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Na entrevista exclusiva ao Clarín, em Buenos Aires, Ernesto Araújo falou sobre a política externa brasileira. Disse que a relação com os Estados Unidos era “descuidada”, comentou sobre o Mercosul, sobre a China e respondeu sobre o fator religioso em suas falas.

Natasha Niebieskikwiat 
10/04/2019 - 8:54

​Ernesto Araújo finalmente veio a Buenos Aires. As viagens do presidente Jair Bolsonaro ao Chile, aos Estados Unidos e a Israel atrasaram sua visita, prevista originalmente para março.

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, diplomata de carreira, de 51 anos, chegou na terça-feira (9) à noite na Argentina e nesta quarta seguirá sua agenda oficial: encontros com o presidente Mauricio Macri, que disse que "admira"; com seu colega Jorge Faurie; e com o ministro da Produção Dante Sica.

Com eles conversará sobre a visita de Jair Bolsonaro à Argentina, que, em princípio, seria em maio. Na terça-feira à noite, Ernesto Araújo fez uma palestra no Conselho Argentino para as Relações Internacionais (Cari), em Buenos Aires.

Ele disse que tem certeza que "ambos os países vão resolver seus problemas".

Araújo disse ao Clarín que um dos problemas de Bolsonaro é que precisa realizar reformas.

Além de suas entrevistas bilaterais, o senhor fez uma palestra no Cari sobre a atual política externa do Brasil. Como o senhor a define?

Ela pode ser definida como a tentativa de combinar uma política mais eficiente, especialmente a nível econômico, expansão do comércio e captação de investimentos e, ao mesmo tempo, uma política mais robusta de defesa da soberania. Uma política de defesa dos valores básicos e dos ideais do nosso povo, que estavam um pouco esquecidos. E nessa defesa de valores também queremos uma defesa da democracia.

Em seus textos e declarações há uma defesa do fator religioso de maneira muito relevante.

Claro, isso viria a ser parte da dimensão filosófica dos valores. Noventa por cento dos brasileiros são cristãos, católicos e evangélicos. E muitas vezes não se sentiam representados pela atuação do Brasil em fóruns internacionais. Por exemplo, nos fóruns de direitos humanos. Isso é uma inspiração do presidente Bolsonaro e do programa que o levou à vitória eleitoral. Mas, para o ministério, essa não é uma questão de um teste sobre se são religiosos ou não.

De jeito nenhum. É uma dimensão importante da vida dos brasileiros. Por isso o presidente fala sobre isso abertamente.

E em que lugar fica a relação com a Argentina depois que autoridades brasileiras disseram que este país e o Mercosul não seriam prioridade, mas também depois da boa química entre Macri e Bolsonaro na reunião em Brasília?

Acho que a Argentina é tão fundamental que falamos menos da Argentina porque já existia uma relação excelente antes. Ambos os países vão resolver seus problemas. Com os Estados Unidos, a relação estava muito abaixo do necessário.

O que o senhor quer dizer com isso?

Bom, que a relação com os Estados Unidos precisava de um impulso porque estava muito abaixo do nível necessário, do potencial. Com a Argentina já tínhamos uma relação de alta intensidade. Estamos assim na relação bilateral, assim como no Mercosul. Já superamos qualquer dúvida que havia no Brasil sobre o futuro do Mercosul.

O Brasil está disposto a firmar acordos bilaterais com outros países fora do Mercosul?

Não. O que queremos discutir com os parceiros é um mecanismo de flexibilidade para que, com os países com os quais não temos acordos, tenhamos modalidades que facilitem a negociação individual, mas com algum mecanismo de convergência que não provoque dano à união aduaneira.

Mas, colocado desse modo, não vejo uma diferença em relação aos governos anteriores, que também buscavam uma flexibilização.

Agora temos uma disposição muito concreta para encontrar as modalidades e flexibilidades. Estamos começando a falar sobre isso. Vou conversar com Faurie. Já começamos a conversar sobre isso em dezembro.

E com que países negociariam um acordo de livre comércio? Com os Estados Unidos? Com a China certamente não….

(O chanceler prefere não se definir, apesar da insistência do Clarín) É preciso definir com que país não negociamos. Com uma perspectiva realista. E com esse país, o que é mais produtivo e eficiente.

Um TLC Mercosul-UE seria bem-vindo? Seria enviado ao Congresso?

Sim. Damos muita prioridade a isso.

