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Roberto Colin, Embaixador do Brasil na Coreia do Norte

Por Monica Gugliano

Nesta semana, a Coreia do Norte, em resposta aos exercícios militares de larga escala feitos por tropas da Coreia do Sul e dos Estados Unidos, ameaçou mais uma vez: afirmou considerar o treinamento um ato nuclear de guerra e se prepara para uma ofensiva total contra os "inimigos". A movimentação foi uma das maiores já realizadas na região, depois do quarto teste nuclear dos norte-coreanos que, em janeiro, lançaram mais um míssil de longo alcance.

A demonstração de força da comunidade internacional se somou às novas sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU há poucos dias. São proibições duríssimas que deixam o país definitivamente alijado do resto do mundo. Na opinião do embaixador do Brasil em Pyongyang, o diplomata Roberto Colin, elas não deverão, no entanto, intimidar os governantes do país. "Já foi feito de tudo. As sanções já são quase intangíveis e não resolvem", afirma Colin ao Valor.

Se sanções e ameaças militares apenas servem para fomentar a ficção de um Estado em guerra permanente, o mesmo não se pode dizer de uma decisão tomada pelo líder Kim Jong-un. Depois de 36 anos, o partido único norte-coreano fará um congresso, convocado por Jong-un. Ele é o terceiro ditador da dinastia inaugurada por seu avô Kim Il-sung e continuada por seu pai, Kim Jong-il. "O congresso é aguardado com muita expectativa no mundo. Pode ser o primeiro passo em direção a um processo, que deve ser muito longo e diminuirá o poder dos militares", diz Colin, que em junho deve deixar a posto e assumirá a embaixada do Brasil em Talin, capital da Estônia. A seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: Desde que a Embaixada do Brasil em Pyongyang foi aberta, em 2009, se diz que o posto é desnecessário. O que o senhor acha?

Roberto Colin: Há em Pyongyang 25 representações diplomáticas. O Brasil foi a 25ª. Sei que, até hoje, muitos dizem que é um desperdício manter uma representação num país completamente fechado, isolado do mundo. Mas creio que, exatamente por isso, a representação é importante. São tão poucas e confiáveis as informações que chegam de lá que a presença de um observador, numa região que inclui a China, o Japão e a Coreia do Sul, é a única chance de o Brasil saber alguma coisa.

Valor: Mas existem lá rituais, como no resto do mundo, que permitem obter alguma informação? Não há imprensa, a população é proibida de falar com estrangeiros, todos são vigiados, mesmo os diplomatas...

Colin: Tudo isso é verdade. Mas estão acontecendo pequenas mudanças importantes. Embora quase não houvesse empresas privadas há alguns anos, pequenos mercados foram surgindo em toda a cidade. Há sinais de uma consciência crescente entre políticos norte-coreanos de que o modelo econômico do país é insustentável. Não há como estar informado sobre esses fatos sem ter uma embaixada no país, especialmente no caso da Coreia do Norte, que é de difícil acesso aos observadores independentes.

Valor: E do ponto de vista comercial, vale a pena?

Colin: Neste momento, não. Mas o Brasil é um ator importante no mundo. E a situação da Coreia do Norte está ficando muito difícil, extrema. Quase todas as iniciativas das últimas duas décadas, no sentido de, pelo menos, manter um canal de diálogo, estão vindo abaixo. Pyongyang não tem interlocutores e isso é uma catástrofe. A situação na chamada zona desmilitarizada é muito tensa. Já foi feito de tudo. As sanções já são quase intangíveis e não resolvem.

Valor: Mas isso não se deve aos sucessivos lançamentos de mísseis e ameaças feitas por Pyongyang?

Colin: É preciso entender que os mísseis não são somente uma demonstração de poder ao público externo. Eles são essencialmente uma demonstração de poder ao público interno. A Coreia do Norte vive em guerra. Seus inimigos continuam sendo o Japão e os Estados Unidos. Nunca foi assinado o armistício. Os governantes se sustentam a partir da ideia passada ao povo de que o país está constantemente ameaçado. Todos precisam estar unidos e fazer qualquer sacrifício para defender a nação. E isso é possível graças à barreira de isolamento que cerca o país. Ninguém entra, ninguém sai e, dentro das fronteiras, ninguém sabe nada do que se passa no resto do mundo.

Valor: Acha que os norte-coreanos estão mesmo dispostos a disparar um míssil nuclear contra os vizinhos do Sul, o Japão ou outro país? Eles têm domínio dessa tecnologia?

Colin: O que o mundo sabe é que eles têm as instalações [visíveis por satélite] e existe essa possibilidade, sim. Por isso, reitero a preocupação que todos devem ter com a situação atual, em que não há interlocutores respeitados por Pyongyang.

Valor: O congresso do partido, em maio, pode diminuir um pouco essa tensão? Há medidas concretas que podem resultar dele?

Colin: O congresso é aguardado com muita expectativa no mundo. Pode ser o primeiro passo em direção a um processo, que deve ser muito longo, que diminuirá o poder dos militares. O partido do "Trabalho" perdeu o poder que sucessivamente foi entregue aos militares, desde a morte do líder Kim Il-sung, o fundador da ditadura. A Coreia do Norte, naquele momento, precisava sobreviver a essa morte e os militares foram ganhando mais e mais força. Só que, neste momento, esse poder pode destruir o país. E o congresso pode oferecer alternativas para essa mudança, que será lentíssima e muito gradual. Mas sabemos que só esse movimento já significa uma luta de vida e morte na própria Coreia.

Valor: O senhor está mudando de posto. Está feliz? Como foi sua vida em Pyongyang?

Colin: Estou muito feliz com a mudança para a Estônia. Em Pyongyang tive uma experiência riquíssima. Mas foram anos de muito isolamento, medo e pressão psicológica. Peguei duas prisões domiciliares porque disseram que eu havia ido à China e podia estar infectado com o vírus ebola...

Valor: Como assim? E as convenções internacionais que garantem o exercício de sua profissão?

Colin: Tudo é possível em Pyongyang. Até pegar ebola onde o vírus não existia. No caso, a China. Reclamei. O Brasil reclamou. Não adiantou. Em uma das vezes fiquei três semanas detido em casa, com minha mulher e meu filho adolescente. Da segunda vez, eu estava sozinho. Eles já tinham se mudado para Pequim.  

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