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Primeiro, eu queria dizer a você e dizer a todos os convidados que eu tenho que me retirar agora, porque eu vou a Brasília só para trocar a mala e viajar para Copenhague, Bruxelas e Estocolmo. Eu vou a Copenhague porque o Rio de Janeiro está disputando sediar as Olimpíadas de 2016 com Madri, Tóquio e Chicago. E você sabe que a direção do COI mundial é como a riqueza do mundo: está toda concentrada na Europa, e a Europa sozinha tem mais delegados no COI do que toda a África e toda a América Latina. Aliás, três países europeus têm mais delegados do que toda a África e toda a América Latina.

Então, eu queria, primeiro... nós temos a Tunísia, que tem delegado; Uganda, que tem delegado; Guiné-Conacri, que tem delegado; Marrocos, que tem delegado; Senegal, que tem delegado; Quênia, que tem delegado; Camerum, que tem delegado; Zâmbia, que tem delegado; Namíbia e Gâmbia, mais Egito e África do Sul. Eu gostaria que os presidentes e os ministros que estão aqui pudessem conversar com seus delegados para que, no dia 2 de outubro, votassem na cidade do Rio de Janeiro. Eu já fiz esse apelo no encontro dos países da América do Sul com os países árabes, já fiz no Congresso da União Africana, lá na Líbia, e gostaria de reiterar o apelo para que os presidentes e os ministros que estão aqui conversassem com os seus delegados, para que nós pudéssemos ter o direito de fazer uma Olimpíada na África, ou melhor, no continente sul-americano.

Eu já citei os países africanos aqui uma vez. Eu já citei a Tunísia, Uganda, Guiné-Conacri, Marrocos, Senegal, Quênia, Camerum, Zâmbia, Namíbia, Gâmbia, Egito, África do Sul. E aqui na América Latina, Peru, Colômbia e Uruguai, fora o Brasil.

Pois bem, esse é um apelo. Eu acho que eu vou me encontrar com o presidente Zapatero, em Copenhague. Vou me encontrar, talvez, com o próprio presidente Obama e, certamente, com o primeiro-ministro japonês. A verdade é que, de todos os países que compõem as dez maiores economias do mundo, o Brasil é o único entre as dez que não fez uma Olimpíada. A América do Sul nunca fez uma Olimpíada e a primeira Olimpíada feita no nosso continente foi em 1968, na cidade do México.

Portanto, nós achamos que o maior evento esportivo do mundo, depois da Copa do Mundo, não pode ser um privilégio dos países ricos. Nós precisamos fazer na América do Sul, e depois precisamos fazer na África. Já é uma boa experiência a África do Sul sediar a Copa do Mundo de 2010. Londres já vai fazer em 2012. Não é justo que seja feito outra vez na Europa. E também não é justo que os Estados Unidos, que já fizeram quatro Olimpíadas, mais quatro de Inverno, são oito Olimpíadas. Se ganharem essa, será a nona Olimpíada, entre Inverno e Verão, que fazem os Estados Unidos.

Portanto, nós gostaríamos que houvesse a compreensão dos delegados do COI e, se vocês tiverem influência, eu gostaria de pedir a vocês o apoio para a cidade do Rio de Janeiro.

Bem, por último, Chávez, eu quero, primeiro, te dar os parabéns pelo belíssimo evento que você realizou aqui na Venezuela. Certamente muita gente torcia para que houvesse um fracasso e acho que a presença dessas dezenas de líderes aqui foi um sucesso extraordinário. E sobretudo o tratamento que nós obtivemos aqui na Isla Margarita, foi extremamente importante, e esse evento realizado aqui não deve nada a nenhum evento realizado em qualquer parte do mundo. Portanto, parabéns a você, como presidente da Venezuela, e aos organizadores deste evento, sobretudo liderados pelo companheiro Maduro.

No mais, no mais, eu queria dizer uma palavra antes de me retirar. É, possivelmente, a primeira vez que muitos de nós nos encontramos, e quando participamos de uma reunião internacional, normalmente nós voltamos frustrados, porque a reunião é sempre muito boa, e nós voltamos para casa com os mesmos problemas que nós tínhamos antes de participar da reunião.

