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Eu acho importante o Lucio fazer a tradução para que todas as pessoas, sobretudo as mais humildes, entendam o português do presidente do Brasil. Muitas vezes nós pensamos que todo mundo entende, e a verdade é que tem muita gente que não entende, e também nem todos os portugueses (brasileiros) entendem o espanhol. Então, é importante que haja tradução, porque eu e o Evo viemos aqui falar um pouco para o povo boliviano, para o povo brasileiro de Corumbá, e não apenas para os meios de comunicação.

Eu quero, primeiro, cumprimentar o companheiro Evo Morales, nosso querido presidente da Bolívia,

Quero cumprimentar os ministros integrantes da comitiva boliviana,

Quero cumprimentar o governador do estado do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli,

Quero cumprimentar os ministros integrantes da comitiva brasileira,

Quero cumprimentar a senhora Patrícia Ballivian, presidente da Agência Boliviana de Rodovias,

Quero cumprimentar o senhor Romualdo Hurtado, prefeito de Puerto Suárez,

Quero cumprimentar o senhor Aldo Clavijo, prefeito de Puerto Quijarro,

Quero cumprimentar o senhor Carlos Lafuente, vice-prefeito de Arroyo Concépcion,

Quero cumprimentar o senhor Marcelo Odebrecht, presidente do Grupo Odebrecht,

O senhor Luiz Nascimento, presidente do Conselho de Administração da Camargo Corrêa,

Senhor Adyr Freitas, diretor comercial da ARG

Senhor Pedro Yohvio, presidente da Iasa

Quero cumprimentar os companheiros da imprensa brasileira e da imprensa boliviana,

Empresários bolivianos e empresários brasileiros,

Quero cumprimentar a Guarda Nacional pelo fato de ter cantado tão bem o Hino Nacional brasileiro. Gracias.

Meus amigos e minhas amigas,

É sempre uma grande satisfação retornar à Bolívia e encontrar o companheiro Evo na fronteira viva entre nossos dois países. Estamos aqui para cumprir um compromisso que assumimos na companhia da presidenta Bachelet, em dezembro de 2007, ou seja, inaugurar mais dois trechos da rodovia que ligará Tambo Quemado a Puerto Suárez. Nos aproximamos da conexão definitiva entre os oceanos Pacífico e Atlântico, que ligará o Porto de Santos, no Brasil, ao de Arica e Iquique, no Chile.

Nossos três países ficarão mais próximos. Haverá mais possibilidade de desenvolvimento para as regiões atravessadas pela nova rodovia. A Bolívia se afirmará com o polo estratégico da integração de nosso continente. Espero que ainda neste ano, junto com nossa amiga Bachelet, possamos celebrar a conclusão da obra, tão esperada. Afinal de contas, estão faltando apenas 82 quilômetros.

O Brasil está plenamente engajado no projeto de promover a integração física do território boliviano. Meu governo decidiu participar do financiamento do projeto Hacia El Norte, no trecho Villa Tunari a San Ignacio de los Moxos.

Caros amigos e amigas,

No último ano, as exportações bolivianas para o Brasil cresceram 60%. Nossos programas bilaterais de cooperação agrícola e industrial ajudarão a modernizar o parque produtivo da Bolívia e a diversificar suas exportações. Queremos oferecer novas oportunidades no mercado brasileiro para os produtos bolivianos. Duas importantes missões foram a La Paz no ano passado, para desenvolver parcerias, entre governos e empresários, que ampliem as importações brasileiras. Isso é fundamental, pois a crise financeira ameaça nossa produção, nossos empregos e nossos mercados.

O Mercosul está dando a sua contribuição para preservar as exportações bolivianas. Saúdo a recente decisão do Bloco de comprar produtos têxteis bolivianos em condições preferenciais. O Brasil se empenhará para que esse compromisso entre em vigor no mais curto prazo possível.

Senhoras e senhores,

O presidente Evo tem sido fiel à sua palavra de que nunca faltará gás para o Brasil. Por isso, digo e repito que não faltarão investimentos e consumidores brasileiros para essa riqueza do povo boliviano. Nossos governos acabam de concluir um acordo que está na essência de nossa parceria estratégica. Com transparência e diálogo, asseguramos o suprimento adequado de energia para o parque industrial brasileiro e os recursos necessários para o desenvolvimento da Bolívia.

Precisamos implementar os demais acordos acertados durante a minha visita a La Paz. Avançar na exploração conjunta de novos poços e no treinamento de funcionários da YPFB. Também estamos colaborando para ampliar o acesso à educação e à saúde, e garantir a segurança alimentar à população boliviana.

Nosso compromisso com os direitos básicos de nossos cidadãos explica a prioridade que atribuímos à regularização de trabalhadores migrantes bolivianos e brasileiros. Temos também que dar ênfase às necessidades de nossas comunidades fronteiriças. Vejo com satisfação a entrada em vigor do acordo para permissão de residência, estudo e trabalho a nacionais fronteiriços. Ele terá efeitos práticos e concretos para o bem-estar das pessoas.

