Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Início do conteúdo da página

 

István Kovács

Agora estamos com problemas mesmo! O pulmão da Terra está queimando, vamos todos morrer, sufocar, porque o irresponsável presidente brasileiro está devastando a floresta! Nas últimas semanas as notícias não tratavam de outro assunto, e qualquer utilizador digno de Facebook não postava sobre outro tema, a não ser os incêndios da floresta e os animais agonizantes. E claro, sobre o inimigo principal Bolsonaro e seus aliados: Trump e Orbán.

Os incêndios da Amazônia se tornaram histeria global, e o presidente brasileiro o próprio Satanás, quem, aos olhos dos cosmopolitas iluminados, ultrapassa até o presidente americano na lista das pessoas a serem liquidadas. Ao mesmo tempo, pouco a pouco começaram a surgir textos baseados em fatos reais, mas em geral estes não conseguiram quebrar a armadura da “eco-ansiedade”.

Tenho que registrar que eu não sou nem engenheiro florestal nem especialista do ecossistema da Amazônia, por isso qualquer coisa que escrevo não passa de opinião laica. Ao mesmo tempo, tive o trabalho de, pelo menos, tentar me informar sobre os fatos relevantes, e durante este tempo descobri que aqueles que causam a histeria global deixaram de fazer a mesma pesquisa. Para eles o essencial é compartilhar imagens sobre a floresta queimando e demonstrar assim como o meio ambiente lhes importa. Assim fizeram várias pessoas famosas, de Leonardo DiCaprio a Maradona, de Cristiano Ronaldo a políticos progressistas como Emmanuel Macron e Justin Trudeau. O fato de que as imagens mostram incêndios de 20-30 anos atrás ou que nem foram tiradas no Brasil já não interessou a ninguém...

Se alguém ousa a perguntar quão grave é exatamente o problema, essa pessoa passa a ser rotulado de cético, conservador, fascista, fã de Orbán e Trump, e passa a não ter lugar na sociedade civil. Se alguém, por acaso, tiver a cortesia de falar com a pessoa que faz as perguntas, a resposta é sempre baseada em um único dado: neste ano houve um aumento de 83% dos incêndios em relação ao ano passado. Está bem, mas como fica esta porcentagem em uma média de 50 anos? Para tal pergunta já não existe resposta e para ser franco nem há muitos dados a serem encontrados. De acordo com a fonte mais autêntica que encontrei até 21 de agosto deste ano, foram registrados quase cem mil incêndios na região. Terrível, não é? Principalmente se somarmos que no ano anterior, na mesma época, foram registrados menos que cinquenta e quatro mil. Realmente teremos problema – foi o que pensei com razão. E então durante as minhas pesquisas posteriores descobri que o ano de 2018 foi particularmente bom no aspecto dos incêndios florestais, mas, por exemplo, em 2016, na mesma época foram registrados cento e seis mil incêndios, ou seja, um número maior que agora. Depois encontrei a pesquisa referente feita pela NASA, segundo a qual os incêndios florestais da Amazônia deste ano estão abaixo da média. Contudo, o mais importante foi quando descobri: na África as florestas estão queimando em uma área muito maior, mesmo atualmente e, no entanto isso não é abordado pela mídia.

As pessoas gostam de ter medo, ou pelo menos gostam de demonstrar nas mídias sociais que têm pavor. E foi construída uma indústria global com base nisso. Aqueles que agora se mostram preocupados pela Amazônia são exatamente os mesmos que mudaram suas fotos de perfil para tricolor francês na época do ataque ao clube Bataclan. Até o lema é o mesmo: “Pray for Paris/ Pray for Amazonia.” Vocês acham que houve pelo menos uma pessoa que realmente rezou, ou estas são apenas palavras que soam bem?

A verdade é que, semelhante ao ocorrido no Bataclan, os incêndios na Amazônia são acontecimentos terríveis. Porém, como já aconteceram ataques mais graves que os do Bataclan, a atual situação brasileira também não é única. E é muito mais complexa ao que parece de primeira vista. Os fazendeiros não destroem a floresta porque são inerentemente maus como seu líder Bolsonaro, ou porque seu único objetivo de vida é destruir o planeta, mas sim para terem terra para cultivo. O mundo já viu algo parecido, inclusive em certa época foi costumeiro até na Europa.

