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Apenas uma sugestão aos companheiros presidentes. É que tanto na reunião ministerial quanto na reunião que vai acontecer no México e, depois, na reunião da Venezuela, eu penso que seria importante que a gente levasse para essa reunião no máximo dois temas para a gente discutir e tomar decisões.

Por exemplo, o presidente Chávez fala da questão da integração financeira, do Fundo, aquele negócio todo, isso poderia ser um tema discutido mais profundamente para que quando a gente chegasse na Venezuela, nós estivéssemos prontos para tomar uma decisão e votar – bom, no México, na Venezuela eu não vou estar mais, mas certamente… Então, eu acho extremamente importante que a gente diminua o número de temas, para que a gente possa decidir, discutir e deliberar sobre esses temas.

Bom, primeiro eu queria terminar dizendo que daqui a pouco tem um almoço e, depois do almoço vão ter dezenas de bilaterais aí, todo mundo vai conversar, porque esse é um dos pontos fortes dessas cúpulas internacionais, são as bilaterais que nós fazemos.

Primeiro, agradecer de coração o reconhecimento por todas as delegações do caráter histórico desta reunião. Nós, aqui, ouvimos relatos sobre situações nacionais que ilustram, primeiro, a nossa diversidade. Mas o que fica claro entre nós é que cada vez mais vai se criando uma consciência de que nós precisamos consolidar definitivamente, do ponto de vista político, do ponto de vista, eu diria, até jurídico, do ponto de vista econômico, uma integração mais soberana entre o nosso bloco. Acho extremamente importante que essa consciência esteja amadurecendo muito no nosso meio.

Queria dizer para vocês que, muitas vezes, no discurso de alguns companheiros, eu vejo sempre angústia, porque nós aprendemos na escola, depois aprendemos na política que as reuniões feitas por outros blocos, pelo G-8, pelo não sei das quantas, é diferente da nossa, é mais evoluída que a nossa. Não é verdade, ou seja, todas as reuniões que envolvem muitos países, elas acontecem do mesmo jeito.

Eu já tive a oportunidade de participar do G-8 como convidado, junto com o México, junto com a Índia, com a China, com a África do Sul, e a verdade é que lá, acho que discute-se menos do que nós, bem menos do que nós.

Uma coisa que tem me marcado, e eu penso que isso pode nos ajudar profundamente é o seguinte: é o grau de consciência do nosso continente. Companheiro Chávez, a primeira vez que fui a Evian, em 2003, a convite do presidente Chirac, eu cheguei com o Celso Amorim e com o Marco Aurélio no Palácio onde ia ter a reunião do G-8. Eu cheguei e estava lá o príncipe da Arábia Saudita, estava Tony Blair, estava todo mundo. Todo mundo estava sentado, ficou sentado, eu entrei, cumprimentei todo mundo e fui sentar numa mesa. E de repente entra o presidente Bush e todo mundo levanta. E estava eu, o Celso e o Kofi Annan e eu falei: “Não vamos levantar”. Mas não vamos levantar por uma única razão, porque eu acho que, muitas vezes, o comportamento subserviente de muita gente na política é que faz com que as pessoas não sejam devidamente tratadas e devidamente respeitadas. E, vejam, nós não levantamos e o Bush se dirigiu para lá, para cumprimentar a mim, o Celso e o Kofi Annan sem nenhum problema. E ninguém precisou fazer uma deferência.

Eu digo isso porque quando nós criamos o G-20, lá em Cancún, em 2003, logo depois da reunião de Cancún, vários países que tinham participado conosco da criação do G-20 sofreram pressão e não compareceram na próxima reunião que nós fizemos. Eu sinto que essa consciência está mudando. Eu sinto… eu às vezes tenho a impressão de que não tem fim. Todo mundo conhece o que é um casulo, sabe, que produz seda. O casulo… de repente ele fura um buraquinho e sai uma borboleta, voa e vai embora.

Eu sinto que no nosso continente as pessoas estão aprendendo que é importante ter relações com todos os países, que é importante ter uma boa política com todos os países, mas que a subserviência não ajuda nenhum país a crescer. Não existe hipótese. Esse continente latino-americano durante um século, quase um século, com exceção de Cuba… quase todos os países ficavam apostando para saber quem era mais amigo daquele que governava os Estados Unidos. Por um século, não foi um dia. Ou seja, todo mundo achava que era o supra-sumo da importância política ser convidado pelos Estados Unidos.

