Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Início do conteúdo da página

Obs: Por falha técnica, não foi gravado o início da intervenção do presidente Lula (cerca de 2 minutos).

... nós tivemos em quase todo o século XX uma casta de dirigentes políticos que não gostavam uns dos outros. Todos nós preferiríamos ser amigos dos europeus ou dos americanos. Eu digo isso com a experiência de quem foi dirigente sindical nos anos 80, e nunca fui convidado para ir a um sindicato na América do Sul e era convidado toda semana para ir para a Europa e para ir para os Estados Unidos.

Se nós analisarmos o que está acontecendo nesses últimos anos, nós vamos perceber que nós já andamos quilômetros, quase do tamanho da Muralha da China, para chegar a uma relação de respeito que nós conseguimos construir. Essa relação de respeito passa, sobretudo, por contermos a nossa força verbal em torno de qualquer assunto. Muitas vezes nós brigamos por manchetes de jornais.

Eu, na verdade, não gostaria que esta reunião tivesse sido transmitida ao vivo, porque todo mundo aqui foi muito cordato, todo mundo aqui foi muito tranqüilo, e não aparecem as divergências de fundo que nós temos. Eu, sinceramente, não acredito que a gente possa discutir as questões de fundo, sendo transmitida ao vivo. Muitas vezes, nós estamos falando para o nosso público e não falando das coisas que são conflitivas entre nós. Eu, sinceramente, não falei porque eu não queria parecer o antidemocrático aqui, com o problema da imprensa. Mas essas coisas não permitem que as pessoas digam, da alma para fora, o que pensam. Então, nós ficamos aqui, e eu também, procurando palavras para não ser mal-interpretados.

Então eu queria, primeiro, valorizar a Unasul. Chegar onde nós chegamos não foi brincadeira. Com muita adversidade, e tenho certeza de que em quase todos os países não faltaram manchetes para dizer que a Unasul era um fracasso, que a Unasul não resolveria nada, que a Unasul era um bando de gente que não se gostava e que não se compreendia. E nós estamos sobrevivendo. Eu não me preocupo, porque na minha vida tudo o que eu conquistei foi na base do sacrifício. Nunca, nunca alguém deu nada de graça e não vão dar para a Unasul, não vão dar. O que eu tenho consciência é que a Unasul, no século XXI, pode fazer uma mudança radical do que aconteceu no século XX, descolonizar a mente intelectual de boa parte da nossa elite e começar a acreditar que a solução de nossos problemas está em nós e não está fora do nosso continente.

Pois bem, é como se um casal, marido e mulher, estivesse dentro de casa com divergências, e o vizinho fosse convocado para resolver o problema. Não vai resolver. Ou os dois se entendem e resolvem esse problema ou a hora em que o vizinho sair, o conflito continua.

Ora, então, eu queria primeiro valorizar a Unasul. Eu, quando comecei a Presidência, diziam que o Mercosul não valia nada. No meu país a guerra que nós enfrentamos era para que a gente apoiasse a Alca, que era a salvação da humanidade. O México que o diga, com a crise econômica o que o Nafta afetou o México.

Então, se nós temos divergências é porque nós conquistamos esse espaço para ter divergências. Antigamente, as pessoas não se gostavam, não se respeitavam. Então, as divergências não apareciam. Elas agora aparecem, e se elas aparecem é um momento extraordinário de nós mostrarmos a nossa competência política, a nossa tolerância, respeitando a soberania de cada país, respeitando a soberania de cada país. É importante que a gente deixe claro que nós temos que partir do pressuposto de que toda integração que nós queremos não nos dá o direito de achar que podemos ter ingerência na soberania da Argentina, do Equador, do Brasil, da Bolívia, da Colômbia. Não. Soberania é uma coisa sagrada que cada povo conquistou.

