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Senhora Kim Bolduc, Representante do Sistema da ONU no Brasil,
Senhoras Embaixadoras,
Senhores Embaixadores,
Membros do corpo diplomático,
Representantes de organismos internacionais,
Senhores Subsecretários, Embaixadores brasileiros, colegas,
Senhoras e Senhores,
Jovens, vejo alguns jovens entre nós, o que me alegra,

Creio que a própria presença da Senhora Kim Bolduc, aqui entre nós, representando o sistema da ONU, já é uma ilustração do que a ONU fez para mudar o mundo. A representante da ONU é uma mulher que nasceu no Vietnã, que cresceu, estudou e ganhou sua nacionalidade no Canadá, e que fez grande parte do seu trabalho em Moçambique. Acho que isso em si mesmo está entre nós representando as Nações Unidas. Isso já é uma demonstração do que as Nações Unidas têm feito para ajudar a mudar o mundo, não apenas por fora, mas dentro da consciência das pessoas, como dizia a carta da UNESCO.

Eu queira aproveitar esta ocasião em que comemoramos os 61 anos da Carta de São Francisco e na qual realizaremos um seminário importante, para também deixar o registro do meu cumprimento muito especial ao Secretário-Geral Kofi Annan, um homem com que eu tive a oportunidade de trabalhar em vários momentos, momentos críticos. Lembro-me especialmente de um momento quando Kofi Annan voltava de uma viagem a Bagdá na expectativa de construir condições para que pudéssemos resolver pacificamente a questão do Iraque. Era logo depois da questão dos chamados "palácios presidenciais". O Brasil na época era membro do Conselho de Segurança e atuou de maneira positiva nessa tentativa, que acabou sendo frustrada, mas que valeu pelo exemplo e que talvez valha para o futuro, de resolver pacificamente aquela difícil situação.

Quero também deixar uma palavra de felicitações, de cumprimentos, ao Senhor Ban Ki-moon, Ministro das Relações Exteriores da Coréia do Sul, recentemente eleito Secretário-Geral da ONU. Não será fácil a sua tarefa. Seguramente se eu fosse contabilizar os empregos mais difíceis no mundo, o de Secretário-Geral da ONU certamente seria um deles.

A Senhora Kim Bolduc listou muitos dos aspectos em que a ONU tem nos ajudado, a nós no Brasil e ao mundo em geral. E nós todos muitas vezes fazemos também críticas à ONU e vemos suas limitações, até porque, por vezes, gostaríamos que a ONU fizesse aquilo que ela não tem meios nem poderes para fazer. E às vezes também porque a ONU revela limitações naquilo que esperaríamos que ela fizesse. São muitos os exemplos recentes. Independentemente do ponto de vista que possamos assumir sobre as causas do conflito, todos lamentamos a lentidão do Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, no conflito do Líbano, permitindo que, para usar as palavras do próprio Secretário-Geral, a "matança" se prolongasse além do que deveria ter-se prolongado. Todos lamentamos que a questão do Iraque tenha sido resolvida pela força e sem aprovação do Conselho de Segurança. Lamentamos e condenamos a explosão atômica da Coréia do Norte, e também nisso talvez a ONU não tenho sido suficientemente ágil, não só a ONU mas outros instrumentos internacionais. E não só no que diz respeito à não-proliferação, mas no que diz respeito ao desarmamento, porque afinal o mundo que queremos, um mundo seguro que todos desejamos, não é apenas um mundo em que a Coréia do Norte ou outro país deixe de ter armas nucleares. É um mundo em que todos abdiquem de ter armas nucleares e de ter armas de destruição de massa. Esse é o mundo que desejamos. É esse o mundo que queremos que a ONU nos ajude a construir.

