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Agora eu vou... Me deem 30 minutos para eu pensar o que vou falar agora porque, como eu já falei ontem, eu não quero - quarta-feira -, eu não quero ser repetitivo.

Primeiro, Patrus, dizer para você que a realização de um seminário em que se coloca, de forma desnuda, as políticas sociais que o governo vem fazendo, não é apenas um gesto de coragem, mas um gesto de disposição de mostrar a nossa força e a nossa fraqueza, a nossa competência e a nossa incompetência. E também discutir o limite do possível, daquilo que é possível fazer, dentro de um governo, em um mandato de quatro anos ou em um mandato de oito anos.

Aos especialistas que vieram aqui, os meus agradecimentos, sobretudo quem veio de outro país, que viajou de avião e que só teve 20 minutos para falar, 15 minutos. Eu, uma vez, viajei daqui para Hamburgo para falar sete minutos. Eu disse aos companheiros que era melhor eu mandar por escrito do que eu atravessar o Atlântico para ir e para voltar, para sete minutos.

Mas eu acho que não é nem tanto o que vocês falaram ou o que vocês ouviram, mas é a interação que vocês fazem com pessoas que têm o mesmo trabalho que vocês em outros países, porque não é simples essas discussões acontecerem entre os presidentes da República. Ou seja, nós temos sempre tantas coisas para discutir que sempre as questões sociais não são discutidas nas reuniões dos presidentes da República, muitas vezes as questões sindicais não são discutidas. Nós demos um avanço extraordinário no Mercosul com o Fórum Social e com o Fórum Sindical, em que eles apresentam para nós a reivindicação de cada período, de uma reunião até a próxima reunião.

Então, muito obrigado aos companheiros que vieram aqui, e muito obrigado aos delegados e delegadas brasileiros e brasileiras que vieram aqui, porque eu sei que do comportamento de vocês, do trabalho de vocês é que, muitas vezes, resulta o sucesso de políticas no âmbito municipal, no âmbito federal e no âmbito estadual.

Quando chegar o dia 31 de dezembro de 2010, cada ministro meu ou ministra já está avisado que eu quero registrado em cartório tudo o que eles fizeram no período do meu governo, tudo. Cada centavo aplicado, cada coisa feita no governo, a fotografia será registrada em cartório, porque eu quero entregar para o próximo governo, quero entregar para as universidades, quero entregar para os movimentos sociais, quero entregar para as instituições nacionais como OAB, CNBB, as centrais sindicais, quero entregar às instituições multilaterais como OIT e como Unesco, na Secretaria-Geral das Nações Unidas. Uma coisa que eu acho que é importante deixar como legado para quem vier [depois] de nós é um novo paradigma, ou seja, a pessoa terá que olhar e contar até dez porque ela tem que fazer mais do que nós fizemos. Se fizer menos, vai ter uma vida muito curta no governo.

Então, o que nós queremos é registrar um paradigma para que todo mundo possa cobrar: se fulano pôde fazer cinco, por que beltrano não pode fazer seis? E nós irmos elevando o paradigma de possibilidade deste país até que a gente atinja o estágio considerado civilizado para as conquistas da melhoria de vida da sociedade brasileira. Essa é uma coisa extremamente importante. Outra coisa importante que nós vamos deixar como legado neste país é a boa relação entre os entes federados do País, entre o governo federal, prefeituras e governos estaduais. Vocês sabem que nós tivemos uma briga de meses, não é, Patrus, de meses, quando nós resolvemos criar o Bolsa Família. Porque tinha gente que achava que a gente tinha que ficar com o nome Fome Zero e a gente dizia que o Bolsa Família era uma aspa do guarda-chuva aberto, que tem tantas outras aspas. E a gente dizia mais ainda, a gente dizia que não era possível a gente colocar em prática todas as políticas que a gente queria colocar se não houvesse uma confiança de que através das prefeituras, independentemente do partido que fosse o prefeito, a gente poderia executar nossas políticas. Houve muitas polêmicas, houve muita gente nossa machucada porque achava que era o movimento social que tinha que fazer, e nós tínhamos um problema enorme no Brasil, de políticas públicas, que era a questão da seriedade do cadastramento das coisas que nós tínhamos que fazer neste país.

Nós conseguimos vencer essa primeira barreira fazendo com que as prefeituras e os estados, sem perguntar a que partido pertenciam, se transformassem em parceiros na elaboração e na execução das políticas públicas brasileiras. É por isso que também nós temos tido um sucesso nas políticas públicas, por conta da quantidade de gente - e não apenas um Ministério, e não apenas o governo federal - que está envolvida na elaboração desse programa, na sua execução e na sua fiscalização.

Muito importante também é o conjunto de compromissos assumidos do governo com a sociedade brasileira. Eu posso dizer para vocês que grande parte do que nós estamos fazendo aqui neste país não é uma coisa resultante da nossa cabeça. É uma coisa resultante da nossa história, da nossa convivência com os movimentos sociais brasileiros, das nossas greves, das nossas passeatas, das nossas quantidades enormes de seminários ao longo de dez, 15 ou 20 anos. Cada um aqui tem pelo menos uns 20 anos de experiência de se reunir, de falar mal do governo, de fazer pauta de reivindicação, de cobrar as coisas, e nós agora estamos conseguindo colocar parte daquilo, ainda não tudo, como programa de governo. E precisamos, como discutimos outro dia no governo, Patrus, consagrar todas essas políticas em uma lei para que não possa nenhum engraçadinho tentar destruir essas coisas.

Bem, ontem, quando eu estava falando aqui, ou quarta-feira, faz de conta que foi ontem, não tem importância, a Bolsa não vai subir nem vai cair se eu falar "terça" ou "quarta". É que eu estou tão próximo de vocês que eu achei que era hoje que eu tinha vindo aqui, de manhã. Mas, quando eu estava falando na abertura, eu estava receoso de que, sobretudo os convidados estrangeiros, saíssem daqui sem ter a plenitude das coisas que estão acontecendo neste país... e hoje parece que algumas coisas não aconteceram porque o ministro Fernando Haddad não pôde vir, porque o ministro Temporão não pôde vir, Samuel Pinheiro não pôde vir. Eu não sei por que não vieram, mas eu estou pedindo desculpas em nome deles, porque eles não vieram aqui.