O que nós estamos querendo, na verdade? O que nós estamos querendo? Ora, quando o companheiro Uribe - e quero agradecer a gentileza que teve de ir ao Brasil, foi à Argentina, foi ao Uruguai, deve ter ido a muitos países da América do Sul conversar com todos nós sobre a base, quero agradecer essa relação de respeito - tenta mostrar que as bases já estão na Colômbia desde 1952, eu queria de forma muito carinhosa dizer ao companheiro Uribe: se as bases americanas estão na Colômbia desde 52 e ainda não resolveu o problema, eu acho que é preciso a gente repensar que outras coisas nós poderemos fazer conjuntamente para resolver.

E eu penso que nós poderíamos dar uma chance, Uribe, a nós mesmos, dar uma chance. Não com o Conselho de Defesa, que eu concordo com a companheira Michelle que militar não é para combater o narcotráfico em fronteira, militar é para fazer outras coisas.

Nós temos polícias importantes e eu queria é que nós pudéssemos ter a chance, como companheiros fraternos, respeitando a soberania de cada país, a gente pudesse discutir o que a Unasul pode fazer com o seu Conselho de Combate ao Narcotráfico, que nós criamos e que ainda não saiu do papel, para que a gente possa enfrentar definitivamente essa questão do narcotráfico.

Porque é verdade, companheiro Alan García, é verdade, companheiro Uribe, companheiro Tabaré, companheiro Chávez, que nós temos gente da Colômbia, do Brasil, do Peru, da Argentina, do Chile, do Uruguai, do Paraguai, da Bolívia, do Suriname, nós temos gente transitando por aí com cocaína dentro da barriga, com cocaína em tudo quanto é lugar. É verdade. Mas é verdade também que os grandes consumidores não estão no nosso continente. E possivelmente, fosse extremamente importante o mundo rico, em vez de querer combater o narcotráfico dentro das nossas fronteiras, combatesse em suas próprias fronteiras. Eu às vezes fico pensando que é mais difícil combater o usuário, porque o usuário é um eleitor. E ele tem que comparecer às urnas a cada tempo para escolher deputados, presidente, senadores. Então, eles são intocáveis. Vamos transformar a questão do narcotráfico em uma questão militar e vamos, então, tentar ver o que nós podemos fazer.

Por que nós temos que ter uma posição da Unasul? Precisamos discutir. Eu sei que não vai ser hoje, mas um dia nós vamos ter. É porque se hoje o Evo Morales diz que não quer de forma nenhuma uma base militar lá dentro, nós não sabemos daqui a dez anos que tipo de governo vai ter a Bolívia e se vai querer ou não. Nós não sabemos. Nós não sabemos no Brasil, nós não sabemos na Venezuela, no Peru, no Chile. Nós não sabemos. O dado concreto é que uma decisão da Unasul é uma garantia institucional, coletiva do nosso continente de que nós poderíamos resolver esse problema se nós nos abríssemos para discutir, com toda a verdade absoluta, esse problema.

Depois que eu conversei com o presidente Uribe, eu conversei com o presidente Obama e disse a mesma coisa e ainda propus ao presidente Obama que seria extremamente importante, depois da experiência bem-sucedida daquela reunião de Trinidad e Tobago, que a gente pudesse na reunião do G-20 ou na reunião das Nações Unidas fazer uma reunião da Unasul com o presidente Obama, para que a gente deixe mais claro qual é a relação que os Estados Unidos querem ter com a América do Sul e com a América Latina. Ele não me respondeu mas disse que ia ver o problema de agenda.

Eu disse a ele, Uribe, o mesmo que eu disse a você lá em Brasília: que nós respeitamos a soberania e os acordos bilaterais que as nações fazem. Mas o que nós queremos? Nos resguardar. É que no tratado estejam contidas garantias jurídicas para que a gente possa ter fórum internacional de dizer: olha, está extrapolando o limite.

A Colômbia, a Venezuela, o Peru, a Bolívia e o Brasil têm uma imensa e vasta área na Amazônia. Só no território brasileiro são 360 milhões de hectares de terras da Amazônia. Eu de vez em quando discuto isso nos fóruns internacionais, e me dá a impressão de que a Amazônia é dos países ricos e que eles querem dizer qual a política que nós deveremos fazer para a Amazônia, quando a Amazônia é um problema nosso.

