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É com satisfação que recebo o Chanceler Alfredo Moreno e demais autoridades para inaugurar o seminário `Brasil-Chile: novos horizontes - amizade sem limites`, idealizado por ocasião da última visita do Chanceler Moreno a Brasília, em abril passado.

Agradeço o público presente e os conferencistas que atenderam ao convite para refletirmos sobre o futuro das relações bilaterais. Esperamos, com este exercício - que reúne governo, academia, cientistas e empresários de ambos os países -, aprofundar ainda mais a parceria que temos com o Chile.

É atribuída ao Barão do Rio Branco, como se sabe, a expressão `amizade sem limites`, frequentemente citada para apresentar as relações entre Brasil e Chile. Espirituoso trocadilho, que se refere por um lado à ausência de fronteira entre os países e, por outro, ao alto nível de entendimento das relações diplomáticas, desde seu estabelecimento em 1836.

O Chile mantém uma economia estável, com elevado crescimento econômico e desenvolvimento social. A economia chilena apresentou altas taxas de crescimento econômico, ao longo das últimas décadas, próxima dos 5% anuais em média.

Registra um dos mais baixos índices de desemprego da América do Sul, 6,6%; uma das mais baixas taxas de analfabetismo da América do Sul, 3,5%; conta com um dos menores índices de pobreza extrema, 2,8%; a mais alta renda per capita da América do Sul; e apresenta o mais alto índice de desenvolvimento humano (IDH) da América Latina e Caribe, 0,805.

O Chile mantém uma presença regional e internacional diversificada. Notabiliza-se pela abertura comercial. Conta com 23 acordos de livre-comércio, com 60 países e tarifa externa média de 1%. As exportações representam mais de um terço do PIB. É terceiro país da América do Sul com maior grau de abertura comercial.

A exemplo do Brasil e dos demais países da região, o Chile foi impactado pela crise financeira. Apesar da redução conjuntural do crescimento, procurou manter os níveis de emprego, fortaleceu a demanda, assegurou o crédito e a liquidez, e continuou a promover o desenvolvimento social. Não obstante a queda recente de suas exportações, continua demonstrando capacidade de fortalecer sua presença internacional, sem negligenciar os desafios, que acompanhamos com interesse, como as limitações em matéria energética e a concentração da pauta exportadora em bens primários.

Na esfera bilateral, ressaltam os expressivos resultados do intercâmbio comercial e dos investimentos, que serão objeto de um dos painéis deste seminário. Em 2011, o Chile foi o segundo principal parceiro comercial do Brasil na América Latina e a principal origem de investimentos sul-americanos. O Brasil recebeu US$12 bilhões de investimentos chilenos nos setores de geração e transmissão de energia; industrial e de serviços. Temos o segundo maior estoque de investimentos externos do Chile no mundo. Ainda assim, há espaço para avançarmos.

É emblemática a fusão das companhias aéreas LAN e TAM para dar origem à maior empresa de aviação civil da América Latina. O exemplo da LATAM é positivo na medida em que pode contribuir para aprimorar a conexão aérea em nosso continente. Ainda hoje não temos vôos diretos entre Santiago e Brasília.

Em 2011, o número de turistas brasileiros que visitaram o Chile cresceu em 52%. A interconexão aérea regional é indispensável para o incremento dos fluxos de turistas. Brasil e Chile possuem destinos turísticos conhecidos e de grande diversidade. Da Ilha de Páscoa à Floresta Amazônica, do Rio de Janeiro a Portillo, a natureza e a riqueza cultural de ambos os países se complementam. Um de meus projetos pessoais é visitar o Parque `Torres del Paine`, conhecido por suas trilhas excepcionalmente belas.

De importância estratégica é a interligação terrestre entre o Atlântico e o Pacífico, que faz de Brasil e Chile sócios indispensáveis para o projeto da interconexão física sul-americana. Trabalharemos para concluir os projetos que unirão nossos países, com o apoio do Conselho de Infraestrutura e Planejamento da UNASUL (COSIPLAN).

Enfrentamos o desafio comum de expandir e renovar as nossas matrizes energéticas. A superação das deficiências em infraestrutura do continente requer avanços na integração regional. A experiência brasileira em planejamento energético e aproveitamento do potencial hidrelétrico poderia contribuir para a manutenção de taxas elevadas de crescimento econômico do Chile.

