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Cotado para continuar no cargo, o atual chanceler quer ampliar relações com países emergentes


São poucos, pouquíssimos, os diplomatas disponíveis no mundo com tamanha envergadura. Celso Amorim já fez de tudo - e já foi tudo de relevante. Primeiro trabalhou como cineasta, se juntando àquela turma do cinema novo que achava que podia mudar o mundo com uma "câmera na mão e uma idéia na cabeça". Chegou a assistente de direção do clássico Os cafajestes, de Ruy Guerra, mas acabou se desviando para o Itamaraty. "O cinema me deu a sensibilidade para os temas humanos, a régua e o compasso com os quais edifiquei minha diplomacia", diz ele. Hoje, aos 64 anos, com três filhos cineastas - e ainda louco por cinema -, Amorim exibe um currículo vistoso. Já foi ministro das Relações Exteriores de Itamar Franco, e um dos raros a bisar na chancelaria, ao lado do barão do Rio Branco. Como chanceler de Lula, tornou-se um dos homens mais influentes do planeta - mas também criou uma política externa controvertida, que bateu de frente com os Estados Unidos nas negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), organizou os países emergentes para enfrentar os americanos e europeus nas negociações da OMC, o chamado Grupo dos 20 (G-20), e priorizou um eixo de poder Sul-Sul, formado por Brasil, Índia e África do Sul. Agora, todos os sinais emitidos pelo presidente Lula são de que Celso Amorim deve permanecer como chanceler. Pela terceira vez. Para fazer o quê? "Chegou a hora de dar mais atenção aos tigres asiáticos", anuncia. Abaixo, a entrevista que Celso Amorim concedeu a ISTOÉ no Itamaraty:

ISTOÉ - O Brasil continuará com uma política externa controvertida no
próximo mandato?

Celso Amorim - É controvertida somente para alguns setores empresariais, mas é uma política externa que tem grande apoio popular. Prova disso é que hoje eu sou reconhecido pelo povo em vários lugares por onde ando. E não é só no Congresso, mas nas ruas. Não é aquela história de acharem que sou artista da Globo, são pessoas do povo que sabem o que eu faço. Já fui abordado - em porta de fábrica ou em shopping center - por garis, policiais ou operários que querem saber como vamos tratar a Bolívia e os Estados Unidos. O povo está acompanhando os assuntos de política externa, e isso é uma coisa nova no Brasil.

ISTOÉ - Mas a polêmica não se dá porque essa política colecionou fracassos, como a reforma do Conselho de Segurança da ONU?

Amorim - Tudo bem, vamos começar discutindo os supostos fracassos. Quais? O Brasil não ter conseguido uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU? Isso não foi uma derrota. Primeiro porque essa pretensão não é uma invenção do governo Lula. É uma posição da diplomacia brasileira desde 1945, cujo debate retornou com o presidente Sarney e se intensificou com Itamar Franco. O que aconteceu no governo Lula é que o Brasil ganhou mais projeção internacional e se uniu à Alemanha, ao Japão e à Índia para impulsionar a reforma da ONU. Não estamos em má companhia e é uma questão de tempo conseguirmos a vaga. Gostaria que o processo de negociação estivesse concluído. Mas nós sabemos que é um debate longo.

ISTOÉ - E como o sr. explica o fracasso das negociações da Alca?

Amorim - Não foi um fracasso, ao contrário, conseguimos desmontar um esquema que seria ruim para nós. A Alca, do jeito que estava desenhada, seria prejudicial aos interesses dos empresários e dos trabalhadores brasileiros. Não poderíamos desenvolver a indústria naval como estamos fazendo porque isso depende do dinheiro do governo e os americanos não queriam permitir tal financiamento público. Não poderíamos manter uma política de remédios baratos para o povo porque isso significa ter normas sobre patentes mais flexíveis, que os Estados Unidos não aceitavam. Também na questão dos subsídios agrícolas, que nós combatemos, não teria sido possível avançar. Por isso, paralisar as negociações da Alca, da maneira que estava colocada, não foi uma derrota, mas uma vitória para o Brasil.

