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Meu querido companheiro vice-presidente da República, José Alencar,

Meu companheiro presidente do Senado Federal, José Sarney,

Meu companheiro embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto, ministro de Estado chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, e sua senhora Maria Maia,

Embaixador Celso Amorim, na pessoa de quem cumprimento todos os companheiros ministros aqui presentes,

Meu caro e querido companheiro Daniel Vargas, que foi ministro interino até este momento, e foi secretário-executivo do então ministro Gabeira [Mangabeira],


Bem, primeiro meus agradecimentos a você, Daniel. O Gabeira [Mangabeira] não está aqui. Está, certamente, em Chicago, porque ele voltou para a universidade, senão ele perderia a titularidade dele na escola. Mas eu quero fazer agradecimento aqui.

Primeiro, no dia em que o companheiro José Alencar e a direção do PRB entraram no meu gabinete para que a gente aprovasse o nome do companheiro Gabeira [Mangabeira] para ministro, foi um dia muito importante e eu pude discutir com o ministro Gabeira [Mangabeira], Samuel e companheiros... Mangabeira. Eu resolvi discutir que era importante que nós tivéssemos alguém pensando o Brasil um pouco mais para a frente do que o mandato de um presidente permite pensar.
Eu dizia que nós, em 2022, exatamente no dia 7 de setembro de 2022, nós iremos completar 200 anos de Independência. E eu queria, na verdade, que fosse trabalhado, com muita inteligência e com muita utilização da inteligência brasileira, das universidades, um esboço daquilo que a gente queria construir para quando nós completássemos 200 anos de Independência. E o Mangabeira saiu a campo trabalhando.

É preciso reconhecer, publicamente, que o companheiro Mangabeira produziu infinitamente mais do que o tempo permitiria que um ser normal produzisse em tão pouco tempo. A colaboração do Mangabeira, junto com o ministro Jobim, na produção do Plano Estratégico de Defesa foi uma coisa extraordinária.
Depois, nós já temos propostas semielaboradas sobre várias coisas que nós precisamos para o Brasil. Portanto, além das coisas que você vai criar, Samuel, tem coisas já semielaboradas que podem ser aperfeiçoadas para que a gente comece a colocar em prática essas coisas.

E quero agradecer ao Daniel, porque o Daniel assumiu a interinidade e manteve a mesma preocupação de trabalhar que tinha o ministro Mangabeira. Visitou todos os ministros, conversou com todos os ministros, à procura de continuar com a mesma intensidade e com a mesma, eu diria, quase obsessão de apresentar uma proposta para construir o país do futuro que nós precisamos.

Quando foi há poucas semanas, o mesmo PRB e o mesmo José Alencar me procuraram dizendo que, na medida em que o companheiro Mangabeira tinha deixado o governo, eles então queriam indicar uma outra pessoa para o Ministério e me indicaram o companheiro Samuel Pinheiro Guimarães.

Possivelmente, os estilos sejam diferentes - eu estou com um mosquito aqui no meu olho; se tivesse alguém com uma lata daquele produto que mata mosquito poderia vir jogar aqui, senão ele vai... - possivelmente os estilos sejam diferentes. A causa é a mesma, o país é o mesmo e as principais preocupações já foram teorizadas também pelo companheiro Samuel Pinheiro Guimarães.

Eu penso, companheiro Mangabeira [Samuel], que o Brasil historicamente padeceu de um erro, que é ser pensado apenas de quatro em quatro anos. E um país pensado de quatro em quatro anos não pode dar muito certo porque, como troca o Presidente de quatro em quatro anos, se cada um que entrar tiver uma forma diferente de enxergar o Brasil, a forma de governança será um tipo de sanfona: vai e volta, vai e volta, sem que a gente consiga colher o resultado concreto de um programa de longo prazo no nosso país.

No primeiro mandato que eu tive como presidente da República, havia uma certa angústia das pessoas, que diziam assim para mim: "Lula, quando você deixar a Presidência, qual é a marca que você quer deixar?" Essa era uma pergunta que faziam jornalistas, que faziam companheiros meus de vários partidos políticos, que faziam alguns intelectuais. E a gente, na verdade, estava tão metido na sobrevivência cotidiana do exercício do mandato, que a gente não tem tempo de pensar mesmo em longo prazo. Ou seja, quando você começava a pensar em longo prazo, entrava um ministro dizendo que o Paulo Bernardo tinha contingenciado o orçamento dele. E quando o orçamento é contingenciado, não tem nem médio e nem longo prazo, é tudo no curto prazo, é tudo no curto prazo. E é engraçado que o contingenciamento era avisado em uma reunião ministerial, mas, ao terminar a reunião, o Paulo Bernardo era o culpado de tudo e eu era o cara que tinha o poder de fazer o Paulo Bernardo liberar dinheiro. Graças a Deus, Paulo, sobrevivemos.

