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Senhor Presidente Luiz Inácio Lula da Silva;
Ministro José Múcio, Coordenador do CDES;
Meus colegas Ministros;
Ministro Velloso , em nome de quem cumprimento os demais Conselheiros, por ser, provavelmente o guru de, pelo menos, muitos dos que estão aqui.

Presidente, eu vou procurar ser muito breve, porque sua presença aqui naturalmente inspira o desejo de todos de ouvi-lo, não tanto de ouvir os seus auxiliares. Olhando a pauta desta reunião, achei que o único tema sobre o qual eu poderia falar um pouco era o da crise financeira internacional, mesmo imaginando que o Ministro Mantega já se tenha referido a ele. Mas vou procurar falar um pouquinho sobre isso, do ângulo da política externa, do ângulo da política internacional do Brasil - tanto quanto possível evitando entrar em assuntos que fogem à minha seara. Mas é inevitável - inclusive o Ministro Mantega já mencionou esse fato aqui - referir-me a uma questão, de certa maneira, eu retomo o assunto de onde o Feijóo o deixou, a da presença ou não do Estado em aspectos da economia, não necessariamente sempre como investidor, mas pelo menos como regulador.

Eu vejo que as ações do FED - como o exemplo de ontem, aumentando o poder regulatório - representam uma nova tendência, uma retomada de uma visão que tinha praticamente desaparecido. Meu primeiro cargo de relativa, não diria nem de importância, mas de relativa decisão na área econômica foi em uma época em que os três dogmas necessários para uma política econômica eram liberalização, privatização e desregulamentação. Tudo tinha que caminhar nesse sentido - e era aí que tudo iria bem. Hoje nós vemos o Governo norte-americano tomando uma medida em relação ao seu Banco Central, com o objetivo de aumentar o seu poder de regulamentação.

Por outro lado, há outro mito que se criou naquela época. No começo do Governo, a política externa, dirigida pelo Presidente Lula e executada por mim, foi alvo de algumas críticas por nós não estarmos colocando suficiente ênfase nos acordos de livre comércio com os países desenvolvidos. Hoje leio que um trabalho de um think tank americano, o Center for Economic and Policy Research, que diz - não somos nós que estamos dizendo - que a crise americana provocará impactos em todos os países das Américas, mas os reflexos mais agudos serão sentidos pelas economias mais integradas com os Estados Unidos, aquelas que mantêm acordos de livre comércio com os Estados Unidos, e menciona países da América Central e o México. O mesmo artigo segue dizendo que o Brasil seria pouco afetado. Eu não quero dizer que nós tínhamos capacidade de premonição nem que foi o Governo Lula que inventou o fato de o Brasil ter uma estrutura comercial diversificada, porque ele já tinha uma estrutura comercial diversificada, mas o Governo Lula soube, sim, ver com muita clareza que essa diversificação era boa e que, ao invés de tentar caminhar no sentido oposto, levaria a uma concentração das nossas relações comerciais, de modo que se devia apostar nessa diversificação. Graças a isso, nosso comércio com a América Latina e o Caribe, por exemplo, cresceu, no período do Governo Lula até o final do ano passado, 262 %, com o Mercosul, 320 %... E nós podemos seguir por aí com outras cifras, mas não quero cansá-los com cifras, embora sejam números impressionantes. A América Latina e o Caribe, hoje, são um mercado mais importante do que a União Européia em seu conjunto, apesar do aumento da União Européia. E a América do Sul é, hoje, um mercado mais importante que os Estados Unidos, muitos empresários aqui sabem, não só pelo que vendem, mas pelos investimentos que têm nesses países. Desse modo, países que pareciam distantes, como os países árabes, a Índia, que o Ministro Miguel Jorge acaba de visitar, começam a se revelar como grandes mercados para o Brasil. Então, sempre que se procura entender por que o Brasil - não sei se estará totalmente imune ou não a uma crise, se ela se aprofundar - estará menos sujeito à crise, muito menos suscetível à crise do que outros, quando se procura essa razão e se vêem as direções que a política externa, por orientação do Presidente Lula, tomou, há uma coincidência bastante razoável.

Claro que eu não posso dizer que tudo é conseqüência da política externa - os preços das commodities na China subiram, o efeito da demanda chinesa e indiana no preço das commodities ocorreria mesmo sem a política externa -, mas as oportunidades foram entendidas com profundidade. Fico contente, por exemplo, de ver os conselheiros aqui mencionarem a África do Sul, porque antigamente - eu que tive a oportunidade de participar de muitos governos - os exemplos todos vinham da União Européia ou dos Estados Unidos. Do Canadá, eventualmente. O simples fato de nós estarmos discutindo aqui modelos de outros países em desenvolvimento, a quem nós temos algo a ensinar, mas de quem também temos a aprender, é muito importante. O fato de o Ministro Miguel Jorge acabar de voltar da Índia, também creio que é muito importante, porque antes os Ministros do Exterior visitavam, às vezes, estes países, mas os outros Ministros o faziam com muito menos freqüência.

