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O ex-embaixador do Brasil em Pyongyang Roberto Colin conta como é viver sob o regime de Kim Jong-un

Por Angela Nunes

Entre os anos de 2012 e 2016, Roberto Colin ocupou o cargo de embaixador brasileiro na Coreia do Norte. O diplomata, que viveu na União Soviética nos dois últimos anos antes de sua dissolução e na Alemanha às vésperas da queda do muro de Berlim, conheceu o país asiático como nenhum outro brasileiro. Durante os quatro anos que viveu em Pyongyang, apesar das restrições do regime, que vigia de perto os estrangeiros, Colin pode testemunhar as idiossincrasias norte-coreanas e de seu líder. Para ele, Kim Jong-un, apesar de pouco experiente e um tanto imprudente, não é irracional e menos ainda suicida, e por isso não deseja a guerra com os Estados Unidos. Da embaixada brasileira na Estônia, posto que ocupa desde que deixou a Coreia do Norte, Colin falou a VEJA sobre o conflito diplomático com os Estados Unidos e a vida no país mais fechado do mundo.

Estamos às vésperas de uma guerra entre Estados Unidos e Coreia do Norte?
As ameaças, tanto de um lado como de outro, têm sido condicionais: as supostas ações serão conduzidas caso a outra parte não mude sua atitude. Eu não acredito que vá acontecer uma guerra. Nem um lado nem o outro quer isso. Um ataque contra os Estados Unidos seria suicida. Kim Jong-un não é irracional, nem louco e menos ainda suicida. E não se observou até agora nenhum movimento na Coreia do Norte que realmente possa indicar essa ação. Há o fator humano, claro, sempre há o risco de uma interpretação errada, de uma falha humana. Mas eu me surpreenderia.

Quais seriam as consequências, caso a Coreia do Norte levasse a cabo um ataque aos Estados Unidos?
O resultado seria catastrófico para todos. Os principais atingidos seriam a Coreia do Sul e, claro, a própria Coreia do Norte, porque é óbvio que haveria uma retaliação americana, mas acabaria atingindo também o Japão e a China. Teria um impacto não só geopolítico, mas na economia mundial também. É uma coisa catastrófica e impensável.

A Coreia do Norte está em um beco sem saída?
De certa maneira, sim. A Coreia do Norte sempre usou o seu programa nuclear como moeda de troca. Essa retórica norte-coreana não é de agora. A novidade foi a reação do presidente Trump. Os americanos várias vezes reiteraram que a condição para começar qualquer negociação seria que Kim Jong-un renunciasse ao seu programa armamentista uma forma definitiva e verificável. A Coreia do Norte quer ser reconhecida como uma potência nuclear e não vai abrir mão disso.

E qual a alternativa para evitar o conflito?
A diplomacia. Não há outra saída. Porém, isso é uma coisa para o médio e o longo prazo. Uma negociação de bastidores, sem holofotes, seria o mais indicado e é até possível que isso já esteja acontecendo.

Trump costuma acusar a administração de Barack Obama de ter sido muito fraca e não ter feito nada em relação à Coreia do Norte. A acusação procede?
Trump tem uma ponta de razão quando diz isso. A política americana dos dois governos do Obama em relação à Coreia do Norte foi chamada de “paciência estratégica”. E isso deu tempo para o país desenvolver com toda a tranquilidade os seus programas nuclear e de mísseis. Havia a crença de que o regime acabaria a qualquer momento. Por ser um país pobre e mergulhado em crise econômica, o colapso da Coreia do Norte era tido como uma coisa certa, só que isso nunca aconteceu.

Como são hoje as relações do Brasil com a Coreia do Norte?
O Brasil chegou a ter um intercâmbio de quase 400 milhões de dólares com a Coreia do Norte em 2009, algo bastante expressivo. Mas isso foi diminuindo por causa das sanções e hoje a nossa relação comercial é mínima. A embaixada hoje é basicamente um posto de observação. Há um diplomata que responde pela chancelaria, um encarregado de negócios, mas desde a minha saída não foi indicado outro embaixador.

Como foi viver quatro anos em Pyongyang?
Foi extremamente interessante, uma experiência única. A Coreia do Norte é considerada por muitos um país stalinista, comunista ou coisa semelhante, mas eu acho que se assemelha muito mais a uma seita religiosa. Eu tinha liberdade de andar pela cidade de Pyongyang. Nunca me impuseram nenhuma limitação quanto a minha circulação na capital, mas era vigiado. E não podia andar no metrô, nem no ônibus.  Eu ia a restaurantes e me sentava perto dos coreanos, mas o contato com eles era proibido. No interior eu tinha que viajar – e viajei pelo país inteiro – sempre com um intérprete.

“Em Pyongyang se vê coisas inacreditáveis, como carros Bentley, Jaguar, Porsche, prédios luxuosos, pessoas muito ricas”  

Apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, as imagens que chegam ao exterior são de Pyongyang, uma grande metrópole, com prédios modernos. Como é realmente o país?
Diferentemente do que se imagina de um país comunista, mais da metade da economia é privada, é uma economia de mercado. Na capital, moram os privilegiados da elite governante do país. É uma nova aristocracia, que convive entre si, que se casa entre si. Eles estão no partido, na área militar nos negócios. Já o interior do país vive no século XIX, sem energia elétrica, sem televisão, com carros de boi, uma vida realmente muito pobre. Muitas das características feudais permanecem até hoje. São dois mundos absolutamente à parte.

