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Excelentíssimo senhor Felipe Calderón, Presidente do México,

Senhora Patricia Espinosa, secretária das Relações Exteriores do México, em nome de quem cumprimento os demais integrantes da delegação mexicana,
Embaixador Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores,

Senhores ministros Guido Mantega, da Fazenda; Ivan Ramalho, interino do Desenvolvimento; Edison Lobão, de Minas e Energia; e Sergio Rezende, da Ciência e Tecnologia,

Senhoras e senhores membros da delegação mexicana e da delegação brasileira,

Senhoras e senhores,

Meninas e meninos da imprensa brasileira e da imprensa mexicana - depois vocês me pagam pelo "meninas e meninos".

Tenho a grande satisfação de receber o presidente Felipe Calderón, presidente do México, aqui em nossa casa, em Brasília. Com sua visita, consolidamos uma parceria verdadeiramente estratégica. Estamos construindo respostas conjuntas para as aspirações de bem-estar e prosperidade de nossos povos. Temos pressa em realizar todas as possibilidades de uma amizade sincera e antiga, mas que ainda não alcançou todo o seu potencial.

México e Brasil são dois grandes países. Representamos, juntos, mais da metade do território, da população e da produção da América Latina e do Caribe. Comungamos valores e ideais, lutamos pela paz, pelo fortalecimento do multilateralismo e pela promoção do desenvolvimento com justiça social. Estamos conscientes das responsabilidades que temos na região e no mundo.

A crise econômica internacional desmistificou a suposta supremacia do mercado e dos modelos importados. Ao mesmo tempo, abriu espaço para que países emergentes como os nossos impulsionem as necessárias reformas nas estruturas da governança global. Defendemos uma economia que incentiva o trabalho e a produção, e não a especulação desenfreada. Essas posições, defendemos conjuntamente no G-20 Financeiro e no diálogo do G-5 com o G-8. Hoje ninguém pode duvidar de que somos parte indispensável da solução de um problema que não criamos.

Caro amigo presidente Calderón,

A América Latina não pode estar ausente desse debate. Também nisso, México e Brasil estão juntos. Como coordenador do Grupo do Rio, o México está empenhado em institucionalizar a Cúpula da América Latina e do Caribe sobre Integração e Desenvolvimento. Sua decisão de convocar para 2010, na Cidade do México, a segunda CALC interpretou o sentimento coletivo de todos os países latino-americanos e caribenhos. Não vamos esperar mais 200 anos para voltar a nos reunir em torno de uma agenda nossa, sem tutelas externas.

No imediato, a América Latina tem um desafio inadiável: o de contribuir para que a democracia em Honduras seja restaurada. Com esse propósito, México e Brasil tomaram posição firme a favor do retorno imediato e incondicional do presidente Zelaya a Tegucigalpa.

Precisamos agir com urgência no marco das resoluções da OEA e de nossas convicções democráticas. Não podemos tolerar nem transigir com atentados à ordem constitucional. É essa a lição que aprendemos ao longo de duras décadas de luta para devolver a liberdade e a paz à nossa região.

Senhor Presidente,

A parceria que estamos construindo se assenta em números fortes. Nosso comércio mais do que dobrou desde 2003, atingindo no ano passado US$ 7,4 bilhões. A crise mundial nos deixou um desafio: não só recuperar esses níveis de intercâmbio, mas superá-los, em vista do enorme potencial de duas economias emergentes e altamente dinâmicas.

As importações brasileiras provenientes do México, e mexicanas, desde o Brasil, ainda ocupam uma pequena parte de nosso comércio exterior. As pautas de exportação são pouco elaboradas. Os acordos de preferências comerciais são restritos e acanhados, sobretudo para dois países com importante papel nas negociações comerciais internacionais. Por isso, estamos empenhados em ampliar o acordo comercial Brasil-México.

A crise sublinhou a importância de buscarmos diversificar nossos parceiros, enriquecer o leque de produtos e internacionalizar nossas empresas. A ampliação do acordo rumo ao livre comércio Mercosul-México dará força a essa estratégia.

As extraordinárias oportunidades no campo dos investimentos apontam o caminho para duas economias com tantas complementaridades. Empresas mexicanas têm US$ 17 bilhões aplicados aqui, o que faz do Brasil o principal destino de investimentos do México no exterior. Faço um chamamento aos homens de negócios brasileiros para que sigam esse exemplo e multipliquem sua presença no México, hoje na modesta casa de apenas US$ 1 bilhão.

Empresas mexicanas e brasileiras têm conquistado presença cada vez mais forte nos mercados mundiais, inclusive dos países desenvolvidos. Elas são a ponta-de-lança da globalização de nossas economias. Estão ganhando espaço e competitividade para conquistar liderança no cenário internacional de indústrias e serviços. Não há razão para que essa aposta não aproxime, cada vez mais, nossos dois mercados.

Tenho certeza de que foi esta a mensagem que o presidente Calderón transmitiu no seu encontro com empresários brasileiros no sábado, em São Paulo. Sei que Vossa Excelência também se reuniu com empresas do etanol e visitou o Centro de Pesquisa da Petrobras. No momento em que a segurança energética ganha prioridade na agenda global, está aberto o caminho para unirmos nossas forças e competência tecnológica.

Conte com meu apoio para ampliarmos a nossa parceira em energia, sobretudo na área dos combustíveis renováveis, pois sabemos que a diversificação das fontes é fundamental. Não me canso de insistir que a experiência brasileira demonstra que os biocombustíveis desempenharão [um papel] cada vez maior numa matriz mundial... Eu vou ler aqui, porque parece que comeram bola. Não me canso de insistir que a experiência brasileira demonstra que os biocombustíveis desempenharão cada vez mais um papel importante na matriz mundial, limpa e barata.