Então, eu acho importante esse trabalho de diversificação de parcerias, sem nenhum preconceito ideológico, é preciso deixar isso absolutamente claro. A atitude que nós adotamos em negociações com a Alca é a mesma em negociações do Mercosul e com a União Européia: atitude cautelosa, não atitude refratária, mas atitude cautelosa, que buscava preservar o interesse nacional e que agora está dando frutos concretos. Por quê? Nós prevíamos o que ia acontecer? Não. Mas digamos que havia noção de que, além da questão de obter mercados - que é importante e, para certos setores, é vital -, havia também uma questão fundamental nas negociações comerciais, que era diminuir a vulnerabilidade externa do Brasil.

Claro que o grande trabalho foi o trabalho interno, desenvolvido em relação à política macroeconômica, a distribuição de renda, que fortaleceu o mercado interno. Mas a política externa também inseriu, também contribuiu, é algo que vale a pena mencionar. Finalmente, Presidente, quando se fala de política externa, especialmente num fórum como este, a tendência é concentrar em cifras de comércio, em questões de investimentos econômicos, que são obviamente importantíssimas, mas não são as únicas. Há coisas cuja importância só se sente quando faltam. Uma delas é a liberdade. Quando não se tem liberdade - sabe-se que a liberdade é fundamental -, quando se tem, considera-se uma coisa natural, como o ar. Outra coisa é a paz: nós sempre achamos que a paz é algo que veio de graça, porque, felizmente, vivemos em um continente relativamente pacífico, embora tenha tido seus problemas no passado. Então, eu diria que é a dimensão da preservação da paz é uma dimensão muito importante da política externa do Presidente Lula, mas que contribui para os negócios - e quem está vendendo para a Venezuela, quem está vendendo para a Colômbia, quem está vendendo para o Equador, quem está investindo nestes países sabe que é importante. Em primeiro lugar, na nossa própria região, mas até em áreas distantes. A Dra. Zilda Arns sabe que o Brasil tem-se empenhado profundamente em melhorar a situação de países como Timor e Guiné Bissau, porque a paz, no fundo, é algo indivisível e, de uma forma ou de outra, se houver conflitos, nós acabamos sendo contaminados.
A mídia brasileira diz que nós temos uma obsessão pela entrada do Brasil para o Conselho de Segurança. Quem tem essa obsessão é ela, porque a mídia brasileira é que procura sempre ver em qualquer ação do Brasil - seja na de se mandar um observador eleitoral para o Zimbábue, seja no envio de tropas para o Haiti, seja até no fato de se ajudar a Pastoral da Criança em Timor-Leste - uma obsessão do Brasil de entrar no Conselho de Segurança. Isso não é verdade: o Brasil tem essa aspiração porque acha que o Conselho de Segurança tem que ser mudado; mas faria essas ações com ou sem o processo de reforma do Conselho de Segurança. Faz porque está interessado efetivamente em contribuir para a paz mundial; faz porque sabe que o Brasil pode contribuir para isso.

Em suma, se me permite uma expressão muito simples, com o Governo Lula a política externa saiu da toca, o Brasil saiu da toca e passou a atuar no mundo de uma maneira não-arrogante, mas ao mesmo tempo de uma maneira não-tímida, não-submissa, com capacidade de dar sua opinião. Cito apenas um exemplo, não vou nem dizer que há uma relação entre causa e efeito entre as duas coisas, mas a Secretária de Estado Condoleezza Rice acabou de estar no Brasil e, ao contrário do que se pode pensar, grande parte da conversa foi dedicada ao Oriente Médio. E uma das coisas que acabou de ocorrer no Oriente Médio, que é muito positiva, é a eliminação de cinqüenta pontos de verificação - check points, como eles chamam - na Palestina. Isso pode melhorar a vida dos palestinos, e foi um dos pontos que nós levantamos com a Condoleezza Rice. Nós não podemos dizer que aconteceu por causa disso, mas ela ouviu, e ouviu com muita atenção, e disse que esta questão da melhora das condições de vida no local é muito importante.

Enfim, este é o sentido da política do Presidente Lula: contribuir para a paz é contribuir para evitar as crises. Contribuir para uma boa conclusão da rodada da OMC, na medida em que fortalece o sistema multilateral, é uma maneira de evitar as crises. E agir com coragem, mas também com certa cautela, nos acordos bilaterais com países mais ricos também é parte para evitar as crises.
Obrigado.

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