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Meu caro companheiro Evo Morales, Presidente da Bolívia,

Companheiros ministros integrantes da comitiva boliviana,

Meu caro governador, André Puccinelli, Governador do estado do Mato Grosso do Sul,

Companheiros ministros integrantes da minha delegação,

Contra-Almirante César Sidônio Daiha, comandante do 6º Distrito Naval,

Companheiros da imprensa boliviana,

Companheiros da imprensa brasileira,

A distância é tão grande que se vocês quisessem jogar um sapato eu teria muito mais chance de me defender do que o Bush teve. Primeiro, dizer a vocês da importância de mais uma reunião entre a Bolívia e o Brasil, entre o governo boliviano e o governo brasileiro. Aos poucos, nós estamos aperfeiçoando e aprimorando as nossas relações. Aquilo que há três anos ou há dois anos parecia divergência, hoje está se transformando em acordo, e acho que nós estamos caminhando a passos largos para concretizar acordos que possam cumprir e atender a todas as necessidades do Brasil e a todas as necessidades da Bolívia. A Bolívia hoje vive um clima de tranquilidade política. Acho que o Presidente Evo Morales teve a sabedoria de conversar na hora certa com os interlocutores que se dispuseram a conversar. Vocês, daqui a alguns dias, terão um referendo e eu espero que mais uma vez vença a vontade popular, vença a democracia. Tanto Bolívia quanto Brasil, e por que não dizer, o mundo todo, estão subordinados a uma crise econômica profunda, uma crise econômica nascida e gerada no coração do chamado mundo desenvolvido. E nós temos a convicção de que hoje os países em vias de desenvolvimento são o mais importante sustentáculo para que a gente possa recuperar a economia mundial. Nós estamos convencidos de que a responsabilidade dos Estados Unidos e a responsabilidade da União Européia, os dois pólos econômicos mais importantes do mundo, tenham a responsabilidade de fazer com que essa crise nos seus países tenha a menor duração possível para que os países pobres, que não têm nenhuma responsabilidade por essa crise, se tornem vítimas dessa crise. No Brasil, o governo já tomou muitas medidas para combater os efeitos da crise. Iremos tomar tantas quantas medidas forem necessárias para evitar que a crise cause danos ao povo brasileiro. E da parte do Governo Federal, e eu penso que isso deve acontecer em todos os países da América do Sul, da parte do Governo e dos estados, nós temos que fazer os investimentos necessários sobretudo em obras públicas para que a gente gere os empregos que as nossas sociedades demandam. Eu, particularmente, estou esperançoso de que com a posse do Presidente Obama no próximo dia 20, como país gerador da crise e país em que a crise está causando mais danos, eu espero que o Presidente Obama, e é com essa esperança que eu vejo a sua posse, tome as medidas imediatas que tem que tomar para reativar a credibilidade nos consumidores e no povo americano e ao mesmo tempo tome as medidas para reativar a economia americana. Se a economia americana for reativada e a economia européia for reativada, obviamente que todos os países afetados pela crise entrarão em um processo de normalidade muito mais rapidamente. É importante que se faça uma diferenciação entre o que está acontecendo no mundo desenvolvido e o que está acontecendo no mundo em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos, hoje eles vivem um problema sério de recessão, e nos países em desenvolvimento, nós vivemos um problema de retração. Ou seja, não tem nenhum país pobre em recessão, o que está acontecendo nos países pobres é a possibilidade, se a crise não for resolvida logo, desses países em vez de crescerem 5, 6, 7, 4%, diminuírem o crescimento. Daí a importância do Estado fazer os investimentos que precisam ser feitos para reativar a economia. E para mim foi muito gratificante vir à Bolívia e estar dando esta entrevista aqui no Brasil, em Corumbá, para participar da inauguração de uma rodovia que, quando completarmos os últimos 82 quilômetros que faltam para asfaltar essa rodovia, nós teremos praticamente completado um trecho interoceânico fazendo com que o Pacífico e o Atlântico se tornem mais próximos para os países que participam dessa rodovia, que são a Bolívia, o Brasil e o Chile. Quero dizer ao companheiro Evo Morales que saio daqui para uma reunião na Venezuela, para discutir também as parcerias que nós temos com o governo venezuelano de investimentos também em rodovia, em ferrovia, em