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Meu caro amigo e companheiro Alan García, presidente do Peru,

Meu caro Omar Aziz, governador do estado do Amazonas,

Meu caro embaixador José Antonio García Belaunde, ministro das Relações Exteriores do Peru, por meio de quem cumprimento os demais membros da delegação peruana,

Embaixador Antônio Patriota, ministro interino das Relações Exteriores, por meio de quem cumprimento os demais membros da delegação brasileira,

Senhores parlamentares,

Prefeito Amazonino Mendes, de Manaus,

Senhores empresários,

Senador Alfredo Nascimento, aqui presente,

Senhoras e senhores,

Companheiros da imprensa,


Eu penso que como nós deixamos a imprensa participar daquela reunião com os ministros, nós vamos precisar falar menos, e vai ter duas perguntas, me parece, de cada lado, dos jornalistas.

Mas eu queria dizer ao meu querido companheiro Alan García da alegria de mais uma vez estar recebendo ele como chefe de Estado do Peru, aqui no meu país, e dizer ao Alan García que eu sou um latino-americano ou um sul-americanista juramentado. Eu, sinceramente, não posso compreender como é que tanta gente que governou os nossos países, ao longo de tantos séculos, permitiu que nós ficássemos tão distantes e permitiu que as nossas relações privilegiadas fossem com o Norte e não com o Sul. Uma parte do nosso continente dependia da Coroa espanhola e outra parte dependia da Coroa portuguesa. Mas, mesmo já fazendo mais de 200 anos que todos conquistaram a independência, ainda assim nós ficamos dependentes do lado mais rico do planeta e não ousamos construir, entre nós mesmos, uma política que pudesse alicerçar o crescimento da América do Sul, da América Latina e o desenvolvimento de cada um dos nossos países.

Houve um certo tempo na América Latina em que era muito fácil: você não precisaria fazer muita coisa, porque era só você ficar fazendo crítica ao império, seja o império americano ou seja aos países ricos da Europa; que você justificava a ineficácia da sua economia; que você justificava a pobreza; que você justificava uma série de coisas. Poucas vezes nós paramos para discutir os problemas criados por nós mesmos, pelas nossas elites dirigentes, pela corrupção praticada no nosso continente, pela subserviência política e intelectual nossa aos chamados países desenvolvidos, e isso significou um atraso enorme para o desenvolvimento da América do Sul.

Eu penso que nós vivemos hoje um novo momento. É certo que você não vai conseguir mudar 500 anos de história em 10 anos, 15 anos ou 20 anos. Tem um período de construção, de maturação, de elaboração de novas doutrinas para que a gente possa construir as nações sul-americanas com uma cabeça sul-americana, pensando no desenvolvimento do nosso continente.

Eu, Alan, estou fazendo uma experiência muito rica. Nós vamos inaugurar a Unila, que é uma universidade latino-americana, onde os professores serão latino-americanos, o currículo será latino-americano e os alunos serão latino-americanos, ou seja, serão estudantes, professores e o currículo dos países da América Latina. A nossa ideia é que a gente tenha pelo menos 10 mil alunos e que haja uma mistura da América Latina, para que a gente aprenda a nossa história, para que a gente possa, a partir daí, criar uma parte de latino-americanos com conhecimento mais profundo dos nossos problemas e das nossas soluções.

Não queremos fazer isso para ser contra quem quer que seja. Eu aprendi a fazer política, na minha vida, não sendo contra; eu aprendi a fazer política, na minha vida... Eu acho que sou, dos políticos brasileiros, o que menos criticou os outros pelas mazelas do Brasil. As mazelas do Brasil dependem, em parte, da elite política que governou este país e que permitiu que elas acontecessem, que aceitou a influência indevida, que aceitou que as coisas não fossem corretamente feitas durante séculos neste país. Portanto, eu não quero jogar a culpa nunca em cima de ninguém, eu prefiro olhar os meus defeitos e, a partir daí, construir as coisas novas que nós precisamos construir.

Eu estou muito feliz com a sua visita ao Brasil, porque eu conheço o Alan García há muito tempo. Em 1989, quando eu fui derrotado na eleição brasileira, o único telefonema que recebi foi do companheiro Alan García, depois do resultado, e ele tinha me recebido enquanto candidato, em Lima, no Palácio do Governo.

Eu acho que, depois de tanto tempo, somente hoje é que eu ouvi falar, pela primeira vez, que o Brasil passou oito anos sem comprar couve-flor do Peru, porque nós temos um problema de alguém, no Brasil, que não queria que a gente comprasse. Somente hoje eu fiquei sabendo que tem exigência fitossanitária para comprar cimento. Como eu não conheço ninguém que coma cimento, a não ser que o cidadão queira se suicidar, eu, sinceramente, estou levando isso na minha cabeça. Você vai ouvir muito falar nesse negócio do fitossanitário, porque eu quero descobrir quem é o cidadão insano que resolveu pedir investigação sanitária para comprar um saco de cimento. Nós temos que descobrir na Receita Federal, na Polícia Federal, no Ministério da Agricultura, nos produtores de cimento quem é o insano que pediu que houvesse uma exigência sanitária, fitossanitária, para vender cimento para o Brasil.

