Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Início do conteúdo da página

Obs: Devido a problemas técnicos, o início do discurso não foi gravado

... brasileiros,
Empresários do Reino Unido,
Convidados,
Ministros brasileiros,

Primeiro, dar os parabéns ao Financial Times e ao Valor Econômico por realizarem este encontro. Eu penso que, com a ajuda das empresas brasileiras e com a ajuda das empresas estrangeiras, a gente poderia repetir isso todo ano. Um ano no frio do Reino Unido, e um ano no calor do Brasil. Eu penso que em política e em economia nós precisamos nos encontrar mais vezes para que a gente possa se conhecer mais profundamente e melhor.

Eu queria dar um depoimento para vocês, antes de ler o meu discurso, de algumas coisas que estão acontecendo no Brasil, que muitas vezes nem nós mesmos, do governo, sabemos ou acompanhamos. Porque quando não acontece nada em um país, todo mundo sabe. Quando acontece muita coisa, nós nem sabemos. Eu acho que o depoimento do Banco do Brasil, do Bradesco, do BNDES, da ministra Dilma, do ministro Franklin, do Meirelles, eu penso que são depoimentos muito importantes, que dão sustentabilidade e seriedade àquilo que estamos fazendo no Brasil. Mas tem milhões de outras coisas que estão acontecendo, que nós muitas vezes não sabemos porque muitas vezes nós não aprendemos a dar importância às coisas pequenas, que significam muito.

Eu vou dar dois exemplos para vocês, antes de começar o meu discurso. Em 2004, resolvemos fazer no Brasil um programa chamado Luz para Todos. Nós tínhamos milhões de famílias que não tinham energia na sua casa. Acontece que essas pessoas que não tinham energia elétrica moravam distante dos grandes centros urbanos. Então, não havia nem interesse da iniciativa privada e nem mesmo interesse das empresas públicas brasileiras, do setor energético, de fazer um programa dessa dimensão. Na Amazônia, algumas ligações chegam a custar para nós, do governo, US$ 3,5 mil, uma ligação. E alguém tem que fazer, porque é um brasileiro que está lá perdido, no meio da floresta, e que tem o direito a ter os benefícios que os outros cidadãos têm. Então nós assumimos, enquanto governo, fazer o programa Luz para Todos. Nós começamos com os números do nosso instituto de pesquisa, o IBGE, que afirmava que tinha por volta de 8 milhões de famílias - 8 ou 10, Dilma? A Dilma saiu para dar entrevista - 8 ou 10 milhões de pessoas que não tinham energia elétrica. Então nós resolvemos fazer esse programa.

Quando nós entramos no meio do nada para fazer a ligação, nós descobrimos que não eram 10 milhões, que tinha pelo menos mais 4 ou 5 milhões de pessoas que não tinham energia elétrica. E começamos esse programa. Em março deste ano nós tínhamos atingido, 2 milhões e 22 mil [2 milhões e 200 mil] residências a que nós levamos energia. Essa energia significa três pontos de luz, totalmente gratuitos. Pessoas pobres não pagam absolutamente nada, e é uma coisa financiada pelo governo. Em alguns estados, os governos estaduais entram com a contrapartida de mais ou menos 20%.

Prestem atenção nos números que eu vou dar aqui. Para fazer a ligação nessas 2 milhões e 200 mil residências nós já utilizamos 906 mil quilômetros de cabo; 906 mil quilômetros de cabo dariam para dar 21 voltas no planeta Terra, se é que os cálculos que me deram estão certos, de que a circunferência da Terra é de 40 mil quilômetros e oitocentos e poucos metros. Então, tudo o que nós colocamos de cabo, até agora, daria para dar 21 voltas no planeta Terra. Não precisaria nem de um foguete, era só se pendurar no nosso fio e chegar no Planeta Terra. Isso significou 727 mil transformadores; e isso significou 4 milhões 740 mil postes. Tudo isso incentivando que a empresa local, na cidade ou no estado, fizesse esse trabalho. Por conta desse Programa, nós vendemos para as famílias que colocaram luz nas suas casas 1 milhão e meio de televisores, mais de 1 milhão e 400 mil geladeiras, mais de 900 mil aparelhos de som e mais de 1 milhão de liquidificadores, apenas por conta desse Programa, que não seria feito se o governo não assumisse a responsabilidade. Já custou ao governo mais de R$ 9 bilhões e nós não tratamos isso como gasto, nós tratamos isso como investimento do Estado brasileiro para cuidar da cidadania do nosso povo.

