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O BRASIL NÃO VAI PRATICAR A "DIPLOMACIA DAS CANHONEIRAS"

O conflito com a Bolívia em torno da nacionalização do petróleo vem sendo resolvido da maneira adequada e o mesmo será feito com o Equador, assegura o chanceler brasileiro em entrevista exclusiva à nossa repórter Solange Monteiro. Para Amorim, na prática, a América do Sul já é uma área de livre comércio e o Mercosul entra agora numa nova fase, com a adesão da Venezuela e a presidência brasileira.

América Economia: Como projeta a política exterior para o segundo mandato de Lula?

Celso Amorim: A prioridade é a integração da América do Sul. É fundamental para o Brasil do ponto de vista político, é o nosso entorno. Não podemos conceber o desenvolvimento do País separado da América do Sul, que já é nosso segundo parceiro comercial - o primeiro é a União Européia -, já é mais do que os EUA para nós e, por outro lado, num mundo de blocos em que vivemos, a integração sul-americana é essencial.

América Economia: Está nos planos fortalecer um papel de liderança do Brasil na região?

Celso Amorim: Liderança não se postula. Emerge de forma natural a partir de comportamentos que têm a ver com ser capaz de colocar os interesses globais do mundo ou da região num plano tão importante quanto o interesse nacional. Nos acordos comerciais, estamos trabalhando para a América do Sul como um conjunto. Hoje, na prática, temos uma zona delivre comércio sul-americana. Às vezes dizem que o Brasil fi cou isolado porque o Peru e a Colômbia assinaram TLC com os EUA. Na verdade, nós assinamos com eles antes. Não são acordos idênticos aos dos EUA, porque temos outras prioridades. Nesse contexto, o Brasil procurou levar em conta as assimetrias. Isso, na prática, pode ser qualifi cado como liderança, ser capaz de fazer mais pelos outros que são menos desenvolvidos. Mas não estamos disputando liderança com ninguém.

América Economia: Os esforços até agora frustrados para conseguir uma cadeira na ONU e a derrota em eleger o diretor da OMC mostram perda de liderança?

Celso Amorim: O Brasil foi candidato a mais de 20 postos. Foi o mais votado para o Conselho de Direitos Humanos, foi eleito para a Comissão de Reconstrução da Paz. Foi, mais uma vez, eleito membro do Ecosoc, conselho econômico e social da ONU. Temos que colocar as coisas em perspectiva. No caso da OMC, tínhamos alguma esperança de vencer. Mas, no fundo, indicar o embaixador Seixas Corrêa fazia parte do processo de consolidação do G-20. O Brasil tem hoje mais prestígio na OMC do que há quatro anos. Posso dizer isso porque já fui embaixador lá, já fui ministro, assinei o acordo de Marrakesh, vivi essa experiência pessoalmente. Hoje, não se dá um passo maior sem que o Brasil seja ouvido. E estamos satisfeitos com Pascal Lamy, que respeita muitíssimo o Brasil. Quanto ao Conselho de Segurança, não é algo que ocorra num dia. E o Brasil tem o apoio de muitos países sul-americanos.

América Economia: Mas há conflitos na região, como com a Bolívia e o Equador, que agora também sinaliza intenção de nacionalizar o petróleo.

Celso Amorim: Ter liderança não quer dizer tirar a soberania de outros países. A Bolívia decidiu nacionalizar os hidrocarbonetos, depois de um período difícil. Logo chegamos a uma negociação aceitável, que inclusive foi aceita por outras companhias de fora da região. E conseguimos preservar o mais importante, que é a garantia do suprimento de gás para o Brasil. O caso do Equador vamos discutir da mesma forma. Não podemos impor. O Brasil não pode fazer da Petrobras o que era a Standard Oil nos anos 50, que condicionava a posição diplomática dos EUA. Há que ver isso de maneira equilibrada e adequada.

América Economia: O País não teria sido pouco severo com a Bolívia?

