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Meu caro amigo governador do estado de São Paulo, José Serra,

Meu caro amigo e companheiro Puccinelli, governador do estado do Mato Grosso do Sul,

Meu caro amigo ministro do Desenvolvimento Econômico da Itália, Claudio Scajola,

Meu querido amigo Guido Mantega, ministro da Fazenda,

Meu caro Vincenzo Scotti, vice-ministro das Relações Exteriores da Itália,

Meu caro companheiro Ivan Ramalho, ministro interino do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior,

Meu caro companheiro Luiz Dulci, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República,

Eu já posso dizer "minha amiga" Emma Marcegaglia, presidente da Confindustria,

Meu amigo Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo - e eu queria dizer ao Paulo que é importante ele parar de me convidar para vir aqui porque daqui a pouco eu estou vindo mais na Fiesp do que na sede da CUT, e isso pode me causar "complicômetro", e toca que o Serra vai querer visitar a CUT mais do que eu. Então, é preciso ter um certo equilíbrio.

Meu companheiro Paulo Okamotto, presidente do Sebrae,

Amigos e amigas participantes do Fórum,

Jornalistas,

Companheiros e companheiras,

Bem, hoje, Paulo, eu não tenho discurso e o problema de eu não ter discurso é que eu posso me empolgar e terminar cantando Amore mio aqui, o que iria fazer eu perder toda essa boa relação de amizade que estamos construindo.

Bem, primeiro, eu queria dizer aos empresários italianos, aos empresários brasileiros que eu estou satisfeito. Afinal de contas, é a quarta vez que nós nos reunimos, aqui ou na Itália. Muitas vezes, as pessoas ficam angustiadas porque, em uma primeira reunião, não aconteceu nenhum negócio. Às vezes até na segunda reunião não acontece nenhum negócio. O que é importante é que como empresários que vocês são, vocês sabem que a persistência é a razão dos grandes negócios que podem existir entre os empresários brasileiros. Afinal de contas, Furlan, quantas viagens você teve que fazer para vender um frango da Sadia em qualquer país do mundo? Ou para vender uma pasta italiana aqui no Brasil, quantas viagens os companheiros tiveram que fazer? Quantas passagens de avião? O que é importante é que a gente não perca a esperança de descobrir os momentos de fazer o investimento, os momentos de colher, o momento de comprar e o momento de vender.

Eu sempre tive, na minha cabeça, a ideia de que os ministros da área econômica e ministros da indústria e comércio deveriam ser verdadeiros camelôs, ou seja, mascates, que pudessem viajar pelo mundo vendendo aquilo que têm, fazendo os negócios que puderem ser feitos, porque no mundo globalizado não existe mais possibilidade de você ficar em casa esperando que alguém passe lá e pergunte se você tem alguma coisa para vender. Na verdade, as pessoas vêm muito mais para vender do que para comprar, e nós temos que ir lá muito mais para vender, também, do que para comprar.

O que é importante é que a gente construa um equilíbrio porque balança comercial entre dois países tem que ser uma mão... uma via de duas mãos. Não interessa para nenhum país ter uma vantagem no superávit, muito grande, na balança comercial. É preciso que haja um certo equilíbrio para que os dois países se sintam totalmente confortáveis nessa relação comercial. E Brasil e Itália estão numa situação confortável do ponto de vista do equilíbrio, ora um pouco de superávit para o Brasil, ora um pouco de superávit para a Itália. Mas o dado concreto é que é muito pouco, é muito pouco em uma relação, um fluxo total de 14 bilhões. É muito pouco para o tamanho da Itália e para o tamanho do Brasil. O que o Brasil tem de força no seu mercado interno, o que o Brasil tem de porta de entrada de produtos italianos na América do Sul e o que a Itália tem de possibilidade da entrada de produtos brasileiros na Europa.

E nós temos muita coisa a construir juntos, até porque, se tem uma migração que foi exitosa no mundo foi a migração italiana, e com muita responsabilidade no Brasil, com muita responsabilidade.