Há uma coisa importante que vocês precisam saber, porque não é uma coisa, duas coisas ou três coisas. São algumas dezenas de coisas que acontecem neste país e que eu posso dizer para vocês que nem eu, nem o Patrus e nenhum ministro tem uma visão do conjunto de coisas que acontece, de políticas públicas, neste país. Eu até pedi para que o Patrus fizesse um filme do Ministério dele, e cada ministro fizesse um filme contando tudo o que está sendo feito em cada área, para que a gente pudesse dar a todas as pessoas que quiserem uma visão do conjunto da obra que ainda está longe de ser concluída, mas que está com o alicerce sólido e que só tende a melhorar daqui para a frente.

Por exemplo, era importante que os companheiros, ao saírem daqui, soubessem que eu tinha muito medo do segundo mandato. Uma das razões pelas quais, a vida inteira, eu fui contra a reeleição, não era porque eu era oposição, porque é muito fácil a gente ser contra a reeleição quando a gente é oposição. Quando a gente está no governo, é mais fácil a gente defender a reeleição. Mas uma das coisas que eu era contra é porque eu sempre tive a preocupação de que, no segundo mandato, ao começar a fazer a mesmice do primeiro, você poderia desencantar e, desencantando, você poderia frustrar toda uma expectativa de uma grande parte da população que tinha votado em você no segundo mandato, para que você fizesse mais do que você tinha feito no primeiro.

Todos vocês acompanharam, os brasileiros, as inquietações que nós tivemos aqui em 2005. Todo mundo acompanhou o que fizeram com o governo em 2005. Todo mundo sabe quantas vezes as nossas políticas públicas foram negadas, de formas mentirosas, às vezes até escondidas. Eu dizia... Às vezes aparecia um ministro nervoso. O Patrus falava: "Não, mas eu não dou entrevista, mas ninguém me procura. Eu falo e não publicam". Eu falava: Patrus, não se preocupe, não se preocupe porque a coisa está plantada, Patrus. Ela vai brotar, ela vai brotar. Continue trabalhando, que a surpresa não vai ser sua. A surpresa vai ser de quem negou, o tempo inteiro, a política. Quando ela germinar, eles vão pensar: "O que nós vamos dizer agora?" E começaram... E no final do meu primeiro mandato, aí, então, descobriram a grande obra: o Bolsa Família é para ajudar o Lula a ter o segundo mandato. Poderiam ter descoberto isso no começo, poderiam ter feito as críticas no começo, mas somente quando descobriram que tinha dado certo é que, então, enveredaram pelo viés da questão política.

Eu dizia também aos companheiros que quando a gente tem afinidade com o movimento social, quando a gente planta uma coisa... Eu lembro que muitas vezes me fizeram piadas porque eu citava sempre essa questão da planta: um pé de jabuticaba leva até 17 anos para dar, mas ele não dará nunca, se você não plantar. Plante e irrigue, que um dia você vai chupar uma jabuticaba. Política pública é a mesma coisa. Ela não acontece tão rapidamente como a gente gostaria que ela acontecesse, ela tem um tempo de maturação, ela tem um tempo de envolvimento das pessoas. E aí, quando ela começa a dar certo, fica muito mais fácil todo mundo perceber como ela evolui.

Eu tive uma noção do avanço do governo quando, no segundo mandato, eu pedi para que todos os ministros fizessem o PAC da sua área. O PAC era para ser utilizado em 2006. O PAC era para ter sido lançado em 2006, e eu resolvi, por orientação de um companheiro de Comunicação que eu prezo muito: "Olha, Presidente, o senhor não vai precisar disso para ganhar as eleições. Se o senhor lançar ele agora, vai dar a impressão de que é uma peça eminentemente eleitoreira. Então, deixe o PAC para depois". E nós lançamos o PAC no dia 22 de janeiro de 2007.

E hoje eu posso dizer para vocês que já vamos começar a preparar o PAC 2011 a 2015. Para que nós vamos fazer? Para planejar, disponibilizar verba, colocar no Plano Plurianual, colocar na LDO e já deixar verba no Orçamento de 2011, para que a pessoa que vai começar a governar não tenha apenas as obras que nós já iniciamos, mas que tenha um conjunto de obras a ser pensado por mais quatro, cinco ou oito anos. Porque uma das coisas graves que nós tivemos no Brasil, Patrus, foi a ausência de projeto. Entre nós lançarmos o PAC, dizermos quais eram as cidades prioritárias para receber o dinheiro do PAC, com projeto, nós demoramos praticamente um ano e meio, porque os prefeitos entregavam as necessidades, mas não tinham projeto. E vocês sabem que sem projeto nem nós podemos financiar, e muito menos a obra pode ser executada.

Então nós temos muita coisa que vai começar a produzir grandes efeitos na sociedade brasileira agora. Eu poderia dizer para vocês que o investimento em favelas, que nós estamos fazendo em quatro anos, se tivesse sido feito 20 anos atrás pelos vários governos sucessivos, nós não teríamos mais favelas no Brasil. Nós, hoje, estamos investindo uma fortuna para fazer reparação da irresponsabilidade dos governantes que governaram este país nos últimos 40 anos, porque favela era bonito, era poético. Quantas músicas de sucesso nós tivemos, fazendo apologia das favelas? Isso, quando eram poucas, quando eram algumas. Em São Paulo tinha duas famosas: a da Vila Prudente e a da Vergueiro, eram as duas grandes favelas. Hoje são mais de 2 milhões de paulistas que moram espalhados em favelas, em situações mais degradantes, não-poéticas e violentas.

Isso, porque muito mais do que qualquer crise econômica, a crise de desagregação da estrutura social deste país, a partir da família, foi muito grande nos últimos 30 anos. E aí, de vez em quando - eu sei que as pessoas não gostam - mas eu fico perguntando: de quem é a culpa por tanta desagregação?

Ora, se nós formos imaginar que ficamos 20 anos, praticamente, sem a economia brasileira crescer, sem fazer distribuição de renda e o número de desempregados aumentando cada vez mais, sem fazer nenhuma universidade nova, sem criar perspectiva de as crianças e de os adolescentes poderem estudar, qual é a oferta de oportunidades que nós estaríamos fazendo para essa juventude? Não existia a figura do Estado de corpo presencial na vida das pessoas. Muitas vezes, existia a vida [figura] do Estado quando a polícia tinha que entrar de forma abrupta e muito violenta, batendo em inocente, porque os culpados já não estavam mais lá.

