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Excelentíssima senhora Michelle Bachelet, Presidente da República do Chile,

Senhora Monica Serra,

Senhor Presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer,

Senhores Ministros chilenos e brasileiros, e demais integrantes das delegações dos dois países,

Senhores Presidentes da Fiesp e da Sofofa,

Senhoras e senhores empresários,

Jornalistas,

Amigos e amigas,

É uma alegria vir a São Paulo encerrar este Seminário, ao lado da minha querida amiga Michelle Bachelet e de empresários chilenos e brasileiros que nos ajudam a fortalecer a aliança entre nossos países.

Na semana passada, Michelle e eu nos reunimos em Assunção com os demais parceiros do Mercosul. Falamos, mais uma vez, da crise econômica e financeira internacional. Examinamos as razões pelas quais nossos países, ao contrário de outras conjunturas, mostraram-se preparados para enfrentar essa grave adversidade. Enquanto países do mundo rico se deixaram levar pela promessa dos ganhos fáceis da especulação, fizemos outra aposta. Chile e Brasil optaram, claramente, pela economia da produção, do emprego e da distribuição de renda. Hoje vemos que a solidez dos fundamentos das nossas economias está diretamente vinculado ao nosso compromisso em combater a pobreza e a desigualdade.

Querida Presidenta,

A amizade entre os nossos países é histórica. Nossa relação vem atravessando um período excepcional nos últimos anos. Desde quando lançamos a Aliança Renovada, em 2006, reafirmamos compromissos e adotamos instrumentos para fortalecer nossa cooperação. A conformação da comissão bilateral Brasil-Chile, presidida pelos ministros de Relações Exteriores, permitirá impulsionar os principais temas da agenda bilateral, com destaque para o comércio, investimentos, temas sociais, infraestrutura e energia.

Acelera-se a integração da América do Sul. A região pôde contar com a liderança criativa, firme e serena da presidenta Bachelet à frente da nossa Unasul, sobretudo para superar o impasse político na Bolívia, no ano passado. Sob sua condução, progressos foram alcançados em várias frentes de integração.

No plano da infraestrutura física estamos avançando a passos decididos. Em breve poderemos inaugurar, juntamente com o presidente Evo Morales, o corredor bioceânico Santos-Iquique. Ele ajudará a desenvolver mercados e as trocas do interior de nosso continente. Estimulará o crescimento de regiões menos favorecidas. Aumentará, particularmente, o fluxo de pessoas e mercadorias entre os nossos países.

Para tanto, simplificaremos os trâmites de controle fronteiriço. O Memorando de Entendimento entre a nossa Receita Federal e o Serviço Federal de Aduanas chileno, assinado hoje, é importante passo nessa direção.

Senhoras e senhores,

Brasil e Chile devem seguir determinados a fazer do comércio e dos investimentos um fator de desenvolvimento. Em 2008, nossas trocas alcançaram a cifra recorde de US$ 8,8 bilhões. O Chile foi, no ano passado, o segundo parceiro comercial do Brasil na América Latina e Caribe. Como nossas economias são complementares, tenho certeza de que os níveis de comércio afetados pela crise voltarão a crescer em breve. Eventos como os de hoje são fundamentais para tanto. O Chile é o maior investidor latino-americano no Brasil.

Aqui, me permitam, 30 segundos de improviso. É uma vergüenza que um país de menos de 20 milhões de habitantes, com o PIB muito menor do que o brasileiro, invista... para US$ 4 que o Chile investe aqui, nós investimos US$ 1 lá. Eu compreendo que durante muito tempo a gente não olhou com bons olhos para os nossos irmãos da América do Sul. Mas eu acho que está na hora... e Deus queira que essa crise tenha servido de lição para o governo, para os empresários, para os trabalhadores e para todos nós da América do Sul. Eu espero que Deus tenha iluminado cada um de nós e que a gente perceba que a diversificação dos nossos investimentos, a diversificação dos nossos comércios, a diversificação dos nossos produtos e a diversificação dos nossos parceiros é uma grande garantia contra a crise que, como esta, pode se repetir em vários momentos, se a gente não acabar com a especulação, se a gente não acabar com os paraísos fiscais e se a gente não acabar com a maldita ideia de alguém achar que pode ganhar dinheiro apostando na loteria o dia inteiro. É preciso ganhar dinheiro produzindo produtos e isso, sim, gera riqueza para o nosso país.

