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Quero estender minhas boas-vindas a todos os colegas e amigos que se associam a nós para recordar o legado do Barão do Rio Branco.

É uma honra contar com a presença de familiares de Rio Branco, assim como de ex-Chanceleres, ex-Secretários-Gerais do Itamaraty e ex-Diretores do Instituto Rio Branco.

Também muito estimulante é ver, na platéia, tantos jovens diplomatas. Vocês, que são o futuro da instituição a que por vezes nos referimos como a “Casa de Rio Branco”, constituem parte essencial das celebrações do centenário de José Maria da Silva Paranhos Júnior, às quais tenho o prazer de dar início hoje.

Cumprimento o Embaixador Manoel Gomes Pereira, que, sob a orientação do Senhor Secretário-Geral, Embaixador Ruy Nogueira, vem coordenando, com dedicação e profissionalismo, os esforços de organização dessas celebrações – esforços coletivos, que envolvem vários órgãos do Executivo, representantes do Legislativo e entidades como a Academia Brasileira de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Agradeço a todos o empenho.

Há cem anos falecia, em seu gabinete de trabalho no Itamaraty do Rio de Janeiro, o Barão do Rio Branco. Uma morte que, como é freqüentemente lembrado, adiou o carnaval carioca – o que, como nós brasileiros sabemos avaliar, dá bem a medida do reconhecimento e do prestígio que Rio Branco logrou obter em vida.

Passado um século, o Brasil e o mundo atravessaram – e seguem atravessando – transformações profundas.

Depois de períodos de regimes autoritários, de descontrole macroeconômico e de agravamento de iniqüidades sociais, somos hoje – apesar dos desafios que persistem em diferentes campos – uma democracia madura, uma economia estável e uma sociedade cada vez mais inclusiva.

Após duas Guerras Mundiais e um longo período de bipolaridade, vivemos, neste início de século XXI, um sistema internacional de intensa efervescência geopolítica. Em meio a Primaveras Árabes e a dificuldades econômicas de impacto global, ganha força um processo de desconcentração de poder que aponta para alguma forma de multipolaridade.

Um turbilhão de acontecimentos nos separa, portanto, do momento em que Rio Branco foi Chanceler. (Em 1912, só para que tenhamos uma idéia, eram pouco mais de 50 os Estados independentes.)

E, no entanto, a obra e o exemplo do Barão permanecem como referência necessária para o Itamaraty e para o Brasil.

É essa atualidade que nos reúne hoje.

Não pretendo estender-me sobre as várias facetas de Paranhos Júnior. Muito já se disse sobre o diplomata, o estudioso da História e da Geografia do Brasil, o jornalista, o deputado. A figura do Barão será abordada, hoje, pelo Embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, com sua conhecida erudição. Faço apenas breves comentários.

O tempo não apaga o significado decisivo da configuração pacífica de nossas fronteiras. Nem a capacidade de compreender as redefinições em curso no cenário mundial e a elas reagir de forma eficaz.

O tempo não apaga o alcance estratégico da ação diplomática de Rio Branco, que, superadas as pendências fronteiriças, esboçou as bases para uma agenda de cooperação sul-americana e, em escala mais ampla, para uma atuação voltada à conquista de espaços de crescente autonomia para o Brasil.

Em outro plano, tampouco passa despercebido, aos biógrafos, o Barão boêmio. Ou, por que não dizê-lo, o Barão que revelava valores e mesmo preconceitos típicos do século XIX, no qual cresceu e se formou.

Aspecto de especial significado, na trajetória de Rio Branco, é sua índole de estadista capaz de colocar-se além de interesses setoriais e localizados.

Seu compromisso era com o Brasil.

Monarquista, Rio Branco foi Chanceler da República. Na República, esteve à frente do Itamaraty durante os mandatos de quatro Presidentes consecutivos.

Alguns observadores poderiam identificar, aí, uma aptidão incomum para ajustar-se às cambiantes circunstâncias políticas. Mas a própria biografia de Rio Branco permite uma interpretação distinta.

A força política do Barão parece tributária, acima de tudo, de uma dedicação inabalável ao Brasil.