A segunda coisa é o crédito consignado. Era impressionante como as pessoas que tinham uma concepção capitalista no meu país não tinham descoberto que em um país capitalista tem que ter capital circulando. Porque você não pode ser capitalista na concepção e ser outra coisa na prática. Nós criamos, em 2005, se não me falha á memória, um programa chamado Crédito Consignado, para emprestar dinheiro às pessoas que não tinham (incompreensível): ao aposentado, ao pequeno trabalhador que queria tomar US$ 50 emprestado, US$ 80, US$ 6.

Eu vou terminar essa primeira parte dizendo: sabe quanto de dinheiro nós emprestando no mês de setembro? Sabe quanto tem na caderneta do crédito consignado? Mais de R$ 100 bilhões. Pessoas que tomam dinheiro emprestado em um banco, não para comprar dólar, não para depositar em um banco não sei onde, ou fazer derivativos não! As pessoas pegam o dinheiro no banco para comprar uma televisão, para comprar um sapato, para comprar uma camisa, para comprar uma meia, para comprar material escolar para o filho. E é isso que dá o dinamismo dessa chamada classe média emergente que está revolucionando o Brasil.

Eu fui agora visitar um canal que nós estamos fazendo no Nordeste. Quem não visitou, se for brasileiro, é importante visitar. E os ingleses estão convidados para visitar. É um canal de 642 quilômetros, que vai levar água a quatro estados da Federação, que tem a parte que menos chove no País. Lá eu conheci uma mulher. No ano passado - essa mulher chama-se Eliane - essa mulher, quando as empresas começaram a trabalhar, ela tomou R$ 50 emprestados para um afilhado dela. Fez R$ 50 de pastéis e foi vender na obra. Um ano depois, ela já estava servindo 400 refeições na obra, já tinha comprado um carro, já tinha comprado uma motocicleta. E com muito orgulho - viu, Trabuco? - com muito orgulho ela me falou que já tinha pago R$ 5 mil de Imposto de Renda, ou seja, ela pagou o seu Imposto de Renda. Vejam a contradição: o Presidente da República, naquela mesma semana, tinha recebido R$ 5 mil de devolução do Imposto de Renda. É fantástico uma pessoa que um ano e meio atrás não tinha R$ 50, um ano e meio depois ela já tinha um carro, uma motocicleta, um restaurante, e já estava pagando Imposto de Renda. É esse milagre da transformação, que ainda não foi medido corretamente pelos economistas, que ainda não foi medido corretamente pelos institutos de investigação, que está ocorrendo no nosso País.

Eu confesso a vocês que quando eu vi os companheiros aqui fazer as suas exposições, e mesmo quando eu faço, eu sou obrigado a reconhecer que nem nós, do governo, temos dimensão do que está acontecendo no nosso país. No sábado passado eu fui a uma exposição de catadores de papel, pessoas que catam papel na rua para reciclar. Só nos próximos dois anos o BNDES, que pouco tempo atrás não tinha dinheiro nem para emprestar para empresários, está emprestando para os catadores de papel R$ 225 milhões para eles se organizarem em cooperativas, fazer reciclagem, fazer artesanato. Eu tenho pedido para os prefeitos: não contratem empresas para fazer a coleta de lixo na rua, porque vocês vão deixar apenas uma pessoa rica. Contratem todas as pessoas pobres que querem catar papel, porque a gente vai distribuir essa riqueza e a gente vai ter um conjunto de pessoas na periferia dos grandes centros urbanos vivendo dignamente, às custas do seu trabalho. É uma espécie de conquista de cidadania coletiva que está acontecendo no nosso país. Era isso o que eu gostaria que os empresários e os investidores ingleses entendessem. Sobretudo os ingleses, que no final do século XIX e começo do século XX investiram muito no Brasil. Depois da 1ª Guerra Mundial tiveram muitos problemas, e aí não voltaram mais a investir no Brasil, como investiam no final do século XIX. É importante que a Inglaterra redescubra o Brasil como território de oportunidades para investimentos.
Obviamente que o companheiro Botín, eu posso tratá-lo assim, porque espero que um dia ele leve alguns jogadores do Real Madrid para jogar no meu Corinthians. O companheiro Botín teve essa visão ainda em 2002, quando eu era candidato a presidente da República, [havia] muito preconceito contra mim, muita gente falando que eu ia acabar com a economia brasileira, e o Botín foi me fazer uma visita e perguntou para mim: "Presidente, eu posso dar uma declaração?" Eu falei: só se for a favor, contra não. Ele, em pleno 2002, no auge das eleições, o Botín, com o seu Santander, foi lá dizer que o Lula era uma garantia para o País. E agora estamos aqui, ele colhendo resultados daquilo que, com essas palavras, ele ajudou a produzir no nosso país.

