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Caro Ministro Alejandro Foxley,
Senhor Alfredo Moreno, Presidente do ICARE,
Estimado Professor Kenneth Rogoff,
Meu querido amigo Mike Moore, a quem saúdo junto a todos os ex-Diretores-Gerais da OMC, sem a qual, digo sempre, não há salvação,
Senhores empresários chilenos e brasileiros,
Empresários de outros países da América Latina,
Amigos,
Representantes da imprensa,


Para mim é um grande prazer e também uma grande honra estar aqui no Chile, com meu amigo Ministro Alejandro Foxley, na abertura deste importante encontro empresarial. Vejo esta qualificada lista de participantes já como garantia do êxito desta reunião. Vejo também o convite que me fez o Ministro como algo muito simbólico. É como se o Chile estivesse dizendo ao Brasil, e também a outros países atlânticos da América do Sul, "quando olharem para o mundo, não se esqueçam que por aqui há um caminho para a Ásia, um caminho para o Pacífico".

Nós, na América do Sul, estivemos envolvidos em vários processos de integração: o Mercosul, do qual o Chile é um país associado; a Comunidade Sul-americana de Nações, sobre a qual também falou Alejandro. É importante dizer, porque muitas vezes não se percebe, que entre os países do Mercosul, da Comunidade Andina e Chile, entre todos eles há acordos de livre comércio que tornam realidade o fato de toda a América do Sul ser uma área de livre comércio, fora naturalmente os acordos importantes que mantemos com os demais países da América Latina.

Sob a liderança do Ministro Foxley, firmamos um importante Acordo sobre isenção de vistos e passaportes na América do Sul. Agora, com a simples apresentação de documento de identificação do país de origem, os viajantes podem cruzar as fronteiras. Creio que isso é muito importante também porque a dimensão humana é fundamental. Em um processo de integração não devem ser somente as mercadorias, os serviços e os capitais que podem mover-se livremente, mas também as pessoas.

Temos a convicção de que uma América do Sul unida, integrada, fortalecida e democrática terá um papel importante a desempenhar no cenário da globalização. Nossa insistência na integração da América do Sul se baseia na convicção de que, no mundo do século XXI, nenhum país, nem mesmo países aparentemente grandes, como é o caso do Brasil, poderá atuar isoladamente. Na era dos grandes blocos, necessitamos estar unidos para enfrentar a concorrência dos gigantes e atrair a atenção de outros grupos de países semelhantes aos nossos.

Alejandro mencionou também as negociações da OMC e a criação do G-20, que constitui outro exemplo de como é necessário associar-se para sermos capazes de verdadeiramente influir nas negociações. Está aqui o Diretor-Geral da OMC na época em que foi adotada a Rodada de Doha, e ele sabe muito bem que o padrão de negociação na OMC mudou com a criação do G-20. E ainda que sempre tenha havido um esforço do próprio Mike Moore, e de outros antes como Dunkel e Sutherland, para citar os que conheci, de envolver os países em desenvolvimento, nossa posição era sempre secundária. Era um pouco como se viéssemos para pôr o "icing on the cake", quando já estava pronto o bolo, vínhamos pôr uma vírgula, um acento. Agora é diferente, entre os quatro ou seis grandes atores da OMC já é possível identificar países em desenvolvimento.

A projeção da América do Sul já é uma realidade. Em 2005, de forma inédita, realizamos em Brasília a Primeira Reunião de Chefes de Estado e de Governo da América do Sul e os Países Árabes. Há, por sinal, uma bela exposição em La Moneda sobre a influência da cultura árabe na realidade sul-americana. Mas isso não é somente de interesse cultural. Dentro de poucas semanas, o Mercosul vai firmar um importante acordo com o Conselho de Cooperação do Golfo. A idéia é de que se possa, com o tempo, abarcar não só bens, mas também serviços e investimentos. Não é necessário enfatizar a relevância econômica, financeira e comercial de um acordo com os países do Golfo

Em poucos dias mais, estaremos vários Presidentes e Chanceleres, inclusive a Presidente Bachelet, em Abuja, capital da Nigéria, onde realizaremos a Primeira Reunião de Chefes de Estado e de Governo entre países da América do Sul e da África. Isso, mais uma vez, pode parecer algo de interesse puramente acadêmico, no caso do Brasil um interesse cultural muito forte, mas não é assim. Vejam que hoje já quase 5% das exportações do Brasil vão para a África. Países como a Nigéria, a África do Sul, países na África Sub-saariana, compram cada um mais de um bilhão de dólares de produtos brasileiros. São grandes compradores de alimentos e também de produtos industrializados.