Eu queira fazer uma reflexão com meus colegas, e especialmente com os jovens colegas, e lembrei-me outro dia do título - não do conteúdo que não era tão bom -, mas do título de um ensaio do Herman Khan, um futurólogo como se dizia há 40 anos, que era "Pensando o Impensável". Herman Khan, por sinal, é o mesmo que naquela época sugeria que a Amazônia fosse alagada, porque a maneira de olhar a Amazônia era diferente da de hoje. As receitas externas sempre vieram. Naquela época era para alagar a Amazônia, buscar os minérios na Amazônia, construir bases navais na Amazônia que pudessem talvez ajudar a defender o Hemisfério Ocidental. Hoje vêem-se as coisas de outra maneira. Alguns pretendem comprar a Amazônia para salvá-la do desflorestamento. Não deixa de ser um progresso no conteúdo, embora a forma continue a ter um vício de origem. Mas o Herman Khan escreveu um artigo que tinha um bom título que era "Pensando o Impensável". E pensar o impensável é tentar pensar o mundo de hoje sem as Nações Unidas. Nós listamos aquilo que as Nações Unidas fizeram ou o que elas ajudaram a evitar. Isso, apesar de ser muito impressionante em termos de números, em termos de ações concretas, é menos impressionante do que aquilo que podemos imaginar sobre o mundo sem as Nações Unidas.

Teríamos completado o processo de descolonização como nós completamos? Teríamos sido capazes de acabar com o "apartheid" como acabamos? Quero dizer isso sem pretensão, evidentemente cada um desses processos foi um processo nacional. No caso do "apartheid", foi graças à ação do povo da África do Sul. Mas sem a ONU não teria sido muito mais difícil? Sem as sanções que a ONU, em determinado momento e de maneira correta, aplicou ao regime do "apartheid", teria sido possível conseguir isso da maneira que foi conseguido? Talvez levasse mais dez anos, mais vinte anos, talvez tivesse exigido batalhas mais violentas. Teríamos conseguido terminar, ainda que com muita demora, as guerras civis que assolaram muitos dos países que emergiram do colonialismo? Guerras civis que, tantas vezes, decorrem de situações criadas pelo colonialismo, como foi o caso de Angola, onde a guerra civil se prolongou por muitos e muitos anos. Mas o que teria sido sem as Nações Unidas? Certamente, teria sido muito pior.

O Haiti que hoje vemos e o qual apoiamos sob o guarda-chuva da ONU - que é o único guarda-chuva que queremos usar. Como estaria sendo resolvida a questão do Haiti? Talvez por uma ex-potência colonial, por uma outra potência hemisférica. E graças aos esforços da humanidade, temos hoje as Nações Unidas, que nos fornecem um quadro adequado para agirmos não apenas para preservar a paz, mas também para construir o futuro, construir o desenvolvimento. As pessoas criticam a ONU - às vezes eu também critico -, todos criticamos, porque todos queremos mais, e queremos mais agilidade, queremos que a ONU ajude a combater a fome de maneira mais eficaz, como o Presidente Lula pediu e como o apoiou o Secretário-Geral Kofi Annan. Todos queremos mais, mas pensemos, por um momento, em um mundo sem a ONU e teremos um panorama certamente muito mais sombrio que aquele em que vivemos. Até porque, como se disse várias vezes, é possível fazer a guerra sem a ONU - não é justo, mas é possível -, mas construir a paz sem a ONU não é possível. Todos temos a lembrança trágica do Sérgio Vieira de Mello tentando construir a paz em um Iraque destruído por uma guerra que a ONU não aprovou.

Eu me pergunto como é possível as pessoas pensarem que seria viável um mundo sem as Nações Unidas. Deixemos de lado, por um momento, essas questões que são fundamentais, da paz e da guerra, da segurança internacional, da não-proliferação, do desarmamento. Pensemos em outras questões que atingem a sociedade como um todo. E destaco uma delas que é a questão de gênero, que é a questão da mulher. Pensemos, também, na questão racial, na eliminação da discriminação racial. Pensemos nas questões de meio ambiente. Será que o Brasil teria hoje um Ministério do Meio Ambiente, um Ministério para a eliminação da discriminação racial, um Ministério para as questões da mulher, se não tivesse havido, também, essas conferências da ONU que ajudaram a difundir pelo mundo inteiro esses valores? Conferências que deram legitimidade a esses valores, que antes eram vistos e defendidos apenas por um punhado de idealistas?

Obviamente, há uma interação entre os processos internos e os processos internacionais e eu seria o último a desmerecer o esforço feito internamente - especificamente neste governo, mas talvez também em outros - no sentido de se criarem estruturas nessas áreas, como, por exemplo, no combate a todas as formas de discriminação, seja ela contra a mulher, seja ela contra os negros ou contra os índios. Mas essa interação talvez levasse muito mais tempo para se materializar se não tivéssemos por trás as grandes conferências internacionais.