O país tem acesso a produtos do Ocidente? Há problemas de abastecimento?
Chega absolutamente tudo. Tudo que se possa imaginar tem lá. Em Pyongyang se veem coisas inacreditáveis, como carros Bentley, Jaguar, Porsche, prédios luxuosos, pessoas muito ricas.  Me aconteceu de ir a Pequim procurar certos itens e depois, para minha surpresa, encontrar em Pyongyang. Os supermercados são muito bem abastecidos, há bons restaurantes, lojas com todo tipo de coisa. Não são lojas de marca, mas têm produtos de marca, de luxo.  São lojas de eletroeletrônicos, de móveis, de importados. Só se pode comprar em moeda forte (dólar, euro e yuan), mas a elite tem acesso.

E quanto à cultura ocidental? Os cinemas reproduzem algo de fora do regime?
Nos cinemas, passam basicamente filmes norte-coreanos. Velhos filmes clássicos soviéticos são mostrados na televisão e mais raramente no cinema. Até acontece de passarem filmes ocidentais na TV, desde que tenham algo que do ponto de vista deles seja um conteúdo social para naturalmente detratar o ocidente. Mas é muito raro. Um exemplo foi o Titanic. Esse filme foi exibido, porque retrata como o Ocidente é injusto, como as sociedades burguesas capitalistas tratam as pessoas. Há também um festival de cinema em Pyongyang a cada dois anos e vários títulos brasileiros já foram exibidos. Eu apresentei alguns filmes na nossa embaixada para alunos do Instituto de Línguas – que tem o curso de português. Um filme que eles realmente adoraram foi O bem-amado. Como esses jovens riram! Acho que nunca tinham visto uma comédia na vida. Lá não existem comédias, filmes de amor, nada disso. Todos os filmes contam os feitos heroicos da família Kim.

E os teatros?
Os teatros e os equipamentos culturais de Pyongyang são de dar inveja a qualquer um pelo alto nível. Eles têm óperas, música sinfônica da mais alta qualidade. Só que logo eu percebi que o teatro, o cinema e a música não têm uma função de lazer. A função é de mobilização, é absolutamente ideológica, a temática é uma só. É uma espécie de templo, não um teatro. É um templo onde os deuses são adorados.

O senhor usou o termo seita religiosa para descrever o país. Para a população em geral existe realmente essa crença ou é o medo que governa?
Sem dúvida existe a crença. Se crianças começam desde o jardim de infância a cantar hinos aos líderes, se envolvem, participam de mobilizações imensas, impressionantes, eu não tenho dúvida de que a maior parte das pessoas acredita. Há aqueles que não acreditam e que têm de se conter, mas eu vejo uma diferença grande entre o que há hoje na Coreia do Norte e o que havia na União Soviética e nos países socialistas no leste europeu. Naqueles países, havia uma minoria que acreditava piamente no sistema. Havia também uma minoria que não só desacreditava, como vocalizava isso, eram os dissidentes. E havia uma grande maioria que era uma massa apática, que sabia muito bem que aquele regime não funcionava, mas que preferia nem se expressar. Não é esse o caso da Coreia do Norte. Andando pela cidade em diferentes momentos, horários e lugares, eu vi cenas espontâneas de devoção religiosa. Isso não me admira porque, com esse sistema de lavagem cerebral, dia e noite, o rádio, a televisão, a escola, a obrigação que as pessoas têm quando já não estão na escola, mesmo quem trabalha, de ir para a educação ideológica, a maioria acaba realmente acreditando.

Seu filho estudou em Pyongyang. Ele tinha que cumprir os mesmos rituais de homenagem aos líderes que as crianças norte-coreanas?
Não. Eles mencionavam os líderes, o respeito a eles, os seus grandes feitos, mas não mais do que isso. A escola internacional coreana segue o currículo local, porém, em língua inglesa. Os professores são todos coreanos, mas só há crianças estrangeiras na escola. Alguns amigos me perguntavam se eu não tinha medo que meu filho sofresse uma lavagem cerebral na escola, mas até para uma criança de 10 anos, a idade que ele tinha na época, era muito claro que quando se falava dos grandes feitos dos líderes era algo impossível, era um exagero. Às vezes, na rua, meu filho e os amigos deles chegavam até a bater bola com os meninos locais, mas não passava disso, não pode haver contato. Ele foi a primeira e única criança brasileira a estudar em uma escola na Coreia do Norte e teve uma boa experiência. Mas a escola não satisfaz um adolescente ocidental do século XXI, ele não tinha nem aula de informática, os livros lembravam muito os que eu usei na minha infância, lá nos anos 60. Então, depois de dois anos, ele e minha esposa se mudaram para Pequim. Foi uma das dificuldades que eu enfrentei. Eu fiquei sozinho num lugar que é isoladíssimo, que você não tem contato com a população local. Isso pesou. Por outro lado, o trabalho era extremamente interessante. E isso me satisfez muito, me realizou muito como diplomata.

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