Estamos aprofundando a cooperação na área policial e de defesa. Em atenção ao pedido do presidente Morales, o Brasil se dispõe a ceder helicópteros para reforçar o controle e a proteção de nossas fronteiras.

Amigas e amigos,

A construção da Unasul teve no governo boliviano apoio de primeira hora. A Secretaria Pro Tempore exercida pela Bolívia foi decisiva no processo que culminou com o Tratado Constitutivo, em maio de 2008. Pouco depois, vimos a iniciativa da Unasul no acompanhamento do diálogo entre as forças políticas na Bolívia e na missão que ajudou a apurar os preocupantes eventos em Pando. A América do Sul mostrou-se capacitada a resolver seus problemas sem ingerências ou tutelas externas. Com esse mesmo espírito, os países da América Latina e do Caribe se reuniram na Bahia, em dezembro passado. Pela primeira vez na história começamos a coordenar respostas e mobilizar forças regionais para os desafios da conjuntura internacional.

Bolívia e Brasil dão um bom exemplo. Nossos investimentos conjuntos em infraestrutura ajudarão a atenuar os impactos da crise financeira global. Isso não seria possível sem a valorização de instrumento de financiamento de comprovada eficácia como os convênios de créditos recíprocos. O CCR viabiliza projetos prioritários para o desenvolvimento da Bolívia e a geração de emprego e renda para sua população. Vim a Puerto Suárez para reiterar a disposição de colaborar com o povo boliviano, reforçando ainda mais nossa relação estratégica.

Companheiro Evo Morales, há hoje uma nova Bolívia. Seu povo clama por transformações que tragam novas esperanças e perspectivas para todos. Está em curso uma re-fundação democrática que busca reduzir desigualdades e valorizar a diversidade. Tenho a convicção de que o referendo sobre a nova constituição, no próximo dia 25, será passo decisivo nessa direção. Acompanhamos esse processo com atenção e admiração.

O Brasil não é uma ilha. Não teremos prosperidade duradoura se não houver prosperidade para todos os nossos irmãos sul-americanos. É com essa certeza que afirmo que a Bolívia poderá sempre contar com o Brasil e com o povo brasileiro.

Meu caro companheiro Evo Morales,

Eu queria aproveitar esta oportunidade para dizer a você, às demais autoridades bolivianas e ao povo boliviano que o que estamos inaugurando hoje significa progresso, significa desenvolvimento, significa o direito de ir e vir das pessoas e das riquezas que nós produziremos na nossa querida América do Sul.

Hoje estamos vivendo uma crise sem precedentes na história da humanidade. Uma crise que não nasceu na Bolívia, que não surgiu no Brasil, que não surgiu na Argentina ou na Venezuela, que não surgiu na China, nem na Índia e em nenhum país africano. Uma crise genuinamente nascida no coração do símbolo do sistema capitalista, que são os Estados Unidos da América do Norte, e da União Européia, e do país mais rico asiático, que é o Japão. E essa crise não nasceu por excesso de produção. Não surgiu por excesso de demanda da população. Essa crise surgiu por excesso de especulação, por pessoas gananciosas que já não se contentavam em ganhar muito dinheiro nas próprias regras do sistema e inventaram novas regras. A especulação financeira, sobretudo a de financiar por valor muito maior do que era necessário, o consumo do povo americano. Ou seja, um dia a casa cai. E a casa caiu. E hoje milhões de pessoas estão perdendo o emprego em todo o mundo.

Estamos vendo nos jornais, todo santo dia, a possibilidade de a GM, Ford e Chrysler - símbolos da indústria automobilística mundial - quebrarem, se não tiverem investimento do Estado.

O mercado, que durante os últimos vinte anos vendeu a idéia de que o Estado não valia nada e de que o Estado poderia regular tudo e resolver tudo, se mostrou incompetente e inoperante. Quando a crise veio e os bancos começaram a quebrar, o Estado, que não valia nada, funcionou como todo ser humano quando está em perigo, que só lembra de Deus. Os banqueiros se lembraram do Estado e foi o Estado chamado em caráter emergencial para salvar o sistema financeiro que estava especulando.

Eu, Evo, estou torcendo para que o Obama, ao tomar posse, possa anunciar aos Estados Unidos e ao mundo as políticas objetivas que ele vai adotar para diminuir a crise ou para acabar, no médio prazo, com a crise americana. Porque há um dado concreto: os Estados Unidos são a maior economia do mundo e, portanto, uma crise americana traz problemas em quase todos os países exportadores para os Estados Unidos. E por isso, nós bolivianos e brasileiros, latino-americanos, africanos, chineses, indianos, temos que torcer para que a economia americana se recupere logo e que a gente possa ver o mundo voltar a ter perspectiva de crescimento.

Eu estou falando isso com vocês porque ninguém ainda tem dimensão da totalidade dessa crise. A cada dia aparece uma coisa nova, a cada dia aparece uma massa falida e os governos estão colocando dinheiro para salvar os bancos. É preciso colocar dinheiro para salvar o povo e ajudar a parte mais pobre da população. Esse é o desafio que está colocado para todos nós. A crise é americana, é européia, é japonesa, mas a solução é de todos nós.