Eu servi na ONU e vi muitas vezes pessoas fazerem perguntas - a meu ver erradas - tais como: "Que resultado deu a Conferência do Rio sobre o meio ambiente?" "Que resultado deram outras conferências sobre desenvolvimento social, sobre discriminação racial, sobre a mulher e tantas outras?" Basta olhar para cada município brasileiro hoje em dia: ele terá um Secretariado do meio ambiente. Todos os países do mundo procuram ter uma Secretaria, um Ministério para a mulher, para o combate à discriminação racial. Assim, o êxito da ONU não se mede apenas por uma resolução que tenha sido cumprida à risca. A ONU ajuda a formar a consciência do mundo. E nisso ela é absolutamente insubstituível. Somos nós, dentro da ONU, que fazemos isso, mas é porque temos esse foro, temos esse palco onde todos são - pelos menos em alguns casos - iguais, e onde buscamos consenso que conseguimos mudar o mundo, mudar nossos países e mudar nossos municípios. Quando penso na ONU e penso nos municípios, lembro de uma frase do Themistocles Cavalcanti, ilustre jurista brasileiro - politicamente nem sempre concordei com suas idéias, mas ilustre jurista - que dizia: "O homem não vive na União, o homem vive no município". Ele poderia dizer que o homem não vive nas Nações Unidas, o homem vive no município, mas é essa interação entre o local e o global que nos faz, verdadeiramente, avançar. Portanto, parabéns à ONU pelos seus 61 anos, com todas as limitações que vimos que ela tem - e me referi a algumas. Sem dúvida alguma, parabéns à ONU, como disse muito bem a minha amiga Kim Bolduc, parabéns a todos nós!

Mas que a ONU necessita de reformas não há dúvidas. A ONU não pode ser a mesma ONU de sessenta anos atrás. E ela tem avançado. Algumas reformas tomam mais manchetes, merecem os holofotes e outras ficam um pouco mais escondidas nos processos internos das Nações Unidas, mas também são importantes. Não vou falar aqui sobre a parte administrativa, que acho que recebe talvez uma ênfase excessiva, porque a parte administrativa precisa ser reformada permanentemente, como em qualquer outra estrutura. Aqui no Itamaraty estamos tratando de reformar nossa parte administrativa - não é olhando apenas para corte de gastos, mas para colocar o Itamaraty capacitado a enfrentar os desafios que ele tem no mundo de hoje. E a ONU também tem que estar capacitada para enfrentar os desafios que ela tem no mundo de hoje. Querer uma ONU muito pequena é querer limitar os meios que nós, que somos todos cidadãos do mundo, queremos ter para enfrentar problemas como a fome, como a paz, como os direitos humanos, etc.

Queria me referir a dois ou três passos muito positivos que foram dados recentemente, impulsionados em grande parte pelo Secretário-Geral Kofi Annan. Um é a criação do Conselho de Direitos Humanos. Demos um salto, passamos de uma Comissão, que era subordinada a um outro Conselho, para criar um Conselho de Direitos Humanos. Ele tem mais peso, sua voz será mais ouvida e isso será muito importante. Claro que haverá necessidade, ainda, de tempo para que seus procedimentos se atualizem, para que ele deixe de pensar como Comissão e passe, efetivamente, a pensar como Conselho. Isso toma tempo e não é fácil. É preciso que nos libertemos daquela visão que é quase uma competição futebolística, ou esportiva, que é saber quem "ganhou". Se determinado país teve 23 votos a favor é porque não tem problemas de direitos humanos, se tem 24 contra é porque tem problemas de direitos humanos. A vida não é assim, ela não se mede por um voto só.

O Conselho de Direitos Humanos tem que ajudar a todos a melhorar - a todos, sem distinção. O Conselho de Direitos Humanos tem que examinar o mundo como um conjunto. O Brasil já fez essa proposta e tem continuado a defendê-la. Vejo que ela começa a ter um certo eco e a se desenvolver. Um relatório global de direitos humanos feito por uma comissão de sábios, de pessoas eminentes, de Prêmios Nobel, a nossa Representante Kim Bolduc mencionou um deles, mas há muitos que poderiam compor uma comissão que examinasse os ricos e os pobres, os poderosos e os fracos. E que todos nós nos abríssemos ao exame, como, aliás, o Brasil já fez.

