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[Quero cumprimentar] minha amiga, companheira e Presidenta da Argentina, Cristina Kirchner,

Quero cumprimentar os dois ministros que têm contribuído de forma extraordinária para que nossas relações sejam sempre melhores: o ministro Jorge Enrique Taiana, ministro das Relações Exteriores e Culto da Argentina, e o companheiro Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores do Brasil. E, em nome dos dois, quero cumprimentar todos os demais ministros brasileiros, ministros e ministras argentinos.

[Quero] cumprimentar os empresários.

Não se preocupe, Cristina, que eu não vou ler discurso. Apenas para lembrar aos companheiros argentinos que esta é a minha 14ª visita à Argentina, em seis anos.

Quando tomei posse, ou melhor, quando ganhei as eleições, em 2002, eu anunciei que o primeiro país que eu iria visitar seria a Argentina, e cumpri o prometido: visitei a Argentina. A partir daquele momento, estreitamos as nossas relações, e hoje eu posso dizer que não conheço outro momento histórico da Argentina e do Brasil em que as duas nações estiveram tão próximas, se entendendo tão bem, sem abrir mão da diversidade que existe entre nós.

A Argentina é um país de uma burocracia forte e competente, o Brasil é um país de uma burocracia forte e competente. Duas burocracias que funcionam de forma extraordinária, para facilitar e para dificultar, e que nós, aos poucos, estamos quebrando essa divergência de visão, com muita discussão política.

Eu confesso a vocês, companheiros argentinos, que nós estaremos cada vez mais próximos. Eu não vejo como Argentina e Brasil não compreenderem que do nosso comportamento, das nossas relações, vai depender muito o sucesso do Mercosul, da Unasul e da integração da nossa tão querida América Latina.

Acabou o tempo em que Argentina e Brasil disputavam quem era mais querido pelos Estados Unidos ou pela União Européia. Nós descobrimos, nesses últimos seis anos, que muito mais bonito é fazermos o esforço que for necessário fazer para, a partir da nossa integração e da complementaridade da nossa competência científica, tecnológica, política, cultural, construirmos nos nossos países tudo aquilo que nós precisamos para melhorar a vida do nosso povo.

Eu acho que nós ainda temos que construir muito. De vez em quando eu fico inquieto pela demora dos acordos, de vez em quando a Cristina fica inquieta, na América do Sul, de vez em quando, Chávez fica inquieto, o Evo fica inquieto, o Uribe fica inquieto, o Alan García, todo mundo, porque as coisas demoram mais do que a gente esperava.

Entretanto, se nós imaginarmos o avanço político da nossa integração nesses últimos seis anos, vamos perceber que andamos uma caminhada muito grande para chegar aonde chegamos. Primeiro, tornar os países da América do Sul amigos e um confiar no outro não era uma tarefa fácil. Conseguimos. Segundo, recuperar o prestígio e a importância comercial do Mercosul. Conseguimos. Terceiro, criamos a Unasul. Muita gente cobra de nós porque a Unasul demora tanto para se fortalecer. As pessoas se esquecem de que a União Européia levou 50 anos para ser o que é hoje, e eu acho que nós já andamos de forma extraordinária.

Além do quê, o progresso político e ideológico da América Latina. Não precisa ninguém fazer um grande esforço intelectual para saber o que era o nosso continente há dez anos. Olhem agora e vejam a mudança extraordinária nos atores sociais e nos segmentos sociais que foram ocupando os cargos de presidente em todo o continente latino-americano. E, com essa mudança, houve a mudança de visão do papel do Estado. Aquela história que se vendeu durante muitos anos, que só era possível melhorar a vida das pessoas se a economia crescesse, e que ela tinha que crescer muito para depois distribuir, nós provamos que as duas coisas podem acontecer concomitantemente: você pode crescer distribuindo renda e pode distribuir renda para crescer.

Inegavelmente, a Argentina vivia um momento de ouro antes dessa crise. Inegavelmente, o Brasil vivia um momento excepcional antes dessa crise. Aliás, acho que é a primeira crise no mundo que pega os países emergentes, e sobretudo os da América Latina, melhores do que os países europeus e do que os próprios Estados Unidos da América do Norte, é a primeira.

Obviamente, eu e Cristina torcemos para que a Europa se recupere logo, e os Estados Unidos, porque eles são grandes países, têm muito conhecimento científico e tecnológico, compram muito os nossos produtos, e nós queremos comercializar com eles. Mas é importante registrar para a história que as pessoas não podem mais tratar a América do Sul, a Argentina e o Brasil como tratavam na década de 80, ou na década de 90, em que qualquer um que viesse do Norte podia chegar aqui dando palpite na nossa vida, dizendo o que a gente tinha que fazer, o que a gente tinha que produzir e qual a política fiscal que nós íamos elaborar. Quantas e quantas vezes as ingerências dos que causaram a crise... Se fossem tão fiscalizadores das finanças mundiais, como foram da Argentina e do Brasil, nós saberíamos da crise três anos antes, dois anos antes. Agora já começam a dizer quando a Argentina vai crescer, o que a Argentina merece, quando o Brasil vai crescer.

Eu não quero ser desrespeitoso com ninguém, mas eu quero dizer em alto e bom som que o Brasil só deu certo quando ele foi dono do seu nariz, quando não aceitava que pessoas de fora dissessem o que a gente tinha que fazer.