projetos industriais, porque eu penso que a América do Sul vive um momento singular na sua história. Primeiro, nesses quinhentos anos não existe nenhum exemplo de tantos governos progressistas, socialistas e comprometidos com os trabalhadores como há na América do Sul hoje e na América Latina. Segundo, porque depois de perdermos praticamente toda a década de 80 e praticamente a década de 90, quando as economias não cresciam e a dívida externa era uma agonia para todos os países. Todos os países da América do Sul estão experimentando um ciclo de crescimento e nós estamos, a partir dessa experiência, tomando consciência que somente com muita democracia, com muita paz e com muita tranqüilidade a gente pode elaborar os bons projetos de desenvolvimento e encontrar os recursos para que esses projetos possam ser executados. Eu tenho a esperança de que se Deus ajudar, ainda este ano, se a empresa brasileira Braskem, a Petrobras e a IPSB se colocarem de acordo, nós poderemos estar aqui lançando o extraordinário projeto gás-químico entre Corumbá e Puerto Suárez, para dar à Bolívia um potencial industrial, um setor de ponta da economia mundial e da indústria mundial, que é o setor petroquímico, em torno de uma indústria gás-química, dezenas de outras pequenas empresas se juntarão e possivelmente a gente possa viver algum tempo para ver tanto a região da Bolívia, como essa região do Brasil se desenvolverem de forma extraordinária. É com muita esperança, companheiro Evo, que daqui a pouco vou me despedir de você e dos seus companheiros. E para provar que nós queremos que as relações entre Bolívia e Brasil sejam cada vez mais produtivas, cada vez mais solidárias e cada vez tenha mais contribuição do Brasil. Porque vocês sabem que nós, no Brasil, defendemos a idéia de que pelo fato de o Brasil ser a maior economia do continente, nós temos mais obrigação de ajudar os países que têm menos possibilidades econômicas do que o Brasil. Para isso eu já marquei com o companheiro Evo Morales que a partir de agora, até aperfeiçoarem definitivamente as nossas relações, até que a gente vença os trâmites da burocracia de cada um dos nossos países, nós vamos estabelecer um calendário de reuniões em que a gente possa se reunir pelo menos quatro vezes por ano, de preferência nos reunirmos na Bolívia porque... nos reunirmos na fronteira, porque assim ele visita uma cidade boliviana da fronteira, eu visito uma cidade brasileira e a gente cumpre as nossas obrigações com o Estado nacional, e depois a gente cumpre com as nossas obrigações nas nossas relações bilaterais. Dito isso, eu quero passar a palavra ao companheiro Evo Morales, para que depois a gente possa se submeter, democraticamente, sem "sapataço", às perguntas da imprensa brasileira e da imprensa boliviana. Muito obrigado, gente. Alguém aproveita e coloca um copo d'água lá para o Evo também, porque não tem coisa pior do que a gente estar falando, engasgar e não ter um pouco d'água para a gente beber. Jornalista: Boa tarde, Presidente. A gente queria saber sobre uma situação que está gerando um pouco de mal-estar internacional, que é sobre o italiano Cesare Battisti. O ministro da Defesa na Itália chegou a declarar agora à tarde que essa possibilidade de o Brasil conceder asilo político a ele é ofensiva, pode até colocar em risco a boa relação que a Itália sempre teve com o Brasil. Como é que o senhor, como Presidente do Brasil, se posiciona nessa situação, que está gerando esse impasse com a Itália? Presidente: Primeiro, a decisão brasileira é uma questão de soberania do Estado brasileiro. Nós, assumindo uma posição soberana, tomamos uma decisão de entender que essa pessoa italiana não precisaria voltar para a Itália, que ela poderia ter o status de exilado aqui no Brasil. O Brasil é um país generoso, tem na sua história muitos exemplos de pessoas que aqui pediram asilo e que aqui ficaram exilados, que moraram muito tempo. Esse cidadão em pauta, ele é acusado de um crime cometido no ano de 1978. Portanto, já faz 32 anos. O acusador, na verdade, fez um processo de delação premiada. Depois esse cidadão tirou logo os documentos, ou seja, é um cidadão que hoje nem existe para provar aquilo que ele falou. Esse cidadão veio para o Brasil, trabalhou, hoje é um escritor no Brasil. O Ministro da Justiça, cumprindo com as obrigações que são pertinentes ao Ministério da Justiça, entendeu que esse cidadão deveria ficar no Brasil. Tomou a decisão, e é uma decisão do Estado