ISTOÉ - Quais os setores que o Brasil tem chances de estabelecer acordos comerciais com os Estados Unidos?

Amorim - O álcool, por exemplo. Há um grande interesse em desenvolver projetos em comum. Nosso problema no momento é conseguir tratar o etanol como fonte de energia, como base energética, e não como um simples produto agrícola sujeito a subsídio, como é hoje. Nos interessa desenvolver coisas desse tipo. Mas há chances de acordo em todos os setores. Queremos negociar? Queremos, mas em termos adequados, como estamos conversando com a União Européia. Mas isso exige paciência. Porque é necessário colocar o acordo em termos adequados, para que não prejudique a nossa política industrial, a nossa política de medicamentos.

ISTOÉ - No caso da Bolívia, que nacionalizou o setor de hidrocarburetos e ameaçou os interesses brasileiros, não faltou realpolitik?

Amorim - Realpolitik no século XXI? O único caminho é o diálogo. Um diálogo com firmeza, mas não cantando de galo, nunca. As entrevistas do presidente Lula, e as minhas também, são todas nesse tom - diálogo, mas com firmeza. As críticas vêm de uma velha psicologia existente no Brasil, a de que devemos ser submissos com os fortes e arrogantes com os fracos. A nova política externa é a de que queremos ser tratados de igual para igual pelos outros, sentar na mesma mesa com as superpotências. E vice-versa.

ISTOÉ - Respeitando os mais fracos?

Amorim - Sim, as pessoas não estão acostumadas a tratar os mais fracos com respeito. Estamos acostumados a nos sujeitar aos mais fortes. Mas isso não quer dizer que nós vamos aceitar tudo o que eles querem, e eles sabem disso. Nessas conversas com a Bolívia, por exemplo, o Brasil não deu para trás. Se o governo boliviano nos ameaçar, haverá uma reação do Brasil. Não tenha dúvida.

ISTOÉ - Quais as mudanças na política externa que teremos no próximo governo?

Amorim - Ainda não sei quem será o chanceler.

ISTOÉ - Então, quais recomendações o sr. deixaria para o próximo chanceler, ainda que ele venha a ser Celso Amorim?

Amorim - A integração da América do Sul é a prioridade principal. E não é a prioridade deste governo nem a minha, mas do Itamaraty como um todo, com base na realidade global. Temos que priorizar a América do Sul, porque o mundo está se unindo em blocos, e as Américas não formam um bloco. Há uma superpotência, outros países em desenvolvimento e ainda nações muito pequenas e pobres. Mas a América do Sul pode ser um bloco, que não é homogêneo, que tem suas turbulências, mas que tem condição de formar uma grande unidade com capacidade de negociar. Por isso a entrada da Venezuela no Mercosul foi tão importante. O Mercosul não é formado apenas pelo Cone Sul e pode ser um bloco de países do Caribe até a Patagônia.

ISTOÉ - E as novas prioridades?

Amorim - Não são novas, elas são as mesmas, com a integração da América do Sul em primeiro lugar. Mas temos uma nova meta a atingir, uma aproximação comercial e estratégica com os tigres asiáticos. A gente tem que trabalhar mais aí. Não se trata de mudar prioridades, mas avançar naquilo que ainda não fizemos, ter mais espaço e mais tempo para outros países. Neste governo já trabalhamos muito na aproximação com a China, com o bloco Índia e África do Sul, com os países árabes. Chegou o momento de trabalhar com os tigres e a Europa Oriental. Com a Rússia nós já trabalhamos muito e vamos continuar trabalhando, mas existem outros países na região, como a Polônia, com os quais podemos estreitar laços.

ISTOÉ - Como o sr. vê as críticas de que o Itamaraty dá pouca atenção aos Estados Unidos e à União Européia?