Bem, eu precisava começar dizendo isso porque tem uma revolução silenciosa no Brasil e, possivelmente, nem todo mundo entenda que é a recuperação da autoestima coletiva de uma sociedade. Isso é muito forte. Eu não sei se vocês perceberam que o Vietnã, um país pequeno daquele, conseguiu derrotar a França, conseguiu derrotar os Estados Unidos e conseguiu derrotar a China. Qual é a explicação, se não a autoestima à flor da pele para defender o que era deles?

Nós, brasileiros, estamos assim. Nós cansamos de ser país do futuro, nós cansamos de tantas promessas do século XX, e nós agora não queremos perder nenhuma oportunidade do século XXI. Eu estou convencido de que o século XXI é século do Brasil, e nós temos que começar ontem, para que a gente possa desfrutar desse espaço que o mundo está vivendo e o Brasil, dentro dele, está vivendo um momento quase mágico, pela expectativa que nós mesmos temos de nós.

Eu, algum tempo atrás, se tivesse um seminário desses, eu tenho certeza de que viria empresário aqui falar: "não, porque a carga tributária no Brasil..., porque os impostos no Brasil..., porque o sindicato no Brasil..., porque a política no Brasil..., porque..." Ou seja, havia uma tendência a nos comportarmos como se fôssemos de segunda classe, de olhar um europeu, um americano como um ser superior e a gente sempre muito pequeno. Isso acabou. Nós continuamos mais respeitosos com os outros, mais temos o nosso direito, e isso nós vamos brigar para que o Brasil se transforme em uma grande nação. É este o meu sonho e o meu desejo.

Pois bem, eu queria, de coração, agradecer esta oportunidade. Eu nem precisaria vir aqui mais a Londres porque eu já não sou mais candidato a nada, eu poderia não vir aqui. Mas o sonho que eu tenho com o Brasil é tão grande, que no dia 3 de dezembro nós vamos fazer um seminário destes na Alemanha. Eu espero que a partir do ano que vem, a gente comece a continuar a fazer esse seminário no mundo inteiro, até que as pessoas descubram o Brasil na sua plenitude. É por isso que eu estou aqui. Estou aqui para corroborar com as palavras dos companheiros (incompreensível) e dizer para vocês o seguinte: os depoimentos e exposições em testemunho nesta manhã de ministros, empresários e jornalistas dão conta de que o Brasil vive um momento excelente e excepcional. Não vou aborrecê-los com cifras e números que provam essa afirmação. Quero apenas ressaltar alguns pontos que eu considero importantes. Fomos um dos últimos países do mundo a entrar na crise e fomos também um dos primeiros a sair dela. Aliás, já voltamos a crescer e, pelo ritmo, estamos fechando o ano de 2009, segundo testemunho do meu Ministro da Fazenda, do meu Presidente do Banco Central, de muitos empresários, eu não tenho dúvida de que poderemos crescer 5% em 2010.

 

Estamos criando, neste ano, mais de 1 milhão de novos empregos formais, enquanto milhões de postos de trabalho foram e estão sendo sacrificados nos países ricos. Nossa indústria automobilística, por exemplo, deve bater recorde de produção em 2009. Aqui há um probleminha que eu queria dizer para vocês, que foram anos de tentativa de convencer o empresário brasileiro, de convencer o empresariado brasileiro que o consumidor brasileiro não está preocupado com o valor total de um produto. Ele está preocupado se a mensalidade que ele vai pagar cabe dentro do seu contracheque. Porque, normalmente, os empresários quando têm um problema aparecem e falam para o governo: "Reduza impostos". E eu perguntava: Qual é a parte de vocês? Qual é a parte de vocês? Ora, se um trabalhador não pode comprar um carro em 36 meses, ele pode comprar em 48, ele pode comprar em 60. Então vamos fazer um jogo para que todo mundo ganhe e ninguém perca: o governo não perca, os empresários não percam e o povo possa comprar o seu carro. Conclusão: a indústria automobilística está batendo recorde atrás de recorde nas vendas de carros. E não é demais porque as matrizes não permitem que nós adentremos aos seus mercados, porque se permitissem a gente iria vender muito mais carros e nem as exportações iriam cair. Mais recentemente foi a indústria de caminhão, que estava em crise, estava em crise, estava em crise, estava em crise, e nós tínhamos um problema: o caminhão não podia ser alienado porque é um instrumento de trabalho. A lei parece extraordinária, mas se ele não pode ser alienado como garantia, a pessoa não pode trocar de caminhão. Nós fizemos um programa, o ministro Guido Mantega se juntou com os empresários e, mais recentemente, neste mês e no mês passado, os caminhões voltaram, outra vez, a produzir de forma extraordinária. Só para vocês terem ideia do que eu estou falando, a Mercedes Benz, que tinha mandado embora 1.300 trabalhadores em dezembro, no mês passado contratou exatamente 1.300 trabalhadores porque a produção voltou a crescer. Um outro exemplo: nós resolvemos financiar a agricultura familiar a comprar tratores. Colocamos R$ 25 bilhões no BNDES para financiar tratores de até 78 cavalos para a agricultura familiar. Conclusão: 78% da produção da indústria de tratores do Brasil, hoje, está totalmente vinculada à agricultura familiar. E o que é mais importante: já vendemos mais de 16 mil tratores em apenas dez meses. E nós achamos que é possível vender tudo o que nós colocamos de crédito no BNDES, o que é mais ou menos 700 mil tratores e 300 mil máquinas agrícolas.