brasileiro, portanto, alguma autoridade italiana pode não gostar, mas tem que respeitar. É importante lembrar que na França, recentemente, uma pessoa que participava, no mesmo ano, das mesmas coisas, foi exilada na França também. Se a gente aprender a respeitar as decisões soberanas de cada país, tudo vai ficar melhor entre nós. Eu não acredito que haja qualquer problema na relação Brasil e Itália, porque é uma relação histórica, eu diria que é uma relação tão forte, que não é um problema de um exilado que vai trazer uma animosidade na relação Brasil e Itália. Jornalista: Nem com o G-8? Presidente: Nem com o G-8, nem com o G-9, nem com o G-10, nem com o G-11. O que nós precisamos é aprender a respeitar as decisões soberanas de cada país. O Brasil entendeu que era correto, tomou a decisão e eu acho que os italianos precisam respeitar. Podem até não concordar, mas têm que respeitar a decisão soberana do Brasil. Jornalista: Presidente Lula, muito boa tarde. (incompreensível) fundamentais. Primeiro, a satisfação que o senhor expressou pelo presidente Evo Morales. (incompreensível) sua palavra e não vai faltar gás na Bolívia", dizia. Ao mesmo tempo, havia a possibilidade de novos avanços, (incompreensível) exploração de novos campos em nosso país. A pergunta concreta, senhor Presidente, é quando começaria a (incompreensível), e em todo caso, se estariam participando as empresas (incompreensível), entre as quais se encontra a Petrobras? Obrigado. Presidente: O ministro Lobão, que é o ministro de Minas e Energia do Brasil, mais o ministro de Hidrocarburos da Bolívia se reuniram no final do ano passado e concluíram um acordo que dá tranquilidade à Bolívia e que dá tranquilidade ao Brasil. Definimos o papel de cada um nessa questão do gás e, ao mesmo tempo, a Petrobras e o governo brasileiro assumiram o compromisso de investimentos de US$ 1 bilhão e 100 milhões nos próximos anos. Isso nós vamos fazer, não apenas porque precisamos do gás, mas porque compactuamos um acordo com o governo boliviano e vamos cumprir. Eu espero que daqui para a frente a gente não tenha mais tormentas nessa questão do gás. O Brasil precisa do gás da Bolívia, e a Bolívia precisa que o Brasil compre o gás da Bolívia. As indústrias brasileiras precisam do gás, as indústrias bolivianas precisam do gás. Nós temos interesses econômicos para o benefício do povo boliviano e do povo brasileiro e eu acho que as coisas estão acordadas. Eu comecei a minha fala aqui dizendo que aquilo que há dois ou três anos parecia motivo de grande divergência entre Brasil e Bolívia hoje está se consolidando em acordos altamente produtivos para os dois países. Jornalista: Presidente, eu queria que o senhor comentasse com a gente um pouco sobre a crise financeira mundial que o senhor já falou nos seus discursos, mais especificamente sobre os empregos que estão sendo cortados no Brasil. Na área automotiva, a gente tem tido vários anúncios desse tipo. Hoje a força sindical disse que não negociaria mais com a Fiesp a redução de horas, enfim, não teria mais nenhuma negociação a não ser que o governo entrasse nesse meio. Eu queria saber se o senhor vai assumir, se é possível, a sua posição de sindicalista novamente e vai entrar nessa negociação. Como que o governo pretende, enfim, negociar essa redução de empregos? Presidente: Primeiro, a crise. Ela é motivo de preocupação, mas ela não pode ser motivo de nenhuma precipitação, nem do governo, muito menos dos empresários. O Brasil vai terminar o ano com um saldo positivo de quase 1,5 milhão de empregos novos, criados nesses 12 meses. Tivemos uma anormalidade no mês de dezembro, e é importante lembrar que, na série histórica, o mês de dezembro é sempre anormal. Ainda não temos dados oficiais, mas nós vamos ter para o mês de dezembro que, na série histórica, é por volta de 300 mil, 400 mil demissões. Nós vamos ter um pouco mais, talvez cheguemos a 800 mil [aqui, o Presidente quis dizer 600 mil] demissões, mas é importante lembrar que também o crescimento da geração de empregos no ano de 2008 foi até anormal para os padrões brasileiros. Chegamos até outubro com 2 milhões e 100 mil trabalhadores contratados. A informação que eu obtive é de que a GM estava dispensando trabalhadores que ela tinha contratado por contratos com prazo determinado, portanto eram trabalhadores que tinham contratos até março. E ela resolveu demitir, pela informação que eu tenho, pagando o salário de fevereiro, pagando meio salário de março. Ontem