O Brasil está aberto à visita de todos os relatores de direitos humanos. Gostaria que muitos países que se arvoram em defensores dos direitos humanos fizessem o que nós fizemos: que se abrissem para relatores sobre racismo, para relatores que examinam questões como imigração, como tortura, porque nós nos abrimos a todos esses - todos vêm ao Brasil, estão convidados permanentemente.

Como é que conseguiremos superar esses problemas a médio e longo prazo? Com um relatório global, um relatório que não discrimine. E todos terão que ser vistos. Podemos ter no Conselho de Direitos Humanos um sistema parecido - desculpem a comparação - com o da OMC e também com o da OIT. Ali, há uma revisão para a qual o país, voluntariamente, se apresenta, oferecendo-se para que haja uma revisão de suas práticas e das suas políticas. E então poderemos ver quem fala com sinceridade e quem fala para a platéia. Isso acho que é algo muito importante.

Estamos avançando. Criamos o Conselho. Criamos, também, uma Comissão de Construção da Paz. É uma idéia com a qual o Brasil esteve envolvido, de certa maneira, desde o início, preocupado, anos atrás, com a questão do Haiti, e preocupado ao ver que aquele tema era tratado ou pelo Conselho de Segurança, como uma questão exclusivamente relacionada à potencial ameaça - difícil de perceber, mas enfim - à potencial ameaça representada pelo Haiti, ou deixava de ser um tema de segurança e desaparecia da agenda internacional.

Questões como essa do Haiti - e outras como Serra Leoa, Burundi, muitas outras - devem ser objeto de atenção das Nações Unidas, de atenção multilateral. Não apenas nos clubes de doadores, mas uma atenção verdadeiramente multilateral, onde o país possa levar suas idéias, discutir, saber se não está havendo uma imposição descabida para suas necessidades. É para isso que criamos a Comissão de Construção da Paz e o Brasil se orgulha de ter contribuído bastante, em conversas, em temas - o nosso Embaixador Baena Soares levou idéias desse tipo quando participou da comissão criada pelo Secretário-Geral Kofi Annan. Então temos avançado sem dúvida alguma. Mas ainda há muitas coisas a fazer.

Temos que reforçar o poder do Conselho Econômico e Social. O ECOSOC, quando foi criado, era algo poderoso. Pessoas famosas como Mendès France iam lá debater. Hoje, ele virou órgão burocrático. Como é que se corrige? Mudando o estatuto? Não, não é mudando o estatuto, é mudando a vontade política. É fazendo que os países do G-8, por exemplo - que agora já está tendo alguma abertura porque de vez em quando convidam outros países em desenvolvimento para participar das discussões - vão lá e exponham, democraticamente, no ECOSOC, o que foi discutido no G-8. E achavam o mesmo que nós do G-77, do G-20 e de outros órgãos: que tenhamos um debate verdadeiramente inspirador sobre os temas econômicos. Porque é um falso dilema, uma falsa questão, quando se diz que o ECOSOC não pode dar ordens ao Banco Mundial ou ao FMI. Ninguém quer que o ECOSOC dê ordens ao Banco Mundial ou ao FMI. Quem quer dar ordens a banqueiro? Todo mundo sabe que é muito difícil, mas pode inspirar, pode servir de inspiração. É esse poder de inspiração que o ECOSOC tinha e aos poucos foi perdendo. E é preciso recuperar.

É bom que o Conselho de Direitos Humanos tenha sido criado, porque é menos um órgão para o ECOSOC ficar supervisionando. Então esses órgãos todos talvez devessem se reportar diretamente à Assembléia Geral e deixar que o ECOSOC tratasse do que ele tem que tratar: de como deve ser o desenvolvimento econômico e social no mundo e inspirar os órgãos que realmente influem nisso, que são o Banco Mundial, o FMI e a OMC. Não é negociar, mas inspirar.

Esse é um aspecto. Outras coisas poderiam ser ditas sobre a Assembléia Geral, como reforçar seu poder, como ela pode lançar debates não apenas sobre temas como esse da não-proliferação e do desarmamento, mas agir também quando o Conselho de Segurança está paralisado, como, aliás, o fez no passado. O próprio caso da Guerra da Coréia foi um caso em que a Assembléia Geral - movida na época por uma das grandes potências, mas não necessariamente seria assim - atuou diante da paralisia do Conselho de Segurança. Há muitas coisas a fazer. E há, também, o Conselho de Segurança.