Como é, então, que nós iríamos ganhar confiança desse segmento da sociedade que nós queríamos trair? Qual é o papel que joga a televisão brasileira, da formação da estrutura da família, onde pai fica desempregado, mãe fica desempregada, um bebe, o outro bebe, bate no filho, o filho sai de casa? Porque muitas vezes é mais confortável morar na rua do que aguentar um padrasto ou aguentar uma família desagregada. Como reconstruir esse exército de pessoas que foram abandonadas?

Se vocês assistirem à televisão, vocês vão perceber que grande parte das pessoas que são presas são jovens. São esses jovens os culpados? Ou os culpados foram aqueles que governaram este país e não deram o mínimo de atenção para evitar que o futuro da nação se perdesse antes de chegar o seu momento de fazer o papel de presente da nação?

Bem, tudo isso nós estamos querendo desnudar para ver se a gente consegue, mais rapidamente, consertar a situação do nosso país. É por isso que eu lamento que o companheiro Fernando Haddad não tenha vindo ontem para falar um pouco do que está acontecendo na Educação brasileira. Se a gente tiver mais dez ou 15 anos com essa política de Educação, nós poderemos estar comparados aos melhores níveis dos melhores países do mundo, na área da Educação. O problema é que nós tivemos governantes que passaram quatro anos e não fizeram uma universidade. Nós tivemos outros que passaram o tempo e aprovaram no Congresso, mas não montaram a universidade. Parece uma coisa... uma ironia do destino que seja exatamente, acho que o primeiro governo no mundo, acho que na história da Humanidade, em que você tem um presidente e um vice-presidente que não têm diploma universitário e que mais estão investindo na Educação do nosso país.

Possivelmente... O José Alencar também não tem diploma, ele não tem diploma também. Então, você imagine... Obviamente que eu não estou fazendo apologia de quem não tem diploma porque eu gostaria que... Você não imagina como eu gostaria de ser economista, Cassel. Eu adoraria ser economista porque a coisa mais fantástica é ser economista de oposição. Durante 30 anos da minha vida, eu fazia reunião todos os meses com mais de vinte economistas, os melhores que vocês possam pensar, do País. Eu não sei por que eu fui candidato em 2002, porque de cada reunião do diretório, de que eu participava, depois da avaliação econômica eu ia para casa falando: puxa vida, se eles disseram que o Brasil vai acabar, que o Brasil não tem mais jeito, que o Brasil está quebrado, por que eu vou pegar essa "pepinosa"?

Bem, e quando chega na situação, a gente tem uma coisa importante: é que entre o "eu acho", o "eu penso", o "eu acredito", você tem o "eu faço" ou "não faço", em função do que você está na mão para fazer. O teórico pode dizer: "Olhe, se eu tivesse aquela garrucha na mão, eu mataria 80 pássaros de uma vez". O atirador sabe que só tem uma bala e que só pode matar um. Se tentar matar dois de uma vez, vai errar os dois e não vai matar nenhum.

Então, nós fizemos essas opções no nosso país. Eu sou da geração, Laís, eu sou da geração que dizia: o bolo tem que crescer para, depois, distribuir. E olha que este país cresceu 14% ao ano em 1970, e foi exatamente a partir de 1970 que começou o maior arrocho salarial neste país. Eu sou de um tempo de pleno emprego neste país. Eu sou de um tempo em que lá em São Bernardo do Campo, uma empresa mandava Kombi ou mandava ônibus, com megafone, na porta da outra empresa, convidar trabalhadores para oferecer mais salário. E ainda assim o salário era arrochado, e ainda assim nós não resolvemos o problema social deste país, porque em vez de pensar em fazer um mínimo de distribuição, se fez o máximo de concentração. E o resultado todos aqui conhecem, foi nefasto, quando a partir de 1980 nós ficamos reféns da nossa dívida externa.

Pois bem, vou dar alguns dados para vocês, importantes. Na área da educação, a primeira faculdade feita no Brasil, me parece que foi em 1808, por Dom João VI. Deve ter sido uma faculdade de Direito ou de Medicina, nunca uma de Assistência Social. Naquele tempo não precisava de assistente social.

Pois bem, de lá até 2003, o máximo que nós atingimos de renovação de vagas nas universidades públicas foi 123 mil alunos. Era o que renovava, nos últimos anos, na universidade brasileira. Nós, este ano, renovamos 228 mil novas vagas nas universidades federais. Mais importante: nós temos 12 universidades federais novas, duas que estão sendo aprovadas no Congresso Nacional, e eu quero começá-las antes de terminar o meu mandato para poder trazer governantes africanos aqui, que será uma universidade de afrodescendentes. Será montada na cidade de Redenção, no estado do Ceará, que foi onde houve a primeira movimentação para a libertação dos escravos. E ali nós queremos fazer uma universidade de por volta de 10 mil alunos - 5 mil africanos, 5 mil brasileiros - e tentar fazer uma interação, fazer... interagir com os países, na verdade, por uma razão: nós não queremos que os estudantes africanos venham para o Brasil e fiquem no Brasil, porque chegam aqui, arrumam logo uma namoradinha e aí não querem voltar. O que nós queremos é que eles venham aprender aqui para prestar serviço no seu país, sobretudo na área da saúde, da engenharia agrônoma, de técnica de agronomia, de enfermagem. Ou seja, o que nós queremos é que eles possam prestar serviço ao seu país.

E aí nós queremos discutir como fazer com que eles estudem um ano aqui e estudem um ano lá, para eles não perderem o chão do seu país. Daqui a pouco eles fazem que nem jogador de futebol que joga no estrangeiro: não sente mais nenhum orgulho de vestir a camisa da Seleção. Então, nós queremos que eles... E a outra será a Unila, que será uma universidade da América Latina feita no Brasil, com currículo latino-americano, com história latino-americana, com estudantes latino-americanos e com professores latino-americanos.