Acho que inclusive agora, para a gente ir para Copenhague, nós precisaríamos juntar os nossos especialistas e ter uma proposta dos países amazônicos para a questão climática, porque nessa questão eles também querem discutir apenas a doação de um pouco de dinheiro para o sequestro de carbono, mas não querem diminuir as emissões de gases de efeito estufa que eles jogam no ar, porque isso significa mexer no padrão de consumo do mundo rico. Então, era isso.

Na questão das bases eu acho que se nós pudéssemos ter a certeza de que no contrato teríamos instrumentos jurídicos que garantissem a nós que é uma coisa específica para o território da Colômbia e que não vá para terceiros países... porque dizer que não vai é uma coisa, mas também não diz que proíbe. E quem não proíbe, permite. Então, nós precisamos apenas ter cuidado e eu acho que todos nós aqui sabemos um ditado que nessa área "cuidado e caldo de galinha não fazem mal para ninguém".

Com relação ao narcotráfico. A minha sugestão é que a gente, tanto na área da defesa quanto na área do narcotráfico, que a gente possa ter o nosso Conselho convocado para este mês de setembro e que a gente possa fazer uma espécie de estudo real sobre a situação do nosso continente. Que o nosso Conselho de Defesa visite todas as nossas fronteiras, que faça um levantamento real da situação para ver onde essas coisas acontecem, para que a gente possa ter entre nós, não a disputa de um país contra outro, pela imprensa, mas que a gente possa ter da boca do Conselho de Defesa a realidade dessa questão, a realidade. Sinceramente, me assusta profundamente quando eu ouço, no nosso continente, as pessoas preocupadas com guerra ou se preparando militarmente. Fico muito preocupado porque o prejuízo que isso traz ao desenvolvimento do nosso continente é incomensurável, é incomensurável. Eu acho que nós, então, deveríamos ter essa decisão.

 

Aliás, dar os parabéns à Argentina, ao Equador e ao Chile pela produção do texto, que está... precisa apenas alguns pequenos reparos, mas eu acho que tem um eixo importante neste documento e acho que nós deveríamos, na hora do almoço, depois de todos os discursos feitos aqui... a capacidade de economista do Rafael Correa permite que ele tenha capacidade de síntese e coloque as coisas aí.

Queria dizer, para terminar aqui, companheiros, que a questão das bases, a questão do narcotráfico e outras questões que nós temos que discutir, eu gostaria, sinceramente, que o companheiro Uribe tivesse a certeza do nosso comportamento, ou seja, de que nunca o Uribe será convidado para uma reunião, ou qualquer um de nós, para ser o réu de um debate (incompreensível).

O que nós queremos, na verdade, é encontrar as nossas deficiências, as nossas debilidades para que a gente possa errar menos. Se a gente termina esta reunião aqui e amanhã ou depois de amanhã as manchetes dos jornais são as mesmas que eram antes das reuniões, aí nos realmente ficamos em uma situação difícil.

É uma pena que o companheiro Chávez tenha se afastado, mas eu acho que nós poderíamos criar, quem sabe, um fórum de debate entre presidentes, Uribe, Chávez e Evo, para que a gente pudesse discutir uma política de paz no continente, discutir um política de paz no continente.

Vamos começar aí, dois ou três ministros de Relações Exteriores, uma conversa pequena, para que a gente começasse a discutir essa questão de política de paz, que a gente pudesse definir claramente um parâmetro para que a gente passasse para o mundo uma imagem de que nós efetivamente queremos paz, queremos democracia, queremos desenvolvimento e queremos justiça social. Até é por isso que o povo votou em todos nós.

E acho que nós temos que ter uma coisa sagrada, uma coisa sagrada entre nós: Nós estamos em uma relação de chefes de Estado. Portanto, a gente não tem que ficar nas reuniões achando que fulano é de direita, fulano é de centro, fulano é de esquerda. Não. A minha relação pessoal, eu tenho as preferências. A minha relação de chefe de Estado é com todos, independentemente de quem seja o presidente de um país, porque eu tenho que respeitar a soberania do voto popular que elegeu os presidentes. Se nós criarmos esses valores entre nós, fica tudo mais fácil para a gente resolver o problema, tudo mais fácil.