O que está acontecendo hoje? Ninguém está deixando de reconhecer a importância que os Estados Unidos têm no mundo, e têm muita. É um país militarmente mais forte, tecnologicamente mais forte, financeiramente mais forte. Ninguém desconhece. O que nós estamos descobrindo é que entre nós existem outras oportunidades que até então nós não conhecíamos, nós não discutíamos, porque era muito mais fácil recorrer ora aos Estados Unidos, ora à União Européia.

Era quase como se nós não tivéssemos aprendido, mesmo depois da independência de cada país, que estas relações precisam ter o máximo de independência política. Ou seja, nós conquistamos a nossa independência no século XVIII e no século XIX e todas as economias praticamente continuaram amarradas à dependência dos países mais ricos. Ninguém, nem São Vicente, nem Dominica, nem Paraguai, nem Brasil, nem Uruguai, ninguém quer deixar de fazer negócios com os Estados Unidos ou com a União Européia, muito menos o companheiro Chávez quer deixar de fazer, muito menos… Ou seja, o que nós precisamos é fazer nas condições que nós entendemos que sejam legítimas, que sejam justas, que sejam adequadas, e que possamos discutir entre nós as nossas similaridades, as nossas possibilidades. Porque se não for assim, nós nunca iremos crescer enquanto nação. Iremos sempre ficar pobres, sempre países da periferia. Essa é uma coisa que eu acho que já dá pra compreender que está acontecendo aqui neste momento.

A terceira coisa que eu considero extremamente importante é que essa crise é uma oportunidade. Essa crise é uma oportunidade para que a gente repense o tipo de economia que nós queremos no mundo. Porque tudo que nós temos hoje foi criado praticamente depois da Segunda Guerra Mundial. Algumas outras coisas são de antes da Segunda Guerra Mundial. Todos aqueles modelos que pareciam infalíveis, invencíveis, que julgavam a nós todo santo dia…

Eu muito preocupado porque a economia do meu país vem crescendo, emprego vem crescendo, a pobreza vem diminuindo, superávit primário, superávit de conta corrente, e todo dia eu leio no meu computador que aumenta o risco-Brasil. Os americanos quebrados e o risco deles é zero. Ou seja, as pessoas tiram dinheiro do meu país, que oferece o maior juro do mundo, para depositar no juro mais baixo do mundo. Alguma coisa está errada na economia. Alguma coisa está errada no padrão de política monetária estabelecido.

O FMI não se manifestou até agora, só disse que não tem saída em curto prazo, o Banco Mundial não se manifestou até agora. Desde o encontro com o Japão, do G-8, – Calderón estava lá – que eu propus que era importante que o FMI e o Banco Mundial se manifestassem com relação à crise financeira que começou nos Estados Unidos. Você não recebe informações. Eu acho importante que das decisões nossas aqui, a gente enquanto conjunto de países da América Latina e do Caribe, a gente peça a essas instituições e peça às Nações Unidas, que têm uma instituição econômica chamada Ecosoc que precisa funcionar e prestar contas corretamente para nós, de onde vai e até onde vai essa crise financeira.

Mas eu penso, ao mesmo tempo, que enquanto a gente quer descobrir a profundidade dessa crise, é importante que a gente tenha consciência de que cada país vai ter que investir o máximo que ele puder investir. A hora não é de fazer o ajuste fiscal da década de 80. A época não é de negar o Estado como foi negado na década de 80. A época agora é de dizer que, no fracasso do mercado, a única coisa que a sociedade acredita é o Estado. E não apenas para nós. Os bancos americanos recorreram a quem? Ao Estado. Porque nenhum banco confiava no outro. Os bancos europeus recorreram a quem? Ao Estado. Porque nenhum confiava no outro. Ou seja, o Estado, que não valia nada, passou a ser o salvador da pátria.

Por que eu acho… e o Leonel Fernández fez um belo discurso ontem, por que eu acho que a economia do dinheiro disponibilizado pelos países ricos ainda não chegou na ponta? É porque o dinheiro dos países ricos, ainda não foi colocado na produção, foi colocado apenas para salvar a quebradeira do sistema financeiro, e não foi colocado na produção. Ou seja, nos nossos países, nós precisamos ter clareza de que o Estado assume um papel muito mais relevante nesse momento.

Os países têm que investir mais em obras de infra-estrutura, os países têm que investir mais em habitação, os países precisam investir naquilo que vai gerar emprego. Acho que os Estados Unidos vão ter que assumir a responsabilidade de dizer que política vai fazer para os países pequenos do Caribe, os países pequenos da América Central, que têm uma economia muito dependente dos produtos que fabricam para os Estados Unidos. E eu acho que as pessoas precisam aprender a cobrar.