Celso Amorim: Qual seria a alternativa? Botar tropa na fronteira? Não se pode pensar uma política externa no abstrato; há que pensar uma linha de ação com base em alternativas possíveis. É possível fazer a Bolívia voltar atrás no processo de nacionalização no grito? Não. Então adotamos a postura de respeito e diálogo firme. Tínhamos três problemas importantes: o preço, a indenização das refinarias e, o mais importante, a questão da produção e exploração viável que garanta o suprimento. Isto já está resolvido de maneira adequada para nós. A diplomacia das canhoneiras acabou e o Brasil não vai praticá-la. Isso não quer dizer que não seja firme. Ajudamos a Bolívia na questão da dívida, em outras ocasiões, e esperamos da Bolívia, por exemplo, tratamento equânime no que diz respeito ao brasileiros na reforma agrária. Assim são as coisas. As alternativas que outros imaginam que poderia existir ou não existem ou seriam desastrosas.

América Economia: O Mercosul é visto como uma confusão e a política exterior brasileira, como mais ideológica que comercial. Qual é a sua opinião?

Celso Amorim: A Argentina é nosso segundo parceiro comercial. Vamos exportar para eles este ano mais de US$ 10 bilhões. O total de nosso comércio vai chegar a US$ 17 bilhões. O fato de o bloco impedir outros países de fazer acordos de livre comércio é uma opção a ser feita. O Mercosul é uma união aduaneira, porque pretende ser o germe de uma integração mais profunda. Não vejo nada de ideológico. Aliás, o Mercosul foi iniciado por Collor e Menen. Eles é que decidiram que deveria ser uma união aduaneira, porque ganha uma consistência maior no longo prazo e teoricamente deveria beneficiar os países menores, que teriam acesso a mercados grandes. Isso não aconteceu de todo. Por isso, o presidente Lula tem repetido que temos que fazer mais pelas economias menores. O caso é que, por motivos variados, a mentalidade Mercosul não passou muito além das chancelarias.

América Economia: Qual o sentido de incluir a Venezuela no bloco?

Celso Amorim: Primeiro, a Venezuela é uma economia importante; será a terceira economia do Mercosul, com grande volume de recursos energéticos. Não há integração real se não houver a energética. Basta olhar o exemplo europeu, que começou com a Comunidade do Carvão e do Aço. E a Venezuela faz com que o Mercosul ganhe a cara da América do Sul. Antigamente pensavam que o Mercosul era o mercado comum do cone sul. Isso acontecia até no Brasil, onde as pessoas propunham criar o "Merconorte", porque os Estados do
Nordeste e do Norte não se benefi ciavam do Mercosul. A entrada da Venezuela muda isso radicalmente e dá uma dimensão muito mais internacional ao bloco.

América Economia: Quais as perspectivas para a Comunidade Sul-Americana de Nações?

Celso Amorim: São dois processos que se desenvolvem paralelamente, até com uma dose de superposição. No Mercosul, uma condição básica é ter tarifa externa comum. Há países na América do Sul que já têm acordos de livre comércio fora da região ou estão em processo de negociação. É o caso do Chile, que já tinha, Peru e Colômbia, que negociaram, e portanto não podem fazer parte da união aduaneira. Mas podemos ter um processo de integração correndo em duas velocidades. A área de livre comércio tem que ser harmonizada aos poucos.

América Economia: O que esperar da relação entre o Brasil e os EUA?

Celso Amorim: São dois dos maiores países do continente americano, então essa sempre será uma relação especial, sempre haverá um diálogo importante e privilegiado. Mas não significa que temos que seguir em tudo uma agenda definida por Washington, da mesma forma que eles não vão querer seguir os preceitos de Brasília. Os EUA continuam sendo nosso principal parceiro comercial individual, principal investidor no Brasil. Vamos trabalhar para que isso se aprofunde, mas de uma maneira benéfica para os dois países.

América Economia: Nesse sentido, a proximidade do Brasil com Venezuela não é prejudicial?

Celso Amorim: Nossa posição com Venezuela não é feita para agradar ou desagradar ninguém.

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