Estamos assinando hoje acordos de cooperação técnico-científica nas áreas de biotecnologia, nanotecnologia e espacial. Eles também apontam para os desafios do futuro e para nossa determinação de construí-lo juntos.

Meu caro amigo presidente Calderón,

México e Brasil estão determinados a fortalecer as instâncias de coordenação e decisão coletivas e a defender o respeito aos direitos humanos. Sabemos, também, que não há desenvolvimento sustentável sem justiça social para todos. Somos países megadiversos, multiétnicos e multiculturais. Somos, acima de tudo, democracias que se fortalecem com o aumento da participação popular.

Aprendemos no Brasil a admirar as notáveis conquistas da civilização mexicana. As lutas sociais que mobilizaram essa nação ao longo de sua rica história ajudaram a despertar toda a América Latina e continuam a nos desafiar e a nos inspirar na construção de sociedades mais justas e menos desiguais.

É com esse México, orgulhoso de seu passado e confiante no seu futuro, que o Brasil quer ter relação cada vez mais forte. O excelente diálogo que tivemos hoje me dá a certeza de que esse também é o desejo do presidente Calderón e a expectativa do povo mexicano.

Meu caro amigo presidente Calderón,

Uma última palavra sobre a sua visita ao Brasil. Eu penso que o presidente Calderón ainda tem três anos e quatro meses de mandato na Presidência do México. Eu tenho um ano e três meses e meio na Presidência do Brasil. Portanto, nós ainda temos um tempo extraordinário para fazer o que nós ainda não fizemos, apesar de já termos feito muito na melhoria das relações México e Brasil.

Essa crise econômica, embora tenha causado prejuízos a muitos países, embora tenha causado desemprego, fechamento de empresas, quebra de bancos importantes, há uma verdade do outro lado dessa moeda da crise que nós precisamos tirar proveito dela. Eu sempre acho que uma crise vem, nem sempre para fazer apenas o mal, mas ela vem para nos desafiar e nos alertar de coisas novas que nós precisamos fazer. É inconcebível, do ponto de vista econômico, que dois países - um com 110 milhões de habitantes, outro com 200 milhões de habitantes, com PIBs sem muita diferença, com renda per capita mais ou menos igual, os dois países juntos somando 300 milhões de habitantes - é incompreensível que nós tenhamos um fluxo de balança comercial de apenas U$ 7,4 bilhões. Isso é nada na relação de dois países do tamanho do México e do Brasil. Eu acho que essa crise, presidente Calderón, tanto para o Brasil quanto para o México, está a nos obrigar a fazer no século XXI coisas que nós tanto consolidamos no século XX.

O presidente Calderón sabe que não é de hoje. Desde o tempo do presidente Fox que eu sonho com o México com um olhar mais forte para a América Latina e para a América do Sul. E também eu sonho com o Brasil mais voltado também para a América Central, Caribe e México. Nós temos alguns meses pela frente e eu acho que nós poderíamos aumentar, primeiro, a discussão como os nossos empresários - empresários mexicanos e empresários brasileiros; segundo, fazer com que haja uma intensificação na relação dos nossos ministros na área de Ciência e Tecnologia, na área de Indústria e Comércio, na área de Minas e Energia, para que a gente possa descobrir todas as oportunidades que o México oferece, de investimento brasileiro. O México descobrir, e já descobriu muito, todas as possibilidades de investimento no Brasil para que a gente construa uma nova era na relação México e Brasil.

Acho que, sobretudo, essa crise demonstra que quanto mais nós diversificarmos a nossa balança comercial, quanto mais nós interagirmos com outros países, menos dependentes nós ficaremos de uma única economia. Eu senti o resultado, presidente Calderón, aqui no Brasil, de 2003 a 2009. Eu viajava com o ministro Celso Amorim para Davos, no dia 25 de janeiro de 2003, quando eu e Celso discutíamos a necessidade de mudar um pouco a geografia comercial do mundo. Nós não poderíamos ficar dependentes apenas dos dois blocos mais ricos do mundo: de um lado, os Estados Unidos; do outro lado, a Europa. E resolvemos fazer como mascates: sair com os produtos brasileiros, com empresários brasileiros, para todos os países da América Central, da América do Sul, da África, Árabes e muitos países asiáticos.

Hoje, com a graça de Deus, nós temos uma balança comercial tão diversificada que já não dependemos mais dos Estados Unidos ou da União Européia. Se bem que, nesse período, a nossa balança comercial cresceu anualmente 20% com a União Européia e com os Estados Unidos. Mas ela cresceu 400% com a África, 500% com o Mundo Árabe, cresceu de forma extraordinária na América Latina, cresceu de forma extraordinária na América do Sul. E eu acho que este mundo estará mais aberto se México e Brasil estiverem juntos, porque juntos nós seremos mais fortes, teremos mais influência e poderemos fazer com que o povo mexicano e o povo brasileiro, no final dos nossos mandatos, tenham ganho muito mais do que ganharam até agora.

Eu dizia ao presidente Calderón que nós nos reunimos muito pouco. Dois países importantes, nós temos que nos reunir mais. Calderón tem que vir mais vezes ao Brasil e eu tenho que ir mais vezes ao México, até que a gente consiga diminuir a desconfiança, muitas vezes generalizada, que existe entre investidores brasileiros e mexicanos, que não têm certeza de onde colocar o seu dinheiro ou, quem sabe, tenham medo dessa relação.

O desafio para nós dois, meu caro Calderón, é mudar e aperfeiçoar essa história extraordinária de relação entre México e Brasil.

Muito obrigado.

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