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Jean-Louis Tremblais

Enquanto incêndios espetaculares destroem a Amazônia, Emmanuel Macron aproveitou o G7 para acusar o presidente brasileiro de ser o principal responsável pela situação. Um pouco precipitadamente, ao que parece...

 

Tudo começou com um tweet de Emmanuel Macron: “Nossa casa está queimando. Literalmente. A Amazônia, pulmão do nosso planeta que produz 20% do nosso oxigênio, está em chamas. É uma crise internacional. Membros do G7, daqui a dois dias nos encontramos para falar sobre essa emergência.” Com tom melodramático, a mensagem vinha acompanhada de uma fotografia representando a vista aérea de um incêndio. Primeiro problema: a imagem que devia supostamente ilustrar o pedido de socorro do Presidente da República tem mais de dezesseis anos: seu autor, o fotógrafo americano Loren Mclntyre, faleceu em 2003. Segundo problema: esses dados estão errados. “A expressão é bonita mas não é científica”, esclarece Philippe Ciais, pesquisador do Laboratório das Ciências do Clima e do Meio Ambiente, em entrevista ao jornal Le Parisien.

É que a floresta amazônica é responsável por somente 5% do oxigênio contido na atmosfera. São os oceanos que produzem a maior parte dele. O caso poderia ter ficado nisso se o Chefe de Estado não tivesse ido mais longe ao acusar Jair Bolsonaro de ser o responsável pelo desastre e declarar que, se o acordo de Paris não fosse respeitado por Brasilia, não ratificaria o tratado de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul (o mercado comum que une vários países latino-americanos, dentre os quais o Brasil).

Ofendido, estigmatizado e entregue ao linchamento global, o líder brasileiro reagiu como o oficial nacionalista (é um ex-capitão de artilharia) que nunca deixou de ser... “A Amazônia é nossa, não de vocês”, insiste ele, condenando a “mentalidade colonialista” da França. Deixemos de lado os acertos de contas, de gosto duvidoso (dos comentários sobre Brigitte Macron às alusões a Notre-Dame), divulgados nas redes sociais durante a crise diplomática. Mesmo assim a condenação pública somente de Jair Bolsonaro não deixa de ser redutora, para não dizer tendenciosa. De fato, como lembra o New York Times (jornal pouco suspeito de apoiar a ultradireita) num artigo de 24 de agosto, todo ano os fazendeiros brasileiros aproveitam a estação da seca para queimar terras que usarão em seguida para o plantio (a soja, entre outros) ou a criação de gado. Os gráficos publicados mostram um pico de incêndios entre agosto e setembro, e isso todos os anos, há duas décadas. Nosso colega de profissão acrescenta, citando várias sumidades universitárias que analisaram as imagens de satélites da NASA, que a maioria dos incêndios está ocorrendo em terras já desmatadas no passado!

Eleito em janeiro de 2019, Jair Bolsonaro não pode ser considerado o único responsável por uma prática já antiga, pela qual estranhamente não se responsabilizava seus antecessores. Foi em 2012, durante o mandato de Dilma Rousseff, que o desmatamento foi potencializado, graças à adoção de um novo código florestal que anistiava os desmatadores. Ninguém estigmatizou então a presidente brasileira, à exceção de algumas ONGs. A diferença, é que ela é de esquerda e que Jair Bolsonaro, por vezes descrito como o “Trump tropical”, é de direita. Da mesma forma, Emmanuel Macron tomou muito cuidado em não acusar Evo Morales (o presidente pró-indígena e socialista da Bolívia) enquanto um milhão de hectares eram engolidos pelas chamas naquele país. “Verdade aquém dos Pireneus, erro além”, dizia Pascal. Uma máxima que aparentemente também vale para os Andes...

Poderíamos acrescentar que a França, que também é uma potência amazônica por conta da Guiana Francesa, não é exemplar do ponto de vista ecológico. No dia 3 de agosto, o Ministério da Economia emitiu mais uma “licença exclusiva para procura de ouro e de substâncias conexas” nos municípios de Régina e Ouanary. É a terceira em oito meses nesse departamento ultramarino. Provavelmente a Pachamama, “nossa mãe a todos” como diria Greta Thunberg, não deve ter gostado nem um pouco.

 

 

 

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