Além disso, quem é do interior sabe que nós terminaremos 2010 com 105 campi avançados. Ou seja, são 105 extensões universitárias, fazendo com que as universidades federais se espraiem pelo conjunto dos estados, para garantir oportunidade para as pessoas do interior terem acesso à universidade. E se a coisa andar como a gente pensa, daqui a cinco ou daqui a dez anos, esse campus será, na verdade, transformado em uma nova universidade, que vai criar um novo campus, e aí a gente vai atingir a plenitude das necessidades deste país.

Uma outra coisa importante na questão da Educação: as escolas técnicas profissionais. É importante que os companheiros convidados saibam que neste país, em 1998, aprovaram uma lei tirando do governo federal a responsabilidade pelo ensino técnico-profissional. Nós, em 2004, mudamos a Lei e voltamos a assumir a responsabilidade pelas escolas técnicas e pelos institutos federais de tecnologia. Pois bem, o que aconteceu? A primeira escola técnica do Brasil foi feita pelo presidente Nilo Peçanha, na cidade de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. De 1909 até 2003 foram construídas no Brasil 140 escolas técnicas. Nós vamos entregar o País com 214 escolas técnicas novas feitas neste país. Só para se ter ideia, o estado do Rio Grande do Norte - eu estou indo para lá, acho que nos próximos dez ou 15 dias -, as sete destinadas ao Rio Grande do Norte estão prontas para serem inauguradas. E, daqui para a frente, até o final do ano, nós vamos inaugurar mais 60, ficando 50 para a gente inaugurar no próximo ano.

Mas nós achamos que era preciso cuidar de outras coisas: fazer com que as crianças entrassem na escola com seis anos de idade, porque tinha um descompasso entre o filho da classe média e o filho do pobre. O filho da classe média podia fazer uma pré-escola. Então, quando ele atingia sete anos de idade, que ele ia para a escola, ele já tinha contato, já era alfabetizado, já sabia o que era lápis, o que era caderno, o que era borracha. E o filho do pobre, que entrava aos sete anos e, às vezes, tinha completado sete anos no meio do ano, só ia entrar no outro ano, já com sete anos e meio, ele entrava totalmente analfabeto. Aí você dizia: "Ah, mas aquele "negritinho" ali é burro. Aquele ali é inteligente". Quando, na verdade, não tinha nem burro nem inteligente. Tinha um que tinha tido oportunidade de ter um aprendizado mais rápido e o outro que não tinha tido essa oportunidade. Nós consagramos isso.

E agora nós estamos com uma coisa extremamente importante, que é tentar universalizar o Brasil da pré-escola até o ensino técnico, ou seja, nós estamos... o governo federal está financiando, até 2010, 1.500 creches. Eu fui agora à Campina Grande ver a primeira. Ou seja, 1.500 creches que nós damos o dinheiro para os prefeitos fazerem, e nós queremos criar as condições dessa tal de independência que tantas mulheres reivindicam, de elas terem onde deixar o seu filho para ir trabalhar sem precisar ficar amarrando o moleque ao pé da mesa ou pagando o trabalho escravo para uma menor, sobretudo nos estados mais pobres, para ganhar R$ 100,00 para tomar conta do filho. Então, nós queremos criar essa tranquilidade.

Nós já temos 1.500 contratadas, algumas já estão sendo feitas e, certamente, este ano nós vamos inaugurar uma série delas. E também nós achamos que a partir daí não tem como nenhum presidente voltar atrás. Quem chegar aqui vai ter que fazer, porque o povo também parece que aprendeu a cobrar. Se aprendeu a cobrar... Antigamente, vocês tinham o direito de protestar, não é isso? Mas poucas vezes tinham com quem conversar, poucas vezes tiveram com quem conversar ou foram atendidas.

Para os convidados estrangeiros... Neste país, nem prefeito era recebido pelo presidente da República. Os prefeitos faziam marcha aqui em Brasília, não eram recebidos. Aliás, eu vou contar uma novidade para vocês: nunca os presidentes da República deste país receberam reitores. Se recebiam, era um, porque achavam que dois juntos era uma pauta de reivindicação. Nós, desde que estamos aqui, todos os anos nós fazemos reunião com todos os magníficos reitores de todas as universidades federais e com todos os diretores das escolas técnicas deste país. E não pensem que este dedo aqui eu perdi na reunião com eles, isso aqui eu perdi quando eu tinha 17 anos, na Metalúrgica Independência.

 

Então, neste país criou-se o hábito de não se conversar com as pessoas. É essa mudança na relação que nós estamos criando com a sociedade que vai permitir a gente construir um novo patamar na relação entre Estado e sociedade, entre governo e sociedade.

Uma outra coisa que eu considero extremamente importante, companheiro Patrus... Qual é o meu tempo, Patrus? Uma outra coisa... Eu brinco muito, e não brinco só com os meus ministros, não. Eu brinco com o Chávez, eu brinco com o Evo Morales, com o Lugo, com a Cristina, com o Obama. É o seguinte, é o seguinte: eu penso que... eu nunca tinha ouvido falar nas palavras "crédito consignado". E olha, gente, que eu me reúno com gente de qualidade. Se vocês imaginarem os economistas com quem eu me reunia - figuras extraordinárias como Aloizio Mercadante, Paul Singer, Maria da Conceição Tavares, Paulo Nogueira Batista, Belluzzo, Luciano Coutinho, e por aí - a escola do que a gente tinha de melhor neste país em figuras públicas, do tempo em que economista dava entrevista na televisão, porque agora é só, é só... como se chama? Analista de mercado. Você não vê mais economista falando na televisão, é só analista de mercado.

Pois bem, nesse tempo, eu nunca tinha ouvido falar as palavras "crédito consignado". Ora, do que saiu essa coisa do crédito consignado? De uma conversa entre eu e os sindicalistas. Se nós somos um país, um regime capitalista, em que as pessoas precisam de dinheiro... Aqui não tem "tarjeta" para você comprar. Ou você tem dinheiro ou não tem. Como é que nós vamos fazer isso? Como é que o pobre tem acesso a banco? Eu não sei, Ricardo, se você tem o número. Eu falei agora com o Ministro da Fazenda. Desde que nós começamos, o crédito consignado representa... já tem, de crédito, R$ 90 bilhões na mão do povo deste país, R$ 90 bilhões. Aposentados, trabalhadores de empresas privadas, trabalhadores dos bancos, vão lá e pegam R$ 1.000, R$ 2.000, R$ 3.000. No governo, de vez em quando, o Dulci vai pendurado no crédito consignado; o Gilbertinho Carvalho, de vez em quando, fica pendurado no crédito consignado. Eu ainda não entrei no crédito consignado, mas estou preparando para, quando deixar a Presidência, tomar um primeiro financiamento para manter os primeiros meses de vida, porque eu estou desgraçado: se eu deixar a Presidência e tiver que viver de palestra... Os sindicatos pedem para eu pagar até a minha passagem para ir fazer palestra. Como é que eu vou? Mas tem gente chique aí que diz que ganha US$ 200 mil, US$ 150 mil. Eu, se ganhar dois contos, já está demais para mim.

