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Outras Autoridades - Artigos

A Arte da Diplomacia: Modernismo Brasileiro pintado para a Guerra – Santiago Irazabal Mourão

05 de Abril de 2018 - 11h57
'Portrait of a young man', n.d., de Roberto Burle Marx
imagem sem descrição.

Em novembro de 1944, quando 25 mil integrantes da Força Expedicionária Brasileira combatiam os nazistas na Itália, outra iniciativa nossa em prol da causa aliada era lançada em Londres: uma exposição de 168 pinturas, de autoria de 70 artistas contemporâneos brasileiros – nomes como Cândido Portinari, Tarsila do Amaral, Guignard, Cícero Dias, Burle Marx, Pancetti e Lasar Segall – cujo objetivo era reverter o produto das vendas para a Força Aérea Real (RAF). O gesto, como afirmaram os artistas em artigo publicado à época, deveria ser “apreciado mais por seu significado moral e simbólico do que por seu valor material”. Por mais difícil que seja imaginar como se conseguiu reunir tantas obras de arte numa Londres ainda assolada pelos bombardeios, após atravessar o Atlântico sob o risco permanente dos submarinos alemães, a exposição foi montada na Royal Academy of Arts e circulou por outras cinco cidades do Reino Unido.

A expectativa dos artistas não se consumou nem no âmbito material nem no simbólico: foram leiloados apenas 80 quadros, rendendo aos cofres do Fundo Beneficente da RAF algo em torno de 800 libras, e a mostra acabou caindo no esquecimento após a guerra.

Ao tomar conhecimento daquela iniciativa, em 2014, a embaixada do Brasil em Londres assumiu o desafio de mergulhar nos arquivos da Royal Academy e reconstituir os detalhes de um evento há muito “enterrado”. A ideia que surgiu daí foi muito além da simples pesquisa histórica: por que não reproduzir, ainda que parcialmente, uma exposição que hoje é reconhecida como de inestimável importância em termos de conteúdo artístico, em um contexto único na história do Brasil e do Reino Unido?

O resultado desse empreendimento é a mostra “A Arte da Diplomacia: Modernismo Brasileiro pintado para a Guerra”, a ser inaugurada no espaço cultural da embaixada, em dia 5 de abril próximo. As 24 obras selecionadas, de 20 autores, integraram a exposição de 1944 e permaneceram em solo britânico desde então, dispersas entre museus e coleções privadas do país. Representam, como era a intenção da atual curadoria, o embrião do importante acervo de arte brasileira hoje em posse de instituições artísticas britânicas. É o produto de um esforço conjunto do Itamaraty com entidades britânicas, empresas privadas, curadores e artistas dos dois países, que em tempo bastante curto para uma empreitada de tanto fôlego conseguiram retirar do esquecimento o que viria a ser uma das primeiras tentativas de projeção internacional do Brasil por meio da cultura.

“A Arte da Diplomacia”, que estará aberta ao público até junho, nos permitirá resgatar uma iniciativa inédita do Brasil em apoio ao esforço de guerra de um país aliado – numa época em que nossos soldados se sacrificavam pela mesma causa. Representa, também, oportunidade para refletirmos sobre o que mudou nestes três quartos de século, sobre o papel da diplomacia em tempos de guerra e, principalmente, em tempos de paz. Se um dos principais ingredientes da intolerância e do conflito é a falta de conhecimento mútuo, iniciativas como a dos 70 artistas brasileiros que cederam suas obras em nome da solidariedade deveriam ser emuladas com muito mais frequência.

http://theartofdiplomacy.com


Santiago Irazabal Mourão

Subsecretário-Geral de Cooperação Internacional, Promoção Comercial e Temas Culturais

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