Nosso sistema financeiro - já foi dito aqui pelo Trabuco e pelo Banco Central, portanto, eu não tenho como duvidar -, está muito (incompreensível). O crédito já retornou aos níveis anteriores à crise e os juros apresentam as taxas mais baixas das últimas décadas. Confesso a vocês que eu gostaria que fossem um pouquinho mais baixos. Vamos brigar por isso, o tempo se encarrega de nos ajudar a conseguir isso.

As vendas do comércio vão de forma extraordinária. Os investimentos também voltaram a crescer de forma vigorosa, e em todas as áreas da economia - na indústria, na construção civil, na agropecuária, nos serviços - respira-se um clima de otimismo e de confiança.

Vocês sabem que a construção civil, no Brasil, ficou praticamente 20 anos sem fazer grandes investimentos. As empresas grandes já não eram mais tão grandes, as médias não eram tão médias, e as pequenas tinham desaparecido. Foram, praticamente, 20 anos de atrofiamento dos investimentos brasileiros na área da construção civil. Nós fizemos mudanças em toda a legislação, e agora anunciamos um programa de um milhão de casas, que é um desafio ao setor privado brasileiro, que vai construir, e ao setor público brasileiro, que vai financiar. Eu espero que a gente tenha uma chance extraordinária de chegar em 2010 com um milhão de casas contratadas. Este ano já vamos chegar a 400 mil, o que é uma coisa inusitada em nosso país.

Todos esses movimentos ocorreram com a inflação controlada, com a relação dívida interna-PIB estabilizada e com a nossa vulnerabilidade externa reduzida. Basta lembrar que em poucos anos passamos da condição de devedores à condição de credores internacionais. Nossas reservas, também não vou repetir aqui, porque já somam mais de US$ 230 bilhões, e aí um dado importante. Em 2005 eu estava na Índia quando a Índia atingiu US$ 6 bilhões de reservas. Eu estava com lá com o meu companheiro Palocci, que era o ministro da Fazenda, e a gente ficou sonhando com o dia em que o Brasil tivesse US$ 6 bilhões de reservas, nós achávamos que ia ser o máximo. Passados apenas três anos, nós estamos com US$ 230 bilhões de reservas, não devemos nada ao FMI. Se eu contasse para vocês a cara do meu amigo Rato quando eu telefonei para ele, na sede do FMI, e convidei ele para ir ao Brasil, que eu queria devolver o dinheiro do FMI. Ele: "Não, companheiro Lula, pero, pero, pero..." Eu falei: Não, aqui não tem nada de pero, pero. Vamos pegar... e eu fiquei muito feliz. Esses US$ 230 bilhões nos forneceram, durante a crise, um formidável colchão de segurança para lidar com as (incompreensível) internacionais.

Por tudo isso, podemos dizer que a economia brasileira enfrentou a crise financeira internacional de cabeça erguida e saiu-se muito bem na prova. Outro problema de imponência, que vocês devem ter acompanhado aqui em Londres: nós tínhamos clareza, porque nós estávamos discutindo até então... até setembro a gente discutia a crise do subprime, e a gente discutia os efeitos do subprime na crise do Brasil. E naquele tempo a gente discutia que não teria mais que 1% de influência na crise brasileira, até que veio o Lehman Brothers. Ou seja, quando ele quebra, aí a crise se aprofundou porque o crédito desapareceu. Vocês imaginem que uma empresa como a Petrobras, habituada a pegar bilhões e bilhões de dólares lá fora, foi disputar, no Banco do Brasil, na Caixa Econômica Federal, um financiamento com as empresas pequenas e médias. Por isso é que nós fomos atrás da China, pedir US$ 10 bilhões. Eu, pessoalmente, falei três vezes com o Hu Jintao e posso garantir para vocês que os chineses são duros na queda. Olhem, quem está habituado (incompreensível). Roger, você está habituado. Os chineses são parada, viu? Não sei quem é mais duro, se são os chineses ou os ingleses, mas é muito duro negociar com os chineses. Mas de qualquer forma, conseguimos a garantia de US$ 10 milhões, que depois nem ficou tão primordial porque o Banco Central e o BNDES estavam dispostos a fazer qualquer cobertura. De qualquer forma, nesse aspecto nós estamos tranquilos, o dinheiro já voltou à praça, nós, portanto, estamos tranquilos para garantir o nosso crescimento.