Os Estados Unidos vão ter um presidente que vai tomar posse no dia 20 de janeiro. Um jovem, bem formado, em Harvard. Um negro que encantou os Estados Unidos. Ou seja, está na hora da América Latina exigir uma discussão política com ele para saber qual é a visão que ele vai ter na relação com a América Latina. Nós não queremos mais aliança para o progresso como foi feita na década de 60 aqui no Brasil, e tampouco pode olhar para a América Latina como um grupo de esquerdistas, todos revolucionários, recebendo orientação de Cuba. Já não existe mais isso na América Latina. Na América Latina, a esquerda que fazia luta armada nas décadas de 60 e 70 chegou ao poder na maioria dos países, ganhou as eleições, portanto as pessoas são governo hoje. Agora, o que nós não podemos é ficar esperando que um belo dia eles chamem os países para conversar.

Eu fico torcendo, companheiro Chávez, para que o presidente Obama tenha uma outra visão sobre a Venezuela, que queira manter uma boa relação política com a Venezuela, sem deixar de enxergar a soberania da Venezuela. Que tentem reabrir relações com outros países que têm economia praticamente independente deles. Como é que pode a maior economia do mundo, de US$ 13 trilhões do PIB, cortar US$ 50 milhões de compra da Bolívia?

Eu espero que se Obama tomar a decisão de reatar com Cuba… não existe mais nenhuma explicação política, sociológica, nenhum analista do mundo, um psicólogo qualquer, entenderia porque ainda há um bloqueio a Cuba. Será que é vingança?

E eu acho, companheiros presidentes, que as coisas estão mudando muito rapidamente. Eu, às vezes, vejo discurso de que anda pouco, mas eu, Chávez, um dia fui andar naquela Muralha da China e eu fiquei pensando, quando eles estavam construindo aquela muralha, que ela parecia interminável. E todas as vezes que as pessoas estavam colocando pedra, pedra, e olhando para a frente e viam que estava longe, ao mesmo tempo eles olhavam para trás e viam o quanto já tinham construído.

E eu acho que nós, nesses poucos anos, já construímos muito, mas muito. Certamente que, como passamos séculos sem construir muita coisa, passamos séculos sem conversar… Passamos séculos! Faz 200 anos que nós conquistamos a nossa independência, e é a primeira reunião que nós fazemos. Ou seja, éramos um continente de surdos, não nos enxergávamos.

Então, eu quero dizer para vocês que essa reunião aqui, ela, certamente, vai produzir muitos efeitos. Eu saio daqui convencido de que nós daremos um passo muito maior quando chegarmos à reunião do México, depois daremos um passo muito maior quando chegarmos na Venezuela. E eu acho que nós vamos dando passos, porque as coisas são conquistadas de forma mais lenta, mas tem que ser mais segura. Porque às vezes a gente reclama, e eu sou o primeiro a reclamar, que as coisas demoram entre nós.

Mas é importante que os companheiros compreendam. Embora eu tenha tido 62% dos votos na eleição para Presidente, de 513 deputados, o meu partido tem 80; de 81 senadores, nós temos 13. Para construir a maioria nas votações, é mais difícil do que ganhar as eleições. Cada coisa é um parto muito difícil. E nós fazemos isso, porque é um exercício de democracia de um país que ficou 23 anos sem conhecer o gosto da democracia, subordinado a um regime autoritário que todos vocês conhecem a história.

De forma, companheiros, que eu queria agradecer, de coração, a participação de vocês. Eu, quando sair daqui, nós vamos falar com a imprensa e, certamente, a imprensa pode questionar para que valeu essa reunião. E eu só tenho uma resposta, por tudo que eu conheço de reuniões que eu participo, só posso dizer que valeu a pena. Se não tivéssemos feito mais nada, só o fato de o Grupo do Rio ter aprovado a volta de Cuba às instituições e às instituições multilaterais, já é um feito inusitado, porque os que presidiram os países antes de nós não tiveram coragem de colocar Cuba no Grupo do Rio.

Portanto, de coração, muito obrigado a cada um de vocês, aos presidentes, às presidentas, aos ministros, aos assessores. E, agora, eu só posso terminar convidando vocês para um almoço. A coletiva é depois do almoço, estamos com fome, estamos com “hambre”, já são duas horas.

Uma coisa importante, companheiros, é que até o final de 2010, até terminar o meu mandato, já tem um decreto publicado, da Embaixada residente em Granada, e faltam apenas quatro países, Antígua e Barbuda, Dominica, São Cristóvão, e São Vicente e Granadinas. Até 2010, nós teremos embaixadas residentes em todos os países da América Latina e Caribe.

Um abraço, companheiros, e obrigado pela presença.

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