O Conselho de Segurança precisa ser reformado. Não podemos ter um Conselho de Segurança que basicamente, fora a adição de uns poucos membros não permanentes, é exatamente o mesmo Conselho de Segurança de 1945. O mundo mudou de maneira formidável, radical. O número de países se multiplicou por quatro. Continentes inteiros passaram a ter representação nas Nações Unidas. A atenção que o mundo presta hoje aos eventos é de outra natureza. Não é possível mais ter, hoje, o Conselho de Segurança com a estrutura de 1945. E há dois aspectos fundamentais que têm a ver com a reformas: um é o funcionamento e o outro é a questão da composição.

Na questão do funcionamento, o problema central é o problema do veto. Ele não vai ser resolvido rapidamente, ele não vai ser resolvido nesta década. Não sei quando será resolvido, mas ele não pode ser abandonado. Não que se deseje, a curto prazo, terminar com o veto, porque é irrealista. Estava lendo um livro muito importante, um ensaio muito importante, ao qual me referirei ao final, de um homem que foi Ministro das Relações Exteriores mas sobretudo um pensador, San Tiago Dantas, sobre Dom Quixote. O livro se chama "Dom Quixote: um Apólogo da Alma Ocidental". Aliás, é apropriado fazer uma homenagem a Dom Quixote e a Cervantes enquanto temos os ecos das comemorações do quarto centenário. Então, todos nós temos que ter realismo e saber que não adianta estarmos a enfrentar moinhos de vento - seremos derrotados fatalmente. Mas também não podemos desistir do idealismo, e se há algo que pode ser mexido no Conselho de Segurança é o veto. Não é uma coisa para agora - e talvez não seja para os próximos dez anos -, mas há bandeiras que não podem ser abandonadas; elas têm que estar ali. E há, também, possibilidade de atuação gradual.

Nós mesmos - o Embaixador Patriota me acompanhava nas Nações Unidas em muitas dessas reuniões - fizemos propostas. Propostas ligadas à auto-limitação. Ninguém quer, ninguém pode [...terminar com o veto...]. Talvez até devessem querer, mas não podem. Nenhum país vai abandonar o veto - um dos membros permanentes atuais - em questões que digam respeito à sua segurança mais próxima. Na realidade, o veto talvez tenha sido uma maneira que as Nações Unidas encontraram para evitar que certas situações pudessem levar até a uma guerra mundial. No tempo da bipolaridade, da Guerra Fria, uma decisão contra a União Soviética ou uma decisão contra os Estados Unidos, se quisessem implementar pela força teria levado a uma guerra mundial. Assim, o veto teve sua razão de ser. E compreendemos que ainda será muito difícil que, num assunto que diga respeito diretamente à segurança de alguns países, ou de algum país, se possa mexer no veto.

Mas o veto é usado muitas vezes de maneira quase fútil, em resoluções de caráter declaratório. Em resoluções que não têm uma implicação de ação imediata, que não afetam, diretamente, a segurança de um país ou de outro. O país poderia exercer uma auto-contenção e, quando usasse o veto, deveria, talvez, dar uma declaração dizendo por que acha que aquela proposta fere a paz e a segurança internacional. Seria, pelo menos, uma responsabilidade moral, porque o veto hoje não se justifica: "levanta o dedinho e veto" e acabou! Então acho que devemos obrigar a essa responsabilidade moral. Não é uma grande reforma, mas é um passo.