Mas, de qualquer forma, o crédito consignado foi uma revolução. Um dado importante que, muitas vezes, não aparece. Quando eu cheguei na Presidência deste país, todo o crédito disponibilizado no Brasil era de R$ 380 bilhões. Hoje, só o Banco do Brasil tem R$ 300 bilhões de crédito. Ou seja, o Banco do Brasil, hoje, tem a mesma quantidade de crédito que o Brasil inteiro tinha, seis anos atrás.

Ontem eu fiz uma reunião do "Minha Casa, Minha Vida". Anteontem, acho que foi, reunião do "Minha Casa, Minha Vida". A Caixa Econômica, em agosto deste ano, já atingiu a quantidade de dinheiro que ela contratou o ano inteiro, no ano passado. A verdade é que nós não estamos fazendo muito, mas nunca antes na história deste país alguém investiu tanto em saneamento básico como nós estamos investindo.

Duvido que qualquer prefeito do PFL, do PSDB, do PPS, de qualquer partido de oposição, duvido que em algum momento das administrações deles, eles tiveram do governo federal 10% do tratamento que nós damos para eles. Não sei se aqui tem prefeito, mas a verdade é que nós temos uma parceria, uma relação, que isso resulta, Patrus, em políticas sociais. Porque não adianta a União estar muito forte se os estados estiverem fracos e se os municípios não tiverem capacidade de fazer nada. É preciso que todos tenham condições de fazer um pouco. Ou seja, o fato de a gente ter passado o transporte escolar diretamente para a mão do prefeito, sem passar pelo governador, ou seja, nós fizemos o dinheiro chegar na mão do interessado, em vez de passar na mão de alguém e parar no caminho.

O Guilherme Cassel deve ter falado aqui da agricultura familiar e deve ter empolgado, porque o que nós estamos fazendo ali é uma coisa extremamente espetacular. Eu não sei se ele falou para vocês do Territórios da Cidadania, ou se tem gente aqui que pertence a algum Território da Cidadania. O Territórios da Cidadania é a coisa... Eu tenho 30 anos de militância política, 30 e picos, 30 e alguma coisa, mas já fiz... Acho que não tem ninguém que tenha feito pauta de reivindicação mais do que eu. Eu aprendi a fazer pauta de reivindicação há muito tempo, mas não conheço nenhum programa melhor elaborado que o Territórios da Cidadania. Ele está apenas há um ano em funcionamento. Se der certo o Territórios da Cidadania, Patrus, quem sabe, já no próximo ano, a gente pode fazer uma experiência de Territórios da Cidadania, como foi dito aqui no debate de ontem, na periferia dos grandes centros urbanos. Fazer o Territórios nos bairros das grandes capitais para que as pessoas possam receber a totalidade das políticas públicas, porque não pode chegar uma unha para depois chegar a outra unha, ou chegar a unha do pé. Tem que chegar tudo junto para que a gente veja uma coisa bonita, tem que ser tudo de uma vez. Eu acho que a gente vai logo, logo, aprimorar a experiência do Territórios da Cidadania para os grandes centros urbanos, que eu gostaria...

Tem gente do Rio de Janeiro aqui? Olhem, eu vou dizer uma coisa para vocês. Eu estou torcendo mais para inaugurar as obras de Manguinhos, do Complexo do Alemão, de Pavão e Pavãozinho, do que a Copa do Mundo. Eu acho que na hora em que a gente inaugurar o que estamos fazendo em Manguinhos, o que estamos fazendo... Manguinhos era chamado a "Faixa de Gaza", só para vocês verem o tipo de comportamento. É porque tinha um muro que dividia, de um lado a ferrovia, de outro lado... E ali era guerra. Nós estamos derrubando o muro, e ninguém quer que derrube o muro, os bandidos não querem. Nós vamos derrubar o muro, vamos fazer... onde hoje é palco de violência, fazer um centro de atividade cultural, de pequenos investidores, para que as pessoas possam...

Esses dias eu fiquei feliz porque eu fui no Rio de Janeiro e tinha manchete de um jornal que não gosta muito de nós, obviamente, que dizia assim: "Parece Tijuca, mas é o Complexo do Alemão". Eu achei aquilo extraordinário. Eu acho que é importante que os estudiosos comecem a frequentar esse lugar porque São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Salvador... Nunca as capitais deste país receberam a quantidade de dinheiro de investimento nos lugares mais pobres do que [como a que] nós estamos colocando. E nós achamos que não tem mais retorno. Criou uma carteira de investimentos, querida (incompreensível), uma carteira, ou seja, que é cada vez mais, mais dinheiro, cada vez mais, mais projetos. E eu penso que a gente pode, em dez, quinze anos, estar resolvendo esse problema crônico da periferia de São Paulo, da periferia do Rio, da Bahia, de Fortaleza, e tantas outras periferias que foram criadas por incompetência dos governantes, por incompetência da política econômica e, sobretudo, por interesses políticos eleitoreiros, porque vereador, em época de eleição, manda ocupar em qualquer lugar, não quer saber se vai cair barranco, se vai encher um rio, e depois alguém tem que correr atrás do prejuízo.