Amorim - Americanos e europeus sempre foram e sempre serão nossos parceiros estratégicos. E lembro que o comércio com ambos cresceu muito neste governo. Só não foi maior por causa do protecionismo deles, por culpa deles. Mas o comércio cresceu ainda mais com a América do Sul. O continente europeu já é nosso maior parceiro, ultrapassou os Estados Unidos. O que os críticos têm que entender é que os americanos e europeus podem até ser nossos maiores sócios, mas não são os únicos. Temos que buscar outras alternativas, como os tigres. Mas acho que até esse tipo de crítica está mudando. Os artigos na imprensa já estão dizendo que precisamos fazer mais pelos grandes mercados, mas fazem a ressalva: sem abandonar o que já conseguimos nos emergentes.

ISTOÉ - E quais foram os resultados dessa aliança com os países emergentes?

Amorim - A liga Brasil, Índia e África do Sul, por exemplo, está gerando excelentes resultados, não apenas comerciais, mas também políticos, tecnológicos e estratégicos. Outro dia a Condoleezza Rice (secretária de Estado dos EUA) elogiou publicamente essa aliança. Ela disse que é uma iniciativa política muito interessante, entre três países de três continentes diferentes, de culturas diversas, mas ao mesmo tempo são três nações democráticas, multirraciais e multiculturais, cuja aliança poderá servir de exemplo para outros países. Além disso, já temos um acordo com a Índia dentro do âmbito do Mercosul. Agora queremos um acordo trilateral entre o Mercosul, a África do Sul e a Índia, a maior área de livre comércio que conseguirmos entre os países do sul.

ISTOÉ - A Rodada de Doha, da OMC (para redução dos subsídios agrícolas), na qual o Brasil apostou muito, está paralisada. Há sinais de que o impasse possa ser desfeito?

Amorim - Os lobbies agrícolas do mercado europeu são muito fortes e são eles, principalmente, que estão criando mais dificuldades para nós. Seria realmente uma pena não concluir a Rodada Doha. Continuamos lutando. Recentemente, falamos com o G-20, que manifestou interesse em retomar as negociações. Creio que todos estão interessados e ainda esperançosos com um acordo, porque a impossibilidade de se chegar a um consenso foi uma derrota para todos.

ISTOÉ - O sr. rebate com vigor as críticas de que o Mercosul implodiu. Mas se está tudo tão bem, então por que o Uruguai quer fazer um acordo de livre comércio com os EUA?

Amorim - Acho que o Uruguai tem muitas razões de queixas contra o Mercosul. Por exemplo, o acesso ao mercado brasileiro tem sido muito restrito. O Brasil tem que liberar mais, porque é muito maior. O comércio internacional não deve só ser competitivo, tem que ter vantagens comparativas. Então, algumas coisas a gente tem que comprar deles. E a nossa estrutura burocrática está voltada só para o Brasil; não há uma visão integrada. O Brasil é muito maior do que o Uruguai e o Paraguai e isso causa mais problemas para eles. Temos que trabalhar para que esses dois vizinhos tenham uma inserção, temos que abrir mão de produzir tudo e temos que escoar mais, proporcionar condições de financiamento para eles.

ISTOÉ - Mas além disso, há muitos entraves burocráticos...

Amorim - É verdade. O presidente Lula citou um exemplo de um avião que o Brasil doaria ao Senegal para combater uma praga de gafanhotos. Mas quando se conseguiu liberar o avião, mais de um ano depois, a praga de gafanhoto já tinha devastado as plantações. Há um problema similar com o Uruguai. Eu estou negociando para importarmos água mineral de lá, que eles exportam para o mundo inteiro, menos para o Brasil, por conta de uma norma técnica. Até sair a portaria que mude a norma é um sofrimento.

ISTOÉ - E nós temos um grande superávit com eles...

Amorim - O Brasil não pode exportar US$ 1 bilhão para o Uruguai e importar só
US$ 500 milhões; precisamos exportar US$ 1,5 bilhão e importar US$ 2 bilhões. Como? Com a indústria automobilística, por exemplo. Partes dos carros poderiam ser produzidas no Uruguai ou no Paraguai. O banco, ou os faróis, qualquer coisa. É isso que a Europa fez, é essa cultura de integração que ainda não existe totalmente.

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