Combinamos isso com uma outra idéia engenhosa na época, que, quem sabe, algum dia terá futuro: os membros permanentes do Conselho de Segurança só podem votar de três maneiras: sim, abstenção ou veto. Isto é, um membro permanente do Conselho de Segurança não pode votar "não" sem estar vetando. E, no fundo, com isso talvez estejamos tirando uma possibilidade de, em algumas situações, por uma questão de princípio ou por uma questão de precedente, um país queira votar "não", mas, ao mesmo tempo, não quisesse vetar. Então um pequena reforma, que não exigiria, a rigor, nem uma reforma da Carta, mas uma certa interpretação, poderia permitir que o país, no caso em que achasse que algum princípio que defende estaria sendo violado (mas que não chegasse a ser uma ameaça à paz), pudesse votar "não", mas não vetar. Vetar exigiria um ato adicional, um ônus adicional: justificar por que, naquele caso, estaria vetando. Parece complicado, mas não é. É muito simples. Na verdade, já se fez isso quando se estendeu a interpretação, porque a Carta da ONU não prevê abstenção. Na realidade houve uma interpretação da Carta da ONU, que diz que as decisões do Conselho de Segurança necessitam da concordância dos cinco membros permanentes. Mas se interpretou que abstenção não era veto. Então se poderia também interpretar que o "não", mais suave, também poderia não ser veto. Isso seria, quem sabe, a minha idéia, apenas como um passo.

Mas há também o problema da composição. Todos nós sabemos que a composição [...do Conselho de Segurança...] da ONU hoje não responde às necessidades do mundo. A África não está representada entre os membros permanentes, a América Latina não está representada entre os membros permanentes, os países em desenvolvimento da Ásia, com exceção da China, que é um caso de país em desenvolvimento um pouco especial, também não estão representados entre os membros permanentes. Há países hoje em dia muito poderosos, muito influentes, embora façam parte do mundo desenvolvido, que também poderiam estar presentes como membros permanentes.

Eu não vou discorrer a vocês sobre a proposta do G-4, que o Brasil ajudou a formular e à qual adere, porque ela é conhecida. Mas eu queria fazer duas ou três reflexões sobre o assunto. Uma porque comumente eu ouço, até mesmo aqui na América do Sul ou na América Latina, o raciocínio segundo o qual se poderia aceitar o Brasil como membro permanente se ele fosse representar não o Brasil, mas a América Latina e a América do Sul. Isso é quase axiomático. O Brasil não tem nenhum interesse em estar a defender apenas seu interesse nacional. Não creio que tenha havido um voto negativo do Brasil no Conselho de Segurança, ou mesmo uma abstenção, que não tenha estado ligado a uma visão mais global do mundo. Evidentemente, se algum dia nós viéssemos a ocupar um assento permanente, teríamos de fazer isso em consulta com a região, e teríamos de ter uma visão compartilhada com o conjunto da nossa região. Digo mais, até porque o Brasil não se sente suficientemente forte sozinho. A força do Brasil vem em grande parte da integração da América do Sul, da América Latina. Isso é verdade na ONU, na OMC, é verdade em vários foros internacionais.

As Nações Unidas como elas são hoje se chamam "Nações Unidas", não se chamam "Regiões Unidas". É possível até que mude, e daqui a dez, quinze, vinte anos, se por acaso a União Européia aceitar também que ela tenha um representante único para todo o agrupamento e se nós aqui na região tivermos avançado no nosso processo de transformar nossa Comunidade Sul-americana - quem sabe uma Comunidade Latino-americana, mas para começar Comunidade Sul-americana -, com opiniões de política externa como a União Européia tenta ainda com dificuldades ter - porque não é fácil, a guerra do Iraque é um exemplo -, quem sabe nós poderíamos ter um assento também da região. Mas isso seria uma outra Nações Unidas, uma outra configuração internacional. Eu não vou falar da União Africana porque não quero me envolver em situações de outros continentes, mas falando aqui da América Latina é a maneira como vejo, e o Brasil não vê isso de maneira egoísta, como forma de se sobrepor a outros países na região. Também não se acha melhor do que ninguém.

O fato é que não ter membro permanente no Conselho de Segurança enfraquece a região como um todo. Essa é a realidade, porque informação é poder e se você está lá por dois anos, você leva seis meses para aprender o que está se passando, durante um ano, mais ou menos, você sabe o que está ocorrendo, e depois já está na hora de sair. Então se um país não está lá de maneira mais ou menos permanente, ainda que sem veto, que é outra pergunta que se faz, ele não detém os instrumentos de informação, ele não conhece sequer as pessoas no Secretariado, que tomam as decisões. Se acharem que não deve ser o Brasil, se acharem que deve ser outro, vote-se, eu não vejo nenhum problema nisso. O Brasil se apresentou, o Brasil tem sido freqüentemente mencionado, não só por ele próprio, o que não é vantagem, mas por outros. Mas também se se achar que há outro país que reuna maior apoio também se poderia caminhar para isso. Acho que o mesmo vale para a África, o mesmo vale para os países em desenvolvimento da Ásia. Agora o que não pode é ficar obstruindo isso eternamente. A ONU não resistirá, e ela já não resiste porque em alguns momentos como Embaixador junto às Nações Unidas assisti a situações em que países, por exemplo, da União Africana ou da Liga Árabe, não queriam aplicar certas sanções porque eles não sentiam que aquilo tinha legitimidade suficiente. Então é preciso pensar nisso.

