando chega a energia, quem nasceu na cidade, quem nasceu em Santiago, quem nasceu em Brasília, quem nasceu em Buenos Aires, quem nasceu em Montevidéu, quem nasceu em Lima, ali no centro, pisando no asfalto e com luz elétrica, não sabe o que é você chegar com energia elétrica numa casa de uma pessoa que viveu a vida inteira com a lamparina. É você trazer o século XXI para o século XVIII, ou seja, é um salto de qualidade como se fosse a máquina do tempo. E quando chega a luz, chega a televisão. Na pesquisa que nós fizemos com 3 mil usuários do Programa Luz para Todos, 80%, ou melhor, 79%, a primeira coisa que eles compram é uma televisão, certamente para ver a cara do Presidente falando, certamente. Setenta e quatro por cento compram geladeira.

Eu não sei se aqui tem alguma pessoa que já viveu sem geladeira. Certamente os pais de vocês viveram. Eram obrigados a matar um porco, pegar o porco, cortar, dar uma pré-cozida na carne, enfiar dentro da lata de banha, guardar a lata de banha, e quando queria pegar era só ir lá. Eu, não faz muito tempo, na década de 60, morando num bairro de São Paulo, eu não tinha geladeira. Para tomar cerveja, a gente comprava a cerveja quente no bar, que era mais barato... no supermercado, descia dentro de um balde [para] dentro do poço, ficava lá uns 40 minutos dentro do poço para a gente tirar e beber ela mais ou menos gelada. Então, hoje a pessoa compra geladeira. É uma coisa extraordinária uma pessoa tomar uma aguinha gelada, nordestino adora água gelada. E 50% compararam aparelho de som para ouvir, certamente, música e não discurso em época de campanha. Mas, a evolução é extraordinária.

Uma outra coisa importante que eu acho que os companheiros precisam conhecer, sobretudo, Prado, você que é economista – não sei se a Alicia é economista também –, é o seguinte: é o Programa Crédito Consignado. Eu tenho pedido para vários presidentes amigos, de países amigos, criarem o Crédito Consignado. O pobre, ele tem uma dificuldade: ele não está bancarizado, muitas vezes ele não tem nem conta bancária. Se ele não tem conta bancária, ele não consegue entrar num banco, e quando você pergunta por que ele não toma dinheiro emprestado, ele não toma dinheiro emprestado porque ele não tem garantia para oferecer, então o banco não empresta. O que nós fizemos? Nós fizemos um acordo com o movimento sindical e com o sistema financeiro: o trabalhador e o aposentado dão como garantia o envelope do pagamento, e o banco não pode descontar mais que 30% do salário do trabalhador. Sabe quanto dinheiro tem movimentado, hoje, pelo Crédito Consignado? R$ 120 bilhões, o equivalente a US$ 65 bilhões, que estão na mão de aposentados ou que estão na mão de pessoas que antes não conseguiam tomar dinheiro em banco.

Uma outra coisa grave no Brasil é que... veja, precisou um torneiro mecânico, de um partido socialista, chegar ao poder para poder afirmar para as pessoas que governavam este país que país capitalista tem que ter capital. Imaginem o contrassenso! Precisei eu chegar ao governo para dizer o seguinte: olha, este país tem que ter crédito. Quando eu cheguei ao governo, o crédito que o Brasil inteiro tinha era [de] R$ 380 bilhões, todo o Brasil. Hoje somente o Banco do Brasil tem mais do que isso, e o Brasil inteiro está com R$ 1 trilhão e 500 bilhões de crédito. Saímos de 21%, 22% para quase 48% do PIB, de crédito. Aí você vira um país capitalista desenvolvido, você tem crédito para as pessoas poderem financiar.

Uma outra coisa importante, Alicia, que é uma experiência rica e que essa me orgulha: o Brasil talvez seja um dos poucos países do mundo que tem um presidente e um vice-presidente... o vice-presidente um grande empresário, o Presidente um ex-sindicalista, os dois não têm diploma universitário. E veja a ironia do destino: eu já sou o Presidente que mais fiz universidades no país, que mais fiz escolas técnicas e que mais investiu em ciência e tecnologia. Significa que para gostar da educação não precisa já ter um diploma. Talvez quem não tenha, sinta mais necessidade, e isso é um motivo de orgulho.