Eu estava vendo o discurso do presidente Tabaré e eu sentia o companheiro Tabaré sequioso, ansioso, que nós tínhamos que decidir uma ou duas coisas e colocar em prática. Nem sempre colocar em prática é tão fácil e tão rápido quanto os discursos que nós fazemos. O Banco do Sul, nós levamos três anos para concluí-lo e ainda vai para o Congresso de todos os países e, quando chegar ao Congresso, nós não sabemos quanto tempo vai levar para ser aprovado.
Mas, uma coisa, eu queria pedir a compreensão de vocês. O fato de nós termos decidido fazer uma reunião e oficializar esta Cúpula e determinar tempo para que ela se realize é uma coisa que eu considero estupidamente favorável à relação Sul-Sul. E digo isso porque no próximo ano terminarei o meu mandato no Brasil e tenho consciência do sacrifício e do esforço que é a gente realizar uma reunião, convencer os companheiros a participarem dessa reunião, e convencer os companheiros de que nós precisamos procurar novos mecanismos e novas formas de relações entre nós para que nós não fiquemos dependentes apenas da bússola dos chamados países desenvolvidos.

Eu estou convencido de que todos nós ainda não descobrimos 20% do potencial que nós temos de fazer as coisas acontecerem entre os nossos países, e queria dizer para vocês que, no caso do meu país, o Brasil ainda não se deu conta de que é uma grande nação. O Brasil não se deu conta de que ele saiu da condição de país receptor para um país doador. O governo já está convencido. Mas, certamente, nós teremos muita dificuldade no Congresso Nacional para convencer o Congresso da necessidade de aportar os recursos de que o Brasil precisa para que a gente possa dar os passos mais importantes que temos que dar. Certamente é assim na Argentina, certamente é assim na Bolívia, certamente é assim no Uruguai. Ou seja, todos nós, todos nós aprendemos a vida inteira a pedir recursos para os países ricos e não assumimos a responsabilidade de sermos países doadores, de dar tecnologia, de passar os conhecimentos que nós temos.

Essa é uma coisa nova. Na América do Sul, não faz muito tempo que a relação entre nós era uma relação muito pequena e uma relação muito distante. Na América do Sul, por exemplo, disputava-se quem era mais amigo do governo americano ou quem era mais amigo dos governos europeus e nós praticamente não tínhamos confiança em nós. A mesma coisa acontece com os países africanos. Os países africanos também, pelo fato de terem sido colonizados pelos europeus, a relação é muito mais forte com os países europeus e eu acho que essa relação precisa continuar.

Mas é importante saber que nós precisamos procurar novos parceiros, procurar uma nova relação. Essa crise econômica, agora, mostrou que a diversificação das nossas relações fez com que os países que tivessem mais opções, sofressem menos os efeitos da crise, porque não dependíamos de um bloco ou de uma economia.
Eu queria que vocês saíssem daqui com a certeza de que o século XXI pode ser o século da África e pode ser o século da América Latina e da América do Sul. Basta que a gente tenha clareza de que nós dependemos muito mais das nossas decisões do que dos sonhos, das ajudas externas, que muitas vezes passamos todo o século XX esperando e estamos esperando no século XXI. Vocês percebem claramente que na época da crise todos os países ricos que defendiam o livre comércio foram os primeiros a se fechar no protecionismo. Os países africanos são testemunha da tentativa enorme que nós fizemos para negociar a Rodada de Doha, sobretudo pensando em abrir um mercado agrícola europeu para os países africanos, e não conseguimos. E não sei se vamos conseguir abrir, para que os países da África que produzem pouca coisa tenham, no mínimo, acesso a um mercado dos países ricos para não continuarem recebendo as ajudas em alimentos subsidiados dos países ricos.

Então, eu penso que nós estamos dando um passo extremamente importante. É importante que cada companheiro, quando regressar ao seu país, regresse com a convicção de que nós estamos dando um passo extraordinário. Um exemplo, Chávez, é que há muitos anos uma autoridade brasileira não ia ao continente africano, há muitos anos. Nós passávamos por cima do continente africano para parar em Roma, para parar em Paris, para parar em Londres, para parar em Frankfurt, para ir a Estocolmo, mas não parávamos na África, nem para fazer turismo. E agora nós redescobrimos o continente africano e só eu já fiz 21 viagens ao continente africano, já visitei 21 países no continente africano, e quero ver se no próximo ano faço visita a um outro grupo de países. E eu acho que os países da América do Sul devem visitar a África, porque nós não estamos habituados e nós precisamos construir uma nova parceria entre nós, descobrir oportunidades entre nós, ver no que nós podemos nos ajudar mutuamente. Ninguém precisa introduzir no seu país aquilo que a gente está introduzindo no nosso, porque isso leva tempo, tem que respeitar a cultura, respeitar a história, respeitar a composição política de cada país.