Uma outra coisa importante, que eu pensei que era impossível fazer, que você poderia ter contado aqui. Você estava na OIT. Nós levamos um ano, coisa que eu não imaginava que pudesse acontecer, nós levamos um ano para fazer um acordo entre os usineiros e os trabalhadores da cana-de-açúcar. Vocês sabem que os gringos têm o hábito de achar que a gente é de segunda classe, não é isso? E vira e mexe eles falam: "Ah, mas o corte de cana é trabalho escravo". Eu falo: é trabalho penoso. Eu lembro que teve uma pessoa aqui que levantou a questão do corte de cana como trabalho escravo, como trabalho... Eu falei: olha, minha filha, se você quiser dizer que o corte de cana é um trabalho braçal penoso, estamos de acordo. Agora, não é mais penoso do que eram as minas de carvão que enriqueceram o seu país, não era mais penoso. E o seu país virou uma potência porque os trabalhadores mergulhavam a 90 metros de profundidade para explodir dinamite, para viver 20 anos menos do que vive um cortador de cana, e eu nunca vi você reconhecer isso. Que trabalho era esse?

Nós fizemos um acordo, que é um marco extraordinário, porque é um acordo de adesão: 303 empresários aderiram no primeiro dia. Isso envolve quase 80% dos produtores e mais de 70% dos trabalhadores que vão ter, agora, água gelada, comida quente, banheiro, para trabalhar em uma jornada um pouco mais digna. Esse setor, vocês sabem que vai acabar. Esse setor do corte de cana vai acabar porque as máquinas vão entrar. Já tem estado que está até 12 anos... até 2012, 2014, vai acabar, e nós vamos ter, então, que pensar como formar profissionalmente essa gente para poder não deixá-la desempregada, porque não sabe fazer nada. Se o Estado não fizer, o Estado não vai conseguir que essas pessoas tenham emprego.

Bem, o Paulinho Vannuchi também não veio aqui, não, Patrus? Eu, na verdade, acho que nós vamos ter que produzir um material em espanhol. Aqui foi falado da Farmácia Popular, Arlete? Não? Essa é uma outra coisa extraordinária que nós temos. Nós temos dois tipos de Farmácia Popular. Nós temos uma Farmácia Popular que é feita pelo governo, e vendemos 112 tipos de remédios a 10% do valor do remédio no mercado. Mas aí nós encontramos uma forma mais fácil: em vez de a gente fazer uma farmácia do governo, nós fizemos convênio com as farmácias particulares, e já temos 7 mil e 952 farmácias espalhadas pelo Brasil que têm, no balcão delas, uma placa: Farmácia Popular. Naquela farmácia tem 92 tipos de remédios, que são os principais remédios para homens, para mulheres e para crianças que, se o remédio custar R$ 90, a pessoa vai pagar 9. Se custar R$ 9, a pessoa vai ganhar R$ 0,09 e leva o remédio para casa. Isso aqui tem sido uma coisa extraordinária, porque eu cansei de ver gente neste país morrer, pegando a receita médica, não tendo o remédio no pronto-socorro e indo para casa, colocando ela no criado-mudo, e morrendo porque não tinha dinheiro para comprar o remédio. Essa é uma coisa que tem tido...

Um outro programa nosso, que é o de maior visibilidade e sucesso, é o Samu. O Samu é uma coisa excepcional. Já tem em todos os estados, já tem nos principais municípios-polo de cada estado e o atendimento tem sido extraordinário. Ontem eu falei para vocês do Luz para Todos.

Bem, a melhor novidade nossa agora... O Dulci não falou do ProJovem, falou, Patrus? O Dulci falou do ProJovem? A Arlete falou. O ProJovem é uma das possibilidades que nós queremos recuperar esse jovem de 15 a 24 anos de que você falou, esse jovem que já desistiu da escola, que não trabalha e não estuda. Nós estamos dando R$ 100, tentando trazer ele de volta para a escola e dar a ele o ensino fundamental e, ao mesmo tempo, uma profissão, para levá-lo para o mercado de trabalho. Esse Programa, nós tivemos prefeitos de capitais que não tinham feito sequer uma inscrição, porque não tem como o governo federal ir lá na periferia de São Paulo, ou do Rio de Janeiro, ou de Pernambuco ou do Ceará inscrever os jovens. Tem que ser os prefeitos. E agora parece que ele está andando de forma extraordinária.

Mas, de tudo isso que eu estou falando para vocês, a coisa que mais me agradou aqui é o dia em que eu levei os catadores de papel dentro do Palácio do Planalto. O discurso feito pelo líder dos catadores de papel, só aquele discurso, não precisava mais nada, já valia a pena ter passado pela Presidência da República. Porque você ver um brasileiro dizer que jamais esperava ter entrado dentro do Palácio do Planalto e, no nosso governo, ele não só entrou como não me chamou de "Excelência", não me chamou de "Presidente", me chamou de "companheiro Lula", e ainda fez uso da palavra e falou: "Isso aqui é uma coisa que vai marcar". E todo final de ano, todo 23 de dezembro eu estou com os catadores de papel lá embaixo de um túnel, em São Paulo, comemorando o nosso Natal. Cada ano eles apresentam uma pauta de reivindicação, e cada ano nós atendemos a do ano anterior, e assim vamos levando a vida.

Pois bem, a coisa... Já pode levar para a OIT: ontem à noite eu vi uma briga, na televisão, de um restaurante não sei onde, um shopping, que tem umas pessoas que levavam cachorro e os fregueses achando que: "Então, cria um shopping para cachorro, que não vai entrar shopping aqui no cachorro... não vai entrar cachorro aqui nesse shopping, e tal". Eu acho engraçado, eu fico se isso é evolução ou não. Um dia desses eu fui a Munique, estava jantando em um restaurante em Munique, o cidadão chegava com o seu cachorro, amarrava, o cachorrinho entrava embaixo da mesa, a família comia, saía com o cachorro, ia embora, ninguém reclamava.

Aqui no Brasil tem uma coisa que vocês vão achar fantástica. Vocês sabem que aqui no Brasil o cachorro não era considerado animal doméstico? Fomos nós que transformamos o melhor amigo do homem em um animal doméstico? Eu vou contar... Essa história é hilariante, é hilariante. Teve um presidente da República que tinha um amigo que criava muito cachorro e ele vendia. E se fosse considerado animal doméstico, ele tinha que passar pela fiscalização sanitária, não é isso? Tinha que ser fiscalizado por médico, aquele negócio todo. Para não passar, então o cachorro virou um animal selvagem. Em 2003, o meu ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, fez a emenda na Lei para que o cachorro fosse considerado animal doméstico neste país.

