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https://www.faz.net/aktuell/politik/ausland/brasiliens-umweltminister-ricardo-salles-ueber-den-klimawandel-16410927.html

30/09/2019

Sr. Ministro, ao Brasil não foi concedido o uso da palavra na cúpula climática da ONU. Se o Sr. tivesse tido oportunidade para falar, o que teria dito ao mundo?

Eu teria declarado que possuímos um bom quadro jurídico para a proteção do meio ambiente, especialmente leis para a proteção de florestas, que foram consideradas exemplares em 2012, quando entraram em vigor. Além disso, eu teria apresentado alguns números: mais de 80% da floresta amazônica estão protegidos e a maior parte das áreas de assentamento da população indígena também.

Mas o seu governo está promovendo ativamente a redução de gases de efeito estufa?

O Brasil vem avançando em seu programa de etanol há vinte anos. Hoje, mais de 50% dos veículos no Brasil são movidos a etanol. A biomassa a partir da qual o etanol é produzido, também é utilizada para gerar eletricidade. No sistema de transporte público, ainda enfrentamos o desafio de substituir o diesel por etanol ou por sistemas de propulsão elétrica. A participação das energias renováveis na matriz do Brasil já é de 45%.

Apostam na energia eólica e solar?

A fonte principal é a energia hidroelétrica. Depois vem a energia solar, que ainda precisa de mais impulsos; os custos da tecnologia importada continuam a ser altos demais. Há também a mencionada biomassa.

Os críticos da produção de energia a partir da biomassa afirmam que esta ocupa áreas aráveis que, de outro modo, poderiam ser utilizadas para a produção de alimentos. Isso significa que utilização de solos aumentará?

Isso corresponde à realidade de 15 a 20 anos atrás, quando os operadores das plantações de cana-de-açúcar expandiram sua produção. Naquela época, as terras de pastagem eram convertidas para o cultivo da cana-de-açúcar. Atualmente, a nossa agricultura atingiu um nível técnico tão elevado, que já não precisamos de terras agrícolas adicionais para a produção de cana-de-açúcar. A maioria dos produtores usa um sistema de rotação, eles plantam cana de açúcar, mas depois plantam outros produtos na mesma terra. E em geral, apenas um por cento da nossa terra é usada para plantações da cana-de-açúcar.

O governo alemão considera a floresta amazônica como o "pulmão verde do mundo". Porque é que o seu governo está tão chateado com esta afirmação?

A Amazônia não é o pulmão do mundo. Está comprovado que este conceito não é verdadeiro.

Como assim?

A floresta amazônica gera a mesma quantidade de oxigênio que consome no final. É um ciclo fechado.

Mas é verdade que a floresta amazónica é o maior estoque de sequestro de CO2 do planeta.

O CO2 é outro assunto. Sim, é verdade que a floresta tropical armazena CO2 no solo. Claro que reconhecemos a importância da floresta tropical. Agora estou viajando pela Europa e Estados Unidos, porque queremos atrair empresas internacionais para nos apoiar tecnologicamente na implementação de nossa agenda bioeconômica. Acreditamos que esta é a melhor maneira de proteger a floresta tropical. A floresta tropical tem grande potencial econômico que pode ser explorado sem desmatamento: empresas farmacêuticas e fabricantes de cosméticos podem usar substâncias vegetais para fabricar produtos farmacêuticos e produtos de beleza.

O Sr. acredita que a mudança climática é provocada pelo ser humano?

Sim, acredito que o comportamento humano tem um impacto no clima. A única questão é a dimensão da parte causada pelo ser humano. Ainda temos de descobrir.

Mas será que a participação do homem é maior ou menor?

Não sei dizer, não sou cientista.

Alguns membros do seu governo não acreditam nisso. Será que nessas circunstâncias é possível combater as mudanças climáticas?

O Brasil está indo muito bem na luta contra a mudança climática. Apostamos em energia renovável, reduzimos o desmatamento da floresta tropical, promovemos o reflorestamento. Nossa contribuição nacional à proteção do clima é provavelmente a mais ambiciosa do mundo.

Mas o desmatamento da floresta está aumentando. Entre maio e julho, foram perdidas quatro vezes mais terras florestais do que no mesmo período do ano anterior, devido ao desmatamento. Por que seu governo permitiu isso?

Nós não permitimos isso. O desmatamento tem aumentado novamente desde 2012. Em 2004, o desmatamento foi três vezes maior do que é hoje. Em seguida, a taxa caiu até 2012 e depois subiu novamente. Precisamos abordar as razões pelas quais o desmatamento está subindo novamente.

No âmbito do acordo de Paris sobre mudanças climáticas, seu país assumiu o compromisso de eliminar o desmatamento ilegal até 2030. Tem condições de controlar a situação?

Sim, está sob nosso controle. O problema é que a área é enorme. Não é uma tarefa fácil. São cinco milhões de quilômetros quadrados. Esta é a dimensão de 16 países da Europa, incluindo a Alemanha, França, Itália e Espanha. Mais de 20 milhões de pessoas vivem na região, duas vezes mais do que em Portugal.

Até agora, a Alemanha contribuiu com 55 milhões de euros para o Fundo Amazônia, que financia projetos contra o desmatamento e o uso destrutivo da floresta. Brasília disse agora, que os subsídios alemães poderiam ser dispensados. Qual é o motivo?

Não, pelo contrário.

É mesmo? O presidente Bolsonaro disse que a Alemanha deveria usar o dinheiro para reflorestar a própria Alemanha.

Não, não vamos confundir política com questões técnicas. Foi uma reação a uma declaração da Europa.

Seu governo pretende alterar os estatutos do Fundo Amazônia. Qual é a sua idéia?

Nosso objetivo é aumentar a eficiência. Para esse fim, propusemos diversas melhorias. Acima de tudo, o Comitê Orientador deveria ser reestruturado. Aqui em Berlim, conversarei com os Ministros do Meio Ambiente e da Cooperação e Desenvolvimento sobre esse assunto. O objetivo é que o fundo possa distribuir dinheiro novamente.

Pretende reprimir a influência das ONGs no Comitê Orientador?

Não. De acordo com a nossa proposta, este terá tantos representantes de ONGs como anteriormente. E até queremos ceder aos doadores – como por exemplo a Alemanha ou a Noruega - um assento, que eles não tinham até agora.

A oportunidade de enviar um representante para o comitê organizador do Fundo Amazônia representa uma concessão aos críticos da política do Brasil?

Não, fizemos esta oferta desde o início.

Agora o Sr. está viajando pela Europa para esclarecer a posição brasileira e afastar o perigo de países europeus se recusarem a ratificar o acordo comercial entre a UE e a Área de Livre Comércio do Mercosul, que inclui o Brasil. O Sr. tem medo de que o acordo possa falhar?

Em primeiro lugar, ambos os lados têm grande interesse em aumentar o comércio. O Brasil é o quinto maior país do mundo em termos de população, e seu poder econômico o coloca em oitavo ou nono lugar no ranking. Isso oferece grandes oportunidades econômicas. Em segundo lugar, são justamente esses benefícios econômicos e oportunidades de desenvolvimento que seriam de grande ajuda para a floresta amazônica e, em geral, para a proteção do meio ambiente no Brasil.

Os maiores perigos para a conservação da natureza no Brasil estão ligados à pobreza e à falta de desenvolvimento econômico. Talvez o subdesenvolvimento seja o maior perigo para o meio ambiente. Portanto, renunciar ao acordo comercial, e abrir mão de oportunidades de investimento, teria, na minha opinião, exatamente o efeito oposto ao que os críticos agora têm em mente.

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