eu tive uma reunião com o Ministro da Fazenda e pedi para que ele entrasse em contato com a GM e pedisse para ela pagar a totalidade do salário de março, para cumprir totalmente o contrato. Pedi ao Ministro do Trabalho para que me fizesse uma relação de todas as categorias econômicas, e também hoje pedi ao Miguel Jorge que me apresente, na próxima semana, uma relação por categoria econômica. Quem é que está dispensando, por que está dispensando... porque obviamente nós precisamos cuidar dessa situação pontualmente, setor por setor, senão você dá a impressão de que o desemprego está acontecendo em todos os lugares. Nós tivemos uma anormalidade na indústria automobilística por conta da crise e da falta de crédito no final do ano. Isso foi normalizado em dezembro com a redução do IPI e as empresas tiveram uma grande venda no mês de dezembro. Nós agora estamos estudando para ver o que vai acontecer no mês de janeiro e no mês de fevereiro... no primeiro trimestre, que são os meses mais inquietantes para a gente saber da sustentabilidade da capacidade da política industrial brasileira resistir, sobretudo, à questão do crédito. Nós tomamos a decisão no final do ano de comprar, através do Banco do Brasil, 50% do Banco Votorantim, que tem a maior carteira de carros usados, para que a gente possa aprender, ou seja, pegar expertise na questão de financiamento de carro e a gente resolver o problema do crédito. No mais, nós estamos acompanhando a economia diariamente, o ministro Guido Mantega, o Presidente do Banco Central e eu temos conversado praticamente todo dia. Nós já tomamos algumas medidas, algumas já surtiram efeito imediato, outras vão surtir efeito mais proximamente. Este mês ainda tomaremos novas medidas para ajudar a reativar a economia brasileira e vamos trabalhando com a certeza de que o Brasil é hoje o país mais preparado para enfrentar essa crise. Aliás, não sou eu que digo, se você pegar o relatório do OCDE vai perceber que a OCDE diz também que o Brasil é o país mais preparado para enfrentar essa crise. Eu acho que o grave problema que nós temos e que não foi totalmente resolvido é a questão do crédito. Primeiro, porque o crédito internacional desapareceu e 30% do crédito brasileiro era crédito tomado no exterior. Na medida em que você não tem esses 30% de crédito atendendo às necessidades do mercado brasileiro, sobretudo das grandes empresas, elas se voltaram para o mercado interno, para o sistema financeiro, que não teve fôlego para atender a demanda que já atendia mais 30% que não era atendido lá fora. Nós estamos também resolvendo isso. Já garantimos, com decisões do governo, de garantir financiamento para todos os investimentos da Petrobras. Já garantimos as nossas exportações, vamos garantir os nossos exportadores e vamos discutindo caso a caso. Na medida em que se apresenta um setor, o setor siderúrgico, o setor químico, o setor do etanol, o setor do automóvel. Cada um que se apresentar com um problema, nós vamos de forma cirúrgica atender aquele caso e tentar resolver aquele problema. Então nós estamos acompanhando muito de perto, muito de perto, e eu tenho certeza que nós vamos ter um ano melhor do que muitos países. E o Brasil vai continuar crescendo. Jornalista: (inaudível) Presidente: Veja, as negociações... eu não sei como é que aconteceram as negociações entre a Força Sindical e a Fiesp. Não acompanhei, mas certamente na segunda-feira, se você me perguntar, eu já terei a obra do acordo. Nós temos acordos feitos em condições melhores, por exemplo, a Peugeot ou a Renault, lá no estado do Paraná, ela fez um acordo mais qualificado. Eu tenho uma reunião com todas as centrais sindicais na segunda-feira. Quero saber o que eles estão pensando, para saber o que o governo, empresários e sindicatos podem fazer conjuntamente para evitar que uma crise que nasceu nos Estados Unidos venha trazer prejuízos para o povo brasileiro que nem sabia que existia o subprime, muito menos sabia que existia a bolha econômica que existiu nos Estados Unidos. De qualquer forma, nós vamos trabalhar atentamente para que o Brasil saia perfeitamente bem dessa crise. Jornalista: Se estaria em condições de mediar junto ao Presidente norte-americano, Barack Obama, para melhorar as relações entre Estados Unidos, Bolívia, Venezuela e Cuba, relações que nos últimos tempos se tornaram mais (inaudível) diante da expulsão dos embaixadores da América do Norte, tanto da Venezuela quanto da Bolívia. E se o senhor estaria