Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Início do conteúdo da página

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2445-2/html/primeiro-caderno/a-abrir/o-brasil-e-as-queimadas-na-amazonia

07/09/2019

No último dia 27 de agosto, publicou-se um relatório acerca dos incêndios florestais na Amazônia. Elaborado com base em observações de satélites, o documento apontou que de fato, ao longo de agosto, registraram-se emissões de fumaça acima da média no estado brasileiro do Amazonas. O mesmo trabalho, no entanto, afirma que, em contraste com o estado do Amazonas, "os incêndios ao largo de toda a região amazônica emitiram uma quantidade relativamente menor de dióxido de carbono, neste mês de agosto, em comparação com os primeiros anos deste século". Mais: que "ao longo dos últimos dias, a atividade de queimadas, de modo geral, parece ter estado abaixo da média, se contrastada com os 16 anos anteriores".(1)

Um leitor menos atento talvez pudesse concluir que se trata de um estudo encomendado pelo Governo brasileiro. Ocorre que o relatório em questão, e as formulações citadas textualmente acima, são do Sistema de Monitoramento Ambiental Copernicus, um sistema europeu de observação da Terra. Suas conclusões alinham-se com dados colhidos pelo próprio Governo brasileiro.

O propósito desta longa introdução não é negar a importância dos acontecimentos na Floresta Amazônica. Os incêndios florestais na Amazônia são fenômeno sazonal, frequentes durante a estação seca. O leitor português bem conhece o que há de doloroso nesses incêndios florestais, que também a este país afetam de forma periódica. O Governo brasileiro reconheceu a urgência do tema ao mobilizar as Forças Armadas para ações de combate aos incêndios e de repressão aos crimes ambientais, que já resultaram as queda substancial nas ocorrências. E nem se escusou de aceitar a ajuda daqueles países que nos estenderam a mão amiga da cooperação, em espírito solidário, e de forma respeitosa de nossa soberania.

A despeito de tudo isso, conclusões como a do Copernicus estão aí para indicar que nem tudo está dito sobre o fenômeno das queimadas. Feitas todas as contas, o saldo final do episódio bem poderá confirmar que, se aumento houve nos focos de incêndio, terá sido talvez uma oscilação normal, em período de seca, dentro da série histórica de medições. Esta série aponta uma redução notável no desmatamento amazônico ao longo dos últimos quinze anos.

O problema é que, pelo tom que predominou no noticiário, o estrago na imagem do Brasil já está feito, e a esta altura de pouco nos servirá a contextualização dos números. Em meio à excitação generalizada, registraram-se palavras ponderadas, como as do Presidente Marcelo Rebello de Sousa ou as do Primeiro-Ministro António Costa, cujo chamado à cautela e à solidariedade o Governo brasileiro muito apreciou. Noutras latitudes, no entanto, a preocupação legítima frequentemente andou de mãos dadas com o cálculo político, e o resultado final pode ser muito danoso aos reais interesses dos europeus e dos brasileiros ? além de contribuir pouco ou nada para a resolução do problema de fundo.

O mais triste do episódio é constatar que raras foram as vozes que, mesmo no exercício legítimo da crítica, levaram em devida conta os êxitos acumulados pelo Brasil na proteção ambiental. Estamos falando, afinal de contas, de um país que tem mais de 66% de seu território coberto por vegetação nativa; cujas unidades de conservação ambiental, somadas, cobririam com folga os territórios combinados da Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Itália, Países Baixos, Portugal e Reino Unido; que, a despeito do que possam afirmar noutros quadrantes, permanece um participante bastante ativo e engajado nos regimes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima e do Acordo de Paris, e que já em 2015 lograra alcançar 58% da meta de redução de emissões estabelecida para o ano de 2020. Que, aliás, na avaliação do PNUMA, integra o seleto grupo de apenas três países membros do G20 que se encaminham para cumprir as metas do Acordo de Paris (para registro, os outros dois são a China e o Japão).

As credenciais do Brasil neste domínio tornam-se ainda mais impressionantes se consideramos tratar-se de uma superpotência na produção de alimentos, a despeito de reservar escassos 30% de seu território para as atividades agropecuárias. E não terminamos por aqui: nas últimas quatro décadas, o Brasil logrou aumentar em 700% a sua produção agropecuária, sem expandir a área dos cultivos e pastagens em mais de 30%; no que vai deste século, o país manteve em níveis idênticos a área destinada ao plantio de grãos, enquanto quintuplicava a sua produção.

Não será o caso de continuar aborrecendo o leitor com tantos fatos e cifras. Mas duas palavrinhas fazem-se necessárias em defesa da pecuária brasileira, que competidores menos capacitados quiseram transformar num suposto grande vilão das queimadas. Pois aqui também, a despeito do que se alardeie noutras paragens, a realidade é que a expansão da produção se fez com a redução da área de pastagens: de 1990 para cá, o aumento da produção brasileira foi da ordem de 139%, enquanto a área das pastagens contraiu-se em 15%. Mais: especificamente no que respeita à Amazônia, os dados demonstram que a queda nos índices de desmatamento conviveu perfeitamente com expansões notáveis tanto da produção pecuária como das exportações de carnes (aliás concentradas sobretudo no centro-sul do país).

Os elementos que precedem deveriam no mínimo chamar-nos à reflexão. Nas últimas semanas, as queimadas deram ensejo à proliferação de ideias extravagantes. Neste contexto, surgiram vozes que propunham penalizar a economia brasileira ? e, por extensão, os consumidores europeus ? por um problema ainda não de todo mensurado, e em todo o caso consistente com a tendência dos últimos quinze anos. A rigor, todo esse ruído gerado em torno de boicotes e vetos obscurece um elemento fundamental deste debate: o Brasil conta com uma classe empreendedora que tem apostado, de maneira consistente, na adequação aos mais rígidos padrões de sustentabilidade ? porque é esta, afinal, a direção indicada por nossa própria sociedade, e pela consciência de que os mercados consumidores assim o exigem.

(1) CAMS monitors Amazonian fires. 27 de agosto de 2019. Disponível em < https://atmosphere.copernicus.eu/cams-monitors-amazoni an-fires >. »

Luiz Alberto Figueiredo Machado
Embaixador do Brasil em Lisboa

Pesquisa:
Fim do conteúdo da página