Ora, as coisas começaram a mudar quando em 2006, antes das eleições, nós pensamos em construir o PAC. Os militares já tinham trabalhado com os planos decenais, em alguns momentos, que deram resultados.

Quando nós pensamos o PAC, Samuel, nós íamos lançá-lo antes da campanha eleitoral. Foi um amigo nosso, seu e meu, que me propôs que não era prudente a gente lançar o PAC antes das eleições, porque a gente iria transformá-lo em uma peça eminentemente eleitoral e, portanto, ele poderia perder credibilidade. O que me confortou é que esse amigo me disse: "Olhe, Lula, você vai ganhar as eleições sem o PAC." Então, me deu força, não precisei virar super-homem, mas aquilo me deu uma força muito grande. E eu deixei o PAC para lançar em janeiro de 2007.

Eu poderia avocar aqui os ministros presentes. O PAC, depois de elaborado, deu muito mais consistência à atuação do governo. Por quê? Porque cada um sabia o que tinha que fazer do dia 22 de janeiro ao dia 31 de dezembro de 2010. Cada um já tinha a sua previsão de gastos, cada um já tinha as suas prioridades e, portanto, era apenas fazer a coisa acontecer.

E posso dizer aqui, Samuel, que todos os programas feitos pelos Ministérios, a partir de 2006, foram infinitamente superiores a tudo que tinha sido feito até 2006. Por quê? Porque os ministros tinham aprendido.

Então, houve essa correção. Nós, agora, vamos ter que trabalhar com uma espécie de PAC 2011-2015. E vamos ter que trabalhar porque nós temos a Copa do Mundo em 2014, nós temos as Olimpíadas em 2016, nós temos a Copa das Confederações em 2013, nós temos os Jogos Militares em 2011, e a Copa da Confederação que nós tínhamos, nós passamos... A Copa das Américas, que era em 2015... Imaginem, 2011, os Jogos Militares; 2013, Copa das Confederações; 2014, Copa do Mundo; 2015, Copa das Américas; 2016, Olimpíadas. Ninguém aguenta assim, é muito esporte em um período de quatro anos.

Mas, de qualquer forma, essas decisões vão ter que exigir do governo, ainda em 2010, preparar toda a estrutura que a infraestrutura necessita para que a gente possa fazer essas coisas acontecerem no nosso país.

 

Então, no mínimo, a gente tem que trabalhar já [a partir] de agora até 2016. Ora, de 2016 para 2022, faltam apenas seis anos. Se você está trabalhando de 2010 a 2016, nada mais justo do que ampliar a cabeça e a gente fazer até 2022.
E aí é pensar concretamente as coisas que nós precisamos fazer para tornar o Brasil moderno, tornar o Brasil avançado, sem aquela concepção atrasada de que o Estado não tem um papel a cumprir no País.

Se tem uma coisa extraordinária que essa crise econômica permitiu que aqueles que têm olhos, mas que não queriam enxergar enxergassem, é que não é possível um país sobreviver se o Estado for débil e for fraco e o mercado for forte, não é possível. Porque tem coisas que o mercado não sabe fazer e tem coisas que o mercado não quer fazer. Portanto, essas coisas somente o Estado é que pode fazer.

Então, nós, companheiro Samuel, vamos ter que deixar como legado para quem vier depois de nós pelo menos o desenho, o esboço, a matriz daquilo que nós queremos para as nossas crianças, para a tua netinha, que eu vi agora há pouco. Em 2022, ela deverá estar com, no mínimo, 13 anos, 13, 14 anos. Já vai estar na rua fazendo passeata, fazendo greve, chamando os governantes de pelegos, de ditadores, de antidemocráticos, pode ficar certo. Eu espero que você esteja com uns 90, vivinho, para poder ver ela fazer as passeatas, sem chupeta, sem aquele "negocinho" na mão, mas com uma bandeira, querendo universidade pública e gratuita.

Bem, o dado concreto é que este país, Samuel, tem que ser pensado, ele tem que... não é tarefa fácil, mas ele tem que ser pensado. Nós já temos um acúmulo de trabalho muito grande, nós agora estávamos discutindo ali um pouco da educação.

O ProUni colocou, em quatro anos ou cinco anos, quase a mesma quantidade de estudantes que as universidades federais brasileiras, todas juntas, colocaram desde o tempo em que elas existem. Ou seja, se continuar nesse ritmo a gente vai, com um programa desse, criar, em pouco tempo, o que todas as universidades federais fizeram ao longo de um século. Eu acho que isso é pensar o futuro.
Na área da Defesa, você não precisa pensar mais porque já foi pensado, e todo o projeto da área da Defesa é até 2020. Portanto, nós temos oito ou nove anos pela frente ou dez anos para trabalhar.