Aqui na Argentina esperam a visita de Bolsonaro antes da reunião do Mercosul, concretamente em maio.

Trago uma proposta de data. A visita será antes da reunião do Mercosul.

O senhor chega aqui em um momento complicado. A situação da Argentina o preocupa?

Ambos os países estamos esperando que haja uma recuperação em ambos os casos.

No Brasil temos números bons de emprego desde o começo do ano, mas podemos fazer muito mais.

Claro, a interconexão econômica é grande especialmente em alguns setores. No Brasil estamos esperando que, quando o sistema da previdência for aprovado, isso gere um ciclo de crescimento virtuoso, com investimentos.

E isso certamente vai impactar muito positivamente na Argentina nos próximos meses. Esperamos então que os argentinos possam estar a favor do novo sistema da previdência no Brasil e façam pressão sobre os parlamentares brasileiros para que o aprovem.

Porque é um assunto de interesse comum, assim como, para nós, a recuperação argentina é ideal para o Brasil.

Sobre que assuntos o senhor conversará com Faurie e Dante Sica? Dizem que o Brasil quer pedir para que o açúcar seja incorporado ao Mercosul. E um TLC de veículos, algo que encontra certa resistência aqui. O senhor vai conversar sobre isso?

Sim, mas o caso do açúcar vem sendo discutido desde 1991. Queremos falar sobre a presidência temporária do Mercosul. Sobre os grandes acordos em que estamos comprometidos. O acordo com a União Europeia seria uma prioridade. Assuntos sobre segurança pública e como combater o crime.

O senhor está de acordo com uma intervenção militar na Venezuela?

Não estamos discutindo isso. Estamos conversando dentro do Grupo de Lima a nível político e diplomático. Acho que com o governo de Juan Guaidó e o apoio internacional conseguimos uma mudança que não parecia possível. É algo que não tem precedentes. Tantos países reconhecendo um governo como legítimo, mas que ainda não tem os mecanismos de poder. Mas que tem um reconhecimento progressivo nos organismos internacionais.

Na gestão de Bolsonaro se torna evidente que a explosiva pendularidade prometida durante a campanha está adotando um certo pragmatismo que também se mostra na política exterior. O senhor considera que isso acontece por causa da política do Itamaraty?

Tudo o que estamos procurando fazer é seguir o programa do presidente durante a campanha, claro que lá de maneira mais genérica, e agora de maneira mais concreta. Eu não diria que há um desvio do que ele afirmava naquele momento.

Por exemplo, em relação aos Estados Unidos, com os quais tínhamos uma relação muito descuidada, e agora buscamos uma relação mais profunda. Outro exemplo é em relação à democracia para a Venezuela. Falou-se muito de que tirariam alguns impulsos do programa do presidente. Mas não acho que seja isso que estamos fazendo. Existe uma dimensão pragmática sim, mas que já estava no programa, na busca de uma atuação comercial mais intensa. Por exemplo, na busca de uma reforma da OMC. Em uma reativação e em uma reorganização dos instrumentos de promoção comercial e de investimentos. Para o agronegócio, por exemplo, que é um setor menos favorecido.

Mas a relação com a China não mudou como o senhor disse. E a embaixada do Brasil em Israel não mudou de Tel Aviv para Jerusalém...

O vetor é fundamentalmente o mesmo que existia na campanha. Foram citados alguns casos, sim, como o da mudança da embaixada para Jerusalém, depois abrimos um escritório comercial lá, mas o vetor é o mesmo, de aproximação com Israel. Com a China nunca houve uma intenção de distanciamento.

Chanceler, o presidente Bolsonaro usou esse caso na campanha….

Bom, há uma concentração de investimentos chineses muito grande no Brasil e não quer dizer que não os queremos. O investimento estrangeiro é bem-vindo, mas queremos diversidade de parceiros. Como em qualquer país, o investimento estrangeiro é bem-vindo, mas queremos diversidade. O que também acontece é que muitos interpretaram que uma aproximação com os Estados Unidos implicava um distanciamento em relação à China.

Por que razão Bolsonaro está caindo nas pesquisas de opinião?

Existe uma campanha muito feroz da imprensa porque há uma mudança política para organizar o governo pela eficiência e não pela distribuição de cargos a grupos políticos. Isso afeta muitos interesses e esses interesses têm acesso à mídia e começa uma ação sistemática e crítica da mídia e se gera uma sensação diferente da realidade.

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