Nossos Governos atribuem prioridade à inclusão social. Ao longo da última década, os programas sociais do Governo brasileiro tornaram-se referências mundiais. O Governo do Presidente Piñera, por sua vez, anunciou a meta de tornar o Chile, até 2020, um país desenvolvido, erradicando a pobreza. Seguramente poderemos intercambiar experiências e tecnologias na matéria.

O caminho rumo ao desenvolvimento econômico com inclusão social e distribuição de renda não é possível, como sabemos, sem investimentos em educação. Trabalhadores qualificados aumentam a produtividade e a competitividade de nossas economias.

Embora ainda haja desafios importantes a superar, Brasil e Chile são referências regionais em ensino superior. Segundo ranking recente, das quatro melhores universidades da América Latina, duas são brasileiras e duas chilenas.

No Brasil, examina-se o novo Plano Nacional de Educação, com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino público, sobretudo de nível fundamental e médio. No Chile, estamos cientes dos esforços do Governo do Presidente Piñera em destinar novos recursos para a educação, mediante reforma tributária recentemente aprovada.

Já estabelecemos parcerias em áreas como biocombustíveis de segunda geração e TV digital. Devemos avançar em outras mais, em que contamos com vantagens comparativas. Destaco o interesse brasileiro em aprender com a bem-sucedida experiência chilena em aqüicultura, exemplo de conquista tecnológica que viabilizou expansão econômica, gerando emprego e renda.

Na Antártica, Brasil e Chile têm outro vasto campo de cooperação em pesquisa científica. O episódio do incêndio na Estação Comandante Ferraz, em fevereiro último, teria sido muito mais grave se não fosse a solidariedade do Chile. Ao iniciarmos neste mês de outubro a remoção dos destroços, para começar no próximo ano a reconstrução da estação, reitero a gratidão do Brasil e a minha pessoal pela generosidade das autoridades e dos peritos chilenos. A assinatura de um Acordo de Cooperação Antártica entre nossos Governos permitirá aprofundar nossa parceria também nessa esfera.

Em seminário voltado para explorar `novos horizontes`, não poderia deixar de mencionar a bem sucedida relação entre o Chile e o `European Southern Observatory` (ESO), que conta com participação de pesquisadores brasileiros e será responsável pela construção do maior telescópio do mundo, o `European Extremely Large Telescope` (E-ELT). No âmbito do ESO, há estruturas astronômicas em construção na América do Sul, como o `Atacama Large Millimiter Array` (ALMA). Faço referência especial ao Observatório ALMA, que deverá ser inaugurado em março de 2013, no deserto do Atacama, e multiplicar as possibilidades de cooperação.

Nossa excelente relação se reflete também no comprometimento, que compartilhamos, com o aprofundamento da integração regional. O Chile foi o primeiro Estado Associado ao MERCOSUL, em 1996. Contribuiu de maneira decisiva para o processo de integração da UNASUL, cuja Presidência Pro Tempore (PPT) ocupou em momento crucial, como foi a crise na Bolívia, em 2008. Destaca-se, hoje, na PPT da CELAC, em coordenação com Venezuela e Cuba na troika. É sede da CEPAL, entidade com contribuições relevantes para o debate sobre o desenvolvimento da América Latina e do Caribe.

A América do Sul é uma região privilegiada. Não há, hoje, no mundo, outra que conte a um só tempo com um marco de democracia e paz; estabilidade macroeconômica e crescimento sustentado com inclusão e justiça social; e ausência de armas de destruição em massa. Somos um celeiro do mundo em alimentos e temos importantes reservas de energia. Contamos com uma estrutura industrial diversificada. Compartilhamos laços históricos e culturais. Somos responsáveis por esse patrimônio comum e reconhecemos o seu valor.

Com os membros da UNASUL, nos articulamos mediante processos inovadores com outras regiões do mundo em desenvolvimento. Neste marco, inserem-se as iniciativas América do Sul-Países Árabes (ASPA) e América do Sul-África (ASA). A Cúpula com os países árabes, em Lima, no início deste mês, constituiu oportunidade valiosa para refletirmos sobre as profundas transformações pelas quais tem passado o mundo árabe. Somos países que se abrem para o mundo, conciliando uma forte âncora regional com uma vocação universal.