Este mês eu vou participar da primeira formatura de 540 meninos da periferia que estudaram no ProUni e que vão se formar em Medicina. Quinhentos e quarenta jovens da periferia, que se não fosse o ProUni jamais conseguiriam entrar na universidade, e o ProUni, para os companheiros da Cepal entenderem, é um programa em que nós fizemos uma determinada redução nos impostos que as universidades privadas nos pagavam e transformamos o equivalente ao imposto numa bolsa. Este ano, chegamos a 726 mil alunos no ProUni, e vamos ter meninos... dos quais 40% são meninos negros e meninas negras da periferia. Quando nós criamos esse programa, a elite brasileira dizia que eu estava nivelando a educação por baixo. Hoje já está provado que os melhores alunos das universidades são exatamente os alunos que cursaram o ProUni, porque na hora em que os pobres têm uma oportunidade, eles não largam mais.

Uma outra coisa importante: quando nós chegamos aqui, era consagrada a ideia de que o Brasil não precisava mais fazer refinarias, porque o Brasil já tinha todas as refinarias que precisava. Nós tomamos a decisão de fazer mais três grandes refinarias no Brasil. Quando nós chegamos aqui, diziam que o Brasil não podia fazer nem plataforma para a Petrobras, nem sonda e nem navio. A indústria naval brasileira, na década de 50, era a segunda maior do mundo; na década de 90 caiu para 1.600 trabalhadores. Hoje já estamos outra vez com 50 mil trabalhadores, fazendo plataformas, fazendo sondas e fazendo navios. Todas as plataformas nossas têm pelo menos 70% de componente nacional feito dentro do nosso país.

Diziam também que a gente não tinha gás. Quando a Bolívia começou a brigar com a gente, muita gente queria que eu brigasse com o Evo Morales e, na minha cabeça, não passava a ideia de um metalúrgico de São Bernardo brigar com um índio da Bolívia. Não, não, não havia quem fizesse eu brigar com o Evo Morales. Pois bem, em vez de brigar com o Evo Morales, nós achamos que ele tinha direito no gás. Era dele, portanto, ele tinha o direito de querer gerenciar o seu gás. Muita gente me chamou de frouxo, mas eu preferi devolver a ele aquilo que era dele, pagou o que tinha que pagar para nós, e resolvemos fazer uma política de gás. Todo mundo dizia que a gente não tinha gás. Nós criamos o Plangás, e hoje nós, daqui a pouco tempo, não precisaremos mais do gás da Bolívia. Mas não vamos deixar de usar porque nós precisamos ajudar a Bolívia a continuar crescendo economicamente e a maior fonte de receita da Bolívia é exatamente o gás que vende para o Brasil, portanto, nós vamos continuar comprando o gás do nosso companheiro.

Mas temos que trabalhar mais forte para fazer a integração energética da América do Sul. Não é possível que o Chile sofra a cada inverno, que a Argentina tenha problema a cada inverno, que o Uruguai tenha problema a cada inverno, e nós temos um potencial energético extraordinário na América do Sul. Nós haveremos de construir, já nos próximos governos, um processo de integração energética para que a gente não tenha mais problema de energia na América do Sul, sobretudo com o potencial hídrico que nós temos. Estamos trabalhando com o Peru, com a Venezuela para que a gente possa utilizar todo o potencial hídrico e a gente produzir energia, e um país transportar para o outro na medida das necessidades. Essa é uma coisa que eu considero fantástica e que nós vamos conseguir fazer.

Bem, para terminar, eu queria dizer para vocês que se tem uma coisa sagrada que um dirigente político não pode esquecer de fazer é cuidar dos mais pobres. Eu penso que qualquer sacrifício que a gente puder fazer, nós temos que fazer, para fazer com que chegue na mão do mais pobre o mínimo necessário para ele sobreviver, e muitas vezes nós deixamos para cuidar dos mais pobres para o [no] fim. Eu digo sempre que o pobre, ele é muito lembrado na época das eleições. Na época da eleição, não tem candidato do mundo que fale mal de pobre. Fala mal de banqueiro, fala mal de grandes terras-tenentes, fala mal de grandes empresários, mas pobre é a coisa fantástica. Só que depois que as pessoas ganham as eleições, nunca convidam os pobres para almoçar, nunca convidam os pobres para jantar, e nunca convidam os pobres para tomar café. Aí os pobres não podem participar do processo de desenvolvimento dos países. É por isso que entra governo e sai governo, você vai analisando os índices de crescimento de desenvolvimento humano e eles estão sempre baixos.

Eu falo com muito orgulho: este país aqui chegará, em 2015, cumprindo, cumprindo todas as Metas do Milênio estabelecidas nas Nações Unidas, e fazemos isso porque nós exercitamos aqui no Brasil a democracia levada às últimas consequências. Nesses oito anos de governo, nós já fizemos 67 conferências nacionais. Cada conferência nacional... primeiro tem conferências municipais, depois tem conferências estaduais, depois tem conferência nacional. Aqui já fizemos conferência de negro, de índio, GLTB [GLBT], já fizemos conferência de força e segurança pública, segurança de... conferência de imprensa, conferência de portador de deficiência, conferência de índio, conferência... até conferência que fala mal do governo tem aqui. Aqui é proibido proibir. E nós estamos executando, com muita humildade, aquilo que é aprovado nas conferências.