em condições de fazer isto e quando seria isto? Presidente: Primeiro, nem a Bolívia, nem a Venezuela estão precisando de mediação. Tanto o Presidente Evo Morales, quanto o Presidente Chávez tem a mesma autoridade que eu para depois que o Obama tomar posse, pegar o telefone, ligar para o Obama, ou através dos embaixadores em Washington tentar marcar uma audiência com o Obama e discutir o assunto Bolívia e Estados Unidos, Venezuela e Estados Unidos e Brasil e Estados Unidos. Cada um de nós tem autoridade para fazer essa discussão. O que eu disse publicamente: que nós precisamos aproveitar essa oportunidade em que o povo americano dá um voto tão extraordinário quanto o voto que o povo boliviano deu ao Evo Morales, porque eu comparo a eleição de um negro nos Estados Unidos a Presidente da República à eleição de um índio eleito presidente aqui na Bolívia. E eu espero que por esse fato extraordinário, que foi a eleição do Obama Presidente dos Estados Unidos, que ele tenha um outro olhar para a América Latina, um outro olhar para a América do Sul, um outro olhar para a África, um outro olhar para a América Central, que tem muitos países dependentes da economia americana. Países aqui na América do Sul, países na América Central, dependem 40, 50, até 60% das suas exportações dependem do mercado americano. Portanto, o Presidente Obama, e eu tenho a convicção que pelo discurso da Secretária de Estado, Hillary Clinton, feito na semana passada - que é preciso ter um novo tratamento para a América Latina - que há uma possibilidade de, depois de muitas décadas, a América Latina ter uma relação com os Estados Unidos em que os Estados Unidos não sejam o soberano. Que seja uma relação entre iguais, de chefes de Estado mais ricos ou mais pobres, mas todos chefes de Estado, legitimados pelo voto popular e que os Estados Unidos, como economia mais importante do mundo, têm mais responsabilidade em não permitir que os países periféricos aos Estados Unidos, sobretudo os menores e mais pobres, sejam vítimas dos erros da economia americana. Eu espero que o Presidente Obama tenha essa sensibilidade e que olhe, uma vez na vida, para a América Central e para a América Latina diferentemente do olhar americano, que via aqui, primeiro, comunistas; depois, terroristas; depois, traficantes; depois, produção de drogas. Quando na verdade, se os países ricos que têm preocupação com os supostos fabricantes de drogas, tivessem a mesma preocupação com os usuários que estão nos países ricos, ficava muito mais fácil combater as drogas na América Latina e no mundo. Então, é com esse olhar de parceria, de solidariedade, de uma nova política internacional que eu espero que o Presidente Obama mantenha relações com a nossa querida América do Sul e América Latina. A Bolívia é um país importante, então, para quê os Estados Unidos vetarem a compra dos produtos têxteis da Bolívia? Não tem nada melhor para combater os narcotraficantes do que o desenvolvimento econômico, a geração de empregos e a distribuição de renda em cada país. É com esse olhar que eu quero que o Obama olhe para a Bolívia, para o Brasil, para a Venezuela. Acho - aí já é uma opinião pessoal minha - eu não acho que o Evo Morales deva esperar um chamado do Obama. Não acho que o Chávez deva esperar um chamado do Obama. Eu acho que cada um de nós tem que, na hora em que sentir necessidade de conversar, tentar através dos nossos embaixadores, de um telefonema, marcar uma audiência, conversar e discutir de forma soberana os interesses de cada um dos nossos países e os interesses da América do Sul. Eu quero te dizer que eu tenho muita esperança de que o Presidente Obama faça um governo diferente do que foi feito até agora para a América Latina e para a América do Sul. Onde antes eles viam comunismo, onde antes eles viam terrorismo, eles têm que ver democracia, eles têm que ver a força da democracia que está existindo neste continente. Quando o Obama olhar para o Evo Morales, ele tem que dizer: "Puxa vida, esse índio foi eleito Presidente da Bolívia" e tem o mesmo significado de um negro ter sido eleito Presidente dos Estados Unidos e de um metalúrgico ter sido eleito Presidente do Brasil". Se olhar assim, vai ficar muito mais harmônica a relação entre todos os países da América Latina com os Estados Unidos. E não uma relação de subserviência que ao longo da história aconteceu entre Estados Unidos e os países da América Latina.

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