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A Cúpula América do Sul-África (ASA) representa o encontro de dois compromissos centrais da política externa do Brasil. Por um lado, o compromisso com a integração sul-americana. Por outro, com o aprofundamento das relações com o continente africano, que vemos como nossa vizinhança e ao qual somos ligados por profundos laços históricos, culturais e de sangue.

Do encontro desses dois movimentos e do diálogo com nossos parceiros sul-americanos e africanos nasceu o projeto inovador da Cúpula ASA, que se inspirou no sucesso de outro mecanismo semelhante, o da Cúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA), que reuniu-se no ano passado em Lima, sobre a hábil presidencia do Peru.

A III Cúpula ASA é um momento de reafirmação do compromisso político com a busca de novas modalidades de aproximação entre nossos dois continentes.

Num mundo em que as relações de poder entre o mundo desenvolvido e em desenvolvimento vem sofrendo transformações importantes, América do Sul e África despontam como regiões de renovado dinamismo e perspectivas promissoras de desenvolvimento.

A soma, entre os dois continentes, de um território de 48 mil km2, com todo tipo de recursos naturais e notável biodiversidade, e de uma população jovem, inovadora e sedenta por desenvolvimento de 1,4 bilhão de pessoas é uma força que desempenhará cada vez mais a nosso favor. As economias de nossas regiões, que somam um PIB conjunto de mais de US$ 6 trilhões, crescem a taxas superiores à média mundial, com crescente e consistente processo de inclusão social. Somos zonas livres de armas de destruição de massa, constituída por países comprometidos com o direito internacional e o multilateralismo.
Hoje, abre-se espaço para que a voz da América do Sul e da África, como países em desenvolvimento, seja cada vez mais ouvida. É fundamental aproveitar o momento promover a discussão da necessidade de maior participação de nossos países nos foros da governança global.
 Campo político - O Conselho de Segurança da ONU reflete uma ordem internacional que não existe mais. O CSNU não tem membros africanos ou sul-americanos no seu núcleo decisório de membros permanentes. Sua ampliação, com novos assentos permanentes e não permanentes para países em desenvolvimento, é essencial para torná-lo mais legítimo e representativo.Afinal de contas, juntos América do Sul e África representam 66 países membros das Nações Unidas.
 Campo econômico - É fundamental avançar a reforma do FMI acordada em 2010, de forma que os países em desenvolvimento, incluindo os de menor desenvolvimento relativo, tenham maior participação na instituição. Na OMC, devemos aproveitar a oportunidade para eleger um novo Diretor-Geral proveniente de um país em desenvolvimento, preferencialmente da América do Sul ou da África. O candidato brasileiro, o Embaixador Roberto Azevedo, está presente nesta reunião.

Na América do Sul e na África, persistem desafios que são comuns. A erradicação da pobreza, a garantia da segurança pública, a promoção da competitividade econômica e a distribuição mais equitativa da renda proveniente de nossos recursos naturais são apenas alguns dos desafios que compartilhamos.

Em especial, nos preocupam muito situações de crise no continente africano. Guiné-Bissau: enfatizamos a necessidade de que os principais atores internacionais cooperem para garantir uma ação coordenada no encaminhamento da crise que o país atravessa. Mali: esperamos que o tratamento da crise se faça na moldura e com monitoramento do CSNU, e com protagismo do próprio continente africano

Cada um de nossos países busca dar resposta individual a desafios do desenvolvimento. Mas também é possível buscar respostas coletivas, ou ao menos encontrar na experiência do outro inspiração para superar entraves ao próprio desenvolvimento.

O Brasil tem algo a oferecer e quer contribuir com o desenvolvimento sustentável da África. A cooperação técnica brasileira, pautada pela solidariedade e pela ausência de condicionalidades, direciona metade de seu orçamento à África e beneficia hoje 40 países do continente em áreas como segurança alimentar, agricultura, educação, políticas sociais, patrimônio histórico e administração pública.

Como Governo, temos limitações financeiras, razão pela qual nos interessa explorar fontes de financiamento novas. Desenvolvemos projetos de cooperação em arranjos trilaterais, com o financiamento de terceiros países (temos longa história de parceria com o Japão por exemplo), e, crescentemente, buscamos envolver o setor privado em projetos com vertente econômico-comercial que se mostram viáveis (Por exemplo o projeto de cotonicultura no Sudão).

É nesse marco que acreditamos e somos um permanente proponente da cooperação Sul-Sul. Não a vemos como um contrapeso ideológico à cooperação tradicional, norte e sul, mas sim, em sua versão moderna, como a procura de modalidades de desenvolvimento que articulem, em benefício mútuo, uma rede de interesses e sinergias entre Estados, empresas e sociedades que ainda não foi inteiramente explorada.