Outro argumento que é usado freqüentemente contra essa reforma refere-se ao receio de não se criar outros privilégios, de não se criar outros membros eternos. Também não é necessário criar outros membros eternos. Aliás é um pouco como o poema de Vinícius de Moraes: "Que seja eterno enquanto dure". O membro permanente não é para estar lá para sempre. Quando a Carta das Nações Unidas foi escrita em 1945 as pessoas realmente pensavam que ser membro permanente significava ser membro para toda a eternidade. Mas acho perfeitamente viável que tenhamos uma solução transitória, por um certo período e depois vamos ver o que fazemos. O que não pode é deixar como está. Acho que essa é uma tarefa para o Secretário-Geral Ban Ki-moon e é uma tarefa para todos nós.

Eu queria terminar - como mencionei aqui o San Tiago Dantas - com uma pequena reflexão, sobretudo para meus colegas mais jovens, por que nós sempre nos sentimos, quando lidamos em um organismo internacional, divididos entre dois impulsos. Um impulso primeiro, que deve ser sempre fundamental, que é o impulso nacional. Todos nós aprendemos a amar a pátria. Aliás, não há como amar a humanidade sem amar a pátria, sem amar a sua própria coletividade, que está mais próxima. Amar a pátria na sua integridade, dos mais ricos aos mais pobres, dos mais favorecidos aos mais sofridos. Então esse amor à pátria é fundamental. Se você não consegue amar a pátria você não vai amar a humanidade. Mas fica dividido entre o sentimento nacional e o sentimento internacional. As vezes até acho que existe uma certa visão simplificada da atuação do Brasil: de se dizer que o Brasil é uma espécie de construtor de consensos, um "consensus builder", como se diz em inglês, que é válido desde que você esteja construindo consenso sem abrir mão das suas convicções. Acho que é isso que nos ajuda a ver que é perfeitamente possível conciliar a defesa do interesse nacional, interesse mais profundo, não aquele superficial, mas o interesse da pátria verdadeira, daquela que quer a paz, que quer o desenvolvimento, que não quer se sobrepor a ninguém, com o interesse da humanidade.

San Tiago Dantas comparava as formas de heroísmo: a forma clássica, a forma antiga de heroísmo, que era basicamente realizar grandes feitos, ter muita coragem, intimidar os inimigos e que à vezes chegava quase a se confundir com a truculência; com a forma de heroísmo do Dom Quixote, que é o heroísmo de dar-se às pessoas, e dar-se ao mundo, e dar-se a uma idéia. Acho que é esse heroísmo que nós diplomatas queremos procurar, sem nos esquecermos de nossos interesses, sem nos esquecermos do Brasil, porque não precisamos nos esquecer dele. Mas sem sermos truculentos, sem procurarmos sempre ameaçar, ou sempre provar que somos mais fortes - não precisamos provar que somos mais fortes, até porque em muitos aspectos é óbvio, e em outros aspectos não é óbvio e nós não seremos mesmo. Então não temos que trabalhar para o consenso para sermos "bonitinhos", para ganharmos a presidência de um Conselho ou para termos uma função em um determinado momento. Mas trabalhar pelo consenso dentro da convicção de que estamos trabalhando para um mundo melhor e mais justo, na OMC, na OIT, na UNESCO e nas Nações Unidas.

Então sobre essa consciência da humanidade eu vou ler uma frase. Desculpem-me, estou consciente da própria advertência que fazia San Tiago Dantas do risco que existe entre o sublime e o ridículo, mas vou fazer uma citação que achei bonita, do Dom Quixote se referindo à Dulcinéia, mas no caso vou me referir à humanidade. Diz ele assim: "Ella pelea en mí y vence en mí, y yo vivo y respiro en ella y tengo vida y ser".

Muito obrigado.

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