Pois bem, o que aconteceu é que a economia retomou o impulso anterior à crise, está mais madura e pronta para crescer fortemente. Isso só foi possível porque nos últimos anos o povo brasileiro não se deixou levar pelas fórmulas prontas e pelos modelos dominantes, e soube fazer opções corretas, em meio a muitas dificuldades. E, assim, com trabalho e sacrifício, lançou bases sólidas para a abertura de um longo e sustentável ciclo do crescimento econômico do nosso país.

Logo no início do meu governo, deixamos claro que não toleraríamos a volta da inflação, porque sabemos que ela não só impede qualquer crescimento consistente, como também afeta, principalmente, os mais pobres. Por isso mesmo, no primeiro ano do meu governo realizamos um ajuste fiscal duríssimo, talvez o mais duro da nossa economia. (incompreensível). Talvez, se eu fosse um economista, eu não tivesse tido coragem de fazer o ajuste. Eu só fiz o ajuste porque eu era sindicalista, e eu sabia que nós tínhamos que plantar uma coisa muito sólida para a gente colher no futuro.

O ajuste, possivelmente, tenha sido o mais forte da história do Brasil, mas nos deu a sustentabilidade para chegar onde estamos hoje. Muitos nos criticaram por isso, mas os fatos mostraram que estávamos certos. Não foi uma opção fácil, mas foi a opção necessária. Conscientemente, troquei parte do capital político conquistado nas urnas pela consolidação de um rumo saudável na economia.

Aqui uma coisa importante, companheiros: é que a classe política mundial precisa aprender. Nós somos eleitos para governar, e nós estávamos habituados a entender que nós não sabíamos governar porque o mercado resolveria tudo. Ora, o mercado pode resolver uma parte substancial das coisas de um país, mas tem coisas que o mercado não consegue resolver porque não é papel do mercado. O mercado não faz política social, isso é o Estado que tem que fazer. O mercado não faz uma política como o Luz para Todos ou cria um Bolsa Família, isso tem que ser política de Estado. E o que acontecia, na verdade, no nosso país? Os governantes, às vezes, se elegem e não tomam as decisões. Imaginem se o presidente Bush, que estava no final do mandato, tivesse tido, quem sabe, as informações corretas e a decisão correta de evitar que o Lehman Brothers quebrasse. Possivelmente custasse muito menos do que a quantidade de trilhões de dólares que nós tivemos que colocar no mercado depois que quebrou o Lehman Brothers.

Então, o dirigente político quando chega ao poder, ele não pode ficar falando como se fosse oposição: "Eu acho, eu penso, eu quero, eu acredito." Um dirigente tem que fazer, e pagar o preço ou colher o preço, se as coisas derem certo. Então essa crise, que chegou muito forte depois da queda do Lehman Brothers, não precisaria ter chegado a essa profundidade se os governantes tivessem tomado as medidas na hora certa, no momento certo. É para isso que existe governo. De vez em quando alguém me pergunta: "Ô Lula, mas você era sindicalista, pô! Você agora está aí, os bancos estão ganhando muito dinheiro, e você não fala nada." Eu falo sempre: graças a Deus, os bancos estão ganhando dinheiro, porque quando eles quebram dão um prejuízo desgraçado. Então, eu quero que os bancos ganhem muito dinheiro mesmo para não quebrarem, porque o prejuízo é infindável e está aí essa crise econômica para mostrar o que aconteceu.

Pois bem, mas nós não nos limitamos a isso. Fomos além. Desafiamos a sociedade brasileira a encarar os obstáculos e os preconceitos que vinham minando nosso desenvolvimento. Por exemplo: dizia-se que era impossível crescer e, ao mesmo tempo, distribuir. Diziam ainda: o bolo tinha que crescer primeiro, para que se pudesse comê-lo depois. Eu cansei de ouvir isso na década de 70, ouvimos muitas dessas frases nos anos 70, quando o Brasil chegou a crescer, durante vários anos, mais que 10% ao ano. O bolo cresceu, mas alguém comeu o bolo, e o povo é que não foi. O que aconteceu é que o povo ficou mais pobre e quando queria o bolo, ó... foi! Foi a época da mais brutal concentração de renda da nossa história. Eu nunca aceitei essa tese do bolo.