A atenção aos detalhes que o caracterizou no trato das questões diplomáticas, em particular as de limites; a coragem de, em busca de entendimentos equilibrados, propor concessões justas; a preocupação em influenciar a opinião pública, por meio da imprensa, em favor do que considerava serem os melhores interesses do País – tudo isso reflete enormes qualidades intelectuais e rara capacidade de ação na defesa do Brasil, na promoção dos seus direitos e na construção de um entorno de cooperação; tudo isso revela um estadista na mais pura acepção da palavra.

Assim, é também o Rio Branco homem de Estado que proponho celebrarmos neste centenário.

O Rio Branco que, em discurso às vésperas da posse no Itamaraty, afirmou:

“Não venho servir a um partido político; venho servir ao nosso Brasil, que todos desejamos ver unido, íntegro, forte e respeitado.”

Senhoras e Senhores,

Rio Branco está também associado ao Instituto que leva seu nome e, por extensão, ao recrutamento de novos diplomatas e à formação do quadro de profissionais do Itamaraty ao longo de suas carreiras.

Foi o responsável pela introdução, em seu momento, de novos padrões de profissionalismo em nossa Chancelaria, preparando-a para os desafios das primeiras décadas do século XX.

Permito-me, assim, concluir com o pensamento voltado para a importância que continuamos a atribuir à capacitação profissional e ao aperfeiçoamento de nossa instituição pela via da meritocracia.

Para um país com 226 Postos no exterior – entre os quais 138 Embaixadas – e relações diplomáticas com 193 Estados, o dimensionamento de nossos recursos humanos e seu preparo para responder aos desafios contemporâneos têm de ser necessariamente distintos daqueles de 1912.

Mas em certo sentido podemos nos situar no mesmo espírito que inspirou Rio Branco: precisamos ser cada vez mais sul-americanos e cada vez mais sintonizados com o momento vivido pelo conjunto da comunidade das nações. Como às vezes afirmo, mais ancorados em nossa região e, ao mesmo tempo, mais multipolares. Com tudo o que isso implica em termos de conhecimento das realidades econômicas, políticas e culturais de nossa vizinhança e de um cenário global em aceleradas transformações.

Conversei recentemente com o Diretor do Instituto Rio Branco, Embaixador Georges Lamazière, sobre como refletir no programa de nossa Academia Diplomática esse duplo objetivo. Trata-se de tarefa que, adaptada às circunstâncias de um Brasil mais próspero, justo e democrático, não deixa de inscrever-se em uma tradição passível de ser ligada ao trabalho e à visão de mundo do Barão.

Caros amigos,

Rio Branco conhecia como poucos o entorno sul-americano e a ele dedicou-se largamente, sem nunca deixar de abrir-se ao mundo.

Agiu sempre com pragmatismo, ajustando o instrumento de ação à especificidade de cada situação com que se defrontava, não se limitando por conceitos rígidos ou por especulações infundadas.
É esse o Patrono a cuja memória novamente rendemos homenagem.

Cem anos após sua morte, o Brasil tem o direito de se orgulhar das conquistas alcançadas.
Temos pela frente, claro, importantes desafios, seja no plano doméstico, seja no internacional.

Mas avançamos a passos largos no projeto de integração regional em suas várias vertentes, que incluem o MERCOSUL, a UNASUL e a CELAC. Desenvolvemos intensas relações bilaterais com todos os países da região e mundo afora. Criamos novas instâncias de coordenação que nos permitem atuar e oferecer uma contribuição em todos os cenários mundiais. Temos uma mensagem a difundir sobre democracia, desenvolvimento sustentável, eqüidade, defesa dos direitos humanos, cooperação e paz.

Sob a liderança da Presidenta Dilma Rousseff, podemos estar certos de que o pragmatismo, o profissionalismo e o apego aos interesses nacionais que orientaram Rio Branco e até hoje nos unem seguirão possibilitando conquistas de novos espaços com coerência, criatividade e – como diz a Presidenta da República em sua mensagem alusiva ao centenário do Barão – com crescente confiança.

Muito obrigado.

 

 

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