Eu acho, Cristina, que uma coisa importante que está acontecendo, que de vez em quando alguns companheiros não valorizam... Mas vamos ser francos, Taiana, Celso Amorim - vocês que são duas pessoas experientes -não é motivo de orgulho para vocês, saber que Argentina e Brasil estão participando do G-20? Quando é que a gente imaginava um país da América do Sul participar do G-20? Muita gente acha isso pouco. Mas era importante, como disse o Obama... Um dia o Obama disse: "Governar o mundo era fácil, há 60 anos. Churchill e Roosevelt se reuniam, cada um fumando o seu charuto, tomavam as decisões e o mundo acatava". Eram dois homens que tomavam atitudes... Depois entrou o Stalin, já para repartir. Mas onde nós éramos chamados para alguma coisa? Onde é que nós éramos ouvidos?

Hoje, não. Hoje, a democracia é exercida com um pouco mais de maturidade, porque o sucesso da reunião do G-20 - que eu acho que foi muito importante, muito mais do que eu esperava quando saí do Brasil - se deveu ao fato de que ninguém sabia a solução do problema, de que os Estados Unidos estavam muito humildes, de que a Alemanha estava muito humilde, de que o Reino Unido estava muito humilde. Então, estava todo mundo à espera de que alguém soubesse o que fazer. Todo mundo estava à espera. Também, ninguém sabia o que fazer, cada um sabia cuidar do seu, cada um sabia cuidar do seu país. Mesmo assim, eu nunca vi tanta humildade, simplicidade, e é assim que tem que ser, é assim que precisa ser.

O Celso se lembra, uma vez eu fui convidado para o G-8. Cheguei no G-8... era para tomar [participar de] um almoço, quase que eu chego na hora da sobremesa. Viajar até Berlim para tomar um café! Muito caro esse café. Cheguei lá, levei um documento totalmente contrário ao documento apresentado pelo G-8, um documento feito pela China, Índia, Brasil e África do Sul. Aí, a primeira-ministra Angela Merkel pegou o documento da minha mão e falou: "Eu concordo com o documento". Eu falei: Angela, não é verdade. O teu documento é antagônico ao meu, então, como é que você pode adotar os dois? Então, eu disse ao Celso: eu não vou mais ao G-8, não me convide que eu não vou mais. Pode ser chique para alguém, para mim, participar de café. É muito caro o café.

Bem, no Japão eles já mudaram, e agora vão mudar. Agora o G-8 já vale muito pouco diante do G-20, e daqui a pouco o G-20 estará pequeno, na hora em que a ONU assumir a discussão da crise mundial e todos os partidos [países] participarem.

Agora, eu penso - e queria fazer um apelo aos companheiros aqui - que nós precisamos parar de falar em crise. Eu acho que nós precisamos pensar o pós-crise.

Eu tenho consciência de que os Estados Unidos estão numa situação - hoje, falando em crise - pior do que qualquer país menor. Tenho consciência disso. Obviamente que eles, que produzem dólares, têm a vantagem da maquininha de fabricar dólar, e têm a vantagem de serem um país de um PIB de US$ 17 trilhões, não é pouca coisa. Mas eles estão numa situação complicada, porque têm déficit público muito grande, porque têm déficit comercial muito grande, porque tem a China, que os Estados Unidos têm que responder, a América Latina, que os Estados Unidos têm que responder, sobretudo para os países do Caribe e os países do Caricom.

Mas por que eu acho que a gente não tem que falar em crise? Eu não passo otimismo exagerado. Não me peçam para passar otimismo exagerado. Eu sempre disse que essa crise, metade dela era pânico, e a outra metade era crise real.

No dia 22 de dezembro do ano passado, Cristina, eu fui para a televisão fazer apologia do consumo, para que o povo brasileiro comprasse, para fazer a roda da economia girar. Hoje eu estou convencido de que os Estados Unidos têm que fazer isso, estou convencido de que a Europa tem que fazer isso, e estou convencido de que eles só vão fazer quando restabelecerem o crédito e a normalidade do crédito. Eu estou convencido.

Tenho a convicção - e quero terminar, Cristina, dizendo a você - de que nós precisamos fazer todo o esforço que for necessário, [para] que não tenha assunto tabu entre nós, [para] que não tenha assunto difícil, [para] que não seja o empresário que pensa que está perdendo um pedaço de mercado, um argentino ou um brasileiro, que demova o governo argentino e o governo brasileiro de firmarem a convicção, cada vez mais, de que a integração é a melhor, a maior e a mais eficaz oportunidade de Brasil e Argentina saírem dessa crise infinitamente mais forte do que entraram.

Os meus adversários políticos, de vez em quando, parece que torcem para a crise ser forte no Brasil, para que eu tome prejuízo. Eu digo sempre, Cristina: eu nunca tive medo de crise. Nunca tive medo de crise. Eu sou de uma região do Brasil tão miserável, que se o menino que for nascer tiver medo de crise, ele já nem nasce. [Não] nasce, porque a mortalidade é muito grande, a mortalidade, antes do primeiro ano de vida, é muito grande.

Eu acho que essa crise é a oportunidade fantástica para a gente fazer, de forma ousada, tudo aquilo que nós não fazíamos antes, porque tinha norma de Basiléia, tinha norma do FMI, tinha norma do Banco Mundial. Essas normas foram boas para um momento. Para alguns países significou quebrar os países. Agora, eu acho que nós temos que criar as nossas normas, porque foi para isso que nós fomos eleitos, e essa crise é uma oportunidade extraordinária.

Por isso, eu quero desejar à minha amiga Cristina e aos companheiros argentinos que estejam certos de que essa crise, nós a venceremos juntos.

Um abraço.

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