Eu estou falando do cachorro, Patrus, porque eu me lembro do dia em que nós levamos todos os delegados da Conferência do Deficiente Visual dentro do Palácio, e tinha uma briga porque não deixavam os cachorros deles entrarem na igreja, não deixavam os cachorros deles entrarem no metrô, não deixavam os cachorros deles entrarem no shopping. Eu dizia: mas isso não é um cachorro, isso é o olho da pessoa. Então, para mostrar que eu não tinha preconceito, abrimos o Palácio do Planalto para os cachorros e os seus donos. Não, para os donos e os olhos dos donos.

 

O Brasil ainda é assim e nós estamos superando. No dia em que teve um congresso aí de GLTB [LGBT] - tem mais um "t" agora. Eu sei... Vocês não imaginam... Fui eu que convoquei a conferência por decreto, fui eu que convoquei a conferência por decreto. Vocês não imaginam a quantidade de avisos e sobreavisos que eu recebi: "Olha, Lula, não é bom. Ô, Lula, olha, você vai lá? É bom você não ir. Você vai tirar fotografia. Olha, rapaz, toma cuidado porque...". Bem, olhe, eu, poucas vezes, poucas vezes, vi um encontro de tão alto nível e de tão alto teor político que [como] eu vi naquele encontro. Acho que até os companheiros fotógrafos da imprensa... Eu disse para o Stuckinha: o fotógrafo que foi para lá imaginando pegar uma cena absurda deve ter ficado com vergonha, porque não tem encontro de nenhum outro segmento que seja mais civilizado e de melhor ordem do que foi aquele encontro. Nós precisamos, aos poucos, ir quebrando o preconceito. Por que você ter vergonha de ir a um congresso GLTB [LGBT], se na época da eleição você não tem vergonha de pedir voto para eles? Por que você tem que ter vergonha se, na hora de eles pagarem Imposto de Renda, eles pagam normalmente? Ninguém recusa Imposto de Renda.

Bem, e por último, companheiros, convidados estrangeiros, o ProUni. O ProUni é a mais importante revolução na Educação, neste momento, no País. É uma ideia daquelas geniais, e ele hoje tem 545 mil alunos, 545 mil. Este ano se formaram os primeiros 56 mil estudantes do ProUni, dos quais 40% meninas e meninos negros. Muito mais eficaz do que as cotas que nós tanto brigamos, na universidades federais. E nós vamos chegar, até 2010, a 720 mil alunos do ProUni.

Essa é uma coisa inusitada, é uma coisa que poderia ser levada a cabo em qualquer país da América do Sul, que tenha universidade privada. Vocês sabem que houve, no País, um momento em que achavam que tinha que privatizar, que o mercado resolveria o problema da Educação, não é isso? São Paulo, que é o estado mais evoluído do Brasil, 82% dos estudantes universitários estão em escola privada, no estado mais importante do Brasil. A média nacional deve chegar a 65%, 67% de estudantes. Nós, graças a Deus, estamos revertendo essa situação, e eu espero que daqui a uns dez anos a gente tenha mais da metade dos estudantes brasileiros exigindo ou tendo o benefício que está na Constituição, de ensino público e gratuito para todo mundo.

Aqui, também... A última coisa que eu vou dizer, porque eu tenho uma reunião ainda hoje. A única coisa que eu vou dizer para vocês é o seguinte: tem muita gente que às vezes faz crítica à política social, e eu conheço isso desde o tempo do movimento sindical. Tudo que a gente vai fazer para os pobres... Vocês sabem que a primeira coisa que eu exigi no governo é que coisa para pobre não é gasto. Porque é engraçado... você pega dois bilhões para emprestar para uma empresa, é investimento; você pega 50 centavos para dar para um pobre, é gasto. Então, isso mudou. Hoje, a palavra "gasto", se alguém utilizar no governo tem que pedir desculpas, porque essa coisa é investimento.

E é um investimento que fez com que a economia brasileira crescesse. Nessa crise econômica agora, quem sustentou o Brasil foi o consumo da população e o governo, porque muitos empresários que tinham investimentos já contratados, entre novembro e janeiro, deram uma recuada excepcional. A indústria automobilística, então, foi uma vergonha o que ela fez no mês de dezembro: parou praticamente toda a sua atividade, sem nenhuma necessidade, certamente recebendo orientação das matrizes, que imaginavam que aqui no Brasil fosse acontecer o mesmo que aconteceu lá. Não teria caído o PIB Industrial da forma que caiu, se a indústria automobilística não tivesse tido o pânico que teve.

Vocês estão lembrados que no dia 23 dezembro eu fui para a televisão fazer apologia do consumo. Ora, por quê? Porque estavam dizendo que o povo não deveria comprar porque se o povo comprasse ia perder o emprego, e depois não tinha como pagar. Eu fui para a televisão dizer: você compre, porque se você está com medo de perder o emprego e não quer comprar, você vai perder exatamente porque você não comprou.

Agora, eu queria terminar dizendo para vocês, companheiros, o seguinte: eu tenho consciência de que nós temos muita coisa para fazer; eu tenho consciência de que a política de distribuição de renda que nós queremos fazer ainda está aquém. O Bolsa Família não é a política de transferência de renda que contenta a mim ou a qualquer outra pessoa. Ele é como se fosse aquela primeira massa que o dentista coloca no dente da pessoa, para depois fazer a obturação definitiva. É assim que eu vejo o Bolsa Família. Ele não é uma coisa que vai continuar assim para sempre. A tendência é ele melhorar, a tendência é ele melhorar, porque eu acho que o governo e a sociedade brasileira se creditaram, do ponto de vista político, a começar a discutir com muito mais força a política de transferência de renda neste país. Diminuir as desigualdades. Elas têm diminuído, mas ainda é preciso evoluir muito mais.