Por isso mesmo, desde o primeiro momento do meu governo trabalhamos para mostrar que era possível combinar crescimento econômico com distribuição de renda. Graças ao programa Bolsa Família, hoje considerado um dos mais bem-sucedidos programas de transferência de renda pelos organismos internacionais, mais de 11 milhões de famílias no Brasil, cerca de 50 milhões de pessoas, passaram a fazer, no mínimo, três refeições por dia.

Aqui eu queria fazer um parêntese. Quando a gente faz política social de transferência de renda, normalmente aparece, junto a segmentos da sociedade, a ideia de que o governo é populista ou de que o governo está fazendo assistencialismo. Alguns diziam no Brasil: "Não, mas por que está investindo nos pobres? Poderia fazer ponte, fazer estrada, fazer viaduto". Porque eu acho que... eu gostaria de fazer pontes, viadutos e estradas, mas a ponte pode esperar um mês, a estrada pode esperar dois meses, um investimento qualquer pode esperar. Quem está com fome não pode esperar e não pode nem ter paciência, porque a fome é a forma mais perversa de tortura, sem estar incluída nos direitos humanos, que o ser humano vive hoje. E agora são 1 bilhão de seres humanos que estão abaixo da linha da pobreza, portanto, passando fome. Então, eu dizia: Certamente, se eu pudesse jantar todos os dias em um restaurante e depois dar R$ 100,00 de gorjeta, depois de tomar três ou quatro uísques, eu poderia dizer que aquilo era assistencialismo. Mas, para uma mãe de família, com três ou quatro filhos, que pega R$ 80,00, R$ 90,00 R$ 100,00 R$ 120,00, leva para casa e vai comprar comida para os seus filhos não tem preço no mundo que pague. E eu só lamento que a gente não tenha dinheiro para dobrar isso ou triplicar isso. Se Deus quiser, quando a gente começar a produzir muito petróleo com o pré-sal, a gente vai poder melhorar a vida dessas pessoas mais pobres até que elas não precisem mais do Estado e possam sobreviver às custas do seu suor e do seu trabalho, que é a coisa que mais dignifica um ser humano.
Não apenas ganhar as condições mínimas de sobrevivência e, com isso, dignidade e cidadania, como também se tornar consumidores, alargando e impulsionando vigorosamente nosso mercado. Aí era outra burrice de uma parte da elite política do nosso país, ou seja, a maioria do povo não participava do processo. Até a publicidade na televisão no Brasil era feita apenas para 40% dos brasileiros que tinham um mínimo de possibilidade de consumo.

Também promovemos um aumento real do salário mínimo, que no meu governo passou de US$ 80 para US$ 270, em 2009. Aqui era outra coisa absurda. Um empresário inglês não tem porque entender o que eu vou dizer aqui, mas no Brasil dizia-se o seguinte: "Se der aumento para o aposentado, vai quebrar a Previdência, vai quebrar a Previdência". Quando vocês lerem o jornal, prestem atenção em uma coisa: a Previdência brasileira não é deficitária. Quando vocês virem no jornal "déficit de 47 bilhões na Previdência", não é verdade. A Previdência brasileira não é deficitária. O que é deficitário é a política de seguridade social que nós criamos na Constituição de [19]88, quando nós incluímos trabalhadores rurais para receber aposentadoria. E, habilmente, o Tesouro e a Fazenda colocam isso como déficit na Previdência Social quando, na verdade, isso é um compromisso da União de garantir a essas pessoas cidadania. Se você for medir os trabalhadores que pagam com os trabalhadores que recebem empata ou o déficit é bem pequenininho. Mas quando você coloca a seguridade social, que entra auxílio a portador de deficiência, que entra auxílio às pessoas que nunca trabalharam que têm mais de 65 anos, que entram todos os trabalhadores rurais aposentados, aí você tem um déficit grande, que não é um déficit da Previdência. Essa é uma contabilidade equivocada, que eu acho que até o nosso companheiro Guido Mantega já mudou algum tempo atrás, porque era uma forma equivocada de apresentar o nosso déficit da Previdência Social.