Certamente que já houve uma evolução importante das nossas empresas e elas estão cada vez presentes no Chile, também no setor financeiro e distribuição de derivados do petróleo. Nós já tomamos a decisão, Michelle, de que o nosso Banco do Brasil vai ter que ter agências em Estados importantes onde o Brasil tenha uma boa balança comercial, porque já tivemos há 20 anos, há 25 anos. Ou seja, não há porque retroceder e o Brasil não ter uma participação mais forte nos países com que o Brasil mantém uma boa relação política e, sobretudo, uma boa balança comercial.

A entrada em vigor de instrumentos que negociamos nos últimos dois anos, relativos às zonas francas e ao comércio de tecidos, oferecerá oportunidade para diversificar e incrementar o comércio. No plano energético, Brasil e Chile podem ajudar a estabelecer um mercado mundial de combustíveis renováveis, combustíveis mais limpos e baratos que os derivados de petróleo, que geram mais empregos e renda para o trabalhador do campo. A esse respeito, precisamos definir data para ida, ao Chile, de missão brasileira na área de biocombustíveis, para discutir com os nossos irmãos chilenos.

É de extrema importância alcançar uma matriz tecnológica comum, e nós precisamos trabalhar isso porque agora, em dezembro deste ano, vamos ter em Copenhague a grande conferência mundial sobre a questão climática. Eu já senti o que os países ricos estão preparando para propor em Copenhague. Eles querem continuar com o mesmo padrão de consumo, com o mesmo padrão de produtividade, com o mesmo padrão de vida que têm e querem que nós sejamos os sequestradores do carbono que eles colocam no ar.

Nós já começamos uma discussão e acho, Michelle, que nós temos que convocar uma reunião da Unasul antes de a gente ir para Copenhague, para que a gente discuta seriamente uma proposta da América do Sul. Obviamente que nós queremos contribuir para sequestrar carbono, obviamente que nós queremos fundo para ajudar na preservação ambiental. Mas é preciso que o fundo seja acompanhado de um compromisso de que eles vão diminuir, substancialmente, as emissões de gases de efeito estufa, porque senão eles ficarão crescendo e nós, decrescendo. Não é justo, não é possível, e essa discussão nós já fizemos.

Eu contava para a Michelle que o G-5 já se colocou contra essa posição do G-8, e nós vamos para Copenhague numa disputa muito forte, política, porque nós não poderemos deixar prevalecer os interesses dos países ricos ou os interesses de algumas ONGs que acham que a gente tem que continuar pobre como nascemos. Nós temos o direito de progredir e, para isso, é preciso que a gente cresça industrialmente e economicamente. Então, nós vamos bem preparados para esse debate de Copenhague. Eu tenho certeza de que os interesses do Brasil e os interesses do Chile são totalmente iguais, e nós vamos fazer uma boa disputa lá.

Também o turismo é outro setor com enorme potencial. Na América Latina, o Chile é o segundo país que mais envia turistas para o Brasil, sendo que, no mundo todo, é o quinto país a enviar turistas para o Brasil. Pense como o chileno gosta de viajar!

Outra iniciativa que irá dinamizar o comércio, sobretudo no âmbito das micro, pequenas e médias empresas, é o instrumento que firmamos com vistas à criação de programa de exportações por remessas postais no Chile, a exemplo do Exporta Fácil, que é um programa brasileiro.

Fico satisfeito em anunciar, ainda, nossos entendimentos na área da Previdência Social, que beneficiarão brasileiros que residem e trabalham no Chile, e os chilenos que vivem e trabalham no Brasil.

Aqui, vocês que passaram seis anos pedindo para o Chile comprar carne brasileira, a nossa querida Michelle Bachelet abriu espaço para que a carne brasileira pudesse entrar no Chile. Então, é importante vocês agradecerem, batendo uma salva de palmas para a nossa querida Michelle.

Meus amigos e minhas amigas,

Estamos recebendo, mais uma vez, uma estadista, uma grande companheira que, nos últimos anos, vem se dedicando ao aprofundamento das relações entre Chile e Brasil e trabalhando pela integração da América do Sul. A integração regional é a melhor maneira de nós, sul-americanos, buscarmos o desenvolvimento com justiça social. Ela vai muito além da criação de um simples espaço econômico. Está baseada em valores compartilhados e no entendimento de que a soma de esforços resultará em soluções melhores para as nossas sociedades.