Em seguimento ao intercâmbio de experiências diplomáticas, por meio de encontros entre nossos Secretários de Planejamento Diplomático, nossas academias diplomáticas planejam realizar seminários sobre as relações com a África e a Ásia.

O Brasil pode aprender com a atuação do Chile junto a países da Ásia-Pacífico. O Chile pode se beneficiar da expressiva presença do Brasil na África. Os futuros corredores bioceânicos devem facilitar o acesso de nossos produtos a ambos os continentes.

Como se sabe, o Brasil tem intensificado sua atuação diplomática na África - segundo continente mais populoso e que detém sete das dez economias com maior crescimento do PIB até 2015. Contamos hoje com uma extensa rede de Embaixadas na África, e Brasília abriga o maior número de Embaixadas africanas na América Latina.

Por outro lado, as mudanças econômicas e o peso demográfico estão transformando a Ásia em um pólo dinâmico da economia global. Hoje, a Ásia concentra quase dois terços da população e metade do PIB mundial. O PIB da China deverá superar o dos EUA até o fim desta década.

A China já é o principal parceiro comercial tanto do Brasil como do Chile. O Chile tem buscado materializar sua vocação para o Pacífico, credenciando-se como ponte entre as sociedades e os mercados sul-americanos e asiáticos, seja por meio de sua extensa rede de acordos de comércio com países asiáticos, seja mediante participação ativa em foros multilaterais, como a APEC e a ASEAN.

O Brasil também tem fortalecido seus laços com a Ásia. Construímos parcerias estratégicas com a China, Índia e Indonésia, e aprofundamos o relacionamento com outros países dinâmicos da região, como Japão e Coreia. Concluiremos em breve a adesão ao Tratado de Amizade e Cooperação com a ASEAN, abrindo caminho para elevar o relacionamento ao nível de Parceiro de Diálogo da Associação.

Na realidade, Chile e Brasil desempenham uma mesma atuação externa no que se refere à intensificação de seus laços de cooperação econômica e comercial e de diálogo político, tanto com os pólos de poder estabelecidos, como com os emergentes, em um cenário internacional crescentemente multipolar.

Ambos mantemos relações multifacetadas com os EUA e a União Europeia. Recordo que se realizará em Santigo, em janeiro próximo, a Cúpula CELAC-União Europeia, que terá também uma vertente empresarial. O Brasil tem parceria estratégica com a União Europeia e pretende avançar, em conjunto com os demais sócios do MERCOSUL, na negociação de acordo de livre comércio birregional.

No cenário global, compartilhamos valores e circunstâncias comuns. Defendemos uma ordem internacional mais justa e inclusiva, norteada pela defesa da democracia, do desenvolvimento sustentável e da cooperação. O fato de chilenos ocuparem cargos como a diretoria executiva da ONU Mulher e de representante especial do Secretário-Geral da ONU para o Haiti, reflete o engajamento do Chile com o fortalecimento do sistema ONU, compromisso que o Brasil compartilha.

Com esse panorama da amizade entre Brasil e Chile, em seus mais diversos aspectos, fica claro que a complementaridade deve ser a força motriz da relação bilateral. Da confluência entre nossas similitudes e diferenças originam-se inesgotáveis oportunidades de cooperação.

Há cerca de 100 anos, o Barão do Rio Branco observou que o Brasil mantinha com o Chile, em suas próprias palavras, `relações de mais íntima amizade e confiança recíproca`. Rio Branco viu na afinidade entre chilenos e brasileiros a base de uma construção diplomática que apoiaria a paz na América do Sul, projetando uma `influência benéfica dentro e fora de suas fronteiras`. Essas idéias motivariam a assinatura do Pacto ABC, entre Brasil, Chile e Argentina, em 1915.

Hoje vivemos, é claro, em contexto regional e mundial muito distinto. Avançamos em ritmo acelerado na integração do continente. A percepção de Rio Branco, no entanto, da importância do entendimento entre Brasil e Chile para a América do Sul, persiste e se reforça. Estou certo de que seguiremos construindo com os irmãos do Chile essa história de paz e progresso, com impacto benéfico para a região e para além dela.

Desejo um bom dia a todos e um excelente seminário.

Muito obrigado.

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