O Serra tem razão. Certamente, a agricultura brasileira não seria o que é se não fosse a experiência italiana aqui, a partir dos anos... do final do século XIX. Eu não sei se a Itália faz a pizza tão gostosa quanto no Brasil, mas o dado concreto é que nós aprendemos com vocês! Certamente, haverá um dia em nós estaremos exportando nossa pasta para o Brasil [para a Itália] e teremos como pagamento uma pasta italiana. Aí não estaremos fazendo negócio, estaremos fazendo um escambo. Ou seja, estaremos trocando produtos. Mas aí eu penso que a minha alegria é por ver essa casa cheia de empresários dos dois países.

Durante os últimos anos, um pouco a Europa preocupada com os seus problemas de inclusão da Europa Oriental, esqueceu um pouco o Brasil. Todos os países da Europa tiveram muito problema com a inclusão do Leste Europeu. Era como se tivessem adotado novas crianças pobres e tinham se esquecido dos seus parceiros originais, como o Brasil. Isso vale para Itália e vale para outros países da Europa, que tiveram muitos problemas internos. Nós compreendemos.

Mas agora, com essa crise econômica, é o momento da gente pensar o que a gente fez certo no século XX e o que a gente pode mudar para aperfeiçoar no século XXI. Porque é um dado extraordinário que aconteceu com o mundo, com essa crise econômica: ninguém mais tem certeza de tudo como nós tínhamos alguns anos atrás. Está todo mundo mais humilde. Eu participo do G-20. Eu nunca vi tanta gente humilde, sabe? Ninguém, ninguém... O Banco Mundial já não tem todas as certezas que ele tinha. Porque era muito fácil ter certeza quando a desgraça era nos países pobres. Aí, em país pobre todo mundo dá palpite. É como o pai para a criança: o pai tenta vender as suas experiências para as crianças como se fossem uma verdade absoluta, sem perguntar se é aquilo que as crianças querem. Então, o Banco Mundial tinha solução para todos os problemas dos países pobres, o FMI deitava e rolava ensinamentos para todos nós. Quando a crise eclodiu nos países ricos, o FMI não tem nenhuma solução e o Banco Mundial não tem nenhuma solução. E o que é mais grave é que muitos governantes não pensaram em solução, porque nos últimos 20 anos muitos governantes esqueceram de governar, achando que o mercado, por si só, resolveria o problema dos países.

Eu digo isso para deixar claro, e não tenham dúvida: eu não acredito no Estado gestor, não acredito, porque na hora em que o Estado for gestor, o governador, o presidente, o prefeito têm que contratar tanto amigo para trabalhar, mesmo que seja um incompetente, que depois é difícil mandar embora, ou seja, atrofia a máquina. O Estado tem que ser apenas o indutor e o regulador, para não permitir que haja nenhum segmento esquecido de participar do desenvolvimento. E essa crise nos obriga a pensar exatamente qual o modelo de desenvolvimento que nós queremos a partir da crise econômica mundial. Como é que nós vamos tratar o sistema financeiro?

Vejam que engraçado. Eu, aqui no Brasil, que passei... Eu e muita gente aqui, que passamos a vida inteira criticando o sistema financeiro brasileiro, descobrimos, com a crise, que o nosso sistema financeiro era um dos mais organizados do mundo e um dos mais controlados do mundo. Ou seja, descobrimos que países que pareciam ser exemplares, do ponto de vista da seriedade da sua administração pública, não eram. Estavam órfãos, do ponto de vista do controle do Estado, do Banco Central, na sua economia.

Nós, agora, estamos em uma fase em que nós precisamos descobrir novos consumidores. Ô Paulo, era importante que uma entidade ou, Guido, o governo, sei lá, que a gente fizesse um estudo profundo do que seria o mundo hoje se a gente não tivesse a China ou a Índia, ou se a gente não tivesse Índia, China e Brasil. Por que o que está para acontecer conosco?

Os Estados Unidos certamente vão levar muito tempo para voltar a ser o consumidor prioritário do mundo, como foi até o ano passado, eles vão ser muito mais cuidadosos. E o Obama já disse isso mais que uma vez: "Não esperem que os Estados Unidos voltem a ser o consumidor do mundo, que eram. Nós vamos ter mais cuidado". Você já ouviu isso, e todo mundo já leu isso. A Europa, do mesmo jeito, vai ser muito mais cuidadosa.