Nós sabemos que nós temos que fazer o jogo da política no nosso país, mas uma coisa é certa: o fato de vocês terem vindo a esta reunião, o fato de nós já termos marcado a terceira reunião e o fato de nós termos feito já a segunda reunião com os países árabes demonstra claramente que é possível a gente mudar a geografia política, comercial e econômica do mundo. Não será, possivelmente, no meu governo. Possivelmente, não será no governo de muitos dos senhores. Mas, certamente, quem vier depois de nós estará comprometido com uma lógica política que não existia há dez anos. É importante que a gente creia nisso, é importante que a gente acredite nisso, porque não é possível que a gente ainda continue com uma independência, depois da independência, guerra civil em muitos países, depois da guerra civil a gente descobre que, embora a gente governe os países, a maioria ainda está colonizada economicamente porque depende de tecnologia dos países ricos, porque depende de financiamento dos países ricos e porque dependemos de mercados dos países ricos.

É importante, então, que em todas as discussões que a gente faça e aí, Chávez, a Secretaria poderia dar uma contribuição. Era importante que cada país, que cada país da América do Sul e cada país do continente africano pudesse mandar à Secretaria todas as experiências bem-sucedidas na área econômica, na área educacional e, sobretudo, na área social.

Eu queria dizer uma coisa pra vocês que, para mim, é muito sagrado. Eu passei a vida inteira ouvindo dirigentes políticos, ouvindo outras pessoas dizerem que era preciso a economia crescer para depois distribuir. No meu país, nós, de 1950 a 1980, fomos a economia que mais cresceu no mundo. Crescemos acima de 7% durante 30 anos e, em alguns anos, crescemos até 10% ou 14%. Entretanto, quando terminou esse crescimento, nós constatamos que uma parcela da maioria do povo estava mais pobre e uma parcela da minoria do povo estava mais rica. Mas ainda continuou o debate: primeiro tem que crescer para depois distribuir. Quando nós ganhamos o governo, nós resolvemos mudar um pouco a lógica e resolvemos distribuir um pouco daquele dinheiro que o Estado tinha para as pessoas mais pobres. E nós, então, provamos, depois de oito anos de governo, que não tem que esperar crescer para distribuir. É preciso começar a distribuir para a economia crescer. E nessa crise, agora, foi exatamente a parte mais pobre da população que continuou consumindo e comprando as coisas necessárias para ativar a economia brasileira.

Portanto, investimento em política social é a melhor forma de fazer o nosso país crescer. O investimento social, por menor que seja, se cada governo pegar um pouco do seu orçamento e transferir, em forma de transferência de renda, para a gente mais pobre, ele pode ter certeza de que ele vai crescer, em poucos anos, mais do que ele cresceu em vários anos. A experiência da Bolívia pode ser contada para vocês. O companheiro Lugo está começando uma experiência recente e eu posso dizer para vocês que a experiência brasileira é muito exitosa, muito exitosa.

Então, era importante que todos nós pudéssemos preparar as coisas que aconteceram de bom em nosso país, para que a gente pudesse, em outra reunião, a gente não ficar apenas teorizando, mas a gente partir de coisas concretas, o que cada país fez para melhorar a vida do seu povo, e o que aconteceu de fato e de concreto. E aí, nós vamos descobrir que nós temos experiências extraordinárias em cada país e que nós não sabemos. E se nós não sabemos, nós não podemos aplicá-las. Não existe saída fácil ou rápida. Mas toda, toda, toda muralha tem que começar com a primeira pedra ou com o primeiro tijolo. E eu posso dizer para vocês que na hora em que eu deixar o governo, eu tenho uma política muito exitosa em que os pobres deixaram de ser tão pobres e passaram a fazer parte da sociedade e ter cidadania no País.

Então, Chávez, eu queria dizer essas palavras como alento aos companheiros. Um alento e uma esperança porque muitas vezes nós saímos daqui desanimados: "Eu vou embora, não aconteceu nada, ouvi discurso do Lula, ouvi discurso do Chávez, ouvi discurso do Kadafi, ouvi discurso do Rafael", e vai por aí afora. E é verdade que a gente não pode fazer nada de imediato. Mas só o fato de nós, líderes políticos de países diferenciados, com linguagens diferenciadas, com culturas diferenciadas, nos colocarmos dois dias para discutir os nossos problemas, já é um feito político extraordinário, fantasticamente extraordinário.

Por isso, eu queria agradecer a presença de todos vocês, porque eu acho que foi um esforço imenso para muitos países virem aqui, e agradecer mais uma vez, Chávez, e parabenizar pela belíssima organização que nós tivemos neste evento.

Muito obrigado a todos vocês.

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