 

Bem, além disso, os recursos do Estado destinados à agricultura familiar foram multiplicados sete vezes no nosso país. E o crédito popular, antes praticamente inexistente no Brasil, expandiu-se de forma acelerada e segura, transformando-se em um dos mais importantes motores que hoje movem a economia, que é o crédito consignado que eu acabei de falar. Já são mais de US$ 100 bilhões hoje na mão de aposentados, na mão de pessoas pobres, fazendo comércio com dinheiro emprestado. E pagam! A inadimplência é muito pequena. O Banco do Brasil pode falar qual é a inadimplência aí, é muito pequena. Certamente, alguns grandes pagam menos que antes, sobretudo na área agrícola.
Pois bem, graças a essas iniciativas, o Brasil mudou a sua cara. Nesses sete anos, 30 milhões de pessoas deixaram a linha de pobreza e cerca de 21 milhões ingressaram na chamada nova classe média. Impulsionada pelo forte aumento do consumo popular, a roda da economia passou a girar mais forte, beneficiando todo o conjunto do País.

Outro preconceito que foi preciso vencer foi o de que era impossível estimular a demanda interna e, ao mesmo tempo, expandir o comércio exterior. Para os adeptos dessa tese, a economia brasileira era um cobertor curto, incapaz de simultaneamente atender às necessidades do mercado interno e dar um salto nas exportações. Tampouco aceitamos essa simplificação. Ao contrário, desde o primeiro momento trabalhamos para alargar o mercado interno e, concomitantemente, nos lançamos à conquista de novos parceiros no mercado internacional.

Como um caixeiro viajante, saí pelo mundo afora, acompanhado de empresários, ministros abrindo novos mercados. Resultado: em sete anos, nosso comércio internacional ampliou-se espetacularmente. Nossas exportações passaram de US$ 60 bilhões, em 2002 para US$ 197 bilhões, em 2008, e também se diversificaram de forma notável. Embora nossas vendas para os Estados Unidos e para a Europa tenham aumentado de forma significativa no período, cresceram muito mais as exportações para a Ásia, a América Latina e a África.
A China é hoje o nosso principal parceiro comercial. A América do Sul, que em 2002 era o destino de apenas 19% das nossas exportações respondeu, em 2009, por 26%. Isso por conta da crise, se não tivesse a crise teria sido muito mais.
Essa diversificação revelou-se especialmente importante quando a crise financeira provocou forte retração nas economias americana e europeia. Com um leque maior de parceiros, tivemos uma margem de manobra bem maior para enfrentar as adversidades.

Quero me referir ainda a um terceiro preconceito, talvez o mais nocivo de todos, que durante muito tempo impediu o crescimento vigoroso da nossa economia. Ao longo de décadas ou de séculos, boa parte dos nossos dirigentes comportou-se como se fosse impossível governar para todos os brasileiros.
Descrentes nas forças do País e incapazes de mobilizar suas reservas e potencialidades, conformavam-se em organizar o País para, no máximo, um quarto dos brasileiros. Como se isso fosse possível... Como se fosse possível um pai ou uma mãe de família, com quatro filhos, montar um lar sólido olhando apenas para o futuro de uma das crianças e condenando as outras três à falta de perspectivas, de oportunidades, de sustento ou de carinho. É evidente que assim não se organizava o País, nem para todos, e nem para a minoria.
Olhando para trás, vejo que minha eleição para a Presidência da República, a eleição de um torneiro mecânico que migrou de uma das regiões mais pobres do país, simbolizou a vontade do povo brasileiro de romper com essa concepção tacanha e excludente.

O povo deixou claro que queria virar a página. E que acreditava ser possível construir um país que fosse de todos e tentasse se organizar para todos.
Meu governo é apenas a expressão política dessa decisão. Daí vem sua sustentação, sua identidade, sua força, suas melhores idéias, suas melhores práticas.

Minhas amigas e meus amigos,

Avançamos muito nesses últimos anos. Mas podemos e vamos avançar muito mais.
Em 2007, lançamos o Plano de Aceleração do Crescimento, que deverá investir, como disse a Dilma aqui, mais de US$ 300 bilhões até o próximo ano em obras, já, em obras de infraestrutura e logística, em energia, em rodovias, ferrovias e hidrovias, em portos e aeroportos, em habitação e saneamento básico. O país está passando por grandes transformações. Transformou-se em um verdadeiro canteiro de obras.

No ano que vem, pretendo lançar um novo Plano de Aceleração do Crescimento, o PAC II, para que o próximo governante, quando assumir, já tenha um plano traçado e uma prateleira de projetos organizada. E possa, assim, manter o ritmo de expansão econômica do País no período que vai de 2011 a 2015. Até porque precisamos de novos investimentos em infraestrutura e transportes associados à Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíadas de 2016.