Bem, o que resta ao mundo desenvolvido e o que resta aos países em desenvolvimento? O que aconteceu no Brasil, de coisa importante? O Guido Mantega disse, e eu vou tentar não falar nada de macroeconomia, porque o Serra discordou 5% do Guido, ele pode querer discordar um pouco mais de mim, ou 6%, aí nós vamos criar uma inimizade à toa. Então, não vou falar de macroeconomia, para ele concordar 100% comigo, aqui, quando eu terminar de falar.

Mas, o que aconteceu no Brasil, diferentemente da Europa, diferentemente dos Estados Unidos ou do Japão? Nós tínhamos milhões e milhões de brasileiros que estavam querendo adentrar o mercado de consumo e que não podiam entrar. Na hora em que você soltou um pouquinho a corda e garantiu que os benefícios do crescimento chegassem a essa gente... Eu vou dar um dado para os italianos e para os brasileiros, que saiu ontem em uma pesquisa, que eu não lembro nem qual é o instituto: pela primeira vez na história deste país, os mais pobres do Nordeste tiveram um consumo 5% maior do que a classe A e B do Sudeste brasileiro. A classe D e E do Norte e Nordeste consumiram 5% a mais do que a classe A e B do Sudeste.

Quem tem shopping center aqui no Brasil, quem trabalha com comércio, sabe perfeitamente bem o que está acontecendo nos lugares mais pobres do Brasil, com os poucos recursos que essas pessoas têm recebido, com o aumento do salário mínimo, com o programa Bolsa Família, com a Loas. Essas pessoas não compram dólar, essas pessoas não importam produtos, essas pessoas vão diretamente para o comércio, ou seja, aquilo significa imediatamente desenvolvimento. É por isso, que é a parte, eu poderia pegar o Furlan... Não quero fazer merchandising, mas o Furlan está inaugurando mais fábricas no Norte e no Nordeste do que fez tudo no Sul e Sudeste. Porque o povo aprendeu a comer; não é que ele aprendeu, ele conquistou o direito de comer, não tanto quanto precisa, mas muito mais do que ele já comeu, em qualquer outro momento da sua história.

Aqui está a Pirelli. Eu conversei com o dono da Pirelli... Eu vou dar um número para vocês que nunca aparece na macroeconomia do pessoal da área econômica, porque são números muito pequenos. Então, sempre trabalham com números grandes, com PIB, com taxas de juros, com dívida interna, com... Mas, um número pequeno, Guido, para você trabalhar. O programa Luz para Todos. Eu vou contar porque, para mim, é uma coisa tão gratificante que eu aprendi que um ser humano não pode ser feliz sozinho. Então, eu quero repartir a minha felicidade com vocês. O programa Luz para Todos: nós descobrimos pelos dados do IBGE, em 2004, que nós tínhamos por volta de 10 milhões de brasileiros que não tinham acesso à energia elétrica. Esses dados eram do IBGE. Nós montamos um programa Luz para Todos. Pois bem, esse Programa visava a atender essas 10 milhões de pessoas. Quando nós fomos a campo e começamos a trabalhar, nós descobrimos que, além das 10 milhões de pessoas na pesquisa do IBGE, nós descobrimos mais 1 milhão e poucas pessoas que não tinham, ou seja, quase 1 milhão de famílias a mais; significa mais 4 ou 5 milhões de pessoas que não tinham. E nós elaboramos um programa totalmente gratuito, em uma parceria entre o governo federal e o governo estadual. Nós atingimos no mês passado 2 milhões, acho que 2 milhões e 100 mil casas que receberam o programa Luz para Todos. Isso implica em um pouco mais de 10 milhões de pessoas. Eu vou dar um número, para ver como a Pirelli está ganhando dinheiro no Brasil. Para o programa Luz para Todos foram utilizados, até agora, 906 mil quilômetros de cabos, a maioria fabricada pela Pirelli; 906 mil quilômetros de cabos dariam para a gente enrolar a Terra umas vezes; 1 milhão e 474 mil postes - daria para chegar na nave espacial lá, que está parada, por escada, nos nossos postes -; 799 mil transformadores. Apenas pegar o grosso das coisas que foram utilizadas como programa social, que a iniciativa privada não faria. E por que não faria? Porque não era rentável. O Estado teve que fazer, e já colocamos mais de R$ 10 bilhões gratuitamente. Algumas ligações na Amazônia, Puccinelli, estão custando até US$ 3,5 mil. E há quem diga para mim: "mas economicamente não é viável, precisamos parar". Eu digo: mas esse companheiro continua sendo brasileiro, está dentro do território brasileiro e tem o mesmo direito que o presidente da República de ver televisão, de ter geladeira, de ter um liquidificador, de ter um ventilador. Então, nós temos que levar, ou convencermos ele a ir mais para próximo.

