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Ernesto Araújo critica discurso ‘bolivariano’ e economia fechada

Por Daniel Rittner — De Brasília

Uma sequência de tuítes de Paula Español, conselheira econômica do presidente eleito Alberto Fernández e cotada como futura secretária de Comércio Exterior da Argentina, deixou o chanceler brasileiro Ernesto Araújo ainda mais temeroso do que vem pela frente no Mercosul.

Em postagens, Paula elogia o comércio administrado, remetendo às medidas protecionistas tomadas pelo governo de Cristina Kirchner (2007-2015). Diz que a inserção argentina no mundo deve ser feita sem dogmatismos, condena um suposto fetiche pela abertura comercial e critica o acordo União Europeia-Mercosul. Em outras postagens, comemora “Lula Livre” e lamenta o “golpe de Estado” na Bolívia.

Moral da história? Há duas dimensões paralelas, segundo o ministro das Relações Exteriores, na condução de governos esquerdistas na América do Sul: uma é a dimensão da economia fechada, protecionista, estatizante; outra é a dimensão bolivariana, de um eixo Havana-Caracas-Foro de São Paulo. “São dois braços do mesmo corpo, que pertencem à mesma cabeça”, afirma.

“Uma coisa é política econômica mais fechada ou política externa que rejeite os Estados Unidos. Outra é quando se começa a ver - e todos os sinais vão nessa direção - que se trata de um projeto político regional, hemisférico, continental. É uma realidade, procuramos não esconder a cabeça na areia. As pessoas olhavam muito à altura do chão. Aí viam apenas a Argentina, a Bolívia, a Venezuela. Levantando a cabeça, percebe-se algo mais amplo, programático e ideológico.”

Em conversa com o Valor, na sexta-feira, Araújo disse que o governo Jair Bolsonaro em nenhum momento foi procurado por Fernández ou qualquer auxiliar do presidente eleito - e nem procurou. “Estamos nos preparando para diferentes cenários.”

Um dos cenários, admite, é a ruptura no Mercosul. Está longe de ser o plano A, aponta o ministro, “mas aparentemente há na Argentina uma visão profunda que vai contra os postulados básicos do Mercosul”.

“Na nossa transição [de governo], no fim do ano passado, houve dúvidas sobre a utilidade do bloco. Apostamos no Mercosul e isso vinha dando certo com a Argentina do Macri”, afirmou Araújo. “Não podemos dizer que é um projeto inquestionável, que vai durar para sempre, aconteça o que acontecer. O Mercosul não é apenas um nome, uma bandeira hasteada. Se o projeto é desvirtuado, precisa ser repensado.”

Na frente comercial, depois dos acordos alcançados com a UE e com o EFTA (bloco formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein), há boas perspectivas de se chegar a um entendimento com Canadá e Cingapura em 2020. E o chanceler já avisa: “Uma eventual - eventual, possível ou provável - retração da Argentina não nos afetará. O Brasil irá em frente individualmente, vamos explorar as flexibilidades.”

Da mesma forma, segundo ele, o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, demonstrou interesse em um diálogo exploratório para identificar a conveniência de negociações comerciais com o Mercosul. Poderia ser simplesmente com o Brasil, dependendo dos rumos do bloco.

Nos dias 4 e 5, em Bento Gonçalves (RS), haverá a última reunião de cúpula presidencial do Mercosul com participação de Mauricio Macri. Ainda na primeira quinzena de dezembro, Araújo embarca para sua primeira viagem oficial à África. Visitará Cabo Verde, Angola, Nigéria e Senegal. “Queremos trabalhar muito mais com a África e precisamos reconfigurar nossa presença econômica no continente, que era essencialmente baseada nas construtoras e se retraiu com a Lava-Jato”, afirmou.

É à vizinhança latino-americana e à sequência de manifestações populares, entretanto, que Araújo dedica sua atenção mais imediata. Protestos liderados por grupos de esquerda atingiram Equador, Chile e agora a Colômbia. O governo do direitista Mario Abdo Benítez no Paraguai, aliado de Bolsonaro, quase caiu. Para o chanceler, trata-se de um movimento de desestabilização que parte daquele mesmo eixo Havana-Caracas-Foro de São Paulo. Então como se encaixaria o caso da Bolívia, que aparentemente quebra essa sequência lógica, com um líder de esquerda caindo depois de protestos com o apoio da direita? Uma espécie de exceção que confirma a regra, sustenta. “Nada é tão geométrico. O morcego voa, mas não é pássaro. A baleia nada, mas não é peixe.” E volta à lógica para enfatizar que o governo brasileiro deve manter-se alerta. Na cadeia de manifestações lideradas pela esquerda, segundo o raciocínio de Araújo, Bolsonaro pode tornar-se um dos alvos seguintes. “Qualquer tentativa de criar um poder sul-americano precisa do Brasil”, afirma.

Questionado sobre o fato de que nem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem conseguido levar multidões às ruas, e que a oposição parece desarticulada para ameaçar o governo, Araújo concorda, mas pondera: “Não podemos descansar um minuto diante dessa possibilidade [protestos]. Não há um substrato que pareça muito favorável a isso. O Lula aparentemente não está encontrando apoio. A esquerda está sem tração popular autêntica. Mas tem movimentos organizados que estão aí, embora enfraquecidos. O Brasil é parte desse alvo.”

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