Mas a questão da Amazônia, a questão da Amazônia não está bem pensada e bem elaborada. Nós não firmamos ainda uma... a palavra correta é uma doutrina sobre a utilização da Amazônia. Nós temos paixões pela Amazônia, cada um do seu jeito. Tem gente que tem paixão e acha que uma motosserra resolve tudo. Tem outros que têm paixão e acham que tem que virar um santuário da humanidade: não pode mexer. E tem aqueles que têm... que são razoáveis, que acham que é possível extrair da Amazônia, sem estragar a nossa floresta e sem derrubá-la, explorar a forma correta de tirar o sustento de milhões de famílias que moram na região e, ao mesmo tempo, quem sabe, extrair dali uma riqueza que ainda não foi explorada, que é a nossa biodiversidade.

Isso é preciso pensar, já tem esboço disso também, já tem muita conversa com governadores de estados, nós já fizemos conversas imensas com governadores de todos os estados amazônicos. Estamos nos preparando agora para Copenhague, em 2010. E vamos continuar trabalhando, porque é, possivelmente... A Amazônia e o pré-sal são duas coisas extraordinárias com que nós temos que nos preocupar com muito carinho, porque podem ser a redenção deste país, além do nosso povo, que é a coisa mais importante que nós temos.

Então, Samuel, eu gostaria que você desse ao Ministério a mesma dedicação que você deu à tua vida diplomática. Eu gostaria que você colocasse o teu tempo, a tua inteligência, para que a gente pudesse deixar, quando sairmos do governo, alguma coisa mais consistente para aqueles que virão depois de nós.

Não é que os que virão depois de nós irão utilizar aquilo que nós fizemos. Mas eles poderão extrair daí o chamado elixir, ou seja, as coisas melhores que tem, para poder transformar este país em uma nação que, segundo o Banco Mundial, em 2016 poderá ser a quinta economia do mundo. Se duvidarem, a gente pode ser a quarta. E não duvidem muito, porque nós não sabemos ainda a quantidade de petróleo do pré-sal, nós não sabemos ainda a riqueza total da biodiversidade da Amazônia, nós ainda não exploramos as coisas que nós temos que explorar.
A integração da América Latina ainda é muito incipiente, nós ainda não estabelecemos as trocas na área de ciência e tecnologia, nanotecnologia, comércio, estrada, comunicação, que nós temos que fazer. Por enquanto, nós estamos em uma fase de admirar o que foi feito na Europa. E nós, agora, é que começamos a fazer.

Só para você ter ideia, Samuel, a primeira ponte entre Brasil e Peru fomos nós que inauguramos, no nosso governo; a primeira ponte entre Brasil e Bolívia fomos nós que inauguramos. Estamos há quantos anos para fazer a segunda ponte com o Paraguai, e a gente não consegue fazer? A segunda, Sarney. E a gente não consegue fazer. Estamos há mais de dez anos trabalhando nisso, o Paraguai trabalha com essa possibilidade há 20 anos, e ela não sai.

Então, além de tudo isso, Samuel, era preciso pensar um pouco na... Um pouco... que é uma coisa que hoje, como governo, eu sei, um pouco na estrutura do Estado brasileiro. Era preciso que a gente pensasse como a gente modernizar o aparelho de Estado e o funcionamento da máquina do Estado. Porque nós fomos criando uma quantidade de teia de aranha, uma quantidade de embaraços, que nós mesmos, hoje, que governamos, sentimos dificuldades. Possivelmente, Salomão, porque quando a gente era oposição, a gente propunha tudo para atrapalhar quem estava governando a governar. Porque é sempre assim, a oposição está sempre desconfiando de quem está governando. Na Constituinte foi o auge da força que o movimento social teve neste país, foi o momento mais participativo de todo o Congresso Nacional. E nós, embora tivéssemos o "Centrão", nós conseguimos juntar uma maioria que aprovou grande parte das coisas que estão aí, muitas maravilhosas, mas muitas, hoje, eu percebo a dificuldade de você gerenciar uma cidade, um estado e o País.

Então, Samuel, você percebe que a tarefa não é pequena. Eu não sei se você vai ter tempo de escrever os "550 [500] anos de periferia", como diz o Chávez. Não sei. Porque, dentre outras coisas, ele é guru do Chávez. Chávez, antes de cumprimentar, pergunta: "Cadê os 500 anos de periferia? Cadê meu amigo Samuel Pinheiro?"

Então, Samuel, eu só posso te desejar, meu querido, toda a sorte do mundo. Quero que você saiba que eu tenho a convicção de que você tem competência, inteligência e capacidade de trabalho para fazer esse serviço. Vai depender, agora, de você montar a equipe e começar a trabalhar.

No mais, eu espero que... Você vai ter um gabinete melhor do que o meu, porque o Gabeira... o Mangabeira, antes de sair, o Mangabeira falou: "Ô Presidente, o senhor deveria era mudar para o meu gabinete. É muito maior que o seu, no Palácio do Planalto, é muito..." É melhor, não é, Jobim? Então, você vai ter um gabinete melhor do que o meu. Eu só espero que você produza muito mais do que eu, porque a geração de 2022 vai ganhar muito mais do que a geração atual está ganhando.

Parabéns e boa sorte, companheiro Samuel.

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