Tem gente na cidade que acha que esses programas trazem prejuízo. Tem pessoas da classe média que se sentem prejudicadas. "Esse diabo desse Lula vai levando essas coisas pelos cafundós do mundo, e nós aqui". O que acontece, na verdade? Por conta dessa quantidade de gente que recebeu o Luz para Todos - não sei se aqui tem algum produtor de televisão -, foram vendidos 1 milhão e 578 mil aparelhos de televisão para o pessoal do Luz para Todos; foram vendidas 1 milhão e 447 mil geladeiras para esse pessoal do Luz para Todos; foram vendidos 998 aparelhos de som... 998 mil aparelhos de som para o programa Luz para Todos. Sem contar casas de farinha, liquidificador. E tudo isso gratuito, porque tem coisas que se o Estado não fizer, ninguém faz porque não é economicamente rentável. Eu não posso obrigar o empresário a fazer uma coisa que vai ser prejudicial. Então, o Estado tem que assumir a sua responsabilidade.

Eu estou dando esse exemplo, Guido, porque é um exemplo que você, no G-20, pode utilizar na área econômica, porque nós temos muitos países africanos, nós temos muitos países do Leste Europeu que ainda têm problemas desses. Nós temos a Índia, com muitos problemas desses, nós temos a América Latina com milhares de problemas, só para mostrar que um programa desses, que parece ser um programa eminentemente social e assistencialista, tem um viés altamente desenvolvimentista porque gera progresso imediato na hora em que chega luz na casa da pessoa. Ou seja, é você tirar uma pessoa do século XVIII para o século XXI, apertando um botão. Esse é um milagre que o mundo inteiro tem que fazer. Menos a Europa, obviamente, menos o Japão, menos uma grande parte dos Estados Unidos.

Mas eu estou dizendo isso porque cabe a nós nesse momento - ao Brasil, à Itália, aos Estados Unidos, ao Japão, à Europa toda - a gente começar a discutir como contribuirmos para que o continente africano e países mais pobres latino-americanos possam ter esse desenvolvimento. Porque as pessoas só vão virar consumidoras dos produtos que nós fabricamos se essas pessoas tiverem poder de consumo, se essas pessoas [não] tiverem miséria. Nós não vamos vender, se a África continuar pobre. Nós temos que ajudá-la a se desenvolver.
Eu acho que nós precisamos sempre ficar de olho na possibilidade de uma parceria mais forte entre China e Estados Unidos, a criação de um G-2, que vai tomar decisões sobre coisas que vão implicar nas nossas economias. E a verdade é que muita gente se subordinou à China, muita gente adora ir fazer investimento na China porque "olha, eu vou lá na China, não tem jornal para falar mal, não tem Congresso para não votar, não tem sindicato para fazer greve, o partido decide, eu faço". Muita gente gosta. Empresários italianos, empresários brasileiros, empresários americanos... está cheio de gente! E depois se queixam da competitividade. Mas já foram lá para isso, já foram lá para baixar o custo de produção e para poderem ser mais competitivos no mercado internacional.

Então, nós agora precisamos pensar. É um momento extraordinário! Quando caiu o Muro de Berlim, em 1989, vários companheiros comunistas brasileiros ficaram zangados comigo, porque eu disse que graças a Deus tinha caído o Muro, porque ia libertar a esquerda para pensar outra vez, para repensar, e para maturar novas idéias.