Por isso, no dia 2 de abril nós vamos a Londres, o G-20 vai se reunir e vai tratar, como ponto prioritário, estabelecer regras para a regulação do sistema financeiro internacional, para que o povo não seja mais vítima da sandice especulativa. Até hoje, Evo, ninguém conseguiu me explicar por que o preço do petróleo chegou a US$ 150 o barril. Ninguém conseguiu me explicar até agora porque o preço da soja subiu o tanto que subiu no mês de junho do ano passado. Alguns logo disseram que era por causa do etanol brasileiro; outros disseram que era o consumo chinês; e os dois não eram verdadeiros. Qual era a verdade? Era que tinha uma especulação no petróleo na Bolsa de mercado futuro. Tinha uma quantidade de petróleo negociada no mercado futuro igual ao consumo chinês. E também, quando o subprime americano começou a ter problemas, os especuladores do subprime foram especular em produtos alimentícios.

Hoje nós já temos mais claro o que está acontecendo no mundo, e temos que ter claro que temos que agir fortemente para que a gente possa não permitir que mais uma vez os pobres do mundo, que não participaram do lucro da especulação, sejam as vítimas dessa crise.

Por isso, Evo Morales, nós no Brasil estamos dispostos a contribuir com os investimentos em infraestrutura que a Bolívia está fazendo, de outros países da América do Sul, porque neste momento é muito importante que o Estado invista os recursos que têm em obras de infraestrutura, em políticas sociais, porque logo aparecerão, Evo, os especialistas para dizer que nós temos que fazer contenção de despesas, que precisamos conter as obras, que precisamos conter as políticas sociais. Ou seja, voltar ao que nós fizemos nos anos 80, em que o Brasil empobreceu, a Bolívia ficou mais pobre e os ricos ficaram mais ricos.

Agora, nós já estamos no governo há quatro ou cinco anos. A América Latina mudou, a América do Sul mudou. O maior exemplo da mudança na América do Sul - eu tenho dito em todos os lugares do mundo - não é um metalúrgico ser presidente do Brasil. A maior mudança é um índio ter sido eleito presidente da Bolívia.

Aconteceu aqui o que aconteceu na África do Sul no fim do apartheid. A minoria branca governou a África do Sul muitos e muitos anos. Mandela ficou preso 27 anos e, ainda assim, os brancos continuavam governando. Minoria absoluta. Um belo dia, os negros descobriram que na democracia prevalece a vontade da maioria, não a vontade do poder econômico ou a vontade da minoria. E Mandela mudou a história da África do Sul.

Aqui na Bolívia aconteceu exatamente o mesmo: a maioria se descobriu. O povo boliviano descobriu que, sendo uma maioria indígena, poderia eleger um presidente índio. E isso está consagrado. O Evo, ao propor o referendo, antecipar as suas eleições, e garantir apenas uma única reeleição, está dando um exemplo democrático que muita gente que governou este país não deu em outros tempos.

O que é importante é a lição de vida e a lição política que nós temos que dar, Evo. Eu não governo, no Brasil, apenas para os pobres ou para os trabalhadores. Eles têm minha prioridade, mas eu governo para todos. Eu tenho a convicção de que nunca os empresários brasileiros ganharam tanto dinheiro como ganham no meu governo. Mas também tenho a convicção de que nunca os pobres estiveram tão bem como estão agora no meu governo. Nós governamos para todos, e é essa, Evo Morales, a lição que está acontecendo aqui na Bolívia. Tem muita gente que ainda não digeriu um índio presidente da Bolívia. Mas eu levei quatro anos para as pessoas digerirem que um metalúrgico pudesse ser presidente. Eu perdi três eleições, grande (parte) delas por preconceito, e hoje nós vencemos isso. As pessoas aceitam com naturalidade, se bem que alguns não vão gostar nunca.

É nesse momento, Evo, que você precisa dar os grandes exemplos. Com a humildade que você tem, depois do acordo feito com a Coordenação da Unasul, você não pode aceitar nenhuma provocação. Está lembrado que em La Paz, eu disse a você: a arma, para a gente enfrentar a adversidade, é paciência. É não fazer o jogo dos adversários, é não ficar brigando com a imprensa, e não ficar fazendo política apenas pela imprensa. É conversar um pouco com o povo, porque no fundo, no fundo, embora sejamos governantes de todos, tu na Bolívia e eu no Brasil, quem precisa do Estado, na verdade, é o povo que nunca participou de nada. São as crianças pobres, são as mulheres e são os homens que trabalharam a vida inteira e que nunca tiveram chance de participar do resultado da riqueza produzida por todos.

Por isso, companheiro Evo, eu quero dizer a você do meu carinho pelo povo boliviano e por você, a minha solidariedade, e dizer ao povo boliviano e dizer a você: contem conosco. Somos irmãos e precisamos estar juntos nos bons e nos maus momentos.

Um abraço e parabéns.

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