Eu não sei... poderíamos depois propor ao Rafael, em algum momento convidar ou em uma reunião, não dá para ser uma assembléia, mas tem que ser uma reunião menor para a gente começar a discutir o que a gente poderia discutir de paz aqui no continente. O que a gente poderia discutir? Porque a gente não fala muito disso e de vez em quando a gente ouve as coisas se aguçarem, a gente vê as coisas ficarem mais quentes no nosso continente, de vez em quando tem eleição no continente. Aí depois as pessoas levantam todos os problemas que aconteceram no século XIX, aquilo volta, passam as eleições, aquilo é esquecido outra vez.

Eu penso que nós precisaríamos ter também uma mudança comportamental, para que as coisas pudessem melhorar entre nós. Eu acho que há chance, conheço a índole da maioria dos companheiros presidentes que estão aqui e das presidentas, obviamente, e eu acho que nós poderíamos construir um outro patamar melhor de relações entre nós. Eu estou convencido disso.

Agora, eu acho que eu queria discutir um pouquinho a questão política. Olhem, todos nós aqui temos experiência suficiente para entender que a única forma de a gente evitar conflitos precipitados entre nós é a gente ser contido nas palavras. Em política, a palavra tem um poder excepcional. Uma palavra bem colocada, de elogio a alguém, muitas vezes ela não tem nenhum valor e não é publicada. Mas uma palavra mal colocada, falando mal de alguém, pode gerar uma confusão que leva meses ou anos para ser resolvida.

Eu, sinceramente, acho que nós deveríamos nos dedicar um tempo para discutir com muito carinho a questão da Venezuela, a questão da Colômbia, a questão que aconteceu com o Equador, para que a gente pudesse fazer o seguinte: olha, é possível a gente colocar um papel em cima das coisas que aconteceram de errado, fulano culpa, um culpa o outro, um acusa o outro, é fotografia, um monte de coisas. Se a gente for fazer uma discussão política em função de e-mails que (incompreensível) a internet, de fotografias, de coisas... todos nós temos acusações para todo mundo e isso não resolve o nosso problema.

Quando nós nos sentamos à uma mesa como esta, nós temos que decidir antes de chegar na porta: nós queremos entrar para construir um clima de paz ou nós queremos entrar para construir um clima de guerra? Se for um clima de paz e a gente entrar com essa cabeça, com o pensamento positivo, eu acho que a gente pode encontrar e acabar de uma vez por todas com tantas ameaças e divergências que desgastam todos os presidentes, que desgastam a sociedade e que causam preocupação a quem coordena a Unasul porque, depois, quem vai correr atrás de tudo isso é o presidente pro tempore da Unasul.

Então eu penso, companheiros, que eu não poderia deixar de ser tão verdadeiros com vocês, muito verdadeiro porque eu, além de ver vocês como chefes de Estado, eu vejo vocês como companheiros. Afinal de contas já estamos, a maioria, há quase cinco seis anos juntos, já nos conhecemos.

E eu quero, profundamente... aí, Rafael, nós temos que provocar uma boa discussão com os Estados Unidos e com o presidente Obama - você, que estudou em Harvard, deve ter mais amizade - para que a gente possa discutir, para estudar, para discutir qual é o papel dos Estados Unidos para a América Latina, porque nós não podemos ficar com embaixadores dando palpite em eleição, nós não podemos ficar... O Zelaya, quando saiu do aeroporto da capital, ele foi parar primeiro na base americana. Eu conheço o Departamento de Estado, pelo menos conheço teoricamente a força. Eu sei que é difícil um presidente entrar e no começo já ter o controle de tudo.

Mas eu acho que nós temos que, enquanto é tempo, a gente fazer essa discussão com muita, com muita honestidade e com muita firmeza, e nós da América do Sul nos darmos uma chance. Acreditar em nós e fazermos com que o nosso Conselho de Defesa funcione, nosso Conselho de Combate ao Narcotráfico funcione e que a gente crie um grupo para pensar uma política de paz para o nosso continente. Era isso.

Obrigado.

Fim do conteúdo da página