Eu acho que essa crise veio para isso. Ela veio para a gente pensar o que fazer. Aqui no Brasil - eu vou dar um outro número, Guido, para você trabalhar na sua macroeconomia, que é o crédito consignado. O crédito consignado foi uma invenção de debate nosso, debate nosso, isso não era discutido na academia. Quando nós descobrimos que o sistema financeiro argumentava que não financiava casa e que não emprestava dinheiro para pobre porque não tinha garantia, nós resolvemos oferecer como garantia a folha de pagamento. Você tinha a experiência do Banco do Brasil, que afundava os trabalhadores, porque o Banco do Brasil não tinha limite de cobrança.

Eu lembro de muitos funcionários, sobretudo no estado do Acre, em que no final do mês, ao receber o pagamento, era zero, zero, zero, zero, zero, porque o banco descontava tudo. Então, nós resolvemos emprestar dinheiro, obrigando que a prestação fosse, no máximo, 30% do salário. Você sabe quanto de dinheiro entrou no mercado brasileiro, nesses últimos três anos, por conta desse crédito consignado, Belini? Sabe quanto, meu querido? R$ 103 bilhões.

E o cidadão quando toma R$ 1.500, R$ 1.000 no banco, ele não vai comprar dólar, até porque o dólar está caindo. Ele vai comprar comida, ele vai comprar um carro, se a prestação couber dentro do salário dele. Nós precisamos aprender que... Eu não sei se a palavra correta, Paulo, é inovação, inventividade, qualquer coisa. Mas a gente não pode fazer as coisas repetindo o que não deu certo. Essa crise é para a gente pensar: "Espera aí. Não deu certo aqui? A política de bitributação entre Brasil e outros países está equivocada? O Brasil tem dificuldade em baixar determinados impostos nas nossas aduanas? É a Itália que tem dificuldade de baixar?" Nós temos que discutir e encontrar uma solução para não ficar na mesmice do século passado, encontrar alguma coisa nova.

Por exemplo, como é que a União Europeia vai cumprir o compromisso de colocar 10% de etanol na gasolina até 2020, se a gente não começar a pensar em 2010? Não dá para a gente pensar em construir uma usina, fazer planejamento de 2019 para 2020. Então, comecem agora a pensar a fazer estoque ou, outra vez, a gente não vai cumprir aquilo que foi acordado.

E nós sabemos que a mudança do clima é um tema que interessa ao mais pobre do Planeta e ao Bill Gates, ao mais rico. Porque essa é a desgraça de o mundo ser redondo: ele vai girando, vai girando, e não tem como o Bill Gates se esconder, não tem como o mais pobre se esconder. Todo mundo vai ser vítima da questão do clima. Então, como é que a gente vai discutir essa questão do clima com seriedade, se a gente vai ter em Copenhague agora uma reunião, e pelo que eu estou sabendo, os grandes líderes não vão. É muito difícil, meu querido ministro, meu companheiro italiano, é muito difícil, porque a gente poderia ter feito o acordo da Rodada de Doha, a gente poderia ter feito o acordo em novembro do ano passado. Por conta da eleição nos Estados Unidos e por conta da eleição na Índia, a gente não fez. E o querido companheiro Obama já está há quase um ano e também não tomou nenhuma atitude. Quanto mais a gente demorar para fazer o acordo, mais os países pobres vão ficar mais pobres. Eu, sinceramente, não posso ver o mundo desse jeito. Nós precisamos dar uma contribuição para ajudar a desenvolver. A matriz energética tem que ser mudada. Não é o presidente Lula que quer vender etanol, não é. Eu quero que vocês venham produzir em algum lugar. Que produzam aqui, que produzam na África. Mas o dado concreto é que a matriz energética vai ter que mudar. É uma questão apenas de tempo, já há decisões, já há decisão da União Europeia de colocar 10% até 2020. O Japão tinha aprovado uma posição de colocar não sei quanto e depois baixou para 3%, e depois é uma coisa voluntária, não evolui. É uma coisa assim: as pessoas, na hora de assinar os protocolos, todo mundo assina tudo quanto é coisa. Mas na hora de cumprir o pão-pão-queijo-queijo, ninguém quer abrir mão dos seus hábitos e costumes.