E nós, hoje, temos as condições concretas e objetivas. É uma pena que essa crise econômica deu um certo freio durante seis meses. Mas perguntem qual o país no mundo que criou 10 milhões de empregos em cinco anos. Laís, no ano da crise, até outubro de 2008, nós tínhamos criado, em dez meses, 2 milhões e 100 mil novos empregos. E agora, viu, Laís, a situação está colocada para a gente começar o debate. É necessário continuar o turnover... Gostou do turnover? Isso aqui é só porque você é da OIT, para você saber que aqui tem um presidente que sabe falar turnover, que no fundo, no fundo, é rotatividade de mão-de-obra. Nós vamos ter que aprofundar essa discussão, as medidas estão... as convenções estão no Congresso Nacional, mas não é possível continuar mandando o tanto de gente embora que se manda no Brasil. Não tem lógica, não tem necessidade, e nós, então, eu acho que estamos em condições de começar a dar grandes passos daqui para a frente. Se fosse cinco anos atrás, seis anos atrás, "é porque esse cara é comunista, é porque esse cara é 'não sei das quantas', é porque são 'radicalóides'". Agora não. Agora as pessoas... depois que eu virei o amigo do "cara", então as pessoas já nem têm mais esse preconceito contra mim, e eu também estou pouco preocupado com preconceito. Estou pouco preocupado, nós já vencemos todas essas barreiras.

Então, eu queria, Patrus, dizer a todos os seus convidados e convidadas que vocês continuem, primeiro, cobrando da gente. Uma coisa que eu queria pedir para vocês: nunca tenham medo de cobrar deste governo, porque enquanto eu for governo a cobrança é um bem tão importante quanto a aprovação de um programa. A cobrança, às vezes, alerta a gente. A cobrança, às vezes, mostra: olha, nem tudo está bem, tem coisa que tem que ser feita melhor.

Então, continuem nos cobrando, continuem exigindo que a gente faça cada vez mais e cada vez melhor, porque na hora que esta turma que está à frente do governo deixar o governo, vocês têm que estar muito afiados para, assim que entrar outra pessoa, a gente já fazer ele fazer mais do que nós fizemos. E a possibilidade é total e absoluta. Primeiro, porque a economia vai continuar crescendo. Eu estou convencido, os economistas sabem, de que a nossa chance é de, em 2010, ter um crescimento bom. Bom, eu diria, é acima de 4,5%; 5%, é muito bom. Eu não sou daqueles que querem que o Brasil cresça 10%, 15%, 20%. Gostaria que crescesse. Mas se o Brasil tiver, durante vários anos, um crescimento estável de 4,5% a 5%, 5,5%, 6,5%, o Brasil pode, em dez anos, dar um salto de qualidade que até nós mesmos, que moramos aqui, vamos estranhar.

Uma coisa importante são os investimentos no Norte e no Nordeste brasileiro. Todos vocês acompanham a imprensa e sabem que o consumo no Nordeste é hoje maior, proporcionalmente, do que em outra parte do País. Por quê? Porque era a parte que era esquecida, era a parte que tinha menos doutor, era a parte que tinha menos mestres, era a parte que tinha menos pesquisador, era a parte que recebia menos investimento, eram as prefeituras mais pobres, era onde era maior a mortalidade infantil.

Então, eu, quando vou fazer palestra, que as pessoas... Palestra, não. Esse negócio, com outros companheiros presidentes, que as pessoas querem saber, eu falo: olhe, a gente não tem que fazer nenhum grande curso de administração para governar um país. É só a gente olhar o que faz a mãe da gente. Pegue uma mulher que tem cinco filhos e veja como é que ela administra a casa, veja se ela vai dar comida só para o bonitão. Se tiver cinco filhos e tiver um que está magrinho, que está com um probleminha qualquer, é para aquele que ela guarda o segundo pedaço de carne, é para aquele que ela dá a segunda xícara de café.

Então, nós não temos que ter dúvida: o Nordeste vai continuar recebendo, junto com o Norte, proporcionalmente mais investimento para a gente poder tirar o atraso deste país. E isso precisa ser feito para que haja um equilíbrio. O pessoal do Sul do País precisa se lembrar que quando as pessoas mais pobres estiverem comendo, quem vai ganhar são as do Sul, que produzem. Então, não tem que ter disputa de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Paraná com o Nordeste ou com o Norte do País. Nós temos que recuperar o atraso. Em tudo o Nordeste estava por detrás, e nós queremos evoluir. Sobretudo, o teu Ministério, que tem que ter muito mais trabalho nessa área do Nordeste.

Então, companheiros e minhas companheiras, eu, quando vim para cá fiquei pensando se eu ia falar da crise econômica com vocês. A crise parece nota de R$ 1: todo mundo já sabe, já conhece. Então eu falei: eu não vou falar, não, de crise econômica. Outros já devem ter falado sobre crise econômica. Eu só queria terminar dizendo para vocês: é possível. Hoje eu estou convencido de que é possível fazer muito mais do que a gente fez. Nós ainda temos que quebrar barreiras, nós ainda temos que - como é que se fala? - mudar a máquina administrativa, que ela é pesada, ela dificulta, ela complica. Não é fácil, mas uma coisa que nós provamos: é possível, é possível a gente melhorar muito a vida deste povo e, sobretudo, a gente não ter dúvida de que lado a gente está.

Eu, como tenho clareza de onde vim e tenho clareza para onde eu vou voltar; eu, como tenho clareza de quem eram os meus companheiros antes de eu ser presidente e quem serão os meus companheiros quando eu deixar a Presidência, eu não tenho nenhuma preocupação de dizer: embora nós governemos para todos, são os pobres que têm que ter a preferência governamental nas políticas públicas do nosso país.

Portanto, meus companheiros, tenham um bom fim de semana. Que Deus possa acompanhá-los e mantê-los vivos, com a chama acesa, trabalhando cada vez mais, acreditando cada vez mais. No ano que vem nós vamos ter pouco tempo, porque depois do meio do ano já começa a campanha, e aí todo mundo vai estar de olho na gente, assim, mas nós também já estamos acostumados, e vamos fazer. Nós temos que fazer todas as políticas este ano, viu, meu filho? É, porque a partir do ano que vem, nós temos problemas sérios. A partir do ano que vem... Eu fiquei sabendo hoje que tem um processo contra mim porque, em um palanque, eu falei que uma mulher ia ser presidente - não disse quem - e fui dar uma rosa para a Dilma, um processo contra mim na Justiça hoje. Se for assim, eu estou desgramado com a quantidade de processos. Vocês tratem de fazer campanha "foi para mim que ele falou, foi para mim que ele falou", que assim confunde todo mundo e ninguém fica sabendo quem é.

Um abraço, gente. Até outro dia e que Deus abençoe vocês.

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