Há novas oportunidades neste mundo global, que nós tentamos explorar de maneira pragmática. Os mercados dos países em desenvolvimento já representam, no caso do Brasil, 55% de nossas exportações. Há cinco anos era o inverso: para os países desenvolvidos destinavam-se 55% das nossas exportações, e para os países em desenvolvimento 45%. E isso em um contexto em que nossas exportações para os Estados Unidos e Europa também crescem. Não se trata de aumentar a participação enquanto outros diminuiriam, mas se trata de aumentar as exportações em um conjunto dinâmico. Isso somente para demonstrar que as oportunidades hoje estão em várias partes.

As relações entre Brasil e Chile não devem ser vistas isoladamente, e sim como uma aliança renovada, uma aliança que não é contra ninguém, pelo contrário, é em favor de todos, de toda a América do Sul, e aqui também da Ásia-Pacífico. A integração da América do Sul é, sem dúvida, uma prioridade para o Governo brasileiro. De modo ilustrativo, bastaria recordar que no ano passado o comércio do Brasil com a América do Sul, somente, alcançou quase 32 bilhões de dólares. Para este ano a previsão é a de alcançar 40 bilhões de dólares.

O Chile é o segundo sócio comercial do Brasil na América do Sul, terceiro em toda a América Latina. No ano passado, nosso comércio bilateral foi de cerca de 5 bilhões e meio de dólares. Este ano esperamos alcançar uma nova marca histórica, de aproximadamente 6 bilhões e meio de dólares. O Brasil é o terceiro fornecedor do Chile e também o sexto mercado para as exportações chilenas. Além do intercâmbio de bens e serviços podemos promover investimentos recíprocos.

Alegro-me em saber que o Brasil é o segundo destino dos investimentos chilenos no exterior, depois da Argentina, com um estoque acumulado de mais de 5 bilhões de dólares. O Chile é pioneiro nos investimentos intra-regionais. No Brasil, por exemplo, investe nos setores mais variados, como os da energia, da metalurgia, da tecnologia da informação e muitos outros. Na integração física o papel do Chile é muito importante. Algumas companhias brasileiras mostram interesse nesse mercado, fundamental para o desenvolvimento do turismo, para os negócios, para quebrar o círculo vicioso de que não se faz negócios porque não se pode chegar. Falava com Alejandro das multinacionais, as multinacionais brasileiras dos mais variados setores, que estão presentes hoje em muitas partes do nosso - e fora do nosso continente também.

Dizia também que o Sul segue crescendo e hoje é mais importante para nossas exportações que os Estados Unidos. A América Latina como um todo é nosso maior mercado, absorve 25% das nossas exportações. Para o Chile, por exemplo, exportamos mais que para o Japão e para a Itália. E para a Venezuela exportamos mais que para o Reino Unido ou França. Para quem acompanha a economia brasileira, como acompanho há mais de 40 anos, quando entrei no serviço diplomático brasileiro, esta é uma mudança extraordinária, uma mudança qualitativa.

Do ponto de vista do Brasil - e isso justifica a presença de tantos empresários brasileiros aqui -, a América do Sul, no contexto mais amplo latino-americano, e a Ásia, estão entre as regiões para as quais nossas exportações mais crescem. A iniciativa para a infra-estrutura da América do Sul é algo que gostaria de mencionar aqui, porque aí também há oportunidades. Criaremos e estamos criando corredores inter-oceânicos, unindo o Atlântico ao Pacífico. Já existem alguns, pelo Chile, outros que se estão criando pelo Peru, outros mais serão criados. Irá ocorrer na América do Sul, no século XXI, algo que na América do Norte aconteceu no século XIX, que é a interconexão entre o Atlântico e o Pacífico. É mais que um desafio para os Governos, é também uma oportunidade para investimentos, inclusive em setores como o financeiro, desde que se tenha uma visão de futuro.