Quem sabe, Itália e Brasil podem dar um pontapé extraordinário. Quem sabe, na assinatura do acordo estratégico entre Itália e Brasil, a gente pode fazer um sinal mais forte para acordar a Europa. Porque nós estamos tentando fazer um acordo comercial entre União Europeia e América do Sul, o Mercosul, é muito difícil, mesmo com o Brasil é muito difícil. Por quê? Porque os líderes não participam das reuniões. A gente manda os nossos representantes. Os nossos representantes vão lá sem poder de decisão e a coisa fica como se fosse um círculo vicioso, sem produzir as coisas que nós precisamos.

Eu fico feliz que a União Europeia esteja neste momento escolhendo um presidente que tenha um papel mais importante do que tem hoje. Fico muito feliz que a União Europeia tenha tomado a decisão de colocar o Ministro das Relações Exteriores da União Europeia. Eu nem sei quem vai ser, mas eu acho que é uma boa medida, porque também vai ensinando a gente como é que a gente tem que ir avançando aqui, na Unasul. Porque, até agora, o melhor modelo de integração que eu conheço é o europeu, e é ele que eu estou seguindo. Pelo amor de Deus, não dêem mancada, para que a gente não quebre a cara defendendo o modelo europeu de integração, que vai ter sempre problemas, mas é extremamente necessário.

Então, eu queria dizer a vocês que, para mim... Talvez muita gente [não] entenda como é que um presidente da República sai de Brasília e vem para um evento empresarial toda vez que tem evento empresarial. Para mim é simples, Paulo: se eu estivesse reunido com os dirigentes sindicais, eles estariam reivindicando alguma coisa. Então, eu vim aqui tentar convencer as pessoas a investirem no Brasil, para poder atender às reivindicações que os dirigentes sindicais me farão, daqui a pouco. E, aí, nós estaremos no melhor dos mundos, trabalhando essa relação.

Então, Paulo, eu não poderia deixar de dar, mais uma vez, os parabéns à Fiesp. Você sabe que isso é problemático para nós, do governo, porque tem companheiro que acha que eu poderia fazer essas reuniões em outro estado, tentar descentralizar. Mas, em se tratando de indústria, é muito difícil. Seria quase você inventar, você tentar tirar de São Paulo, porque aqui é que está o chamado "coração industrial" do nosso país.

Então, meus parabéns, Paulo. E queria dizer aos nossos companheiros italianos, sobretudo à nossa presidente da Cofindustria, ao nosso ministro da área econômica, o Scajola, o nosso ministro, e a nossa Emma que, de coração, eu fico muito agradecido de vocês, junto com os empresários brasileiros, todo ano, fazerem um encontro como este. Eu não tenho dúvida nenhuma de que daqui a dois, três, quatro anos, quem estiver no governo deste país vai estar colhendo um crescimento extraordinário, que agora é comercial, mas tem que ser cultural. A interligação cultural entre Brasil e Itália é de uma riqueza tão grande, que nós precisamos aproveitar isso melhor. Nós precisamos sonhar um pouco maior.

O mundo não acolhe quem sonha pequeno. Eu estava vendo a história dos imperadores romanos, domingo. Eu acho que eu vi a história de uns dez imperadores, me preparando para essa reunião, só imperador. E tem imperador que destruiu a Itália, tem imperador que construiu império, tem imperador que destruiu Roma, ou seja, nós vamos ser os imperadores, sabe, da mais exitosa relação entre dois países, gente!

Os nossos antepassados, em 1875, quando vieram para cá... dizem até, Serra, que o meu Silva tem origem em Chelva, lá de Milão. Parece que foi, parece que foi uma forçada de barra, mas se eu sair daqui sem dizer para vocês que eu tenho alguma relação histórica com a Itália, vai ser muito difícil.