A pessoa que fez isso, Alan, é tão de má-fé que não sabe quantos governadores da região Norte do país, sobretudo eu poderia te dar um estado, que é o Acre. Aquele povo sofre para comprar brita, para comprar cimento, para comprar tijolo – quando o rio está cheio, consegue chegar, quando não está cheio, não chega –, é tudo três, quatro vezes mais caro do que em qualquer parte do país, e alguém se acha no direito de dizer: “Olha, vamos pedir um exame fitossanitário no saco de cimento que vem do Peru”. Quer dizer, sinceramente, é uma coisa que demonstra como nós ainda temos que melhorar para podermos ser tratados como países altamente civilizados, altamente modernos.

Eu poderia pegar um outro exemplo: certamente um companheiro de alguma região do estado do Amazonas, de Rondônia ou do Acre deve comprar um quilo de cebola a US$ 3, US$ 4 ou US$ 5, que venha de São Paulo, quando ele poderia comprar a US$ 1, que está lá, vizinho dele, ou seja, uma cebola não pode andar 5 mil quilômetros de avião, é muito luxo carregar cebola de avião, quando ela pode vir num carrinho de mão, pode vir de bicicleta, pode vir montada num cavalo, e custar mais barato. Essas coisas é que vocês, companheiros ministros, estão desafiados a fazer a revolução. A revolução é essa. Não adianta ficar lendo grandes teorias desenvolvimentistas, grandes teorias marxistas para fazer uma revolução. É essa a revolução que nós precisamos fazer: fazer apenas aquilo que nós conhecemos, o óbvio. Eu digo todo dia: se cada governante do mundo, se cada burocrata do mundo fizesse apenas o óbvio, nós não teríamos problema na humanidade. O problema é que tem sempre um manual e o manual está sempre feito para criar um obstáculo em vez de facilitar as coisas.

Eu penso que essa quantidade de acordos que nós assinamos aqui vai permitir que a gente avance um pouco mais. Certamente todo mundo sabe da crise energética que passa o mundo, todo mundo sabe da questão do clima, todo mundo sabe que as grandes potências ainda estão quase que tentando responsabilizar os países como nós que temos reservas, e muitas reservas florestais, a sermos quase que os únicos a pagar pelo controle da questão do clima.

Eu fui a Copenhague, Alan, e países que têm industrialização há 200 anos querem ter a mesma responsabilidade que um país que começou a se industrializar na semana passada, ou seja, como se eles não tivessem responsabilidade pelo gás de efeito estufa que eles já jogaram no planeta há 200 anos ou há 300 anos.

Nós, aqui na América do Sul, temos a vantagem de termos a possibilidade de produzir a energia mais limpa do mundo em grandes quantidades. É só juntar o poder e o potencial de gás que nós temos, é só juntar o poder hídrico que nós temos de construir energia, é só discutirmos a possibilidade de construir a energia eólica, é só ver o potencial de construir energia através de biomassa, ou seja, nós temos um potencial de produzir energia limpa que nenhum continente do mundo tem, nenhuma parte do mundo tem.

Acho que esses acordos que foram assinados aqui, entre Brasil e Peru, propõem uma possibilidade excepcional de a gente começar a não ter medo de nós, a construirmos as coisas conjuntamente. Por exemplo, tem 7.200 megawatts que podem ser construídos em parceria do Brasil e Peru, sempre tendo em conta que a energia, prioritariamente, é para atender ao povo peruano porque, se não for assim, nós nem começaremos a construir essas hidrelétricas. Entretanto, nós temos regimes de chuvas diferenciados e, se houver uma interligação do nosso sistema, nós poderemos nos atender, beneficiando o povo peruano e beneficiando o povo brasileiro.

De forma que eu estou, Alan, feliz. Quero agradecer a presença dos empresários, que estão desde ontem trabalhando aí, foram dois dias de trabalho, quero agradecer aos empresários peruanos, aos empresários brasileiros, e quero dizer para vocês o seguinte: nós mudamos, a cada quatro anos ou cinco anos, aqui no Brasil ainda pode demorar oito anos, mas vocês não mudam, vocês são empresários, vocês são técnicos que vão a vida inteira ser empresários e técnicos e que, portanto, a vocês cabe a responsabilidade de impulsionar aquilo que é demonstrado na vontade política do presidente Alan García e na minha. Nós assinamos os documentos, mas se vocês não andarem, a gente tem pouca chance de obter sucesso.

Então, querido amigo Alan García, obrigado, mais uma vez, por ter vindo ao Brasil; obrigado, mais uma vez, por acreditar que juntos nós poderemos construir uma aliança muito forte e que juntos nós poderemos construir uma América do Sul e uma América Latina muito mais consolidadas.

Obrigado.

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