Também nos próximos anos começaremos a explorar as enormes reservas de petróleo e gás do pré-sal, descobertas pela nossa querida Petrobras na nossa plataforma marítima. A exploração desses gigantescos recursos abrirá uma nova fronteira energética no mundo. E nós, brasileiros, queremos transformar a riqueza finita do petróleo num novo impulso para o desenvolvimento do nosso país.

Não pretendemos ser apenas exportadores de óleo cru, mas, partindo de nossa base industrial sofisticada e diversificada, queremos comercializar produtos de maior valor agregado, construindo novas refinarias de diesel e gasolina premium, consolidando um grande polo petroquímico, fortalecendo nossa indústria naval, produzindo conhecimento, ciência e tecnologia.

Em suma, o Brasil é hoje - e será nos próximos anos - um país de enormes desafios, uma nova fronteira de crescimento econômico, inclusão social e estabilidade política. Nós, brasileiros, com nossa autoestima renovada pelos progressos dos últimos anos, estamos confiantes de que seremos capazes de enfrentar e vencer esses desafios. E quero convidar todos vocês a serem nossos parceiros nessa empreitada.

A exploração das reservas de petróleo e gás do pré-sal não nos desviará de nossas metas de consolidar nossa matriz energética como a mais limpa e a mais renovável do Planeta. Somos pioneiros e líderes mundiais na produção de biocombustíveis e queremos consolidar essa posição. Para aproveitar o potencial dessas fontes alternativas, o Brasil busca parcerias com governos e empresas em todo o mundo. Por meio de projetos triangulares, também podemos ajudar outros países em desenvolvimento. Estamos entusiasmados com a perspectiva de levar tecnologia, segurança energética e alternativas de emprego e renda para a África, a América Latina e o Caribe.

Como já disse em outras oportunidades, a expansão dos biocombustíveis não ameaça a segurança alimentar ou a preservação das florestas, tanto que no Brasil a produção de alimentos vem crescendo fortemente, enquanto cai a taxa de desmatamento. Em 2009, ela será a menor dos últimos 20 anos. Por isso, estaremos levando para Copenhague propostas ambiciosas e queremos conclamar todos os demais países, especialmente os mais ricos, a fazerem o mesmo.

Minhas amigas e meus amigos,

Na Cúpula do G-20, em Londres, sob a coordenação do primeiro-ministro Gordon Brown, de respondermos aos céticos com uma demonstração de cooperação e solidariedade.

Mas não podemos deixar que uma recuperação da economia, ainda parcial, adie as profundas mudanças necessárias na governança mundial.

A crise que ainda não terminou teve efeitos devastadores, não somente sobre o sistema financeiro. Ela afetou, sobretudo, os países em desenvolvimento.
É urgente recuperar empregos e renovar esperanças. Isto exige uma revisão dos paradigmas que levaram a economia global à beira do precipício.

A especulação financeira não pode comandar a economia e prevalecer sobre a produção. O sistema financeiro precisa ser regulado e fiscalizado. Estamos avançando na refundação das instituições de Bretton Woods. Mas ainda falta muito para restaurar uma governança financeira forte e transparente.

Novas estruturas e regras devem refletir a emergência dos países em desenvolvimento, como atores indispensáveis em um mundo cada vez mais interdependente.

O FMI precisa adotar um formato de assistência financeira que não estabeleça condicionalidades e imposições sobre os países em desenvolvimento, como ocorreu no passado, e garanta supervisão efetiva e equilibrada de todos os países, aí, certamente, incluídos os países ricos.

O Banco Mundial deve maximizar seu apoio a políticas anticíclicas, com prioridade para os países mais necessitados do mundo em desenvolvimento. Só assim eles poderão preservar redes de proteção social e linhas de crédito essenciais para vencer a crise.

Esse conjunto de iniciativas será em vão, no entanto, sem instâncias supranacionais de regulação. Precisamos de mecanismos de controle com alcance realmente global.

Meus amigos e minhas amigas,

Sei do grande interesse dos empresários britânicos, europeus e brasileiros aqui presentes em estabelecer parcerias para identificar novas oportunidades.
É importante buscar projetos comuns com base nas nossas complementaridades econômicas e tecnológicas. São parcerias que podem colocar o Reino Unido, a Europa e o Brasil na vanguarda dos esforços para construir respostas concertadas aos desafios e possibilidades sem precedentes, que se abrem num mundo em profunda transformação.

Confio em que este Seminário será um passo concreto nessa direção. É o que nossos povos esperam de todos nós.

Muito obrigado.

Fim do conteúdo da página