Então, eu queria dizer para vocês: Olhe, eu tenho mais um ano de mandato, estou indo à Itália, domingo, para participar lá, em Roma, do encontro da FAO sobre a questão da fome no mundo e a produção de alimentos. Vou ter um encontro, parece que um almoço, com o nosso primeiro-ministro, Berlusconi, e eu quero que vocês saibam o seguinte: Olhem, os empresários brasileiros já sabem. Tem gente que tem frescura para defender empresa brasileira, eu não tenho. Se alguém estiver precisando de um favor na Itália, me fale, que eu vou lá e falo. Se algum italiano estiver precisando de um favor aqui, me fale que eu falo.

Esse negócio, ah, eu não posso... O Bush veio aqui, no ano passado, não foi? Não, foi em 2005? Não... ele veio aqui e nós fomos visitar o negócio, era um negócio do etanol. Aí, de repente, era um carro da GM, ele não quis tirar fotografia perto do carro, porque disse: "Isso aqui é merchandising, eu não posso fazer". Eu não tive outra: não só agarrei no GM, como agarrei no Ford. Eu quero fazer merchandising nos dois. Porque, veja, se o Presidente da República, se o Presidente da República viaja o mundo e ele não defende os interesses da sua indústria, os interesses dos empresários brasileiros... estão aqui os empresários do etanol! A gente, antes de eu ganhar, a gente não tinha nenhuma relação de amizade. Hoje, abriu a boca, eu estou vendendo um litro de álcool. Porque eu acho que você não pode perder essa oportunidade. Agora, mesmo, o meu ministro da Indústria e Comércio está em Moçambique.

Serra, somente este ano, o Miguel Jorge já levou mais de 860 empresários brasileiros a visitar dezenas de países africanos. E, neste momento, ele está com o "sucatão" com 100 empresários brasileiros em Moçambique, depois vai para a África do Sul, porque se não for assim... Sabe, a África tem voo para a Itália, tem voo para a Alemanha, tem voo para a França, tem voo não sei para onde, e para o Brasil não tem. Porque as empresas de avião brasileiras, Serra, só pensam na Europa e nos Estados Unidos. É que nem a classe política do começo do século, do século XX.

Nós temos que pensar no restante do mundo. Então, todo mês vai uma delegação de empresários. O Furlan fazia isso. Vai o ministro vender produto, comprar produto, ajudar a fazer parceria, ajudar a desenvolver, sabe, porque com os países ricos a gente tem uma limitação maior, porque eles estão mais qualificados, produzem produtos muito mais sofisticados, têm mais compromissos. E a minha tese é a seguinte: a gente vende o que pode entre nós, nós temos muita coisa para trocar, mas nós temos que procurar novos nichos de oportunidade.

E quando eu falo em viajar, como um camelô, eu nunca vi um camelô batendo palma na porta do Benjamim para vender roupa, corte de pano. Ele vai aonde? É na periferia vender parte de seus produtos. Então, o Brasil é um país que tem duas, na verdade, vertentes. Nós temos uma possibilidade de competir com o mundo desenvolvido em produtos de alto valor agregado e nós temos competência para vender produtos com muito mais propriedade, a preços muito mais competitivos, no mundo em desenvolvimento, sobretudo, nos países como a Índia, como a África, como a América Latina. Então, o Brasil não pode ficar estagnado, o Brasil tem que se espraiar pelo mundo para vender suas coisas e eu acho que é isso.

Portanto, vocês empresários italianos saibam de uma coisa: Eu sou um homem predestinado a comprar, mas sou "bipredestinado" a vender um produtinho brasileiro, se vocês quiserem comprar, e, portanto, sobretudo, a parceria na área da inovação. Está aqui o nosso Sebrae, que fez um acordo. A questão da inovação para nós, a experiência de vocês, de todo o norte da Itália, da Emilia Romagna, é uma coisa fantástica para ajudar o Brasil, os pequenos empresários brasileiros a inovar, a melhorar a qualidade do seu produto, a melhorar a cara da embalagem, a melhorar o jeito de entrega, porque o produto pode ser bonito, se ele não for bem vendido, ele fica feio e não é vendido.

Então, eu acho que nós temos um espaço extraordinário, e eu não tenho dúvida nenhuma: nós temos o que ensinar, mas nós temos muito o que aprender com os italianos, que têm uma experiência extraordinária e uma relação não comercial, mas uma relação de alma com o povo brasileiro.

Muito obrigado.

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