Nosso compromisso com a democracia, todo mundo sabe, é inabalável. Por isso, a presidente Michelle e eu, a exemplo de todos os presidentes da região, condenamos, de forma enfática, o golpe contra o presidente hondurenho Manuel Zelaya. Nós respaldamos todos os esforços para que o presidente Zelaya volte ao seu país o quanto antes, a fim de retomar o mandato que lhe foi outorgado pelo povo.

Senhores empresários,

Estou convencido de que o papel do setor privado de nossos países continuará a ser decisivo, mas sei também que o Estado, como agente normativo e regulador da atividade econômica, desempenha papel fundamental para que nossos ideais mais altos sejam alcançados.

Minha querida amiga Michelle Bachelet, e aos membros de sua delegação, mais uma vez quero expressar minha grande satisfação de participar deste Seminário Empresarial.

Aos empresários chilenos e brasileiros aqui presentes: vocês precisam compreender que nós, políticos, só sabemos fazer política, e quem tem que saber fazer negócio são vocês. Essa crise está a nos provocar, e a gente não pode ficar sentado na varanda da nossa casa esperando que um comprador ou um vendedor passe, batendo palmas, para a gente vender ou comprar. Eu tenho feito boas provocações aos meus companheiros ministros, de vez em quando ao Paulo Skaf, de vez em quando ao Tigre, lá no Rio Grande do Sul, de vez em quando no Rio de Janeiro, de vez em quando o Armando Monteiro Neto: este é o momento de nós fortalecermos as relações que já temos e é o momento de a gente criar novas parcerias.

Eu tenho andado, e o Miguel Jorge tem feito uma experiência... Antigamente a gente gostava muito de ir para Paris, onde se comprava muito pouco de nós, mas nós íamos para lá. Era chique dizer aqui que a gente tinha ido a Paris. Ou ia para Londres, que comprava pouco da gente também, mas era charmoso a gente dizer que ia para Londres. Ou ia para os Estados Unidos ou para a Europa, em vários outros países da Europa em que normalmente a gente já tem uma balança comercial muito equilibrada, muito desenhada. A chance de você vender um corte de pano que um mascate carrega embaixo do braço, na Avenida Paulista, é zero. No Jardim Brasil é zero. No Morumbi é três menos zero. Mas se a gente for no Jardim Miriam, a gente vende. Se a gente for na Vila Prudente, a gente vende. Se for na Vila Carioca, onde eu morei muito tempo, a gente vende.

Então, o que nós precisamos, neste momento, ousar, ser desaforados? É a gente fortalecer, enquanto país, enquanto Mercosul, enquanto Unasul, enquanto parcerias estratégicas que nós temos, alianças com outros blocos que precisam comprar de nós. Eu tenho dito todos os dias: nós vamos vender máquinas agrícolas nossas em Paris? Não. Nós vamos vender máquinas agrícolas nossas na Alemanha? Onde é que nós poderemos vender? Junto a nossos parceiros da América Latina, junto à África, junto aos países que estão em um processo de desenvolvimento similar, um pouco mais ou um pouco menos do que nós. É essa a grande descoberta que nós precisamos fazer e colocar em prática.

Eu tenho viajado muito. Sobretudo os empresários da construção civil, Paulo, tem uma gama de oportunidades para esses empresários. Em vez de aquele que perde uma obra aqui ficar entrando na Justiça para evitar que a obra comece, ele deveria procurar outra obra e, quem sabe, ganhar até mais dinheiro do que ganharia nessa disputa na Justiça. É apenas uma questão de inteligência, uma questão de sobrevivência e uma questão de esperteza política.

Essa crise que, na minha opinião, já vai fazer parte das coisas que a gente vai contar, do passado, essa crise abre uma oportunidade para Chile, para Brasil, para todos os países da América Latina e para os países pobres, uma oportunidade, uma descoberta que não está escrita em livros ainda. Se os iguais se derem as mãos, estabelecerem complementaridades entre eles, a chance de nós ficarmos ricos é muito mais fácil do que se a gente ficar dependendo que os países ricos nos tornem ricos.

Um abraço e boa sorte a todos vocês.

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