É claro que isso vai facilitar ainda mais o comércio com a Ásia, que já é tão importante. O Brasil tem um comércio de 40 bilhões de dólares com a Ásia, dos quais 16 bilhões somente com a China. E além disso não é somente comércio de produtos primários - claro, os produtos primários têm uma importância muito grande em nossas exportações para a China -, mas é um comércio que começa a ser cada vez mais diversificado. Há poucos meses a empresa brasileira de aviões Embraer fechou um contrato de fornecimento de 100 aviões, jatos para vôos regionais na China, 50 dos quais produzidos no Brasil e os outros 50 na própria China, em regime de "joint-venture".

Portanto, este desafio para o qual nos convidam nossos anfitriões, é um desafio que temos que enfrentar. E o Chile, assim como o Peru, a Colômbia e o Equador, devem ser pontes entre a América do Sul e a Ásia. Falava da interconexão regional. O Chile é uma ponte não somente para nós brasileiros, argentinos, venezuelanos, paraguaios, bolivianos, uruguaios, para exportar para a Ásia, mas também o inverso, porque como o Chile é membro associado do Mercosul, uma área de livre comércio em que 96% das alíquotas são zero, pode ser também uma grande plataforma para atrair investimentos da Ásia para o mercado do Mercosul e, de modo mais amplo, para o mercado da América do Sul.

Creio que estamos em um momento importante, que estamos na hora de convocar a todos os atores para introduzir esta nova peça na construção do nosso futuro, esta peça das relações da América do Sul, da América Latina e da Ásia-Pacífico: são os governos federais, locais, os empresários, os responsáveis pelos portos, pelas estradas, pelas companhias aéreas, e também nossos sócios asiáticos. Nós, os governos, podemos fazer as nuvens, mas não podemos fazer a chuva, a chuva quem faz são os empresários, os agentes econômicos diretamente. Por isso estou muito contente que tantos empresários brasileiros estejam participando desta reunião, que é fundamental.

Quero, mais uma vez, agradecer a Alejandro por ter me convidado, a Alfredo Moreno por me incluir na abertura de um encontro tão importante. Teria, naturalmente, outras coisas para dizer, mas creio que Alejandro já disse quase todas, e provavelmente de uma maneira muito melhor que eu. Mas queria terminar dizendo, quem sabe como um comentário, comentário que tem a ver com a pesca das baleias, com a pesca em alto-mar, e aí volto um pouco ao que disse no início quando saudei Mike Moore.

Creio realmente que é bom que os países da Ásia-Pacífico estejam pensando em alternativas, é bom que a América do Sul também esteja pensando em integração, é bom que o Mercosul esteja falando com a União Européia. Mas tenho a convicção, e isso queria passar também aos empresários, que não há substituto para a Organização Mundial do Comércio. Não há substituto para o êxito da Rodada de Doha, e isso não é por uma preferência ideológica ou digamos, abstrata, teórica, pelo multilateralismo (sobre o qual haveria muito o que dizer), mas por razões precisas que mencionou Alejandro - os fatores que mais distorcem o comércio mundial, começando naturalmente pelos subsídios agrícolas. Mas não somente esses, também as regras de anti-dumping, as regras em matéria de subsídios para produtos industriais, para bens industriais. Mike Moore conhece muito bem a luta que tivemos no caso do Brasil com alguns concorrentes no caso dos aviões, a luta que tivemos em busca de regras mais flexíveis em matéria de propriedade intelectual que não impedissem nossos países de seguir mantendo políticas, por exemplo, de combate à AIDS, de maneira muito enérgica, muito forte, mas não somente contra a AIDS, também contra a malária, a tuberculose. Isso não se consegue no plano bilateral, no plano regional, no plano birregional. Somente no plano global é possível alcançá-lo. Por isso quero dizer, trabalhemos muito, trabalhemos pela América do Sul, trabalhemos pelas possibilidades de aproximação entre a América do Sul e a Ásia, mas não pensemos que isso pode ser um substituto, uma alternativa ao esforço maior, que é o de consolidar a Rodada de Doha.

Muito obrigado.

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