Naturalmente nós, aqui na parte mais desenvolvida do mundo, vivendo em prosperidade nunca vista, julgamos facilmente os fazendeiros brasileiros, mas se levarmos em conta que um terço dos brasileiros vive em extrema pobreza tal que nem conseguimos imaginar, a situação passa longe de ser tão simples. Esperamos deles que de fato permaneçam na pobreza e protejam a floresta para as gerações futuras. Já pensaram o quão importante as futuras gerações seriam se tratando primeiro de não ter o que dar de comer para os próprios filhos? Estou curioso para saber quando aqueles cujo maior problema atual é a floresta amazônica fizeram algo pela proteção do próprio meio ambiente? Quando foi a última vez que compraram produto húngaro no lugar de produto estrangeiro barato? Quando escolheram pela última vez o transporte público para chegar ao trabalho em vez dos próprios carros? Culpar os outros nas mídias sociais e ter medo sai de graça, é claro, e não requer nenhum esforço. E se o indivíduo ainda doar alguns mil florins para qualquer organização de caridade, então realmente já fez tudo o que estava ao seu alcance. E de fato fez?

Será possível que o constante temor e o fetichismo de certos aspectos da proteção ao meio ambiente seja uma espécie de substituto religioso ao homem metropolitano sem raízes? Pois a adoração e o respeito dos jovens urbanos de sociedades desenvolvidas por oceanos e florestas nunca vistas é muito semelhante ao fanatismo religioso tão negado por eles, do outro lado. A base da religião é a fé e não os fatos. O dogma da imaculada concepção é aceito sem questionar por mais de um bilhão de católicos, – inclusive pelo autor destas linhas – embora trate-se de uma tese dificilmente justificável por fatos. No caso da Amazônia temos fatos, mas isso não interessa a ninguém, porque se acredita que os incêndios atuais possam ameaçar as suas vidas e até as de seus netos. Falta apenas uma coisa: a verdadeira sacralidade. Na ausência dela, o objeto do nosso fanatismo não passa de ídolo.

Para um cristão a proteção ambiental é uma tarefa real, dada por Deus. O senhor do mundo criado é o homem: o Criador confiou aos seus cuidados as florestas tropicais, os oceanos, bem como todos os outros cantos da Terra e todas as suas criaturas. E o que significa ser um bom senhor? É uma difícil questão. De qualquer forma certamente não significa colocar toda vida na terra ao mesmo nível da vida humana, e lamentar mais a morte de um bichinho fofo do que a do mais terrível criminoso. E obviamente não significa que a destruição gratuita da natureza seja aceitável por qualquer motivo. A questão verdadeiramente difícil é: a derrubada das florestas tropicais é justificável se a este preço pudermos alimentar nossa família. Este é o real e sério dilema moral, digno de diálogo significativo.

Os “eco-ansiosos” profissionais não chegam, porém, até este ponto. Mas por que chegariam? A sua visão de mundo está completa. Existem os maus, aqueles que não compreendem a grandeza deles. Não compreendem por serem limitados e do interior. São os que elegem os Trumps, os Orbáns, e os Bolsonaros. E o que dizer que nos países chamados de desenvolvidos ainda existem áreas verdes íntegras porque as pessoas cuidam e cultivam estas terras? Isso não interessa, o que importa são as florestas tropicais e os oceanos. E que todas as celebridades pensam da mesma maneira, e certamente celebridades não erram.

E onde estão aqueles que geram verdadeiramente a histeria? Aqueles políticos que realmente têm conhecimento dos fatos, mas não dão a mínima para tais? Aqueles que julgam Bolsonaro o principal inimigo, e se calam quando a floresta queima no Canadá de Trudeau? A verdade é que para eles a proteção ambiental não passa de instrumento. Não é um fenômeno novo, desde Joschka Fischer a Cohn-Bendit uma geração inteira de políticos comunistas se converteu a verde para se manter no poder. Agora também não está diferente: aqueles que ontem consideravam a migração o maior problema da civilização, hoje já passam para a “onda verde”. Para eles tanto faz. Estão perdendo lentamente a guerra de comunicação referente à migração, por isso tendem escolher um novo campo de batalha. O que interessa a eles é encontrar uma razão para interferir nos assuntos internos de estados soberanos, e o resto simplesmente não importa.

Eis o verdadeiro problema. E como o problema da migração não vai se resolver por passe de mágica, ainda por um longo tempo devemos contar com fenômenos parecidos aos da Amazônia. Então, todos nós devemos fazer a nossa parte pela proteção do nosso mundo criado. Não incitando histeria ou com curtidas na mídia social, mas sim com ações reais com verdadeiros efeitos.

O autor é diretor estratégico do Centro de Direitos Fundamentais

Leia a matéria completa aqui:
https://demokrata.hu/velemeny/az-okoszorongas-lelektana-158722/

 

Pesquisa:
Fim do conteúdo da página