Hoje eu fui a uma festa na Volkswagen, Alicia. Eu fui no Congresso Mundial dos Trabalhadores da Volkswagen que pela primeira vez está sendo realizado no Brasil, e pude dizer, olhando na cara dos meus companheiros sindicalistas, que eu só não os atendi mais, Marco Aurélio, porque eles não fizeram mais reivindicação, porque todas que fizeram, nós atendemos.

Aqui a democracia foi exercida porque são essas decisões que balizam o comportamento do governo. Quando vocês veem um sem-terra fazer uma passeata aqui em Brasília, ou a Contag, eles nos entregam uma pauta de reivindicação. Aquela pauta de reivindicação é distribuída para todos os Ministérios que têm alguma coisa a ver com aquele movimento. Depois de 30 dias nós nos sentamos com os trabalhadores e dizemos: “Isso aqui pode, isso não pode, isso pode, isso não pode”. E vamos todo mundo para a rua comemorar as conquistas e chorar as não conquistas. É assim que a gente vai consolidando a democracia neste país.

Portanto, Alicia, quando eu deixar a Presidência, no dia 31 de dezembro de 2010 – porque sabe que para a gente que está no governo oito anos passam tão rápido... eu nem vi passar, mas para a oposição demora tanto, para a oposição é um sacrifício oito anos –, eu vou deixar com a consciência tranquila de que o maior legado que nós vamos deixar é que nós estabelecemos uma nova relação entre Estado e sociedade, entre governo e movimentos sociais. Posso, com a minha consciência tranquila, andar em qualquer rua deste país depois do dia 1º de janeiro e tratar todo mundo como companheiro e ser tratado como companheiro.

Tenho a certeza absoluta de que esse é o grande legado nosso, é a mudança de paradigma no exercício da democracia, e falo com o coração aberto: quem vier depois de mim, quem vier depois de mim sabe que não pode retroceder porque terá no seu calcanhar um novo paradigma. E aí as pessoas vão dizer: “Se um metalúrgico sem diploma universitário conseguiu fazer tudo o que fez, por que você não vai fazer mais?” Então, o paradigma é maior, a pressão vai ser maior. Eu estarei, onde estiver, tentando ajudar esses companheiros a transformarem este país numa grande nação, porque no século XX nós jogamos fora muitas oportunidades.

Nós não podemos nos esquecer que a Argentina, no começo do século passado, era a 5ª economia do mundo; nós não podemos nos esquecer que o Uruguai era considerado a Suíça sul-americana; e nós não podemos nunca perder de vista que foi exatamente o autoritarismo, que foi a subordinação de alguns chefes de Estado que achavam que tudo o que vinha da Europa ou do norte dos Estados Unidos era bom e tudo que vinha daqui era ruim, que fez com que os nossos países sofressem um retrocesso.

Eu estou convencido que tudo que tiver que acontecer de bom ou tudo que tiver que acontecer de ruim seja por nossa responsabilidade, e o povo está aprendendo a eleger dirigentes com mais responsabilidade. Aqueles que achavam engraçado serem tratados... Eu, de vez em quando... eu tenho duas pessoas que eu marco, assim, na minha vida, como é que essas pessoas fizeram o mundo retroceder. Uma foi o Gorbachev porque destruiu um império e não colocou nada no lugar. Tudo bem que pudesse mudar, um país que pudesse... mas não ficou nada! E quando ele foi candidato só teve 6% dos votos. O outro foi o nosso... o Saddam Hussein, que deixou destruírem o país porque tinha mentido tanto para o povo que tinha armas químicas, que na hora de provar não tinha e o país foi invadido da forma que invadiram.

Eu acho que aqui na América do Sul nós estamos calejados. Nós somos o primeiro continente desnuclearizado, ou seja, aqui nenhum país tem bomba nuclear. Não queremos. Aqui o que nós queremos é produzir mais feijão, mais arroz, mais verduras, mais frutas, mais comida, mais emprego, mais salário, mais cultura, mais qualidade de vida para fazer a América Latina se transformar num continente em que o seu povo viva com dignidade e com respeito.

Por isso, queridos companheiros da Cepal, meus parabéns por mais este encontro. Espero que daqui a 50 anos estejamos juntos, cumprimentando os 100 anos da Cepal. Se nós não estivermos aqui, vamos torcer para que esteja aqui gente melhor do que a nossa geração.

Um abraço, que Deus nos abençoe.

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