O projeto de aproximação birregional da ASA requer liderança governamental, mas, para que tenha efeitos estratégicos de longo prazo, deve também envolver o empresariado e a sociedade civil.

Há ainda entre nossas regiões um sério déficit de conhecimento mútuo, conectividade e comunicação física. Podemos comemorar, por outro lado, o fato de que de que o intercâmbio comercial entre as duas regiões multiplicou-se por cinco entre 2002 e 2011. Se examinarmos o comércio entre Brasil e África, ele passou de US$ 5 bilhões, em 2002, para US$ 26,5 bilhões, em 2012. Mas é essencial continuar a construir pontes --por meio de linhas marítimas e aéreas, cabos de fibras óticas, turismo e encontros culturais-- para que haja uma genuína aproximação entre nossas sociedades.

Senhoras e Senhores, na qualidade de Coordenador Nacional da América do Sul, vejo que, desde a Reunião de Chanceleres que ocorreu neste cidade, em novembro de 2011, e da qual eu tive a honra qde participar, começamos a trilhar um caminho promissor no sentido dessa nova cooperação Sul-Sul que buscamos.

Considero muito positivo, que, no último ano e meio, a ASA tenha-se centrado, em grande parte, nas atividades dos Grupos de Trabalho.

Estou convencido de que devemos investir nosso tempo e esforços na elaboração de bons projetos, que possam ser executados por estruturas de cooperação já existentes. Para bons projetos, não faltarão recursos. Parece-me um caminho muito mais promissor do que a da criação de novas e complexas estruturas.

Como Coordenador, o Brasil:
 sediou três Reuniões de Altos Funcionários Sul-Americanos;
 reativou o Comitê de Coordenação de Embaixadores;
 organizou reuniões dos dois GTs que co-preside (Ciência, Tecnologia e Inovação; e Infraestrutura, Energia e Transporte).

Devemos celebrar o fato de que, após esta sessão de abertura, se reunirão três mesas redondas empresariais, sobre "infraestrutura, energia e transportes" (organizada pelo Brasil), "oportunidades de comércio e investimentos" e "agricultura e inovação".

Em paralelo à Cúpula, estão acontecendo também importantes eventos culturais, alguns dos quais organizados pelo Brasil. Nós, sul-americanos, procuramos trazer um pouco da cultura de nosso continente para Malabo e descobrimos que quando nos associamos no plano cultural a verdade é que falamos a mesma língua.

Penso que, na linha dessa nova Cooperação Sul-Sul, poderíamos explorar a idéia de organizar um Fórum da Sociedade Civil à margem de futuras reuniões.

O engajamento do Brasil com a África é uma política de longo prazo. Temos relações diplomáticas com todos os países de continente africano, mantemos 37 Embaixadas residentes, na verdade somos o 5o país não africano com maior número de embaixadas na região. Esse movimento vem sendo reciprocado pelos países africanos, que têm hoje 34 Embaixadas em Brasília. E elas tem continuado a aumentar ano a ano, em uma proporção continua.

Nossas relações diplomáticas se desenvolvem em diversos planos:
 no bilateral;com cada membro da União Africana, cada nação africana aqui representada.
 no das relações entre mecanismos subregionais, como, por exemplo, no Acordo de Comércio Preferencial entre o Mercosul e a SACU;
 no plano birregional da ASA; entre América do Sul e África
 no multilateral reduzido, como é o caso da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP); que também incluem países de outros continentes
 e no multilateral ampliado das Nações Unidas e da Organização Mundial do Comércio, entre outras.

Importantes empresas brasileiras, sobretudo nos setores de infraestrutura e mineração, estão presentes no continente e, ao poucos, empresas médias começam a despertar para as grandes oportunidades por aqui existentes.

A sociedade brasileira, que se reconhece cada vez mais como afro-descendente, está começando a resconstruir, em termos novos, a ligação ancestral com este verdadeiro "Velho Continente".

Senhoras e Senhores, como disse o antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, um dos mais importantes intelectuais brasileiros, "a África civilizou o Brasil".

A verdade é que a África civilizou boa parte da América do Sul, o que faz deste um encontro entre irmãos.
No passado, o Atlântico Sul foi marcado por séculos de violações sistemáticas dos direitos humanos em que milhões de africanos migraram para o nosso continente como escravos.

Hoje, em contraste, com aquele passado atentatório à dignidade humana, trabalhamos juntos para a construção, em nossas regiões, de sociedades que conjuguem paz, desenvolvimento sustentável e justiça social, em benefício de uma ordem internacional mais democrática.

Desejo êxito aos nossos trabalhos.

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